C. S. LEWIS: “AS LÁGRIMAS DO LEÃO”

Alan Pallister, 2006-01-04

Numa das Crónicas de Nárnia, “O Sobrinho do Mágico”, C.S. Lewis mostra o herói (Digory) a ser obrigado a escolher entre obedecer ao leão (Aslan) e conseguir a cura da sua mãe, que está à morte. Aslan é a figura que representa Jesus. Digory vê as patas enormes e as garras do leão e fica cheio de medo. Mas, por um momento, Digory fixa os olhos de Aslan. O leão inclina a cabeça para mais perto do rosto de Digory e este apanha a maior surpresa da sua vida. Nos olhos do Leão há lágrimas grandes a brilhar. Neste momento Digory percebe que quem sente a doença da sua mãe, ainda mais do que ele próprio, é Aslan.

Em 1908, quando ‘Jack Lewis’ tinha nove anos, a sua mãe faleceu de cancro, apesar de todas as suas orações a pedir a sua cura. E nessa altura sentiu que perdeu também o seu pai, que se retraiu na sua dor e nunca mais soube lidar com os seus dois filhos (Jack e Warnie).

Não aconteceu na vida de Jack aquilo que aconteceu a Digory: Deus não o conquistou no momento da grande dor que sofreu. Quinze dias depois da morte da sua mãe Jack deixou Belfast, onde nascera, sendo enviado a um internato em Inglaterra sob a responsabilidade de um ministro anglicano duro e autoritário. Passou, depois, por outro internato que tinha o sistema de ‘bloods’ e ‘tarts’: os rapazes mais velhos tinham pré-adolescentes como escravos e, muitas vezes, amantes.

Depois, sob a influência de um tutor ateísta e racionalista, perdeu a sua ‘fé infantil, herdada’. Ganhou uma bolsa de mérito para estudar em Oxford, mas no princípio foi impedido de entrar por ter que ir combater na Primeira Guerra Mundial. Viu o sofrimento atroz da guerra mas ele próprio foi dispensado, graças a uma ferida ‘conveniente’. Voltou a Oxford em 1919 para estudar Línguas Clássicas.

Aprendeu a dar valor à magia, por influência do poeta irlandês, W.B.Yeats, e abandonou o racionalismo. Disse que os filósofos chamados realistas, como Bertrand Russell, não admitiam que as suas afirmações absolutas sobre a realidade estavam baseadas no pensamento – que é um acontecimento subjectivo. Deus usou a literatura para o ‘cercar’, colocando no seu caminho autores como o grande poeta George Herbert, do século XVII, e o romancista escocês do século XIX, George MacDonald. Lewis disse depois: “Os agnósticos falam alegremente acerca do homem que procura Deus. Sobre mim, nessa altura, podiam muito bem ter falado do rato a procurar o gato”. Converteu-se ao teísmo e, depois, comparou-se com um Filho Pródigo trazido para a casa do pai, ressentido e aos pontapés.

Alguns amigos e, de maneira muito especial, J.R.R.Tolkien, católico e autor do “Senhor dos Anéis”, desafiaram-no a considerar a doutrina da encarnação de Cristo. No dia a seguir a uma conversa longa com eles, foi com o irmão ao parque zoológico, no carrito ao lado da motorizada dele. Jack conta a sua experiência assim:

“Quando partimos, não acreditava que Jesus Cristo é o Filho de Deus, e quando chegámos ao parque zoológico acreditava”.

Lewis foi um autor e conferencista polémico. Fez parte de uma elite intelectual em Oxford, mas distanciou-se da maior parte dos seus colegas que eram racionalistas ou agnósticos ou, no caso de fazerem parte da sua igreja (a anglicana), eram teologicamente liberais. Lewis foi um crítico extremamente vigoroso da teologia do alemão, Rudolf Bultmann. Este considerava como mito quase todo o material dos Evangelhos, a ressurreição de Cristo e o mundo sobrenatural de anjos e espíritos. Como este tipo de influência era tão forte na Igreja Anglicana, Lewis numa altura queixou-se da dureza do seu papel – de ser missionário aos sacerdotes da sua própria igreja. Achou que este papel era horrível, mas considerava que, se não fizesse este trabalho, a Igreja dentro de poucos anos iria deixar de existir.

Mesmo assim, Lewis não acreditava na inspiração verbal da Bíblia e, por esta razão, apesar de ser ortodoxo em praticamente todas as outras doutrinas, não era convidado como conferencista pelas ‘Christian Unions’ (GBUs) do seu tempo.

Escreveu obras apologéticas a nível intelectual e popular. Uma delas foi sobre o «Problema da Dor». O livro é sensível, bem argumentado e, intelectualmente, à altura dos seus colegas na universidade. As limitações que tem devem-se ao facto de o seu autor, na sua vida adulta, como académico e solteiro de meia idade, não ter grande experiência directa do sofrimento. Esta experiência viria mais tarde para a vida de Lewis, através de uma vivência pessoal que o “Leão com Lágrimas” iria trazer à sua vida.

Em 1956, casou pelo civil com uma jornalista americana, Joy Davidman, recém divorciada. Ela adoeceu com cancro alguns meses depois. Lewis pediu autorização ao bispo para se celebrar o casamento religioso, mas, como a Igreja Anglicana não admitia o casamento de divorciados, isto foi recusado. À revelia do bispo, um sacerdote anglicano amigo celebrou o casamento no quarto do hospital, em Março de 1957. Depois houve uns períodos de dor intensa, e outros de remissão. Em 1960, apesar da situação grave da Joy, conseguiram fazer uma viagem à Grécia, visitando muitos lugares de interesse histórico. Em Julho desse ano, Joy faleceu.

Depois desta experiência, Jack escreveu sobre a dor de uma forma diferente. Num livro, traduzido para português com o título “Dor”, põe em palavras todos os sentimentos em conflito, as contradições, as acusações contra Deus, que surgem naturalmente de uma experiência angustiante deste tipo. Levantou a questão se Deus não era um Sádico Cósmico, um viviseccionista louco que apanhava os homens como ratazanas no seu laboratório. Mas teve que concluir que não podia sustentar essa ideia. Mesmo assim acusou Deus de não responder – ou de adiar a resposta – às suas perguntas.

Um dos filhos de Joy (Douglas) descreve a realização gradual que Jack ganhou de que a sua dor estava a ser egoísta: estava a chorar, não porque a Joy tinha partido para outro lugar, mas porque ele já não a tinha com ele. De facto ela tinha sido liberta – mas, para Jack, a dor continuava. Mesmo assim, nas palavras do enteado, ele ‘superou a sua dor até ao ponto de conseguir funcionar novamente como ser humano e autor – mas nunca houve nenhum momento, no resto da sua vida, em que não estivesse consciente da sua perda’.

Três anos mais tarde, em 1963, Lewis, agora catedrático de Literatura Medieval em Magdalene College, Cambridge, faleceu após um ataque cardíaco. Tanto a nível de obras académicas na área da literatura, como na área da apologética (intelectual e popular), como na área da ficção (para crianças e ficção científica), foi a figura mais destacada do seu tempo. E o que sobressai para nós é o facto de ter sido um cristão convicto, que conhecia ‘Aslan’, o leão. É este facto que o aproxima de cada crente sincero – o facto de ter olhado para os olhos do leão, de ter questionado, e de ter visto tão claramente as lágrimas nos Seus olhos.

Alan Pallister

[Notícia n.º 2869, inserida em 2006-01-04]

Fonte:

www.portalevangelico.pt

2/2/2007 17:37:42

  1. E no sacramento VIVO de DEUS, JESUS CRISTO, temos as lágrimas que se fizeram carne… e em sua carne se nos fizeram filhos, aos que tão somente em meio as suas mais profundas feridas, crêem…

  2. Lewis capturou e expos numa imagem uma magia profunda, ou melhor, uma força tremenda: Jesus Cristo (Aslan) realmente, apesar de TODO seu poder, sente a dor de cada um de nós e isso, nos deixa felizes, pois, sabemos que ELE nos entende e, por fim, nos abençoa.

    • Sim, ele foi brilhante nesse lance de metaforizar a magia profunda do tempo (da queda e do pecado), contra a “magia ainda mais profunda de antes da aurora do tempo”. Quer algo menos maniqueísta ou mais realista em relação ao mal do que isso?

      Grande abraço

    • Oi Dom Ydernir,

      Obrigada por comentar no meu site. O mais interessante, eu considero, a brincadeira anti-maniqueista que Jack faz quando fala em duas magias. Uma é a da aurora dos tempos, que é a que está escrita na “stonetable” ou mesa de pedra. E outra é a quem transcende isso tudo, a magia da antes da aurora dos tempos, segundo a qual “até a morte” pode “andar para trás”. Isso para mim é a melhor metáfora que se poderia inventar sobre a questão do bem e do mal, que é trabalhada em praticamente todos os livros do Jack. No momento, estou escrevendo um artigo sobre O Grande Abismo (Vida), cuja tradução ficou bem melhor que a anterior. Ali ele faz um verdadeiro tratado “anti-maniqueu” que, a meu ver, só perde para o de Agostinho.

      Grande abraço

  3. Interessante saber que Lewis não acreditava na inspiração verbal das Escrituras, mas parece que isso não fez muita falta na vida dele, porque ele acreditou e viveu essa palavra adespeito desta descrença muito mais que tantos que defendem com grande veemencia a inspiração divina da Biblia, mas vive como se não acreditasse.

    • Ótimo o seu ponto, Rosa. Mas quem disse que ele não acreditava na “inspiração verbal”? Pelo contrário, ele acreditava até no “caráter verbal” que há em toda a criação. O que ele criticava apenas, e ele, como expert em crítica literária tinha todo o direito a isso (embora ele não fosse concordar comigo, tenho certeza, pois no fundo, não temos direito a coisa alguma) a interpretação por demais “literal” da Palavra.
      Mas vc está coberta de razão, ele vivia em conssonância com a Palavra, mais do que aqueles “bibliólotras” que jogavam pedras nele, pelas imagens “pagãs” que usou em algumas obras.

      Grande abraço

      Gabi

      Gabi

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