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A CONVERSÃO MAIS PROFUNDA

Muitos dos conflitos conjugais surgem quando cada uma das partes busca a satisfação de seus interesses individuais e não encontra ressonância do outro na mesma direção, ou seja, quando eu desejo muito a realização de algo e o outro pensa de forma distinta ou não está de acordo com o que desejo/penso.

A partir da leitura do Genesis (a gênese da criação de todas as coisas) verificamos que homem e mulher, juntos, descobrem a maravilha da intimidade. Durante o sono Deus retira um osso e um pedaço de carne próximo ao coração do homem transformando-o no corpo da mulher (Gen. 2: 21-23). Conforme o psiquiatra argentino Carlos Hernandéz, a formação desse novo corpo modificaria para sempre o estímulo que faz funcionar o coração do homem (da mesma forma que o estímulo do coração da mulher, que tem sua origem na carne do homem), tornando tal estímulo assimétrico – essa assimetria na condução do estímulo cardíaco, milênios depois se conheceria como “emoção”.

A emoção é a vivencia mais profunda que a atração do outro provoca em mim e que é inexprimível em palavras – às vezes se expressa em um suspiro – que nos toma e nos encanta. No livro de Gênesis esta emoção transforma-se na primeira expressão da fala humana registrada: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada” (Gen. 2:23). Esta fala se refere ao reconhecimento da mulher como ser complementário e a consequente passagem do “eu-auto-centrado” para o relacional e a demarcação do início do desfrutar da intimidade.

Uma intimidade relacional que tem na transparência plena (Gen. 2:25) o símbolo de sua essência. Neste contexto a mulher torna-se propulsora do amor incondicional, pois sem a presença desta mulher o homem seria incapaz de vivenciar a dimensão relacional e o mistério do amor incondicional: ser amado pelo outro em toda a minha torpeza. Intimidade que algumas vezes só pode ser expressa de forma metacomunicacional, através do toque – tocar o outro para comunicar algo que não se pode exprimir em palavras.

Esse toque que, para expressar a ternura, precisa de uma RE-organização neurofisiológica: do movimento retensivo/possessivo para o movimento distensivo/de entrega. O movimento retensivo (aquele que flexiona o antebraço sobre o braço e faz os dedos da mão se fecharem) é uma construção neurológica codificada desde os tempos mais remotos da humanidade caída (do “homo coletor”, que juntava alimentos no chão – hoje “homo consumidor” que junta alimentos nas prateleiras dos mercados). Para que esse movimento retensivo (em minha direção) se torne um movimento distensivo (em direção ao outro) é preciso uma conversão profunda – que vai contra todos os paradigmas da sociedade do consumo.

Enquanto foco no que o eu-auto-centrado desejo e penso, mantenho o condicionamento retensivo/possessivo, que é um movimento gerador de tensão. Somente quando passo ao movimento distensivo/ de entrega é que produzo relaxamento e promovo o relacional. E é somente assim que comunico a verdadeira emoção da ternura, “permitindo que a pele do outro direcione o meu toque” (Carlos Hernandez).

Assim a resolução da maioria dos conflitos conjugais passa por essa conversão “mais profunda”, de nossa organização neurológica, transformando o movimento de retensão em movimento de distensão, a tensão em relaxamento, o eu-auto-centrado no relacional!

MULHERES DE VALOR

Hoje as mulheres conquistaram muito espaço em todos os âmbitos da sociedade.

São presidentes, como a Dilma, 1º ministro, como a Angela Merkel da Alemanha, cientistas, medicas, professoras,  militares, etc., e também continuam a ser donas de casa e mães.

A realidade nem sempre foi assim, as mulheres de todos os séculos sofreram discriminação e muitas vezes foram subjugadas ao poder masculino. As duas ondas do movimento feminista – no início do século XX e nos anos 60, as duas guerras mundiais, entre outros, procuraram mudar esta situação, sendo importantes nas conquistas de muitos direitos da mulher tais como: o voto, o direito ao trabalho, direito aos filhos.

No entanto, como em todas as revoluções sociais, aconteceram vários desequilíbrios e a mulher fez estas conquistas com armas masculinas, usando também da subjugação e força, deixando de lado as características femininas, como a ternura, o afeto e intuição. As mulheres se firmaram num mundo masculino com valores machistas e muitas vezes praticam estes mesmos valores às avessas. É preciso resgatar o papel da mulher, não acima, nem abaixo do homem, mas ao seu lado.

A bíblia muitas vezes, à primeira vista, nos passa uma imagem machista, porém quando lemos a mesma de forma integral, considerando todo seu contexto, percebemos que é exatamente o contrário que acontece. Deus é a favor da mulher, e existem inúmeros textos que indicam que Deus dá um valor especial para as mulheres.

Ao lermos o texto de Provérbios 31, que é uma poesia, e não uma história real de uma mulher, pode nos vir à mente que é impossível chegar aos pés desta mulher especial, virtuosa, e então não temos nem a vontade de tentar, afinal não vamos conseguir mesmo….

Gostaria de me fixar na parte que julgo mais importante neste texto, que é o vers. 30: A mulher que teme ao Senhor.

Temos na Bíblia inúmeros exemplos de mulheres que temiam a Deus e com isso fizeram a diferença na historia da humanidade. Algumas simples e humildes outras de família real, juízas, etc. O que as une é o temor a Deus.

O que é o Temor a Deus, ou temer ao Senhor?

A palavra temor a Deus na Bíblia não está relacionada com o primeiro significado que encontramos no dicionário que é medo, terror. O significado bíblico de temor a Deus está relacionado com a profunda reverência e respeito aos preceitos de Deus, à sua santidade; é odiar o que Ele odeia, andar em seus caminhos e buscar conhecê-lo cada vez mais.

Para temer a Deus não é necessário ser uma pessoa especial, importante, na verdade o caminho é inverso: muitas vezes mulheres mudaram o curso da humanidade simplesmente porque temiam a Deus.

Alguns exemplos:

As Parteiras do Egito: (Êxodo 1: 15-21)

O povo de Israel estava no Egito a cerca de 400 anos após a morte de José e havia sido subjugado e escravizado. Realidade não muito diferente da que vivemos hoje em vários lugares do planeta. Povos de minoria étnica em geral são subjugados, massacrados, etc.

Mas Deus teve misericórdia deste povo sofrido, resolveu libertá-los do jugo que sofriam e para tal usou duas mulheres simples do povo: duas parteiras.

O texto não diz nada que Deus falou com elas, seja em sonho, visão ou qualquer outra forma de manifestação sobrenatural. Provavelmente estas mulheres eram analfabetas, sem instrução, mas tiveram coragem para desafiar a pessoa mais poderosa de sua época – o faraó!

Tudo isso por um simples motivo: elas temiam a Deus. Sabiam que Deus estava acima do faraó, (considerado um deus pelos egípcios na época – Rá). Elas sabiam que poderiam morrer por desobedecer a faraó. Mas Deus as honrou, pela sua fidelidade, proporcionou que elas tivessem sua própria família, naquela civilização imprescindível para ter o respeito da comunidade.

Onde nós mulheres podemos desafiar os “faraós” de nossa época? Onde você pode fazer diferença?

Raabe: (Josué 2:8 e 6: 22-25)

Raabe era uma mulher que não tinha um relacionamento pessoal com Deus, pelo contrário, ela era uma prostituta (provavelmente cultual).

Os povos cananeus tinham práticas de muita opressão para com os membros mais frágeis de sua população, eles faziam sacrifícios humanos, especialmente de crianças, e virgens que eram obrigadas a praticar sexo cultual para satisfazer os “deuses” daquele povo.

Raabe era uma mulher oprimida, provavelmente discriminada, pertencia a um povo inimigo dos israelitas, mas temeu a Deus. Por seu temor a Deus ela escondeu os espias do povo judeu e lhes deu dicas de como fugir e enganar os lideres de seu povo, os cananeus.

É interessante que ela ainda não conhecia a Deus pessoalmente, fala com os espias em termos de “o vosso Deus”, fala do medo que tem do Deus dos espias. Mas apesar disso reconhece a grandeza de Deus, (6: 11). “Quando ouvimos estas coisas, perdemos a coragem e todos ficamos com muito medo por causa de vocês. O Deus de vocês, o Senhor, é Deus lá em cima do céu e aqui em baixo na terra.”

Vemos aí claramente mais um quesito no temor a Deus: reconhecer a onipotência e a onisciência de Deus.

Raabe pediu aos vigias que poupassem a sua família na destruição de Jericó. Deus fez algo muito maior, Deus ao invés de mandá-la à destruição e morte, lhe oferece vida muito além do que ela seria capaz de imaginar. É impressionante que Raabe é uma das poucas mulheres que está na genealogia de Jesus, também é citada no livro de Hebreus 11:31 como uma das heroínas da fé. Deus a honrou, ela que não era ninguém, tornou-se ancestral do Filho de Deus.

Você tem reconhecido a grandeza e a onipotência de Deus? Ele tem se tornado o centro de sua vida? Você tem confiado em Deus a despeito das adversidades? Tem sido fiel a Ele?

Debora, a mulher guerreira: (Juízes 4 e 5)

Depois que Josué, sucessor de Moises, morreu, o povo de Israel se afastou de Deus e passou a adorar os deuses dos cananeus. Deus, para chamar seu povo de volta, permitiu que eles fossem atacados por vários outros povos e o povo israelita sofreu muito e clamou que Deus os libertasse.

Deus ouviu o clamor do povo e instituiu vários juízes, pois ele nunca desistiu do seu povo. Débora era uma profetisa e também foi instituída juíza para julgar as questões dos israelitas. Era um cargo usualmente masculino e ela foi a única mulher que o exerceu.

Deus escolheu alguém que era fiel a Ele, que escutava a Sua voz em meio a um povo idólatra. Em certa ocasião Deus falou que ela deveria chamar a Baraque para que ele enfrentasse o exercito inimigo. Deus, por intermédio de Debora, havia prometido a vitoria ao povo de Israel, mas Baraque teve medo da batalha e afirmou ele só iria guerrear se Debora fosse junto. Debora concordou e durante toda a batalha afirmava que a vitoria era certa, pois Deus tinha prometido ao povo.

Ela se tornou porta-voz do plano de Deus na batalha. Ela constantemente estava incentivando a Baraque: “Vá agora porque é hoje que o Senhor lhes dará a vitória sobre Sisera. O Senhor está com você.” (v. 14)

Onde você mulher deve ir à frente para que a vontade de Deus seja cumprida? Onde você deve ser a incentivadora, colocando-se ao lado dos homens para que Deus possa ser louvado, para que os inimigos d’Ele sejam excluídos?

Rute a estrangeira, viúva e pobre. (Rute: 1 a 4)

Quando lemos o livro de Rute, ficamos novamente maravilhados com a ação de Deus. Ela é mais uma das personagens que nos surpreendem. Como a historia de uma mulher pobre, viúva e estrangeira foi parar no meio da história do povo de Deus, e como ela conseguiu ainda se tornar ancestral de Davi, o maior rei de Israel?

A estrangeira Rute não pertencia e nem se sentia à vontade no povo de Israel. Mas ela fez uma escolha, ela abandonou a sua família, sua terra para seguir junto com a sua sogra até o povo dela. Ela adota o Deus da sogra como sendo seu Deus, assume uma nova cultura e cuida de Noemi até o final da vida dela.

No contexto judaico as mulheres eram seres inferiores e o homem judeu ortodoxo agradecia a Deus por não ter nascido mulher, escravo ou estrangeiro. Rute preenchia quase todos estes quesitos. Ela apenas não era escrava, mas era tão pobre que vivia das migalhas que podia catar nos campos dos outros. Acredito que a maior característica de Rute é a sua fidelidade para com Noemi, sua sogra.  Fidelidade é uma das marcas das pessoas que temem a Deus.

Rute nos mostra que Deus está interessado na vida de qualquer ser humano, Ele quer a sua redenção e o seu amor. Qualquer pessoa, a mais marginalizada é recebida por Ele, a nossa resposta deverá ser a fidelidade e o reconhecimento de Sua soberania.

Você te sido fiel a Deus e às outras pessoas, tem reconhecido a soberania d’Ele em sua vida?

Ana, a mulher de oração: (I Samuel 1:9-28)

Na vida de Ana, vemos mais um aspecto de uma pessoa temente a Deus. A devoção e adoração a despeito das adversidades.

Ana era uma mulher muito sofrida, no v. 6 e 7, o texto afirma que ela chorava muito e perdia o apetite pois era motivo de gozação e chacota por parte da outra esposa de Elcana, seu marido. Naquela época os homens tinham o direito de tomar uma segunda esposa se a primeira fosse estéril. A esterilidade era considerada um castigo de Deus. Apesar de Ana ser amada pelo seu marido tinha uma profunda tristeza.

Ana derramou seu coração aflito a Deus, orando e chorando copiosamente, fez isso por várias horas e ao contrário do que era costume o fez apenas sussurrando.  Sentia-se incompreendida por todos, talvez inclusive pelo marido, pois ele a tratava bem, e não compreendia o porquê de tanta tristeza.

Acredito que ela nem tinha coragem de orar em voz alta pensando que seria de novo motivo de gozação e risos. Somente Deus poderia compreendê-la, por isso falou com Ele em voz baixa, os outros não precisavam saber. Mas, até nisso foi incompreendida, pois o sacerdote Eli, representante de Deus, achou que ela estava bêbada, e veio dar uma bronca nela.

Ana poderia ter desistido de tudo naquele momento, além de as humilhações que vinha sofrendo durante anos ao se derramar perante Deus também é incompreendida. Mas, ao contrário, ela não desistiu e esclareceu a Eli que estava derramando seu coração a Deus. Mesmo não contanto a Eli o motivo de suas súplicas o sacerdote lhe anunciou que seu pedido seria realizado.

Ana imediatamente mudou de atitude e apesar de não estar grávida ainda, ela passou a adorar a Deus juntamente com a sua família. A tristeza foi embora, ela engravidou e sua vida mudou completamente. Daí em diante ela passou a ter o objetivo de criar a criança, Samuel, para que fosse um servo de Deus.

Apesar de Eli ser um pai que não soube educar seus próprios filhos, Hofni e Finéias, Ana em obediência à promessa que fizera a Deus levou seu filho ainda pequeno, com poucos anos para ser educado no templo por Eli. Deve ter sido difícil para ela separar-se deste menino, mas em seus lábios apenas havia cânticos de louvor.

Samuel se tornou profeta, juiz, líder militar e sacerdote. Ele caminhou com Deus durante toda a sua vida e ungiu Saul e Davi, os primeiros reis de Israel. Com certeza a vida de fé e oração de sua mãe Ana colocou a base desta vida íntima com Deus.

Ela expressa seu louvor e adoração num novo momento de oração, desta vez em voz alta. Todo o cântico exalta a grandeza e a justiça de Deus, ela reconhece que somente Ele é santo e capaz de transformar o pranto em alegria.

Onde você precisa derramar seu coração a Deus, o adorando e buscando apesar de ser incompreendida? O que tem feito para conduzir seus filhos no caminho de Deus a fim de que andem em Seu caminho e cumpram a vontade d’Ele em suas vidas?

Ester, mulher corajosa e sábia: (Ester: 4: 15 a 5:1)

Uma das marcas das mulheres tementes a Deus é a confiança absoluta n’Ele e nos Seus propósitos, e cumprir a vontade d’Ele com sabedoria.

A historia de Ester começa na corte de Xerxes, rei da Pérsia, senhor absoluto do maior império daquela época. Tornou-se rainha depois que a primeira esposa de Xerxes o desafiou em público, descumprindo uma ordem dele e caindo em desgraça.

Ester era órfã, criada por seu tio Mordecai. Quando Xerxes conclamou as jovens de seu reino a fim de escolher uma nova rainha, Ester, obedecendo a seu tio, também se apresentou e acabou sendo escolhida como esposa real devido a sua grande beleza e formosura.

Acontece uma conspiração do 1º ministro da Pérsia, Hamã, a fim de matar todos os judeus do reino. E Mordecai recorre a Ester para que a desgraça não aconteça. Ester deveria interceder junto à Xerxes pelo seu povo. A questão é que ninguém sabia que Ester fazia parte do povo judeu.

Ester ficou com medo, pois havia mais de mês que o rei não a chamava, e se chegasse à sua frente e ele não gostasse poderia ser morta.

Neste momento começamos a ver a sabedoria de Ester, ela em primeiro lugar buscou a Deus, durante três dias ela orou e jejuou juntamente com as suas servas, além disso, pediu que todo o povo judeu fizesse o mesmo. Depois disto, preparou-se, vestiu-se com suas melhores roupas, para chegar à frente de Xerxes. É preciso preparar-se em oração para enfrentar situações difíceis.

Quando foi recebida pelo rei, novamente vemos a sabedoria de Ester. Ela não foi diretamente ao assunto, pelo contrário, ela o convidou, juntamente com Hamã, o inimigo dos judeus, para um jantar. Neste o rei novamente lhe perguntou o que ela queria e ela não falou nada, apenas os convidou para novo banquete. Apenas depois do terceiro banquete ela expressou o seu pedido em favor de sua vida e a do seu povo.

Grande sabedoria de Ester, primeiramente conquistar para depois pedir. Ela conseguiu controlar a sua ansiedade, seu medo, a fim de conquistar o apreço e a confiança do rei. A consequência da sabedoria de Ester foi que os inimigos dos judeus foram eliminados enquanto estes foram poupados.

Ester poderia ter pedido apenas por sua própria vida, mas ela sabia do propósito para o qual Deus a colocou naquela situação. Hamã era mau perante o Senhor, e uma das características de quem teme a Deus é não aceitar o mal.

Estamos rodeados por pessoas e situações em que o nome de Deus é zombado, seus preceitos são descumpridos, o mal parece triunfar. Com coragem e sabedoria é possível reverter esta situação. No Salmo 111:10 “para ser sábio é preciso primeiro temer a Deus, O Senhor. Ele dá compreensão aos que obedecem seus mandamentos.”

Até os dias de hoje os judeus lembram-se desta vitória na Festa do Purim.

Em que situação Deus te coloca na qual na qual você tem de demonstrar coragem e sabedoria? Onde você tem de manejar com a sua ansiedade a fim de cumprir o plano de Deus na sua vida e na dos outros? Onde você precisa repudiar e derrotar o mal?

Finalizando:

A marca de uma mulher especial, uma mulher de valor é o seu temor a Deus. Deus quer se manifestar na vida de todas as mulheres, basta buscá-lo e segui-lo sempre, mesmo que as situações sejam adversas, mesmo que implique em abrir mão de regalias. Qualquer mulher, desde a mais marginalizada até a mais importante precisam estar no centro da vontade de Deus para que possam fazer diferença no seu contexto.

Não precisamos nos sentir intimidadas com a mulher de Provérbios 31, ela apenas fez o que Deus pede a todas nós: como diz em Deuteronomio 10:12 : “escute o que o Senhor Deus exige de você: Ele quer que vocês o temam e sigam todas as suas ordens; quer que o amem e sirvam com todo o coração e com toda a alma.”

Assim, o temor de Deus é como o oxigênio para a vida do discípulo. Sem temor a Deus não existe o discípulo.

(Dagmar F. Grzybowski)

TIMIDEZ É DOENÇA?

Ana chegou ao consultório acompanhada de sua mãe. Era uma adolescente de 16 anos, bastante obesa e com muitas espinhas no rosto. Logo que começamos a conversar percebi que ela era pouco comunicativa e que todas as perguntas que eu dirigia a ela, a mãe se encarregava de responder.

– Ela é muito tímida! – repetia a mãe constantemente.

Terminada aquela entrevista, eu pedi que Ana retornasse a uma segunda conversa sozinha. Nesta segunda conversa ela foi aos poucos se soltando e, apesar de estar sempre cabisbaixa e com um riso nervoso constante, conseguimos interagir bem mais. Nos encontros que se sucederam Ana já pode expressar um pouco mais de seus sentimentos e não se mostrou como a mãe insistia em descreve-la: TÍMIDA!

Podemos pensar um pouquinho no que aconteceu. Timidez é doença? Pelo menos este foi o motivo pelo qual a mãe trouxe Ana ao consultório.

O grande psicólogo Carl Gustav Jung, no início do século nos apresentava uma teoria dos temperamentos, na qual descrevia dois tipos básicos: os extrovertidos e os introvertidos, sendo estes últimos os que reputamos por pessoas tímidas. A idéia embutida em todas as teorias sobre temperamentos é que as pessoas já nascem com certas predisposições para comportar-se desta ou daquela forma.

No meio cristão, o famoso autor Tim la Haye fez muito sucesso na década de 80 (em alguns lugares faz até hoje), com seus livros sobre temperamento controlado pelo Espírito Santo, no qual ele retoma, não a teoria do início do século de Jung, mas a teoria de Hipócrates e divide as pessoas em 4 temperamentos. Muito comum então era, no início dos anos 80, encontrar pessoas que se auto-explicavam (ou auto-escondiam) através dos temperamentos de La Haye / Hipócrates, e ainda aqueles que queriam sempre explicar o comportamento dos outros pelos mesmos pressupostos.

O comportamento humano não é algo que se esgote em explicações simplistas, que muitas vezes causam mais danos que benefícios (um destes é a pessoa tentar desculpar-se de todos seus maus comportamentos através de teorias deterministas: “eu nasci assim…”).

A grande questão em jogo é saber: nascemos com comportamentos pré-determinados ou nossa personalidade é resultado de um longo processo de interação com diversos sistemas que nos influenciam e são influenciados por nossa presença de forma dialética?

A timidez é um bom recurso para respondermos esta questão!

No caso de Ana que eu citei acima, sua “timidez” era, na verdade, uma resposta equilibrada à sua interação com a mãe. A ansiedade da mãe fazia com que ela falasse compulsivamente, não dando espaço para que a Ana pudesse se expressar, o que causava um desequilíbrio na forma de expressão desta última.

As famílias são um sistema de relacionamentos que busca constantemente um equilíbrio em suas formas de interação. Este equilíbrio é dinâmico e está sempre buscando novas organizações. Gosto de ilustrar sempre a família como se fosse um “móbile”, daqueles que penduramos de enfeite no quarto do bebê. É algo em equilíbrio, mas ao mesmo tempo em constante movimento, com os elementos ligados entre si por meio de fios invisíveis. Quando tocamos em um elemento do móbile, todos os outros são afetados.

No caso da timidez o que ocorre é o que denominamos de ‘POLARIZAÇÃO’. Que é isto? Explico: uma polarização é uma forma de busca de equilíbrio dentro do sistema no qual elementos distanciam-se em direções opostas a fim de que todo o sistema possa continuar harmoniosamente. Seria como de uma peça do móbile fosse colocada mais para a ponta da trava que a sustenta e logo a peça que fazia o contra-peso tem que ser afastada também para a extremidade para que se alcance novamente o equilíbrio.

Quando um elemento na família ocupa muito espaço social (fala muito, toma muitas iniciativas, etc.) os demais membros, ou pelo menos um membro específico, terá que equilibrar isto apresentando algum tipo de retração social – o que popularmente conhecemos por TIMIDEZ!

Assim, como no caso de Ana, a timidez pode ser provocada, não por fatores biológicos, mas por fatores interacionais. A mãe de Ana falava por ela, era sua boca – não havia sentido de Ana ocupar um espaço que já estava ocupado. Ela ocupava o espaço do silêncio, que provavelmente não era ocupado por ninguém na família. Assim a mãe “falava pelas duas” enquanto Ana “calava pelas duas”, isto é uma polarização.

Se a timidez tivesse apenas componentes biológicos, seria determinista, ou seja, seríamos tímidos todo o tempo – o que na realidade não acontece. Fatores biológicos são imutáveis (como a cor dos olhos, estatura, etc.), mas fatores condutuais não. Você mesmo(a) caro(a) leitor(a) já deve ter experimentado a sensação de ser bastante inibido em uma determinada situação social e ser bastante expansivo em outra. Eu, por exemplo, posso enfrentar uma platéia de 1.000 pessoas quando dou palestras e conferências, sem nenhum constrangimento, mas algumas vezes fico constrangido de entrar em uma loja e perguntar o preço de uma mercadoria a um vendedor ou de entabular uma conversação em uma festa na qual não conheço ninguém – nestes momentos sinto-me tímido. Então eu pergunto: em qual classificação de temperamentos eu me enquadro?

Prefiro entender que a timidez, como qualquer outra conduta social, é resultado da interação de vários fatores e que se manifesta nas inter-relações, que são diferentes em cada caso.

Finalmente uma palavra sobre o que fazer para quebrar as polarizações e re-equilibrar o sistema, evitando que haja “tímidos” e “expansivos”, mas que haja um pouco de cada em todos. O primeiro passo é renunciar as posições polarizadas.

As pessoas expansivas devem dar espaço para as menos expansivas de se manifestarem. Isso às vezes pode ser difícil, ter que agüentar o silêncio do outro em oposição à nossa ansiedade de falar e resolver rápido as coisas. Por outro lado sair do comodismo de ficar quieto e reivindicar seu espaço de manifestação também exige um esforço. São processos longos de aprendizado, mas que conduzem a um melhor ponto de equilíbrio – pelo menos onde as pessoas vão estar mais próximas umas das outras neste equilíbrio. E no final é isto que importa: QUE ESTEJAMOS PROXIMOS UNS DOS OUTROS, solidários e capazes de transmitir afeto e calor humano.

Lembrando sempre que podemos contar com a força sobrenatural do Espírito Santo que nos capacita a extrairmos forças para as mudanças de onde não temos forças! Que a graça de Deus nos habilite a mudarmos para termos famílias e sermos pessoas mais equilibradas.

EU NÃO QUERO MICKEY MOUSE!

Nossos dias tem se tornado de uma complexidade crescente no que concerne à educação dos filhos. Em virtude disso, muitos casais têm se tornado resistentes à ideia da paternidade/ maternidade e optam por ‘curtirem a vida’ sem o ‘incomodo’ dos filhos.

Pensamento contrário a esse tem o salmista quando afirma que os filhos são ‘herança do Senhor, uma recompensa que Ele dá’ e ter muitos filhos é motivo de felicidade (Salmo 125: 3-5).

Assustadoramente um número crescente de pais tem ‘terceirizado’ o precioso processo de transformar o indefeso recém-nascido em um ser apto para enfrentar a realidade alguns anos mais tarde. Precocemente deixam os filhos aos cuidados de babás, creches, pré-escolas e, depois uma série de agentes ‘modeladores’ do que acreditam ser ‘o melhor’ para os infantes: escolinhas de ballet, de futebol, de natação, de música, etc. Até o cuidado espiritual dos filhos deixam a encargo dos professores da escola dominical!

Porque estes pais agem desta forma? Porque não tem tempo para um envolvimento maior na vida dos filhos, pois estão em busca de seu ´sucesso profissional’ ou de sua ‘realização pessoal’. Certamente não somos cegos à realidade de um número significativo de famílias de baixa renda, nas quais o trabalho remunerado de ambos os pais é imprescindível para a provisão dos recursos mínimos para a dignidade familiar, todavia geralmente essa NÃO é a realidade da classe média, que coloca os filhos em escolas particulares caras e ainda preenche o tempo de contra-turnoescolar com atividades de ‘aperfeiçoamento’ ou ‘entretenimento’.

Muitos pais estão tão envolvidos com suas ocupações profissionais que já não tem tempo sequer para ouvirem as ‘bobagens’ que seus filhos querem lhe narrar quando chegam a casa à noite – afinal estão cansados e ‘precisam’ atualizar-se com as notícias do dia.

A maior parte dos pais justifica essa dedicação ao trabalho como um meio de proporcionar aos filhos um maior conforto futuro e a possibilidade de um lazer que ‘valha a pena’. Outro dia conversando com uma família perguntei se o pai alguma vez já tinha soltado pipa com o filho ou construído com este um carrinho de rolimã? A resposta foi NÃO! Mas estavam economizando para irem com os filhos à Disney! Então eu perguntei ao filho se ele preferia o Mickey Mouse ou brincar com o pai, e o pai ficou surpreso em saber que o filho preferia a companhia dele.

O grande desafio aos pais de hoje é ‘não se conformarem’ aos valores desta sociedade do consumo de lazer, mas ‘transformarem’ suas mentes para experimentarem a boa, agradável e perfeita vontade de Deus expressa na simplicidade (Romanos 12:2). Com absoluta certeza trata-se de caminhar na contramão de tudo que a mídia e o meio tentam impor em nossas mentes a respeito do que seria a ‘verdadeira felicidade’. Para a sociedade atual a felicidade é sinônimo de consumo, mas para Deus a felicidade é sinônimo de RELACIONAMENTO!

É tempo dos pais, especialmente aqueles pais que querem nortear sua conduta pelos valores cristãos, iniciarem uma pacífica subversão e ocuparem mais tempo com seus filhos em parques, rolando no chão e brincando de pega-pega, que nos corredores dos shoppings; presenteá-los mais com pipas e carrinhos de rolimã artesanais que com celulares de última geração; lerem com os filhos a Bíblia e orarem com eles ao invés de assistirem noticiários sangrentos com eles ao lado.

Pais, mães, não se deixem enganar, seu filho precisa mais de você que do Mickey Mouse!

O Perdão

 

Muitas pessoas que são traídas por seus cônjuges passam a viver vidas amarguradas e fechadas em si mesmas, acreditando que jamais poderão voltar a confiar no outro e, por conseguinte, jamais terão novamente vidas plenas. Todavia quando o infrator realmente se arrepende de seu feito e pede perdão, é necessário buscar um caminho de reconstruir o que foi demolido pelo dano.

Sei também que o processo de construção da confiança é sempre um processo lento, mas deve ser perseguido com perseverança. Há sempre três estágios intimamente ligados numa situação de “traição” (ainda que virtual). O primeiro é o perdão, o segundo é a restauração da confiança e o terceiro é o esquecimento.

1. O perdão

O PERDÃO é algo que fazemos em benefício de NÓS MESMOS! Por quê? Porque o perdão nos livra da compulsão da repetição, ou seja, ficamos livres de ficar repetindo para nós mesmos que fomos machucados, que fomos enganados, que estamos sofrendo por causa disto, que somos criaturas infelizes, que o outro é mau, etc. Nos livrarmos disso é sempre sinal de saúde emocional! Quando eu posso, honesta e sinceramente, dizer “fui ferido(a), fui magoado(a), não merecia isso mas aconteceu, agora quero parar de repetir isso e DECIDO perdoar o outro”, então passo para uma nova dimensão – a dimensão da liberdade que posso experimentar.

Entretanto somos relutantes em perdoar porque perdoar é ARRISCAR-SE a ser ferido novamente. E se o outro fizer de novo? Vou passar por idiota? Como vai ficar minha auto-estima? É preciso correr este risco se queremos gozar de saúde emocional. Temos que estar conscientes que, se o outro repetir o erro, o maior prejudicado será ele mesmo, pois estará cada vez mais se isolando na marginalidade, perdendo os relacionamentos mais significativos e tornando-se uma pessoa fechada em si mesma, amarga e que provavelmente vai terminar a vida sozinha e abandonada, pois nenhuma pessoa ÍNTEGRA cria vínculos profundos com quem constantemente machuca os que lhe são preciosos. Creio que foi por isso que Jesus nos incentivou a perdoar 70 x 7 – para NOSSA saúde emocional. Se perdoamos ficamos mais saudáveis e o outro, cada vez que erra fica mais doente.

2. A confiança

A CONFIANÇA é passo seguinte. Ela só vai acontecer se a pessoa que nos ofendeu demonstrar, através de atitudes concretas, que sua vida foi mudada e que houve aprendizagem com o erro. São os pequenos detalhes que devemos observar e que vão restaurando a confiança. A forma de olhar, a ternura, o diálogo – tudo isso deve ir mudando. Claro que não muda de um dia para o outro; é um processo lento e progressivo. Entretanto devemos estar abertos à possibilidade do ver mudanças no outro e atentos aos detalhes que evidenciam estas mudanças. Muitas vezes as pessoas dizem “o outro não vai mudar nunca”, e repetem isso tantas vezes (acho que para elas mesmas se convencerem) que comunicam ao outro uma DESESPERANÇA. Devemos lembrar que as Escrituras nos alertam que “não devemos ser como os que não têm esperança”! E quando comunicamos desesperança ao outro em relação à sua mudança, também o outro acaba ACREDITANDO nisso e não se esforçando o suficiente para mudar. Fecha-se um círculo vicioso onde o outro não muda: eu deixo de acreditar na mudança, comunico desesperança e esta comunicação provoca uma paralisação e uma não mudança no outro.

3. O esquecimento

Por último, o ESQUECIMENTO é algo que virá com o tempo. E aqui temos que fazer uma distinção bem clara. Não é o esquecimento dos FATOS e sim a mudança das EMOÇÕES ligadas aos fatos. É como se eu lembrasse o fato, mas ele NÃO causasse mais DOR EMOCIONAL. Eu lembro que fui machucado, que fui ferido, mas que isso hoje já não me dói mais. Que houve uma mudança em minha atitude mental em relação o ocorrido – que chamamos de RE-significação. Isso faz parte de um processo de aprendizagem e crescimento pessoal para chegarmos cada vez mais próximos da “estatura de Cristo”, ele que é chamado de “varão de dores e que sabe o que é padecer”.

Se você foi ferido(a) por uma traição e o outro lhe pediu perdão de forma sincera e agora você deseja restaurar seu relacionamento, continue nessa caminhada de crescimento, EM MEIO À DOR, pois os mais belos cristais são apenas os que suportam as mais altas temperaturas!

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Carlos “Catito” Grzybowski

FAÇA O QUE EU DIGO, MAS…

Há pessoas que questionam o porquê de tantos filhos de casais ‘certinhos’ desenvolverem padrões de conduta, especialmente na área da sexualidade, tão disfuncionais. Na verdade não são poucos os casos em que observamos jovens, provenientes de famílias ‘aparentemente saudáveis’ viverem vidas sexualmente promíscuas, contraírem DSTs ou mesmo terem confusão sobre sua identidade sexual.

Conversando com muitos jovens e muitos pais eu descubro que nestas ‘famílias certinhas’ a sexualidade é vivenciada de forma bastante dissociada, ou seja, embora afirmem algo, acabam praticando o contrário.

A sexualidade, conforme entendida na tradição hebraico-cristã, é resultado da livre e soberana criação de Deus e serve ao propósito último de gerar uma intimidade/unidade entre o casal, cumprindo a meta final de um companheirismo (Genesis 2: xx). Todavia a sociedade, em uma de suas muitas distorções pós queda (afastamento de Deus), reduz TODA a dimensão da intimidade ao intercurso sexual e, ainda mais, estabelece como meta final do exercício da sexualidade o prazer fisiológico (orgasmo).

Assim, muitos casais que professam a fé cristã, vivenciam a sexualidade neste padrão da sociedade que os cerca e ‘esquecem’ das outras dimensões da mesma. A sexualidade é vivenciada de forma dissociada da ternura, do carinho, da valorização do outro, do afeto e até mesmo do compromisso.

Não são poucos os casais que, embora não tenham brigas e conflitos, também não tem gestos de carinho como um abraço, um beijo no cônjuge; não tecem palavras de elogio reafirmando o valor do outro enquanto pessoa humana; não tem um tempo de qualidade de diálogo com o cônjuge para ouvir mesmo suas ‘bobagens’. Entretanto à noite quando vão para o quarto, tem um intercurso sexual, acreditando que esse ato em si é a ÚNICA forma de expressarem seu afeto pelo outro.

Todavia os filhos que observam esta conduta dos pais – embora os pais nem se deem conta que estão sendo observados – concluem que a relação sexual nada tem a ver com atitudes de carinho, abraços, beijos, elogios, conversas… Facilmente são levados à conclusão que sexo é somente para sentir uma modificação visceral prazerosa e o outro é apenas um ‘acessório’ complementar para se atingir essa sensação – equivalente a qualquer assessório que pode ser adquirido em um sex shop.

Acabam reproduzindo essa dissociação de forma potencializada com o favorecimento e incentivo do contexto social. Desenvolvem relacionamentos de USO do outro (como a versão moderna do ficar), sem sequer estarem interessados REALMENTE no outro como pessoa. O interesse é somente na busca de sensações fisiológicas, denotando extremo egocentrismo e uma coisificação do outro ser humano – que não é reconhecido como alguém portador da imagem de Deus!

Como as sensações fisiológicas são insaciáveis e ‘viciantes’, facilmente a busca pelas mesmas torna-se compulsiva e abrem caminho para fantasias de ‘perversão’ (experimentar tais sensações através de condutas extremamente disfuncionais – como pedofilia, por exemplo).

Urge se romper este ciclo de dissociação, iniciando pelos pais, que devem procurar expressar diante dos filhos uma sexualidade integral, na qual o filho reconheça que o intercurso sexual que os pais vivenciam a portas fechadas é tão somente uma expressão das muitas expressões da TERNURA que existe no relacionamento entre eles, tais como os abraços, beijos, elogios, etc., que se vivenciam a todos os momentos do convívio familiar. Fazendo isso os pais estarão contribuindo para a construção de uma identidade sexual sólida dos filhos, que verão no outro não um OBJETO de sua busca sensorial, mas um SUJEITO pelo qual pode se encantar e desfrutar um relacionamento de compromisso para a vida!

A CONSTRUÇÃO DE UMA SEXUALIDADE RELACIONAL

O compositor e cantor baiano Raul Seixas afirmava em uma de suas músicas que ele preferia ser uma ‘metamorfose ambulante’. Em verdade o ser humano é realmente um ser em contínua construção. A cada novo dia, cada nova experiência, cada novo relacionamento, nós somos transformados. Nossa sexualidade é parte inseparável desta construção.

 A idéia de uma sexualidade estática adquirida nos primeiros anos da infância e imutável é bastante questionável desde o ponto de vista das teorias mais atuais no campo da psicologia, como a Teoria Sistêmica.

Em outra perspectiva, o reducionismo fisiologicista que observamos hoje em muitos campos das ciências do comportamento e especialmente da mídia, querem nos levar a pensar que a sexualidade é algo exclusivamente sensorial e orgânico: nada mais equivocado! O principal agente construtor de nossa sexualidade é nossa mente. É através dela que somos capazes de evocar sentimentos de desejo ou repulsa, de excitação ou aversão, de amor ou ódio.

Todavia a mente humana é extremamente complexa e construída a partir de influências genéticas, ambientais, familiares, sociais, religiosas, culturais e uma infinidade de outras influências que vão moldando nossa forma de perceber a realidade. Logo a sexualidade humana é algo de uma complexidade muito grande. A redução da mesma a uma dimensão meramente fisiológica é rebaixar o ser humano de sua condição primordial de HOMO SAPIENS SAPIENS e animalizá-lo.

Assim a sexualidade humana deve ser compreendida dentro desta condição de complexidade intrínseca à mesma. Simone de Beauvoir (1980, p.301) afirmava categoricamente que “a gente não nasce mulher, torna-se mulher”[1]. Pode-se dizer o mesmo de qualquer outra expressão da sexualidade.

Acima de tudo, porém, a sexualidade precisa ser compreendida dentro da dimensão da relacionalidade. Somos seres relacionais e a sexualidade é, sem sombra de dúvidas, uma das expressões de nossos relacionamentos. O outro é que me constitui: só me torno marido diante de uma esposa!

As mudanças sociais das últimas décadas, com excessiva ênfase no individualismo, transformaram a sexualidade, de uma expressão relacional em uma expressão objetal, ou seja, ao invés do outro me constituir, torna-se um objeto para meu uso, na busca de um desfrute sensorial/fisiológico. Essa busca é sempre insaciável e neste viés surgem todas as perversões e a indústria da pornografia!

A sexualidade relacional é aquela que, muito antes da penetração genital, busca a interpenetração de ‘outros orifícios’ relacionais: a interpenetração do olhar, que atravessa o orifício da pupila e enxerga/ deixa enxergar a alma (Mateus 6:22); a interpenetração do falar, que atravessa o orifício auditivo e toca o mais profundo do ser (Provérbios 16:24) – não apenas a pele! Para estas outras interpenetrações é necessário muito tempo e diálogo fecundo. Não vai acontecer em um primeiro encontro – nestes encontros rápidos com finalidade sexual, o máximo que se obtém é o orgasmo fisiológico, e a verdadeira celebração da sexualidade é muito superior a isso.

É necessária uma nova reflexão (Romanos 12:2) sobre a sexualidade, fugindo da superficialidade de binarismos tipo (homo x hetero) que só causam discussões reativas e pouco fecundas. Pensar na sexualidade como uma construção complexa e permanentemente mutante, cujo elemento motriz é o RELACIONAL, é o desafio destas linhas!


[1] BEAUVOIR, Simone. (1980) O Segundo Sexo, vol I., tradução de Sérgio Milliet, Rio de Janeiro: Nova Fronteira