por Gabriele Greggersen

O emérito professor de filologia da universidade de Oxford viveu entre 1892 a 1973. Além de obras acadêmicas, foi autor de obras consagradas de ficção, tais como O Senhor dos Anéis (SenA), O Hobbit e Silmarillion, já traduzidas para o português, além de contos e poemas, ainda pouco conhecidos no Brasil.

Uma primeira curiosidade quanto ao nome da família “Tolkien” é a sua origem pouco usual. Ela procede da antiga Saxônia, região que já pertenceu ao Império Germânico. O nome provavelmente deriva da palavra alemã tollkühn, que quer dizer “arrojado”, “audacioso” ou “temerário”. Por coincidência ou não, as obras de Tolkien demonstram precisamente este traço característico.

Dizem ainda que o seu terceiro nome, Reuel, igualmente pouco comum, que foi herdado do seu avô, tem alguma origem hebraica. Ele aparece no Antigo Testamento como equivalente de Revel, aparentemente foi o mesmo nome do sogro de Moisés (Nr 10, 29), filho de Esaú (Gn 36,4) que significa “amigo de Deus”.
Sua terra natal também não é menos estranha. Apesar da tradição inglesa da família, Tolkien nasceu em 1892, na África do Sul, como filho primogênito de um bancário. Sua estada ali não durou muito e também não foi muito emocionante, exceto por um “pseudo sequestro” que sofreu da parte um empregado negro. Tudo se esclareceu como uma simples tentativa do mesmo de apresentar a sua família e casa a Tolkien. Outro episódio bastante bizarro, foi o seu encontro com uma enorme aranha, que viria a se tornar um personagem importante de SenA.

Após a morte prematura do pai e um período de afastamento dele, sua mãe decide retornar a Birmingham na Inglaterra, junto com ele e o seu irmão mais novo Hilary. A viúva passou então a assumir toda a educação dos filhos.

Desde pequeno, Tolkien tinha características e hábitos bastante peculiares como o de observar e atentar para todos os detalhes das paisagens e particularmente da topografia dos lugares. Ele jamais esquecia um cenário já visitado e certamente todos eles influenciaram a criação da geografia do seu mundo imaginário. Alguns atribuem seu interesse pela geografia e inspiração para a criação de certos territórios de Terra-Média à sua capacidade de captar diferentes paisagens e cenários, que são igualmente uma marca poderosa de toda sua obra.

Outra paixão que lhe foi desperta desde cedo, particularmente por sua mãe, foi o das línguas, especialmente as germânicas, o galês e o finlandês, que aparentemente formaram a base para o desenvolvimento das línguas de Terra Média. Esta tendência ficou ainda mais acentuada com o seu ingresso na escola de gramática St. Philip’s, onde costumava engajar-se bastante nas atividades culturais e organizar clubes de leitura. O mais importante foi o T.C.B.S: (Tea Club, Barrovian Society). [1] Ele manteve todas as amizades que fez ali até a fase adulta. Infelizmente, todos os seus amigos de lá, para sua grande tristeza e sofrimento, morreu na Primeira Guerra Mundial exceto um. Foi naquele clube que ele teve o seu primeiro contato com a filologia, que acabaria elegendo como sua área de especialização e carreira. Mas ele também cultivava um especial interesse pela leitura, particularmente, pelos romances e pela mitologia.

Tolkien costumava observar que as crianças frequentemente têm uma fase, usualmente depois de terem tido contato com a literatura, na qual começam a inventar línguas próprias. No seu caso, ele confessa que, desde então, nunca mais conseguiu parar com este tipo de “invenção”, que acabou se tornando a sua grande obsessão.

Infelizmente, a mãe de Tolkien não viria a presenciar o extraordinário desenvolvimento do filho, falecendo de forma precoce, aos 34 anos de idade, em decorrência de diabetes, que ainda não tinha tratamento na época.

Tolkien tinha certo ressentimento contra a Igreja da Inglaterra, pois suspeitava que a debilidade da saúde de sua mãe estivesse relacionada ao sofrimento que a sua família, de confissão protestante, passou a lhe infligir após a sua adesão ao catolicismo romano. Os pais acusavam a sua irmã, que havia aderido ao catolicismo antes dela, de ter influenciado a sua decisão. Como se sabe, infelizmente, a rivalidade entre católicos e protestantes é antiga na Inglaterra. Suas lembranças da devoção da sua mãe à igreja tiveram grande influência sobre a conversão de Tolkien e de seu irmão ao catolicismo em 1900.

Pouco antes de morrer, sua mãe confiou os filhos às boas mãos de um padre muito amigo, Francis Morgan. Ela lhe passou a incumbência de proporcionar a melhor educação possível a eles.

Os órfãos passaram então a morar em um lar de crianças, no qual vieram a conhecer e fazer amizade com outra órfã, Edith Bratt. Tolkien apaixonou-se imediatamente por ela. Mas o padre manifestou grande oposição ao namoro, proibindo Tolkien de sequer comunicar-se com ela. Depois de muita insistência, finalmente ele concordou com o namoro, desde que Tolkien não se encontrasse com ela, antes de formar-se no Exeter College, e se a pedisse posteriormente em casamento.

Depois de longos anos de paciente espera, Tolkien voltou a procurar Edith depois de concluído o seu curso. Acontece que àquelas alturas ela já estava noiva: Ela acabou desmanchando o noivado, quando viu o sentimento por ele reavivado. Decidiram então se casar no ano seguinte à colação de grau de Tolkien, oito anos após o primeiro encontro entre os dois. Entretanto o casal foi logo separado pela guerra. Tolkien foi convocado para servir à sua pátria.

Inconformada com a situação, Edith muda-se para perto do alojamento do marido e tem um encontro memorável com ele em um bosque, onde dançou para ele. O romantismo da situação inspirou Tolkien a escrever um conto, que viria a publicar posteriormente e que chamou de Beren e Lúthien. Estes nomes encontram-se inscritos no túmulo do casal até os dias de hoje. Como se pode inferir de cartas e biografias, o casamento não foi nada fácil, devido à enorme diferença entre os gostos, interesses e nível de formação do casal.

Por sorte ou não, Tolkien acabou contraindo a famosa “febre de trincheira”. Graças a ela, ele pôde ao menos regressar logo ao lar. Foi assim que ele foi agraciado, em 1917, com a possibilidade de presenciar o nascimento do seu primeiro filho, no mesmo ano em que fazia os seus primeiros ensaios e incursões pelo mundo de Terra-Média, na forma de contos esparsos. Mal sabia ele na época, que jamais pararia de escrever estas histórias que, ironicamente, permaneceriam inacabadas. O título original que ele deu àquelas histórias reunidas foi The Book of Lost Tales. Anos mais tarde, elas viriam a ser compiladas e editadas postumamente pelo seu filho, Christopher, sob o título de O Silmarillion. Esta impressionante obra retrata o trabalho de uma vida toda de dedicação minuciosa e revisão paciente. É curioso observar que Tolkien começou a escrevê-la, antes mesmo da publicação de O Hobbit, uma tentativa de traduzir o mundo de Terra-Média para crianças. A obra também está muito relacionada a SenA.

Sua carreira docente teve início logo após a I Guerra Mundial, quando ele começou a fazer leituras públicas, assumindo a cadeira de Literatura Inglesa na Leeds University. Apesar da resistência de certos professores, ele acabou sendo chamado para a cadeira de Língua anglos saxônica na Universidade de Oxford. E viria a dedicar todo o resto da sua vida acadêmica a esta mundialmente renomada instituição, uma das primeiras deste nível da história, pelo menos até quando se aposentou, em 1959. Grande parte da dedicação e zelo, criatividade e filosofia refletida nas suas obras devem-se às experiências e oportunidades para estudos e contatos com colegas que teve ao longo da sua vida acadêmica. Isto pode vir a tornar a leitura um tanto difícil para alguns leitores, desprovidas do mesmo background. Mas na verdade, basta ter uma boa capacidade de observação e um espírito de aventura para apaixonar-se logo por aquele mundo.

Pois, se considerarmos o que e como escreviam os seus colegas naqueles tempos, temos boas razões para afirmar, que Tolkien foi um dos poucos intelectuais de sua época, preocupados em falar ao homem comum. Ele se empenhava em unir a teoria que ensinava, à prática, criando mundos que vão muito além do campus universitário.

Além do aspecto acadêmico, outro elemento muito importante para entendermos o autor é sua vida familiar, que, como não podia deixar de ser, teve grande influência sobre ele. Muitos dos seus contos, como o Hobbit, por exemplo, foram inspirados nas histórias que ele costumava contar aos seus filhos, hábito infelizmente já bastante esquecido entre nós.

Depois que Edith deu à luz à sua última filha, única mulher entre três rapazes, em 1929, Tolkien também começou a escrever todos os anos um tipo de “literatura de cordel” na época do Natal. Ele também costumava ilustrar estas histórias. Tratava-se de uma espécie de “cartas” onde ele fazia o papel do Papai Noel. Uma seleção das mesmas foi publicada em 1976, sob o título Cartas do Papai Noel (Father Christmas Letters). Tudo indica ainda que ele também costumava contar histórias de ninar aos seus filhos, que permanecem, em sua maioria, anônimas.

Somente um dos seus filhos seguiu os passos do pai pelo mundo da literatura, Christopher, que também se tornou conhecido. John, o mais velho, optou pela batina. Depois de servirem à força aérea durante a guerra, os outros dois filhos seguiram a carreira de professores. Michael dedicou-se ao ensino fundamental, enquanto Christopher optou por lecionar em nível universitário e tornando-se editor e compilador das obras do pai. Priscilla decidiu dedicar-se ao serviço social. Nenhum deles saiu da cidade em que moravam em Headington, ao norte de Oxford.

Outra influência forte na vida e obra de Tolkien, que aprofundaremos mais adiante, foi a sua amizade com C.S. Lewis[2], um colega seu em Oxford, que passou a lecionar mais tarde em Cambridge. Como veremos com maiores detalhes adiante, eles compartilhavam o gosto pela mitologia e ficção. Lewis também se destacou no campo da apologética, tornando-se conhecido no mundo cristão por sua defesa da fé no contexto universitário. Ele influenciou e continua influenciando a fé de vários professores, teólogos e ministros de renome neste meio. O que a maioria dos leitores não sabe, é que Tolkien teve um importante papel na própria conversão de Lewis, como ficou registrado na sua autobiografia, Surpreendido pela Alegria[3].

A amizade entre os dois iniciou-se no ano seguinte ao ingresso de Lewis como professor em Oxford e perdurou até a morte do último. Interessante neste sentido, é o registro que Lewis faz em seu diário das primeiras impressões, não muito favoráveis que teve de Tolkien:

Ele é um sujeitinho lustroso, pálido e carrancudo. Devia ser chato demais para ler um Spenser – que só deve interessar para as aulas de inglês – na concepção dele, a literatura só deve servir para a diversão de pessoas entre seus trinta e quarenta anos de idade… No fundo é gente boa: só está precisando de uns bons corretivos.[4]

O fato é que muito dos seus leitores e quem assistiu à versão cinematográfica levantariam a mesma acusação contra Tolkien, queixa-se da grande quantidade de minúcias nas suas descrições. Outros reclamam da grande quantidade de poemas que aparecem em SenA. É claro que ninguém é obrigado a apreciar poesia ou o tipo de literatura extensa e refinada que Tolkien escrevia. Temos fortes razões para a suspeita de que há cada vez menos leitores do tipo de literatura peculiar a Tolkien. Entretanto, como procuraremos mostrar mais adiante, sua obra permanece viva. Qual pode ser a explicação para este persistente sucesso e para a tentativa de resgate da sua obra nos últimos tempos?

Grande parte do mistério é esclarecida por Lewis. Em suas cartas, ele revela sua visão de Tolkien, como o grande homem que foi, mas também aponta para alguns defeitos. Lewis o julgava pouco sistemático e excessivamente “turrão”, praticamente impermeável à influência de quem fosse nas suas obras.[5]

Além destes pequenos defeitos em Tolkien, seus amigos e principalmente seus alunos repararam muito na dicção do autor. Ele tinha o costume de falar bastante rápido e de modo pouco articulado. Quem não estava habituado, tinha dificuldade de acompanhar ou entender o que ele dizia. É que a sua maneira de falar era muito próxima a de escrever. Ele jamais conseguiu se livrar deste seu estilo “narrativo” de falar. Mesmo quando comentava coisas triviais do cotidiano, nunca conseguia negar o seu tom de verdadeiro contador de histórias. Mas, de uma maneira geral, seus alunos gostavam das suas aulas e o consideravam um professor dedicado, bem humorado e cativante, o que também se reflete em sua obra.
No auge de sua carreira em Oxford, Tolkien tornou-se uma figura polêmica. Muitos o criticavam por sua deficitária produção no campo estritamente “acadêmico”. Nos seus poucos escritos de crítica literária, ele não resistia a falar em contos de fada (fairy tales) e história do gênero, que eram desprezadas pela academia como “literatura para crianças”, ou seja, na que se devesse levar muito a sério.

Como lembra muito bem Penteado, Tolkien acabou notabilizado assim, como:
recriador contemporâneo dos mitos fantásticos, descreve as facetas que são necessárias num bom conto de fadas: fantasia, recuperação, escape e consolo – recuperação de um desespero profundo, escape de algum grande perigo, mas, acima de tudo, consolo, para Tolkien, é o principal componente das histórias de fadas completas.[6]

Mais adiante ele comentará, inspirado igualmente em Tolkien, que o adulto não deve responder à pergunta “isto é verdade?”, pois é a criança mesma que deve perguntar-se acerca dela e da questão ainda mais importante do que esta: “isto é bom?”

Muitos dos colegas de Tolkien também o criticavam ou invejavam por sua “popularidade”. Seus editores o pressionavam muito, porque ele sistematicamente deixava de cumprir com os prazos. Mesmo a passo de tartaruga, suas obras de ficção eram consideradas um enorme sucesso, já em 1960, pois aliavam talento artístico e poder imaginativo à excelência acadêmica.

Movidos pela necessidade de trocar ideias com os colegas sobre as suas criações, Tolkien, Lewis e mais alguns amigos escritores, decidiram fundar um clube, que denominaram Inklings [7]. Ele se reunia uma vez por semana no escritório de Lewis e outra, usualmente em um pub de Oxford, chamado Eagle and Child. Todos os membros que já fizeram parte deste clube, composto, em sua maioria, por eminentes catedráticos e autores tiveram grande influência mútua sobre as suas respectivas obras. Após a morte de Charles Williams, uma das figuras que mais alimentou o entusiasmo do grupo, os participantes mais ativos do clube voltaram a ser Tolkien e Lewis. O que os unia era o gosto pela mitologia e pelos contos de fadas. Devido a isso eles são muitas vezes considerados românticos ou platônicos.

Particularmente depois do sucesso de O Hobbit, Tolkien decidiu revelar o seu maior trunfo, O Silmarillion. A reação dos colegas do clube foi de euforia, já que todos já estavam se perguntavam curiosos, o que tanto o estava ocupando nas horas vagas. Mas ele havia feito questão de manter a história e geografia do mundo de Terra-Média longe do público, enquanto a mesma não estivesse bem estruturado e passado pelo crivo de Lewis.[8]

Todos os Inklings compartilhavam a apreciação de mitos, lendas e contos de fadas, que Tolkien cultivava desde a infância, particularmente lendas nórdicas. Elas os inspiravam e motivavam a aventurar-se pelo mundo do imaginário. Seu sonho era nada mais, nada menos, o de criar, ou melhor “descobrir” um mundo mitológico, que na realidade, não é mais do que a própria Terra. E o realismo do mundo por ele criado era tal, que sempre que ele discutia detalhes ou até inconsistências na sua história, ele falava, como se estivesse se referindo a fatos da vida real. Esta sua postura quase que neurótica em relação ao seu mundo imaginário chegou a despertar suspeitas e críticas em alguns leitores, preocupando os seus familiares e colegas. E acreditamos que não estejam totalmente errados aqueles que atribuem a Tolkien certa obsessão pela Terra-Média.
Em todos os casos, Tolkien buscava ser coerente com as suas convicções e particularmente com o seu pressuposto, de que a literatura mitológica é a que melhor integra história e língua, realidade e ficção. Sua hipótese, como aprofundaremos mais adiante, era de que as verdades expressas pela linguagem mitológica, têm a mesma racionalidade que aquelas expressas pela linguagem científica. Mas ela tem a vantagem de apelar tanto para a razão, quanto para a imaginação e emoções, campos dificilmente expressos pela linguagem formal. Para Tolkien, o mito permite uma visão da realidade negada à ciência, numa perspectiva holística e não fragmentária, aberta para a totalidade do real. Daí que ele o tenha escolhido como modelo para o seu tipo de literatura. Foi precisamente a sua concepção de mito e particularmente a forma como ele o relacionava ao cristianismo que tanto chamou a atenção e fascinou Lewis, como veremos a seguir.

Além do gosto básico pela mitologia e das convicções essenciais do cristianismo, os Inklings compartilhavam ainda de uma grande tolerância e respeito à liberdade de pensamento e cultivo das virtudes intelectuais. Em seus escritos, eles costumavam destacar os temas da justiça e do respeito entre os homens, e em relação a outros seres da natureza e meio ambiente. Tanto que diversas sociedades alternativas, à revelia do autor, mostraram-se simpatizantes das suas obras, como veremos mais adiante.

Somente estes valores, altamente educativos, não somente para o educador cristão, mas para o educador em geral, são bons motivos para se ler Tolkien. Isto, independente da profissão religiosa, da cultura, do gênero do leitor, já que se trata de valores humanos transculturais e plenamente universalizáveis.

Pois Tolkien acreditava que todo ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus e somente por isso já nasceu com o dom da “sub-criação”. Esta habilidade nada mais é, do que o dom dado a todos, de invenção de um mundo secundário dotado da mesma consistência interna da realidade. Longe de querer fazer apologia do cristianismo, Tolkien pretendia simplesmente exercitar este dom, concebendo “mundos”. E assim, a nosso ver ele acaba, como que “por acaso”, por glorificar o seu Criador da forma mais honesta e bonita, num tributo à sua simplicidade e soberania sem fim.
Outro conceito importante para se entender Tolkien é o da alegoria, como veremos em detalhe mais adiante. Ela é recurso mais usado nas religiões primitivas e que se caracteriza pela “sacralização” da realidade, ou seja, a interpretação mística e mistificadora do real, pautada pela substituição do símbolo pela coisa simbolizada. É o que se pode observar, nas nossas terras, em épocas de carnaval, onde os “carros alegóricos” servem para transportar verdadeiros mundos, com existência quase própria e que evocam a devoção quase religiosa de muitos. É o que se observa ainda nas chamadas novelas ou romances de cavalaria, tão criticados por Cervantes, através da sua “triste figura”, Dom Quixote. É finalmente o tipo de recurso freqüentemente utilizado nas novelas atuais, ou nas chamadas “novelas mexicanas”.

A alegoria também pode ocorrer nas leituras “forçadas” de autores, interessados em impor-lhes sentidos jamais pretendidos por eles, gerando controvérsias sem fim. Mais adiante, estaremos nos aprofundando em algumas delas, em torno de SenA.

Depois de lançar mais alguns contos de sucesso, como Tom Bombadil, Tolkien aposentou-se e foi morar no interior junto com sua esposa, falecida em 1971. A solidão o leva a voltar para o seu apartamento na Universidade de Oxford (seus filhos já haviam saído de casa). Em 1972 ele recebe o título de doutor honoris causa em Letras pela Universidade de Oxford. Ele passou o resto dos seus dias ali, onde também conquistou o seu mais importante título (Ordem do Império Britânico), das mãos da Rainha Elizabeth, uma das maiores glórias para os ingleses.

Após a sua morte em 1973, aos 81 anos de idade, depois de contrair uma doença grave, foram criadas inúmeras sociedades, que passaram a cuidar da preservação da sua memória, como a Sociedade de Tolkien Brasileira, entre outras tantas [9]. Elas se encarregaram da divulgação e reedição permanente das suas obras por todo o mundo.

Em suma, nada melhor, do que as palavras do próprio autor, para sintetizar a essência da sua vida e obra:
Nasci em 1892 e passei toda a infância numa região chamada “The Shire”[10], numa época anterior à mecanização da lavoura. Em outras palavras, e o que importa ressaltar é que sou cristão (o que se pode inferir muito bem das minhas histórias), na verdade sou católico romano. Já este segundo “fato” pode não ser tão facilmente inferido… na verdade o que sou mesmo é um hobbit (em todos os aspectos, exceto pelo tamanho[11]). Gosto muito dos jardins, árvores e lavouras não mecanizadas; fumo cachimbo e aprecio boa comida caseira… gosto dos trajes alinhados e tenho a pachorra de usar coletes, numa era tão sem graça, quanto a nossa. Amo cogumelos (colhidos diretamente do campo); meu senso de humor é coloquial (mesmo os meus críticos mais simpáticos costumam considera-lo tedioso); costumo ir dormir tarde e (de preferência) acordo tarde. Não sou de viajar muito.[12]

REFERÊNCIAS

DURIEZ, Colin, The J.R.R. Tolkien Handbook, Grand Rapids (MI): Baker Book, 1992.

___, The C.S. Lewis, Grand Rapids (MI): Baker Book, 1990.

LEWIS, C.S. Surpreendido pela Alegria, São Paulo: Mundo Cristã, 1998.

PENTEADO, J. Roberto Whitaker, Os Filhos de Lobato, Rio de Janeiro: Qualymark/Dunya, 1997.

NOTAS
[1] Por mais estranho que possa parecer este hábito ao público de hoje, é interessante notar que ele também já foi praticado no Brasil em tempos de Monteiro Lobato, por exemplo. Aliás, há diversos pontos de contato e coincidências entre as duas biografias e obras.
[2] Catedrático de literatura inglesa medieval e renascentista e crítico literário das universidades de Oxford e Cambridge, C.S. Lewis viveu entre 1898 e 1963. É autor de obras acadêmicas da área e foi um dos participantes da elaboração do Dicionário de Oxford e de livros sobre crítica literária e literatura. É autor ainda de livros teológicos e contos, poesias e obras de ficção de grande repercussão internacional como as Crônicas de Nárnia, Cartas de um Diabo a seu Aprendiz (Vozes) entre outros.
[3] Lewis, C.S. Surpreendido pela Alegria, São Paulo: Mundo Cristã, 1998.
[4] Duriez, 1992, 256.
[5] Lewis, Letters, 1966, 287.
[6] Penteado, J. Roberto Whitaker, Os Filhos de Lobato, Rio de Janeiro: Qualymark/Dunya, 1997,122.
[7] Inkling, no inglês, significa, ao mesmo tempo, borrão, mancha e intuição, noção ou idéia.
[8] Interessante notar, neste sentido, que a descrição da criação de Nárnia feita por em O Sobrinho do Mago tem claros paralelos com o Silmarillion, que Lewis já conhecia em parte na época.( Cf. Duriez, 1990, 123)
[9] O endereço da homepage da sociedade é http://www.jrrtolkien.com.br/. Ela contém dados atualizados sobre premiações, além de uma excelente biografia, lista de obras, entretenimento e dados para maiores estudos.

[10] Este foi o nome dado também ao território ocupado pelos hobbits em Terra-Média. Na tradução brasileira, a região foi chamada de “Condado”.
[11]Os hobbits, seres que sempre são os personagens principais das obras de Tolkien, caracterizam-se, entre outras coisas, por sua estatura quase que nanica, eles moram em tocas bem confortáveis e caseiras e, como Tolkien mesmo, não gostam muito de viajar.
[12] Tolkien, J.R.R. Letters of Tolkien, Carta de 25 de outubro, 1958, em Duriez, Manual de J.R.R. Tolkien, 1992, 253. (Martins Fontes)

Última atualização em Qua, 21 de Outubro de 2009 00:47

  1. Em primeiro lugar, queria parabenizar a autora, pois o texto sobre Tolkien contem informações as quais eu desconhecia.
    E segundo, acredito que me ajudará muito esse texto, pois estou fazendo uma monografia sobre Tolkien e sua literatura.
    Parabéns pelo site!!!

    • Oi Aninha,

      Que bom teres gostado! Espero receber mais detalhes sobre seu trabalho (onde, em que nível, sob qual aspecto), ou então, mande-me qdo estiver pronto, que será bem-vindo a essa comunidade lewisiano-tolkineana e narneana…

      Grande abraço

      Gabriele

      • Oi….
        Então, vou escrever de porque O Senhor dos Anéis deve ser considerado Literatura e não apenas um conto de fadas.
        Ainda to buscando fontes de pesquisa…to com uns livros que falam sobre a o universo de Tolkien. Como, O Mundo Mágico do Senhor dos Anéis, O Senhor dos Anéis & Tolkien – O Poder Mágico da Palvra, O Senhor do Senhor dos Anéis, O Mundo do Senhor dos Anéis e O Mundo de Tolkien…e com muitos artigos….inclusive alguns em Inglês e Espanhol.
        Mas, to ainda meio que organizando as coisas….
        Pode deixar que quando ficar pronto mando pra vc….
        Podiámos trocar ideias…
        Você poderia me passar um pouco da sua experiência, já que publicou um livro: O Senhor dos Anéis: da fantasia à Ética, né?
        Grata pela atenção….

        Atenciosamente,
        Aninha Torelli

  2. Artigo muito bem estruturado, proporcionando uma leitura bastante agradável. Conteúdo muito bom, é realmente interessante ler acerca de um autor tão conhecido e, principalmente, ver sua relação com Lewis. Não li nenhum livro do Tolkien ainda, mas já terminei o volume único de Nárnia. Acho que meu próximo livro vai ser o Silimarilion =D
    Parabéns!

    • Oi Rafael,

      Vc parece ser alguém que gosta de literatura. Parabéns a vc, pois isso está ficando cada vez mais raro… Que bom que gostou. O Simarilion certamente é uma boa pedida. Mas saiba que é ainda mais densa do que O Senhor dos Anéis, pois trata dos bastidores históricos, histórias isoladas que Tolkien foi escrevendo ao longo da criação de O Senhor dos Anéis, como uma espécie de pano de fundo, mas que na verdade é uma série de fragmentos, salvo engando, compilados postumamente pelo seu filho, Cristopher, que tb era autor.

      Depois vc me diz o que achou.

      Grande abraço

  3. Estou elaborando um artigo pro meu TCC. Achei interessante seu artigo mas não era bem o que eu estava a procura, pois estou fazendo um estudo comparativo sobre os mitos de Criação, nas perspectivas, cristã (bíblica) e tolkeniana. Estou usando O Silmarillion (O Conto AINULINDALE).
    Aceito sugestões de leitura.

    Grande abraço

    • Oi Jarbas,

      Parabéns pelo tema. Qual a sua faculdade mesmo?

      Olha, vc já leu O Homem Eterno de Chesterton (Editora Mundo Cristão)?. Ee trata da humanidade em geral, desde a época das “cavernas” (Man in the Cave). No Ortodoxia (Editora Mundo Cristão), ele traz um capítulo sobre os contos de fada, que são um gênero similar aos mitos sob vários aspectos.

      Outra pedida é a biografia dele de S. Tomás de Aquino (Veja entrevista com o tradutor na última edição da revista In-traduções do PGET-UFSC, onde estou fazendo doutorado). Sobre o elemento innalienável do pensamento de Aquino, que é precisamente o da Criação, veja minha dissertação do mestrado: O “elemento negativo” no pensamento de Josef Pieper em “Unaustrinkbares licht”, cujo texto traduzido por mim vc encontra no site http://www.hottopos.com ou na biblioteca eletrônica da FE-USP.

      Depois tem a Obra de Dorothy Sayers, The Mind of the Maker, que estou pesquisando e traduzindo para a minha tese e se encontram em domínio público.

      Por enquanto é só. Peço que me mantenha informada.

      Grande abraço

      Gabriele

  4. Olá Gabriele,

    Excelente website e iniciativa!
    Teto muito bem feito, de fácil leitura e resume de maneira brilhante o que de informações devem saber os que conhecem as obras de C.S.Lewis e os que irão certamente querer conhecê-las depois de lerem seu texto!

    Abraços,
    Daniel Cossi
    Presidente-Fundador
    Sociedade de Tolkien Brasileira(r)
    Brazilian Tolkien Society(r)

  5. Meus parabéns pela postagem!

    Saber mais sobre um mestre como Tolkien é sempre uma honra. Hoje tive a oportunidade de aprender um pouco mais sobre ele, graças a você!
    Que os belos contos de Tolkien venha viver ainda por gerações.

    Muito obrigado, abraço!

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