Há poucos anos atrás ouvi pela primeira vez falar desse tal de EP. De início me soou como mais uma das modernidades na indústria da música. Depois, pesquisando, fiquei sabendo que é uma abreviatura de “Extended Play” e que remonta os tempos do vinil. As categorias daquela época, mais conhecidas, eram basicamente os Compactos Simples e Duplos (que cabiam de uma a duas faixas por lado do disco, durando em média até 15 minutos) e o Long Play ou LP (que cabiam quantas faixas pudessem ser administradas naquele espaço – quase sempre de 4 a 6 de cada lado, numa duração média de 60 minutos). O EP era exatamente o formato utilizado entre o Compacto e o LP. Tinha em média de duas a oito faixas, com uma duração de 3 a 40 minutos.

Nos tempos do vinil era uma opção, apesar de não muito utilizada, para aqueles que gravavam uma quantidade de músicas insuficientes para um LP e mais do que pudesse conter num Compacto.

Os tempos passaram. Presenciamos uma revolução com o surgimento da música digital. Uma série de inovações foram incorporadas neste processo, reinventando as formas de captação, edição, mixagem, masterização, fabricação e distribuição, sem falar dos novos formatos disponíveis ao público e das interações artista-artista e artista-público. Possibilidades inimagináveis agora eram realidades disponíveis a um custo acessível.

No meio de tudo isso, vimos o ressurgimento do EP. É claro, debaixo de um novo conceito. Se antes, o que estava em jogo era o espaço físico disponível no vinil, agora o EP ressurge por outras razões.

Eu particularmente entendo que o EP é fruto dessa ansiedade que nos atinge a todos, viventes do mundo pós-moderno. A tecnologia trouxe enormes avanços no que tange a equipamentos e possibilidades de produção de um álbum. Se antigamente, para se produzir um trabalho era preciso pagar caro por algumas poucas horas de estúdio, hoje é possível ter um estúdio de qualidade no quarto dos fundos de casa a um custo razoável (considerando os preços dos equipamentos de anos atrás).

Assim, as possibilidades de gravação foram democratizadas. Existem inúmeras opções para se produzir um álbum, de acordo com o orçamento disponível. Opções que vão do mais simples ao mais complexo, do totalmente eletrônico ao totalmente acústico, do barato e econômico ao caro e sofisticado.

Acho que o retorno do EP surge especialmente como opção para aquele que tem poucos recursos financeiros, insuficientes para bancar a produção de um trabalho com 12 ou mais faixas, mas que tem músicas em estoque. Com o EP ele vislumbra a possibilidade de lançar um álbum por partes. É uma maneira que o artista encontrou para conter a ansiedade que antes precisava ser dominada por longos meses e anos de produção de um álbum completo. Por outro lado o EP é a forma encontrada para saciar um público cada vez mais ansioso por novidades. Talvez em nome dessa ansiedade mercadológica, vemos que artistas renomados também partiram para a produção de EPs, obviamente por razões diferentes do curto orçamento para a produção.

O certo é que o mercado da música se adaptou ao novo momento. O público mais antenado já não compra mais o CD físico, nem mesmo se liga em comprar um álbum completo, se as músicas não lhe agradam. Hoje compra apenas as faixas que lhe interessa nos sites de música digital ou as curte através dos aplicativos que oferecem música em streaming, como o Spotify, Deezer, Rdio, entre inúmeros outros.

É coisa do passado ficar aguardando o lançamento de um novo trabalho do artista preferido a cada ano, ou a cada dois anos. Hoje o mercado é tão dinâmico que algumas poucas canções são produzidas e lançadas em prazo de poucas semanas ou meses, sistematicamente, no mercado fonográfico. O EP se encaixa perfeitamente nisso.

Eu sou artista dos tempos do vinil. Estou nessa praia desde os anos 80, quando participei de minha primeira gravação num estúdio de 4 canais. Confesso que preciso me esforçar, e muito, para acompanhar toda essa evolução.

Foto de Pierre Yves Refalo (Todos os direitos reservados)

Foto de Pierre Yves Refalo (Todos os direitos reservados)

Quando menino, lembro-me sentado na sala dos meus avós tocando violão e cantando as músicas que havia aprendido com a família. O tio Beto, irmão da vó Elza, silenciosamente ouvia. Ele morava na cidade de Goiás Velho e, vez por outra, passava uns dias em Goiânia para visitar os médicos na peregrinação pela saúde já um tanto combalida. Quando terminei uma das canções ele suspirou e me perguntou: “Por que você não segue a carreira musical, vira um Rolando Boldrin?”. Eu sorri respeitosamente e disse: “Tio Beto, isso é impossível para mim, um menino do interior do país”. Não sei porque, mas aquele momento ficou marcado na minha memória.

Os anos passaram rapidamente. Tio Beto faleceu algum tempo depois. Segui tocando minha viola e meu violão. Agora não só cantando as músicas aprendidas na família, mas também compondo e gravando. Viajei por lugares e pisei palcos que nunca imaginei pisar. Tenho plena convicção que tudo isso é graça de um Deus que vai adiante abrindo portas e mostrando por onde passar e pisar, levando minhas canções.

Pois bem… Numa manhã de novembro desse ano abri meu computador para trabalhar e percebi uma mensagem luminosa na minha caixa postal. Tremi nas bases: era um contato da produção do Sr Brasil, programa da TV Cultura, apresentado, pasmem, pelo Rolando Boldrin. Era um convite a gravar. Fui invadido por antigas lembranças, gratidão a Deus e tentando imaginar como seria aquele momento.

Foto de Pierre Yves Refalo (Todos os direitos reservados)

Foto de Pierre Yves Refalo (Todos os direitos reservados)

Na data marcada viajei com a Claudia, minha esposa, e os demais companheiros da banda para São Paulo e gravamos o programa. Parecia um sonho aquilo tudo: tocar no SESC Pinheiros, gravar no Sr Brasil, assentar naquele banco por onde passaram inúmeros artistas que admiro profundamente, ao lado do Rolando Boldrin. Era muita emoção.

Ouço Boldrin desde a minha meninice, quando viajávamos na camionete do vô Nacim para a Barra, ou com meus pais para o Rio Araguaia. Ele era companhia sempre presente, ao lado de Luiz Gonzaga, Tião Carreiro e Pardinho, Cascatinha e Inhana, entre outros. Sempre o admirei. E agora eu estava lá, ao lado daquele ícone da música popular brasileira. Uma honra dada por Deus..

Enquanto preparávamos para a gravação, conversei um bom tempo com ele, no famoso banco de madeira e pude contar-lhe sobre a conversa do tio Beto. Disse o que aquele momento significava para mim. Ele graciosamente respondeu: “Você é muito bem vindo. A honra é nossa recebê-lo nesse programa”.

Nessa semana o Sr Brasil que gravamos foi ao ar e postado no Youtube pela produção do programa. Compartilho com você essa emoção. Espero que goste.

E sigamos adiante, porque tem muita cantoria ainda por fazer.

 

Em 1981 ouvi pela primeira vez o Grupo ACTOS, num acampamento em Goiânia. Foi revolucionário assistir a apresentação daquela rapaziada com um som e uma estética nada comum para a igreja dos anos 80. Era uma mistura de um cristianismo contextualizado e inteligente, com um visual hippie, marcado por uma música brasileiríssima e de fortes influências latino-americanas. Um deleite para nós, recém-chegados na igreja, que trazíamos em nossa origem musical influências do Clube da Esquina, Taiguara, Mercedes Sosa, Tarancón e tanta coisa boa dos anos 70 e 80.

Vavá e amigos

Vavá Rodrigues (à esquerda) e amigos. Foto original da contracapa do LP.

O ACTOS durou um breve tempo. Infelizmente não deixaram nenhum registro fonográfico. Mas Vavá Rodrigues, um dos mentores e autor da maioria das canções do grupo (quase sempre em parcerias com o Stenio Marcius), reuniu a rapaziada e gravou o LP “Brilhar”, lançado em 1985.

Eu bati um papo com o Vavá, relembrando o ACTOS e os 30 anos desse álbum incrível. No final da entrevista, compartilho um link onde você encontra o LP na íntegra, generosamente postado no youtube pelo Eliézer Venâncio.

 

Novos Acordes: Como surgiu o Grupo ACTOS. Qual era a formação?

Vavá Rodrigues: O ACTOS surgiu em 1981. Eu havia acabado de participar da gravação do disco “Vida em Vida” (Jovens da Verdade) com o Stênio Marcius e o Haryson Guanaes Lima. Foi a primeira vez que entrei num estúdio de gravação e fiquei encantado com aquilo tudo. Desde o lançamento do “De Vento Em Popa” (Vencedores Por Cristo), os ventos (com o perdão do trocadilho) da MPB Cristã, sopravam cada vez mais forte no coração dos moços daquela época e posso dizer que 90% do pessoal que andava com violão debaixo do braço pelas igrejas queria fazer um som que fosse mais a cara do Brasil, ou da América Latina.

Quanto a formação do ACTOS, acho melhor citar quem passou pelo grupo: o Stênio, o Haryson, Eu, Wanelly Botelho, Cláudia Vassão, Ana Raia, Eduardo Raia, Celso Raia, Marcos Barros, Beto Barros, Alcinéia Luz, Selma de Oliveira, Sonia Polonca, Marisa Salles, Gilda e por último Cíntia e Silvia, que nunca deixaram de ser dupla.

 

Novos Acordes: O que tornava o Actos um grupo ímpar? Quais eram suas principais influências?

Vavá Rodrigues: Diferentemente dos grupos musicais que surgiam dentro das igrejas, reproduzindo e fazendo covers principalmente de VPC, o ACTOS era um grupo “interdenominacional”. Surgiu na IPI do Ipiranga, mas reunia batistas e presbiterianos independentes que queriam fazer música própria. E fazer música própria para nós, naquele tempo, era reproduzir a sonoridade dos artistas que nós ouvíamos, assistíamos os shows e nos juntávamos na casa de alguém pra ouvir e reouvir o vinil. Nomes como Boca Livre, Céu da Boca, MPB4, Quarteto em CY e os latinos Tarancón e Raíces de América.

O ACTOS foi uma onda musical que durou apenas três ou quatro anos, mas que contaminou e contagiou muita gente. Afinal, quebramos alguns paradigmas, inauguramos o uso da mesa de percussão dentro das igrejas (as que permitiam… rsrsrs), executávamos música latina com instrumentos andinos, fazíamos ritmos nordestinos sem a menor cerimônia, cantávamos canções sem letra só explorando vocalizes e reproduzíamos pequenas óperas bufas quando executávamos canções infantis… O ACTOS mergulhou de cabeça nisso e acho que foi justamente isso que encantou tanto as pessoas naquele tempo. Era algo inovador e ousado para a época.

 

Novos Acordes: O Actos chegou a gravar algum LP na época?

Vavá Rodrigues: Não! Planejamos, mas nunca aconteceu.

 

brilhar

Capa do LP “Brilhar”, lançado em 1985 pela Bom Pastor

Novos Acordes: Qual a conexão entre o Vavá e Amigos, que gravou o Brilhar, e o ACTOS? Os integrantes eram os mesmos?

Vavá Rodrigues: Depois de alguns anos de estrada, tempo este em que nos apresentamos em igrejas, colégios, teatros e acampamentos em vários lugares do Brasil e também conhecemos Cíntia e Silvia, Wesley e Marlene, João Alexandre, vimos nascer o MILAD e mais uma penca de grupos que vinham na cola da nossa sonoridade, o ACTOS parou. Acho que cansamos, minha leitura é que apenas como grupo musical o projeto iria se esgotar e foi o que aconteceu. Quando você não consegue gerar um fruto do seu trabalho (nesse caso específico, um LP), é natural que venha um desânimo, um tipo de desgaste.Nem sei exatamente como o grupo acabou, simplesmente fomos recusando convites para nos apresentar, estávamos cansados. Mas não deixamos (alguns amigos que fizeram parte do ACTOS), de nos encontrar para ensaiar e fazer música. Engraçado que num primeiro momento, a idéia de um disco seria para registrar um pouco do que o ACTOS produziu em seus anos de vida, mas o que aconteceu foi o surgimento de um repertório totalmente novo e com canções que nunca havíamos cantado. Nasceram então: O Dia Da Vitória, Irá Me Guiar, Pare Um Momento, O Que Dizer?, A Porta, Cantares, Exaltação, enfim, todo o repertório do “Brilhar” e mais duas canções: Salmo 134 e Amo ao Senhor que foram gravadas, mas que não couberam no vinil.

Portanto, o “Brilhar” foi gravado por integrantes do ACTOS, Cíntia e Silvia, com o instrumental do grupo ALOÉS, um pessoal quentíssimo que fazia música instrumental de primeira linha na época. Músicos como Emílio Mendonça, hoje professor no IMT, o guitarrista Omar Campos e o baixista Jadão Junqueira. Não era exatamente o ACTOS, por isso o nome óbvio de AMIGOS.

 

Novos Acordes: Como o disco foi produzido? Foi uma produção independente ou havia uma gravadora por detrás?

Vavá Rodrigues: Tomei a iniciativa de fazer um disco independente e tentar pré vendê-lo nas apresentações do grupo ainda como ACTOS. Juntei algum dinheiro e começamos as gravações na COMEV, em São Paulo. A pré venda através de carnês não foi propriamente um sucesso e depois de um ano e meio, o disco estava parado e eu, devendo para o estúdio. Neste momento, através do Maurão Oliveira, conheci o Elias de Carvalho, proprietário da gravadora Bom Pastor, que se interessou pelo projeto e resolveu bancá-lo introduzindo na etapa final de gravação músicos como Luiz Antônio Karam, Hector Costita e o flautista Sumé. Não era exatamente o melhor dos mundos, pois no meu coração o BRILHAR era pra ser um disco “cabeça” (besteira), não elitista, mas um álbum para um público universitário, mais crítico, e a Bom Pastor sempre foi forte no nicho de mercado dos neo e pentecostais. Logo, éramos um produto meio fora de contexto no casting da gravadora. De qualquer forma o problema estava resolvido. O legado musical do ACTOS, apesar de não ter nenhuma das canções que o ACTOS tanto cantou, seria preservado.

 

vavá 2015

Vavá Rodrigues no NMB 2015. Foto de Cris Tozzi.

Novos Acordes: O disco chegou a ser lançado?

Vavá Rodrigues: Não! O disco saiu em abril de 1985, teve uma distribuição excelente, chegou aos mais recônditos lugares do país, ganhou espaço nas rádios evangélicas e as pessoas aos poucos foram conhecendo e se interessando pelas canções, acredito eu, justamente pelo gostinho de novidade que elas tinham e ainda tem. Nunca fizemos uma apresentação ou um show com o repertório desse álbum. Mas mesmo assim ele figurou listas dos melhores discos de música evangélica já gravados no Brasil. A matriz não existe mais, foi destruída em um incêndio que ocorreu nos anos noventa, no galpão da Bom Pastor. Tenho alguns vinís ainda em casa e também fitas cassete com o som impecável. Graças ao Eliézer Venâncio, de Santo André, o Brilhar está disponível no youtube.

Agora no último NMB (Nossa Música Brasileira), realizado no Acampamento dos Jovens da Verdade, em Agosto de 2015, tive o doce privilégio de executar três de suas canções em sequência como se fosse um mini lançamento 30 anos depois. E não é que todo mundo cantou junto?

 
Para ouvir o álbum “Brilhar”, de Vavá e amigos, clique aqui 

 

 

 

Crédito da Foto: Karina Santiago

Crédito da Foto: Karina Santiago

Há algumas décadas atrás os músicos cristãos quase sempre ficavam restritos ao meio eclesiástico, tocando apenas nos cultos. No entanto, essa profissão conquistou espaço e hoje é reconhecida tão digna quanto qualquer outra.

São muitos os profissionais cristãos que se destacam no atual cenário musical erudito e popular. E a música instrumental  também recebe contribuições de artistas geniais que cresceram nas fileiras das igrejas, ou que tiveram um encontro pessoal com Jesus Cristo na caminhada.

Um dos instrumentistas que se destaca no cenário brasiliense é Felipe Viegas. Pianista de mão cheia, Felipe é bacharel em música pela Universidade de Brasília. Embora ainda jovem, há anos acompanha artistas conhecidos no cenário local e nacional, como Hamilton de Holanda, Roberto Menescal, Eduardo Neves, Gabriel Grossi, entre outros. Atualmente participa da banda de Ellen Oléria como pianista, arranjador e produtor musical.

Há três anos o Viegas  também participa da banda que me acompanha pelo Brasil e exterior. Além de um músico bem acima da média, é um grande amigo e parceiro de canções.

Em 2013 gravou seu primeiro trabalho autoral. “Encontro” reúne 8 faixas, todas de autoria própria. Foi acompanhado por uma banda da pesada: Daniel Santiago (violão), Frederico Heliodoro (baixo), Pedro Martins (guitarra), Renato Galvão (bateria) e Josué Lopez (sax). A produção foi de Daniel Santiago (guitarrista e violonista do Teatro Mágico, João Bosco e Hamilton de Holanda Quinteto).

O álbum está disponível nas plataformas digitais Spotify, Deezer, Rdio, Itunes, entre outras. Em breve sairá a versão CD, com capa muito bem transada, encarte contendo informações sobre a produção e outros detalhes que os “velhinhos” como eu ainda prezam em ter nas mãos.

Vale a pena ouvir! Posto aqui a faixa “Dia Novo” para se ter uma degustação da beleza que é esse trabalho.

 

O Nossa Musica Brasileira é um evento de artes que há 9 anos é realizado em Arujá, nas proximidades da cidade de São Paulo. Promovido pela missão Jovens da Verdade reúne diversas expressões artísticas. Como o próprio nome sugere, a música é o forte. Mas vemos ali outras expressões como poesia, fotografia, vídeo, performances teatrais, pintura, decoração, artes visuais, entre outras. A brasilidade se espalha de diversas formas, ritmos, cores, aromas e sabores – falando nisso, a culinária sempre surpreende.

NMBTive o privilégio de participar nessa nona edição. É sempre uma alegria. Tornou-se um encontro de amizade, uma verdadeira celebração de vida. A cada ano alguns artistas sobem nos dois palcos, num revezamento respeitoso e parceiro. Todos entendem que não há competição – sentem-se complementares.

Infelizmente, nem todos artistas ali reunidos se apresentam nos palcos, pois não haveria tempo suficiente para a demonstração de tanta riqueza e pluralidade. Mas, a cada ano, excelentes trabalhos, mas ainda pouco conhecidos, são divulgados acrescentando ainda mais a essa rica nossa música brasileira. Há espaço ainda para todos que querem compartilhar suas canções, assentados nos bancos de cimento ou na grama, sob a sombra das árvores, doando-se em abraços, na simpatia, nos incentivos mútuos e no surgimento de novas parcerias musicais. É um evento  que oferece múltiplos espaços.

Que bom que o NMB existe. Obrigado Raquel e André, Jasiel e Ivone, Wilhão, Anderson e Lisa Claúdia, e tantos e tantos outros que fazem daquele espaço algo tão especial em nossas vidas.

Agora é se preparar para os dez anos que serão celebrados em 2016. Aguardaremos com expectativa.

 

 

 

Engana-se quem pensa que a viola nasceu no Brasil. Ela chegou por aqui trazida pelos religiosos no início da colonização, por volta de 1549 – data da chegada do primeiro grupo de seis jesuítas, sob o comando do padre Manoel da Nóbrega. Chegou como viola de arame, uma prima da guitarra portuguesa. Era, inicialmente utilizada nos serviços religiosos dos padres empenhados na catequização e educação dos indígenas.

Com o passar do tempo a viola adquiriu nuances próprias nessas terras. Nas mãos de artesãos locais foram introduzidas pequenas alterações na sua construção.

viola

Um modelo contemporâneo baseado na viola de Queluz

“Nascia assim um dos mais importantes instrumentos da música brasileira: viola de dez cordas, viola de arame, viola de pinho, viola cantadeira, viola pantaneira, viola cabocla, viola sertaneja, viola nordestina, viola tropeira, viola campeira, viola caipira ou, simplesmente, viola brasileira” (Angelim, no livro “Uma viola rio abaixo”, Thesaurus Editora).

Na verdade não podemos dizer que exista apenas um tipo de viola no Brasil. São vários. Mudam desde o formato do corpo, à disposição do número de cordas (agrupadas em ordens de duas cordas ou não), e especialmente na diversidade de afinações. Por exemplo, a chamada viola caipira, derivada da viola de Queluz (antiga cidade de Minas Gerais, hoje Conselheiro Lafaiete), comumente agrega cinco ordens de duas cordas. No nordeste encontramos com dois pares de ordens e mais três cordas: é um dos modelos da chamada viola nordestina, adaptada por alguns repentistas a partir do violão. Existem ainda instrumentos com 6 ordens de duas cordas, e outros, encontrados no sul do país, com “um pequeno cravelhal – com apenas uma cravelha – ao lado do tampo, afixado entre este e a lateral do braço” (Roberto Corrêa, no livro “Tocadores – homem, terra, música e cordas”, Olaria Projetos de Arte e Educação). Isso sem contar a viola de cocho, encontrada no pantanal mato-grossense, a viola de cabaça, a viola de bambu, entre outras.

A viola caipira se popularizou através do rádio, a partir dos anos 50, por meio de famosas duplas como Tonico e Tinoco, Tião Carreiro e Pardinho. Adentrou por outras linhas da música popular brasileira sendo utilizada nos festivais dos anos 60 e, depois, por artistas que mesclavam o regionalismo em suas canções.

Hoje é possível ver a viola caipira presente inclusive em trabalhos de artistas cristãos que difundem sua fé por meio das artes. Quem acompanha minha trajetória musical sabe da importância da viola caipira para mim. Ela é um instrumento presente em toda a minha produção.

Marco Neves, um grande instrumentista, incentivado pela Comunidade de Jesus, no interior de São Paulo, gravou dois volumes do “Viola Louvadeira”, causando uma grande repercussão nacional. Neles, interpretava hinos e conhecidos cânticos ao som das dez cordas, acompanhado por percussões, rabecas e violões. Segundo me confidenciou, disse que certa feita iria dirigir a música no culto de sua igreja, mas, confundido, esqueceu o violão. O que tinha ficado no porta-malas do carro, após a gravação num estúdio, era o case com a viola. Sem saída, resolveu arriscar e dirigiu todos os cânticos no estilo caipira. Não deu outra! A comunidade amou e decidiram gravar os CDs.

Nessa lista de artistas da viola ainda encontramos Silvestre Kuhlmann, Roberto Diamanso (com uma linguagem violeira mais nordestina que caipira), o casal Wesley e Marlene, Vavá Rodrigues, que inclusive está com um maravilhoso CD caipira às portas de ser lançado, entre alguns outros.

Percebo que uma nova geração começa a se interessar pela viola e por outros instrumentos característicos de ritmos brasileiros regionalistas. O uso do acordeom, ou sanfona, tem crescido bastante nas produções atuais. Esses dias conheci uma moça em São Paulo que está estudando a rabeca. Aulas de pandeiro, de zabumba e de percussão em geral conquistam cada vez mais adeptos.

Aos que se interessam no aprendizado e aprofundamento da viola caipira tenho uma boa notícia. O violeiro Roberto Corrêa acaba de lançar um material de estudo de muita qualidade. É o DVD “A Arte de Pontear Viola”, que vem na linha do livro de mesmo nome.

Considero o Roberto Corrêa como uma das pessoas que mais contribuiu e ainda contribui para o aprimoramento do estudo da viola caipira no Brasil e no mundo. Descendente de violeiro, ele buscou conhecimento na fonte, entre os que vivem no sertão. Mesclou esse saber popular com a técnica do violão erudito que já possuía. Sistematizou práticas, registrou-as em partituras e tablaturas e gravou estudos, compartilhando seus conhecimentos. E não parou por aí: juntamente com admirados construtores de instrumentos de cordas trabalhou no aperfeiçoamento de escalas, pontes, braços etc. Em contato com representantes de fábricas de encordoamentos nos EUA, pesquisou jogos de cordas que se adaptassem bem às violas, o que culminou com o lançamento de marcas importadas voltadas para esse instrumento. Percebeu que a afinação cebolão em Ré poderia somar na melhoria da sonoridade e na popularização do instrumento entre outros estilos musicais, passando a utilizá-la e difundi-la. Repartiu tudo isso com inúmeros alunos que hoje se tornaram igualmente mestres e instrumentistas reconhecidos. O DVD “A arte de pontear viola” é praticamente o coroamento de todo esse trabalho ímpar. Segundo Roberto, “creio que com este trabalho finalizo minha contribuição no repasse do que aprendi com violeiros da tradição e violeiros da duplas caipiras. Agora vou cuidar de facilitar, expandir e difundir o repertório da viola caipira”.

Fica a dica aos interessados. Vamos tornar a viola cada vez mais conhecida e utilizada. É realmente um instrumento fantástico!

Orbis é um estúdio de nome em Brasília. Dirigido por Marcos Paulo Pagani, recentemente recebeu o Prêmio Profissionais da Música em 2015 como o melhor estúdio de masterização. Há mais de um ano, criou o projeto audiovisual “Valendo no Orbis”. Nesta série, procura tirar o som de uma banda à moda antiga, ou seja, gravando ao vivo, sem overdubs, edições ou dobras de canais. O som chega como ele é, passando apenas por uma mixagem, colocando timbres e volumes nos seus devidos lugares.

O projeto já está em sua segunda edição. E nessa feita fomos convidados a participar. Escolhi duas parcerias minhas com Gladir Cabral: a contagiante “Rastapé” –  um rastapé caipira inspirado nos sucessos antigos de Tonico e Tinoco (Moreninha Linda), e “Ouro Preto” – nossa canção premiada no Festival Candango Cantador. Ambas integram meu novo CD “Parceiragens”.

Fui acompanhado por meus amigos, irmãos parceiros de longa caminhada: Cláudia Barbosa (flauta), Eline Márcia (vocal), Leo Barbosa (percussão), Ismael Rattis (percuteria), Felipe Viegas (violão e piano). Marcou a despedida, espero que provisória, do Pedro Feitoza (baixo), que nos deixou por um tempo, por causa de seu doutoramento na Inglaterra. Bons estudos, meu filho!

Curtam aí: Carlinhos Veiga e Banda no “Valendo no Orbis”! E nos ajude a espalhar…