Originário do Mato Grosso do Sul, Matt Mattos (nome usado por segurança) é mestre em zootecnia e trabalha com missões entre povos não-alcançados pelo mundo. Ele lidera a base americana da World Nations, da qual é um dos fundadores. A missão da organização é combater a fome e a pobreza por meio da agricultura sustentável, de projetos de desenvolvimento comunitário e do acesso à saúde, sendo estas plataformas para abrir portas entre povos não alcançados. Conversamos com ele sobre chamado missionário, o campo transcultural e povos não alcançados e negócios em missões. Confira abaixo a primeira parte desta entrevista.

 

Quando você percebeu que tinha um chamado?

Eu me converti quando tinha 14 anos, era de uma família católica não praticante, fiz catequese e tudo mais. Mas encontrei Deus através de Jesus, uma amiga de 13 anos compartilhou sobre o evangelho e era tudo o que eu estava procurando. Sempre senti aquele desejo de servir, quanto tinha 15 anos comecei a servir na minha igreja local, passando pratinho de oferta, limpando a igreja no sábado, lavando os banheiros. Tive um tempo na universidade que foi bem difícil, mas aí voltei quando estava no mestrado: “Senhor, não tem mais nada que eu posso fazer, não tem para onde eu correr, realmente só o Senhor tem as palavras de vida eterna e eu quero viver isso, mas não quero ser crente de banco, eu quero servir”.

 

Naquele ano, quando eu tinha 22 anos, começou um processo de transformação muito grande no meu coração de servir e realmente servir com a minha profissão. Sou formado em zootecnia, com mestrado na área de produção animal, produção de alimentos. Fui convidado numa conferência missionária a usar a minha profissão para ajudar um projeto no exterior. Eu neguei de começo. Achava uma loucura viajar para o exterior. Eu não tinha passaporte, nunca peguei dólar na minha mão. Recebi o convite em junho de 2011 e em novembro de 2011 eu estava num avião para viajar para alguns países do Sudeste da Ásia e amar o povo de lá. Ali eu estava começando a assumir meu chamado transcultural, por causa da minha profissão. Deus sempre colocou no meu coração que seria através da profissão que eu serviria às pessoas, como um jovem profissional em missões. Quando eu percebi que tinha um chamado, ele veio acompanhando de uma conversão. Se eu encontrei Jesus e ele é tão maravilhoso, transformou minha vida, esse testemunho é tão real que não tem como não responder “sim, Senhor, quero compartilhar desse amor que encontrei em você com outras pessoas, ver pessoas sendo transformadas”.

 

Como você identificou que era especificamente um chamado transcultural e para povos não alcançados?

Naquele período, na época do Natal de 2011, quando eu estava viajando por 30 dias pelo Sudeste da Ásia, fui para vários países usar minha profissão para montar granja de frango, consultoria na área de gado de corte, produção de animais. Lembro que o Senhor começou a me mostrar que eu poderia realmente usar o treinamento que eu tinha para montar plataformas que dariam acesso ao evangelho para pessoas que nunca tinham ouvido falar de Jesus. Lembro de uma noite, numa reunião com obreiros locais e missionários, uma das missionárias falou: “Nós chamamos esse país como pérola, porque estava fechado por tantos anos, e agora por meio dessa iniciativa de produção de animais, projetos com agricultura, ele está se abrindo. Estamos vendo que o Senhor está nos dando em nossa mão essa oportunidade de entrar nesse lugar, nessa pérola perdida, pérola de grande valor. É como Jesus que, achando essa pérola de grande valor, vendeu tudo o que tinha para comprá-la”.

 

Eu lembro que ela falou que precisávamos entregar a pérola para ser colocada na coroa do Rei da Glória. Aquilo foi como fogo que incendiou meu coração. Eu fiquei tão impactado que chorei na mesa. Voltei para o quarto naquela noite, me ajoelhei sozinho e falei: “Senhor, eu tenho tudo o que preciso. O Senhor me deu educação, família, e me encontrou lá entre as malhadas onde moro, e esse povo nunca ouviu falar do Senhor. Eu não posso viver a minha vida apenas para mim mesmo. Eu preciso servi-lo e entregar essa pérola para ser colocada na sua coroa”. E ali eu decidi e ouvi o chamado de trabalhar com povos não alcançados, povos que tem muito pouco acesso ao evangelho de Jesus Cristo, quase nenhuma presença de trabalhadores cristãos, não tem igrejas locais, ou são igrejas escondidas.

 

Primeiro eu mudei para um destes países, esperando abrir o projeto que não se abriu por muitos anos. Mas estamos servindo lá desde então. E o Senhor começou a me levar para vários outros países e lugares não alcançados, eu ia para vilas fechadas, no meio de florestas, muito rurais, muito indígenas. E comecei a perceber que o Senhor estava me dando um chamado muito específico para povos não alcançados e, não só isso, como um chamado para ser mobilizador, uma voz entre aqueles que levantariam uma bandeira para mobilizar pessoas na nossa geração, jovens profissionais com a missão de Deus no coração para alcançar povos não alcançados.

 

Naquela viagem de 30 dias, muitas coisas estavam em jogo: eu estava terminando o mestrado, lembro que até abri mão de me inscrever para o doutorado e continuar a carreira acadêmica para ir nessa viagem. Eu sempre falo: não existe viagem missionária que não vá lhe custar alguma coisa. Que não seja de alguma forma algum tipo de sacrifício. E Deus sempre nos honra. Voltei tão impactado, com meu coração aprofundado em conhecer a transformação que o evangelho pode causar na vida das pessoas em meio a lugares tão assolados, e as pessoas estão buscando mesmo, querendo encontrar a graça de um deus, procurando nesses falsos ídolos e em coisas que não podem ajudá-las. Vivi aquele choque de voltar para a realidade e ver no Brasil a cada rua uma igreja evangélica, e como há muita gente ainda apática, não querendo receber. Isto pesou muito fundo no meu coração também. Foi o choque reverso do retorno do campo.

 

Como você se preparou para voltar ao campo de vez?

Sentei com meu pastor e com o pessoal do conselho missionário da minha igreja e falei: “Não vejo eu mesmo fazendo outra coisa. Não tem como viver se eu não fizer isso, é realmente para isso que eu fui chamado”. Meu pastor falou que me apoiava, mas que precisavam saber como isso iria acontecer, entender melhor o projeto. Para mim foi uma surpresa, porque a igreja estava reconhecendo meu chamado de uma forma muito surpreendente. Ela é um grande testemunho de uma igreja que abraçou a causa dos povos não alcançados junto comigo. São até hoje a principal parceira do projeto. E hoje em dia temos 84 pessoas envolvidas em tudo isso. Começou comigo indo como um jovem profissional solteiro para o campo.

 

Em 2012 fui fazer o treinamento de missões transculturais com a AME em São Paulo. Três meses de internato e imersão na língua e cultura do país para onde eu ia, antropologia cultural, teologia sistemática, vida do missionário, vida devocional. Foi uma base muito forte, e hoje eu tento replicar muito do que eu aprendi ali para todos os que veem em nossas viagens missionárias. Também fiz imersão em inglês por dois meses nos Estados Unidos. E em dezembro de 2012 mudei para o campo. Foi desafiador. O choque cultural é real, você tem de aprender como viver sem usar sua língua, aprender a língua do povo, tentar imitar o povo local, aprender tudo com eles.

 

Leia o restante da entrevista no dia 06/05. Se quiser entrar em contato com Matt, mande um e-mail para matt@worldnationsusa.org.

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