Na sexta-feira a noite, dia 22, os brasileiros se encontraram no hotel Garden Curt de Waal, que recebeu a maioria da delegação brasileira, para uma conversa sobre a nossa participação no congresso, sobre como se deu a seleção dos nomes que ali estavam, entre outros assuntos. À frente estavam Valdir Steuernagel e Silas Tostes. Foi dada a palavra a duas pessoas historicamente de grande relevância para a igreja brasileira considerando principalmente o movimento de Lausanne: o Bispo anglicano Robinson Cavalcanti e o pastor da Igreja Holiness Key Uassa.

Cavalcanti fez uma leitura bastante lúcida, como sempre, de como Lausanne 3 se enquadra no processo dos dois congressos anteriores deste movimento, acontecidos em Lausanne, Suíça (1974) e Manila, Filipinas (1989). Segundo sua avaliação, Lausanne 3 significa uma retomada da caminhada, após a realização do congresso em Manila desfigurado e sem propósitos.

Como última palavra da reunião, foi pedido a Key Uassa que fizesse a sua leitura sobre aquele momento e encerrasse com uma oração. Uassa surpreendeu a todos quando disse da sua emoção de estarmos reunidos naquele local histórico, conhecido como Cabo das Tormentas e Cabo da Boa Esperança. Local onde os navegadores portugueses bravamente enfrentaram aquela região tão inóspita e perigosa e assim abriram definitivamente os caminhos marítimos para as Índias. Foi lembrado ainda que através daquele acontecimento eles chegaram ao Brasil. Uassa recordou que muitos daquele continente foram levados como escravos para o nosso país e que em meio a muito sofrimento, desagregações sociais e injustiças aportaram na Ilha de Vera Cruz para construir e erguer o Brasil que somos hoje. E propôs que redigíssimos um documento de celebração e de um pedido de perdão e encaminhássemos à delegação africana, em sua reunião. Assim foi feito o documento e todos nós assinamos.

No domingo a agenda do congresso contemplava um espaço para a reunião das delegações por continente. Enquanto os latino-americanos se reuniam num dos auditórios, uma pequena comitiva brasileira se dirigiu à reunião dos africanos e leu o documento. O grupo foi recebido como muita alegria, mas ao tomarem conhecimento do conteúdo caíram todos num profundo pranto. Através daquele documento os brasileiros participantes de Lausanne 3 pediam perdão por todos os males que causados às gerações anteriores, e em meio ao lamento reconheciam que o Brasil se fez pelo suor e esforço daquele povo. O documento foi recebido e Deus visitou os irmãos da África naquele momento. Eles então reuniram uma pequena comissão e vieram de encontro dos brasileiros, que naquela altura já se reuniam separadamente dos demais países da América Latina.

O grupo que veio era formado por cinco pessoas: quatro pastores representavam os países do Norte, do Leste, do Oeste e do Sul. Também veio uma mãe africana, representando todas a mães do continente. Eles disseram da alegria e da surpresa ao receberem o documento e reconheciam que o Espírito Santo estava realizando uma grande obra de reconciliação naquele momento. Acolheram o nosso pedido de perdão e trouxeram a sua ótica sobre o que significou a escravidão para eles, quando brutalmente seus filhos foram arrancados de seus braços e violentamente transportados como pessoas sem direitos para o outro continente. Todos nós estávamos bastante emocionados. Foi pedido então à mãe africana para orar a Deus, selando aquele momento de perdão e reconciliação em nossos corações. Nesse momento todos nós caímos num pranto profundo. Não tenho dúvidas de dizer que Deus nos visitou trazendo o reconhecimento de nosso pecado, trazendo perdão e abrindo portas para uma aproximação entre as igrejas dos dois continentes. Foi um momento muito especial. Sinceramente oro a Deus para que esse ato simbólico possa produzir na igreja brasileira, através de seus representantes, verdadeiras transformações e mudanças de atitude num país onde muito embora a escravidão tenha sido vencida, continua promovendo e mantendo o preconceito racial de maneira velada, inclusive dentro da própria igreja.

Aquele domingo marcou a minha vida. Foi um dos momentos mais lindos que pude participar em toda a minha vida e ministério. Só a Palavra de Deus pode realmente derrubar as muralhas de separação que há entre povos e nações. Só Deus pode restaurar esse mundo marcado por divisões e separações.