por Cristiano Silva

(gentilmente concedido)

Movido pelo meu interesse pessoal em estudar e investigar as relações entre Literatura e fé cristã, com a graça de Deus encontrei um livro cuja leitura está me fazendo um enorme bem, ajudando-me a compreender e apreciar melhor as obras literárias com uma visão crítica fundamentada tanto no bom senso quanto na cosmovisão cristã. O livro se chama Reading Between the Lines: A Christian Guide to Literature [1], escrito por Gene Edward Veith Jr. e que desde já recomendo muito; estou lendo uma edição formatada para o Kindle e utilizando a função de highlight de texto do aparelho o tempo todo, quase no livro inteiro. Infelizmente não há uma edição em língua portuguesa, mas garanto que o texto é escrito de forma simples e clara, sem dificuldades para aqueles que conseguem ler em inglês.

Ao comentar sobre obras de não-ficção, o autor toma como exemplo ninguém menos do que C. S. Lewis, discutindo o seu estilo e mostrando porque ele é um dos grandes apologistas cristãos do século passado. Reproduzo abaixo alguns trechos de sua análise, que podem servir de introdução e estímulo para aqueles que porventura ainda não conheçam a sua obra na área da discussão e defesa da fé cristã [2]:

C. S. Lewis é um bom modelo para autores cristãos contemporâneos. Ele é um apologista tão eficiente para a fé cristã precisamente porque ele é um ótimo escritor. Considere como ele escreve sobre Jesus Cristo:

“As coisas que ele diz são muito diferentes do que qualquer outro professor tenha dito. Os outros dizem, ‘Esta é a verdade à respeito do Universo. Este é o caminho que você deve seguir’, mas Ele diz, ‘Eu sou a Verdade, e o Caminho, e a Vida.’ Ele diz, ‘nenhuma pessoa pode alcançar a realidade absoluta a não ser através de Mim. Tente salvar a sua própria vida e você inevitavelmente se arruinará. Entregue-se e você se salvará.’ Ele diz, ‘se você tiver vergonha de Mim, se, ao ouvir este chamado você virar para o outro lado, Eu também irei fazê-lo quando retornar de forma evidente. Se algo mantém você longe de Deus e de Mim, qualquer coisa que o seja, lance-o fora. Se for o seu olho, arranque-o. Se for a sua mão, corte-a fora. Se você se colocar como o primeiro, será o último. Venham a Mim todos aqueles que tem uma carga pesada para carregar, e eu vou consertar isso. Seus pecados, todos eles, estão apagados, Eu posso fazer isso. Eu sou o Renascimento, Eu sou a Vida, alimentem-se de Mim, bebam de Mim, Eu sou seu Alimento. E finalmente, não tenham medo, eu sobrepujei o Universo inteiro.'” [3]

Aqui não há linguagem de Escola Dominical (com todo o respeito à Escola Dominical). Nós já ouvimos tanto sobre Jesus que às vezes esquecemos da magnitude de Suas afirmações. Lewis usa de categorias modernas (“realidade absoluta” e “Universo”), mas ele não atenua nada. Na verdade, o seu propósito é restaurar as declarações radicais e surpreendentes de Cristo, sem domesticação, de maneira que possamos experimentá-las como chocantes e convincentes, da mesma maneira que Seus primeiros ouvintes o fizeram. O ritmo da passagem vai aumentando e acelerando, culminando em uma sentença que se interrompe duas vezes para transmitir a urgência pessoal na voz de Cristo: “Todos os seus pecados, todos eles, estão apagados, Eu posso fazer isso”.

À seguir, o autor exemplifica o seu estilo através de uma das suas passagens mais famosas, e até mesmo chocantes, comentada e utilizada como já vi por outros escritores e/ou pastores reformados:

O estilo de Lewis é sempre lúcido, cativante e até mesmo divertido. Sua lógica é magistral (especialmente notável em uma era que geralmente minimiza a lógica). Ao mesmo tempo, ele pode despertar emoções poderosas. Ele sempre fundamenta suas ideias em exemplos vívidos, e mesmo na profundidade de um assunto sério, ele não tem medo de ser engraçado. Considere, por exemplo, a lógica, a paixão, e a perspicácia de suas palavras à respeito das afirmações de Cristo, algo que ajudou a muitos a se tornarem cristãos:

“Estou tentando impedir que alguém repita a rematada tolice dita por muitos a seu respeito: ‘Estou disposto a aceitar Jesus como um grande mestre moral, mas não aceito a sua afirmação de ser Deus.’ Essa é a única coisa que não devemos dizer. Um homem que fosse somente um homem e dissesse as coisas que Jesus disse não seria um grande mestre moral. Seria um lunático – no mesmo grau de alguém que pretendesse ser um ovo cozido – ou então o diabo em pessoa. Faça a sua escolha. Ou esse homem era, e é, o Filho de Deus, ou não passa de um louco ou coisa pior. Você pode querer calá-lo por ser um louco, pode cuspir nele e matá-lo como a um demônio; ou pode prosternar-se a seus pés e chamá-lo de Senhor e Deus. Mas que ninguém venha com paternal condescendência, dizer que ele não passava de um grande mestre humano. Ele não nos deixou essa opção, e não quis deixá-la.” [4]

Lewis equilibra as três possibilidades sobre a identidade de Cristo com as três possíveis respostas dadas pelos seres humanos, levando o leitor a um comprometimento: “você deve fazer uma escolha”. A lógica cuidadosamente construída não se permite em ser abstrata; ao contrário, a passagem é fundamentada em detalhes vívidos: se Ele é um demônio, cuspa Nele; se Ele é Deus, jogue-se aos Seus pés. A discussão toda, com todo o seu fervor e senso de urgência, é imbuída de humor. Ao descrever a loucura, ele poderia ter usado ilustrações óbvias, mas ao invés disso coloca um homem que pensa que é um ovo cozido. A passagem, com toda a sua verdade, é completamente artística.

O autor conclui, resumindo o estilo de Lewis da seguinte forma:

Na minha opinião, Lewis não convence as pessoas à fé, como se isso fosse possível. O que ele faz é simplesmente explicar o que o Cristianismo é. […] O que ele faz é apresentar a Palavra de uma forma que é maravilhosamente simples. Seu estilo elimina as confusões, preconceitos e pré-disposições dos leitores com respeito ao Cristianismo. […] Como Paulo fala: “[…] para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Co. 10:4-5). Os falsos pressupostos da filosofia humana e do orgulho precisam ser abatidos para preparar o caminho para Cristo. As palavras humanas podem ser um veículo para a Palavra de Deus.

Esta boa análise do escritor Gene Edward só reforça algo que recomendo sempre para irmãos em Cristo e outros amigos mais chegados, e que também procuro estimular em meu próprio blog: leiam C. S. Lewis. Leiam com critério, mesmo que às vezes discordando dele, o que pode ser bom uma vez que o padrão de referência último do cristão deve (ou deveria) ser a Bíblia, mas leiam. Apesar da lógica clara, é uma leitura que requer atenção, mas leiam. Garanto que é, no mínimo, uma experiência enriquecedora, mas muitas vezes, pelo menos para mim, e mesmo discordando dele em alguns pontos, representa mais do que isso: é uma verdadeira bênção.

[1] A tradução do título ficaria equivalente a Lendo Nas Entrelinhas: Um Guia Cristão de Literatura.

[2] Tradução não profissional minha.

[3] “What Are We to Make of Jesus Christ?”, God in the Dock, edição de 1970, pág. 160.

[4] Cristianismo Puro e Simples, edição de 2005 da Ed. Martins Fontes, págs. 69-70.