No sábado, 13 de novembro, a FTL Brasília realizou um Café Teológico para tratar sobre as “Impressões sobre Lausanne 3”. Com uma participação de aproximadamente 25 pessoas e mais 22 pela internet (via twitcam), ouvimos a exposição de quatro pessoas presentes no congresso que depois puderam responder as perguntas dos participantes presenciais e via web. Abaixo dois artigos repercutindo o encontro.

SÍNTESE DO CAFÉ TEOLÓGICO “IMPRESSÕES SOBRE LAUSANNE 3”

Cláudia Barbosa*

Na manhã do dia 13 de novembro, nas dependências da Igreja Presbiteriana do Planalto, foi realizado mais um Café Teológico da FTL, núcleo Brasília. O tema abordado foi “Impressões sobre Lausanne 3”, com exposições de quatro participantes da comitiva brasileira no congresso. Estiveram presentes 26 pessoas, além de outros 20 participantes via internet (twitcam).

O Tema do Congresso Mundial de Evangelização Cape Town 2010, também conhecido de Lausanne 3 foi “Deus reconciliando consigo o mundo”, baseado no livro de Efésios. O mesmo foi realizado entre os dias 24 a 31 de outubro de 2010, na África do Sul.

Logo abaixo seguem os resumos das palavras de cada preletor:

Carlinhos Veiga:

Ele deu a palavra inicial mostrando uma visão panorâmica do congresso. Fez um breve histórico dos congressos Lausanne 1 (Lausanne, Suiça, em 1974) e Lausanne 2 (Manila, Filipinas, 1989) e o pano de fundo sociopolítico que os envolveu. A participação de teólogos latinoamericanos em Lausanne 74, na Suíça, marcou profundamente os rumos do congresso. O documento final, conhecido como Pacto de Lausanne, foi considerado um marco revolucionário na caminhada da igreja.

Por outro lado, o segundo congresso, realizado em Manila, foi considerado como um retrocesso na direção do movimento Lausanne.

Quinze anos depois é realizado, na Cidade do Cabo, África do Sul, o terceiro congresso Lausanne. Num formato diferente, a novidade e a ênfase ficaram com os pequenos grupos de 6 pessoas.  Cada exposição bíblica no plenário, era repercutida nesses grupos. Durante as manhãs foi estudado o livro de Efésios.

Depois de uma breve explicação da dinâmica do congresso. Carlinhos trouxe suas impressões do mesmo:

  1. Participar de Lausanne 3 foi uma grande oportunidade para conhecer bem de perto a igreja de Cristo em especial a igreja sofredora. Testemunhos impactantes de irmãos e irmãs que vivem as graves conseqüências de ser um discípulo de Jesus em contextos fechados.
  2. Oportunidade para reconhecer a beleza de Cristo Jesus na diversidade de sua igreja: cores, jeitos, falas e tons.
  3. Perceber a beleza da obra de reconciliação realizada por Cristo no mundo através de sua igreja.
  4. Constatar que a América Latina precisa ocupar seu espaço no movimento da evangelização mundial. Necessidade de ser mais presente nos processos dos movimentos mundiais de evangelização.
  5. Perceber que a temática da Missão Integral permanece mais viva que nunca. Um dos pontos altos, pelo seu significado emblemático, foi o diálogo entre René Padilla e Samuel Escobar.
  6. Oportunidade para testemunhar que a igreja tem utilizado responsavelmente as diversas manifestações artísticas no serviço do RD. No entanto, foi diagnosticado que boa parte ainda continua domesticada a um modelo norte-atlântico comercial – essa foi a música que predominou. Faltou espaço para celebrar a beleza da música em sua diversidade cultural, nem que fosse somente a africana.
  7. Perceber que Deus visita a sua igreja, vivifica-a com o ES e conta com a sua obediência.

Ana Maria Costa:

Apresentou o material do congresso: cadernos, jornais etc. A cada dia era distribuído um informativo com comentários, fotos e críticas do congresso.

Ela nos informou que durante o congresso foi divulgado um relatório missionário com a lista dos povos não alcançados. No entanto era um documento repleto de equívocos. Ana Maria discordou dos dados por sua desatualização. O congresso deu ênfase nos povos não alcançados.

Por outro lado, avaliou positivamente o material distribuído aos congressistas. Falou sobre a diferença que fez as reuniões em pequenos grupos e o impacto disso nos congressistas. Cada grupo de 6 pessoas tinha alguma coisa em comum, uma ótica nova de como ver a igreja pelo olhar de outros povos. E o que mais marcou esses grupos foi a comunhão. Pessoas de todas as regiões do mundo, com suas diferenças culturais, mas com o mesmo coração.

Impactada com o testemunho do que o avivamento fez na Uganda, passou a orar pedindo a Deus um verdadeiro avivamento para o Brasil.

Multiplexes eram reuniões realizadas à tarde, distribuídas por temas. Ana Maria destacou um multiplex sobre o tema parcerias. Segundo ela, parcerias são raras em nossas realidades. Porém um trabalho eficaz requer caminhar junto. A unidade é um requisito fundamental para que a igreja de Jesus no Brasil possa impactar o mundo como evangelho. Ana ressaltou a parceria homem e mulher, não competindo, mas complementando, seguindo o modelo da trindade, três em um.

Outro destaque foi a sala de oração com tapete grande de couro e um grande globo. Sempre tinha alguém orando em profunda comoção pela evangelização do mundo. Nossas doutrinas nos separam, mas a oração nos une, quem ouve é um só.

Durante os dias, foram realizados o Café das Mulheres, um momento especial de testemunho de mulheres no mundo.

Thiago Tomé:

Thiago fez uma descrição da construção do processo que eclodiu em Cape Town 2010. Na década de noventa, o movimento passou por uma crise e Deus mesmo levantou pessoas parar reerguer o movimento.

Foram realizadas reuniões de movimentos com a juventude para ouvir e retomar os rumos do movimento de Lausanne. Em 2007 foi realizado um encontro, em menor escala, nos moldes de pequenos grupos. Ali debateram a logística e programa para o que seria Lausanne 3. Thiago esteve presente juntamente com outros brasileiros.

Momentos importantes marcaram esses encontros preliminares, como por exemplo o contato com a igreja perseguida. A juventude é convocada para uma reunião de oração e são despertadas a orar pela Coréia. Mesmo diante das barreiras culturais, percebe-se a unidade que a oração produz. Tanto em 2007 quanto em 2010 a marca da unidade foi na oração. Clamor por pessoas que querem viver o evangelho e são proibidas.

O processo de organização de Lausanne durou cerca de 6 a 7 anos. O resultado foi um momento de despertamento. O congresso adotou um formato Google, com muitas janelas, porém pouco tempo de aprofundamento. O programa foi feliz ao abordar pontos sensitivos. A grande maioria dos presentes era jovem e houve um aproveitamento das linguagens próprias da juventude: dinâmica, testemunhos, multiplexes, etc. Mistura bem sucedida de academicismo, testemunho e quebrantamento.

O impacto da carta de perdão aos africanos, escrita pela delegação brasileira, e os desdobramentos e repercussão da mesma é algo merecedor de destaque.

Quanto à Igreja perseguida, devemos honrar o sangue daqueles que estão morrendo por amor a Cristo. Sentir o que eles sentem, o sofrimento deles é também o nosso sofrimento.

Críticas: A proclamação do evangelho deve ser acompanhada de vida e esse assunto não foi tão explorado no congresso. A questão do meio ambiente não foi abordada com a seriedade que o assunto merece. A declaração do congresso toca em temas que não foram abordados no congresso. A participação da América Latina foi mesmo insignificante pela desarticulação,  entre outros motivos.

Ricardo Barbosa:

Lausanne 2010, foi a celebração de uma colheita. Somente depois de 10 anos da realização de Lausanne 74 é que chega ao Brasil o Pacto de Lausanne. A reação posterior de Lausanne 74 foi um fechamento para a questão da Missão Integral (MI). A ênfase dada foi a volta da evangelização de almas sem nenhum compromisso com questões sociais.

Depois vieram os CLADES e esses temas da MI foram encontrando espaço e sendo incorporados na vida da igreja no nosso continente e no mundo.

Lausanne 3 foi uma grande celebração. Basicamente todo o testemunho dado tinha a ver com a MI. Exemplos: a indiana que trabalha pelos escravos na India; da africana que trabalha na inclusão dos aidéticos na igreja; ONG que trabalha entre os homossexuais. Todos os testemunhos tinham a marca da MI. Ricardo foi impactado pela graça de Cristo no testemunho de dois homossexuais, principalmente sobre o fato de que nosso discurso sobre a graça é um, mas nossa prática é outra.

Outro testemunho marcante foi sobre o massacre de Ruanda. Em 100 dias, mais de um milhão de pessoas foi executada naquele país. Na época existia ali uma igreja forte, em franco crescimento. Como se explica isso? Era uma igreja superficial, excluída dos processos sociais, numa relação corrupta com a política, falta de integridade dos líderes da igreja.

Para Ricardo, não teremos outro pacto de Lausanne tão cedo. Outro cenário está se formando em volta da MI, que não está nas grandes denominações, mas nos pequenos movimentos ao redor do mundo.

Davi Rabelo:

Davi participou como voluntário, atuando nos bastidores do congresso e servindo aos congressistas. Fez parte de 300 jovens que foram para trabalhar. Uma experiência rica e profunda com pessoas de todos os lugares e perceber a imensidão da igreja de Cristo. A diversidade marca a Igreja, mas mesmo assim há uma única identidade.

Ele foi escalado para trabalhar como segurança. Ficou impressionado com o uso da tecnologia a serviço do Reino, com quase todo o programa sendo transmitido ao vivo e com a rapidez que as informações eram colocadas na rede para a disponibilidade de milhões de pessoas ao redor do mundo

Foi um trabalho cansativo e estressante, mas pôde sentir o movimento do congresso. Algumas ameaças foram feitas ao evento e a segurança foi coordenada por profissionais da área. A questão que envolve a igreja perseguida e sofredora é bem mais complexa do que se pode imaginar. Identidades precisaram ser preservadas. Assim pôde ver a importância do evento e o quanto ele foi marcante.

A internet no congresso funcionou muito mal nos primeiros dias. Só depois foi divulgado que “hackers” estavam entrando no sistema para atrapalhar a transmissão da informações.

* Cláudia Barbosa é a coordenadora da FTL Brasília.


UMA LEITURA SOBRE AS “IMPRESSÕES DE LAUSANNE 3”

Osvaldo Reis**

Lausanne 3 foi o que se pode chamar de despertar de um movimento que se achava adormecido, ao menos se compararmos com Lausanne 2, nas Filipinas, em 1989. Usando livremente versículo de Efésios – livro estudado no Congresso de Cape Town – aquele que dormia foi despertado (Ef 5.14).

Alguns temas vieram à tona que talvez não estivessem conscientemente na pauta dos congressistas, mas certamente são fruto do direcionamento do Espírito – que atua a despeito de nós – nesses dias de encontro da igreja mundial de Cristo. Diversidade, parceria e martírio formaram a espinha dorsal do Congresso, que teve como centro o tema “Deus em Cristo reconciliando consigo o mundo”. De fato, para haver reconciliação há que se respeitar a diversidade, há que se reconhecer a necessidade do outro em parcerias, e há que se entender que o evangelho que ama e que luta pela vida ocorre em meio a tribulações e, por conseguinte, ao sofrimento.

Reconhecer a diversidade estampada nas ruas de Cape Town, nos corredores do Congresso de Lausanne 3, nas plenárias, nos cafés, nas falações, nos momentos ímpares de oração, nos testemunhos, serve para revigorar a caminhada, ressuscitar corações amortecidos, perceber-se pertencente ao povo de Deus com todos os seus matizes. Essa consciência de pertencimento faz com que as escamas de nossos olhos caiam e enxerguemos a igreja do Senhor muito mais além das ranhuras institucionais do denominacionalismo. Serve para entendermos que se Deus permite as denominações, quer que saibamos que são contingências históricas, e não vetores determinantes da igreja. A Igreja (com “i” maiúsculo) está além dos corredores denominacionais e, simbolicamente, parece que se reuniu em Cape Town para dizer que a maior denominação é aquela já emblematizada pela Bíblia: povo de Deus.

Reconhecer a diversidade, porém, requer conversão. É elegante e “politicamente correto” alegrar-se com tanta diversidade étnica, cultural, doutrinária que compõe o povo de Deus literalmente espalhado pelos quatro cantos do planeta. O problema surge quando devo me reconhecer servo do outro, quando me disponho a oferecer-me como parceiro, quando também reconheço minha limitação e preciso das mãos irmãs do outro, e ver em tudo isso a dança celebrativa do povo de Deus. Deus é celebrado nessa ciranda de mãos que se unem e se dão. Lembrando o compositor popular: “Como se fosse brincadeira de roda, jogo do trabalho na dança das mãos, o suor dos corpos na canção da vida, o suor da vida no calor de irmãos.”

Parceria requer conversão pelo fato de precisarmos reconsiderar pontos-de-vista e deixarmos vir à tona preconceitos para então exorcizá-los – como uma terapia freudiana que visitasse o profundo de nossa alma. Parceria se dá com ouvidos e corações abertos ao outro, parceria se dá com alteridade. Parceria é celebração da graça de Deus.

Celebrar a graça, porém, pode acarretar em desgraça. A graça desarma, inverte prioridades, põe de ponta-a-cabeça a lógica política e econômica e, por que não, denominacional – é quase anárquica! Transforma vilões em santos e santos em vilões; diz que “o rei está nu” e que o paradigma do Reino são os pequeninos. Não à-toa Lausanne 3 desfilou testemunhos de quem passou ou assistiu perseguições letais. Mais do que comovente, ouvir tais testemunhos é desafiador para que a voz profética da igreja seja despertada em rincões onde a perseguição é ínfima ou camuflada. Os testemunhos dados em Cape Town sobre enfrentamento da injustiça em países opressores e que calam a voz da igreja, serve para que os cristãos dos países chamados democráticos sejam incitados a também erguerem suas vozes contra a injustiça, afinal não é o fato de ser democrático que torna um país justo. Neste aspecto, Lausanne 3 reafirma a agenda dos excluídos. O tema aparentemente óbvio é preciso ser reafirmado em tempos de teologia da prosperidade. Cabe, então, ecoar essa agenda nas homilias e posturas das igrejas locais. Longe de fazer apologia à pobreza, a igreja deve repensar a simplicidade, a não ostentação e a mordomia. Combater a injustiça “mundana” deve começar pela justiça fraterna eclesiástica.

Não apenas essa voz profética deve ser alçada para combater injustiças que estão além dos arraiais da igreja, mas dentro dela também. Não se deve esquecer os ditos de Jesus que “os inimigos do homem serão os da sua própria casa”. Assim, deve-se falar e agir em prol de uma igreja acolhedora, dialogal, não maniqueísta, entendendo que isso acarretará em perseguição, mas entendendo que se está, nada mais nada menos, do que repetindo o Senhor da igreja.

É importante, aqui, ressaltar o tema do Congresso. Jesus reconcilia consigo o mundo. Uma visão dicotomizada ou maniqueísta do mundo leva à alienação da igreja. Achar que existe algum setor da existência que é impuro e que por isso não deve ser matéria da ação da igreja é rasgar a Bíblia e tudo aquilo que ela diz sobre o senhorio de Deus e sua soberania. Afinal, a missão é integral, e isso já estava no primeiro Congresso de Lausanne nos idos de 1974.

O separatismo, que apenas faz incursões aqui e ali no mundo, cria uma subcultura evangélica e pode levar a uma pasteurização – ainda mais em tempos de globalização. Uma cultura dominante em termos de produção artística e cultural (que envolve desde o modo de vestir, até modelos litúrgicos, passando pela música, etc.) pode acabar ditando o que de fato caracteriza o ser evangélico. Tal caracterização estética pasteurizada inibe a diversidade não apenas nas produções artísticas e culturais, como também na reflexão teológica.

Enfim, Lausanne 3, nas palavras do Pr. Ricardo Barbosa, foi uma colheita. Mas ouso acrescentar que se tratou de uma colheita onde os frutos serão usados para criarem novos pratos da culinária do Reino. Esta nova dieta pode parecer estranha, em um determinado momento – mas é assim mesmo quando uma pessoa precisa de reeducação alimentar.

** Osvaldo Reis é membro da FTL, pastor da Igreja Presbiteriana no Varjão (DF) e professor do Seminário Presbiteriano de Brasília.

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