Era noite do dia 25 de agosto, sábado. Acontecia em Arujá, São Paulo, o Nossa Música Brasileira. Mais uma vez eu teria a oportunidade de ouvir o poeta e cantor Roberto Diamanso acompanhado do fantástico Cezar Abianto, o Cezar do Acordeom. No repertório, músicas autorais e clássicos nordestinos. Foi uma noite inesquecível. A banda sob a batuta do mestre Cezar tocou magistralmente. O que eu não poderia imaginar é que seria a última vez que veria a apresentação daquele extraordinário músico.

Há anos o Cezar não gozava de boa saúde. Perdera praticamente toda a visão. Tinha muitas limitações físicas. A diabetes havia se instalado e afetado seu corpo por inteiro. Mas naquela noite, apesar do corpo combalido, o Cezar tocava como nunca. Era colocar o fole na sua mão e ele se transformava. Exibia destreza com notas rápidas, precisas, extremamente bem colocadas e uma harmonia complexa e impecável.

Abianto Valdevino Leite, o Cezar do Acordeom, era cearense de Cedro. Nascido em 1950, veio para São Paulo com o fim de disseminar a cultura musical nordestina. Mas, virtuose como era, acabou adquirindo um vocabulário musical imenso e versátil. Navegou por diversos estilos: chorinho, bossa nova, caipira, tango e várias outras facetas da música mundial. Acompanhou nomes como Camélia Alves – cognominada por Luiz Gonzaga como a rainha do baião, Inezita Barroso, Jair Rodrigues, Elba Ramalho, Almir Sater, Renato Teixeira, Raimundo Fagner entre inúmeros outros. Tocou com os geniais Luiz Gonzaga e Dominguinhos. Fez um som até com o Bobby Keys, conhecido saxofonista que acompanhou os Rolling Stones, George Harrison, John Lennon, Eric Clapton, Joe Cocker, entre outros. Participou em turnês por diversos países.

Lembro-me de ver o Cezar na TV, acompanhando a Airô Barros, no Sr Brasil. A pedido do Rolando Boldrim, a Airô apresentava um por um dos músicos que a acompanhava. Quando chegou no Cezar, o Boldrim disse: “esse caboclo aí você não precisa apresentar não; ele tem uma história muito antiga comigo, desde os tempos da Rede Globo”. Era um músico muito conhecido no meio artístico.

A conversão do Cézar se deu em setembro de 1998. Marta, sua esposa, o convidou para um culto na Igreja Batista. Ele ficou encantado com a música e, especialmente, com um tecladista que tocava os hinos. Foi a porta que Deus usou para que o Evangelho entrasse no seu coração. Ele respondeu positivamente à mensagem e em dezembro do mesmo ano foi batizado nas águas. Desde então nunca abandonou a fé. Seguiu tocando o melhor da música brasileira, mas agora, movido por outra inspiração.

Conheci o Cezar Abianto através do Diamanso. Os dois haviam formado uma dupla incomparável: a poesia extraordinariamente “fora da curva” havia encontrado uma música correspondente. Ver os dois juntos era sempre muito bom. É claro que haviam algumas tensões, coisas que comumente surgem na convivência dos geniais.

Na fria noite de agosto, no NMB, ouvimos uma música alegre e maravilhosa. Sem nos darmos conta, era também uma despedida. Em determinado momento, não consegui me conter; me aproximei do Cezar. Ele percebeu o meu vulto, mas sua visão não permitia mais identificar quem estava ali. No pé do ouvido disse: “Sou eu, o Carlinhos Veiga!”. Ele soltou um sorriso largo, inclinando a cabeça pra trás, enquanto seus dedos desenhavam agilmente nas teclas brancas e pretas um baião de Dominguinhos.

Trago essa imagem comigo. Recordo o generoso Cezar que incontáveis vezes acompanhou tantos artistas, inclusive a mim, sempre prestativo e atencioso. Um dia estaremos todos juntos numa festa muitas vezes mais linda do que essa do agosto passado. Ela já foi agendada, no reino dos Céus. E o Cezar do Acordeom, cujos pecados foram lavados no sangue do Cordeiro, estará por lá com seu acordeom. Vai ser um forró abençoado como nunca!

 

Ouça o podcast Novos Acordes com Cezar Abianto e Roberto Diamanso aqui publicado em outubro de 2009.

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