[500 Anos da Reforma]
Por Martinho Lutero

Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. [Mateus 5.39-40]

Envolver-se em questões seculares não é pecado para os cristãos. Os cristãos estão apenas desempenhando as responsabilidades que todos os cidadãos – sejam cristãos ou não – têm. Entretanto, os cristãos têm de evitar o pecado conscientemente e fazer o que Cristo espera deles. Pois, ao contrário deles, as pessoas do mundo não fazem o que Cristo requer.

É por isso que quando os cristãos lutam na guerra, ou entram com uma ação judicial ou determinam uma pena, estão agindo em sua função de soldado, advogado ou juiz. Porém, dentro dessas funções, os cristãos desejarão manter suas consciências limpas e seus motivos puros. Eles não desejarão ferir pessoa alguma. Assim, eles vivem a vida simultaneamente como cristãos e como pessoas seculares. Eles vivem como cristãos em todas as situações, suportando sofrimentos neste mundo. Eles vivem como pessoas seculares obedecendo a todas as leis nacionais, regulamentos comunitários e regras domésticas.

Em resumo, os cristãos não vivem para coisas visíveis nesta vida. Essas coisas enquadram-se na autoridade do governo secular, que Cristo não pretende abolir. Externa e fisicamente, Cristo não deseja que fujamos da autoridade dos governos nem espera que abandonemos nossos deveres cívicos. Em vez disso, ele quer que sejamos submissos aos poderes organizacionais e regulamentares do governo, que protegem a sociedade, e façamos uso deles. Porém, interna e espiritualmente, vivemos sob a autoridade de Cristo. Seu reino não está preocupado com a autoridade governamental e não interfere nela, mas está disposto a aceitá-la. Assim, como cristãos e como indivíduos, não devemos afrontar uma pessoa má. Por outro lado, como cidadãos com responsabilidades sociais, devemos nos opor ao mal em toda a extensão da nossa autoridade.

Em 2017, Ultimato vai relembrar e celebrar os 500 anos da Reforma Protestante. O Blog publica, sempre às segundas-feiras, uma devocional do reformador Martinho Lutero, retirado do seu Somente a Fé – Um Ano com Lutero.

Livro da Semana  |  A Arte e a Bíblia, Francis Schaeffer

 
Ainda que a criatividade em si seja algo bom, nem tudo o que é feito pelo ser humano é intelectual ou moralmente bom

Todos nós nos relacionamos diariamente com obras de arte, mesmo que não sejamos artistas profissionais nem amadores. Lemos livros, escutamos músicas, observamos cartazes e admiramos arranjos de flores. Arte, com o significado que estou utilizando, não inclui apenas “arte elevada”, isto é, pintura, escultura, poesia e música clássica, mas também as expressões mais populares — romances, teatro, cinema, música popular e rock. De fato, há uma razão real pela qual a vida cristã em si deveria ser nossa obra de arte mais grandiosa. Mesmo para o grande artista, a obra de arte mais crucial é sua vida.

A seguir, busco desenvolver uma perspectiva cristã sobre a arte em geral. Como criadores e apreciadores da beleza, como devemos compreendê-la e avaliá-la? Creio que existem pelo menos onze perspectivas distintas a partir das quais o cristão pode considerar e avaliar os vários aspectos da arte. Estas perspectivas não esgotam os vários aspectos da arte. O campo da estética é rico demais para que isso acontecesse. Porém, elas cobrem uma parte significativa do que deve ser o entendimento do cristão nesta área.

A obra de arte como obra de arte

A primeira perspectiva é a mais importante: Uma obra de arte tem valor em si mesma. Para alguns, este princípio pode parecer óbvio demais para ser mencionado, mas, para muitos cristãos, é algo impensável. Assim, se ignorarmos este ponto, perderemos a essência da arte. A arte não é algo que simplesmente analisamos ou avaliamos por seu conteúdo intelectual. É algo a ser apreciado. A Bíblia diz que as obras de arte no tabernáculo e no templo estavam lá pela beleza.

Como um artista deve começar a fazer sua obra como artista? Eu diria que ele deve iniciar seu trabalho decidindo fazer uma obra de arte. Isso tem significados diferentes em escultura e poesia, por exemplo, mas, em ambos os casos, o artista deve se dedicar a fazer uma obra de arte.

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[500 Anos da Reforma]
Por Martinho Lutero

Então Isaque despediu Jacó e este foi a Padã-Arã, a Labão, filho do arameu Betuel, irmão de Rebeca, mãe de Jacó e Esaú. [Gênesis 28.5]

Jacó esperou muitos anos pela bênção prometida e, depois de recebê-la, teve de ir para o exílio. Ele foi forçado a deixar os seus queridos pais, e estes foram separados do seu amado filho por um longo tempo. À primeira vista, pode-se pensar que isso não era tão ruim. Mas é muito difícil para qualquer pessoa deixar o pai e a mãe, uma herança e um ambiente confortável e fugir em miséria e pobreza.

Esse é um exemplo maravilhoso que nos mostra como Deus trabalha. Ele requer que confiemos em suas palavras e em suas promessas até mesmo quando o oposto dessas promessas estiver acontecendo conosco. Jacó obteve a bênção prometida, mas precisou agarrar-se a ela por meio da fé e não duvidar do que não podia ver. Jacó nada tinha a não ser um cajado na mão e um pedaço de pão na sacola. Ele estava pobre, sozinho e exilado, mas confiava nas promessas de Deus. O exemplo de Jacó nos ensina a viver pela fé. Devemos crer em Deus quando ele promete nos amar e nos proteger, cuidar de nós e nos ouvir, mesmo que não possamos ver isso acontecendo.

Essa história foi escrita como um exemplo para nós. Devemos aprender a confiar na Palavra visível do nosso invisível e incrível Deus. Pelo fato de Deus não mentir nem nos enganar, esperamos com confiança e paciência que ele cumpra sua promessa. Isso é difícil para nós porque estamos acostumados a coisas que podemos tocar, ver ou sentir. Precisamos aprender a abandonar o que podemos experimentar apenas com nossos sentidos e viver de acordo com o que é invisível.

Em 2017, Ultimato vai relembrar e celebrar os 500 anos da Reforma Protestante. O Blog publica, sempre às segundas-feiras, uma devocional do reformador Martinho Lutero, retirado do seu Somente a Fé – Um Ano com Lutero.

Livro da Semana   |   Engolidos Pela Cultura Pop

Um dos problemas encontrados por quem tenta compreender a cultura popular de forma cristã é o fato de que a Bíblia não a reconhece como uma categoria separada. Em parte porque os filhos de Israel viviam em uma teocracia onde cultura popular e cultura religiosa eram sinônimos e em parte porque muito do que hoje classificaríamos como cultura popular só passou a existir por causa da eletricidade. Muitas das formas de arte com as quais lidamos hoje não existiam nos tempos do Antigo ou do Novo Testamentos.

Ainda assim, as bases para a cultura foram estabelecidas bem no início da Bíblia: cuidar do jardim e nomear os seres em Gênesis 2, cuidar da terra e fazer roupas em Gênesis 3, construir cidades e tocar harpas e flautas em Gênesis 4, construir barcos em Gênesis 6, construir um altar em Gênesis 8, plantar frutas e produzir vinhos em Gênesis 9, produzir tijolos em Gênesis 11, produzir tendas em Gênesis 12. Na descrição da construção do tabernáculo em Êxodo encontramos as mais detalhadas informações sobre ornamentação artística por meio de medidas precisas, tipos preferenciais de madeira e instruções sobre o uso de ouro, prata e pedras preciosas.

O primeiro artista citado pela Bíblia é Bezalel, que é especificamente cheio “do Espírito de Deus”, que lhe dá “destreza, habilidade e plena capacidade artística” (Êx 31.3). Ele foi capacitado para trabalhar com ouro, prata e bronze, esculpir madeira, talhar e empilhar rochas, gravar e bordar. Apesar de seus dons terem sido dados para ajudar na construção de um lugar para adoração, neste texto é estabelecido o princípio de que Deus gosta de beleza, design e harmonia. Deus queria ser lembrado de uma forma especial em uma construção que foi o produto da cultura popular da época.

Nos tempos do Novo Testamento, os judeus viviam em um território comandado pelos romanos. Suas vidas se resumiam a trabalho, cuidados da casa, preparação e consumo de alimentos, celebrações, conversas e ao movimento da sinagoga. Assim como acontecia com meu avô quase dois mil anos depois, praticamente não havia tempo para entretenimento. A destreza dos músicos, dançarinos e contadores de história era utilizada em festas e festivais. Como nas sociedades atuais que estão em áreas em desenvolvimento, a cultura popular tinha o papel de unir a comunidade, marcar transições importantes e relembrar sua história. Não era algo divorciado da rotina. Quando o filho pródigo volta para casa, seu pai o veste com “a melhor” roupa (Lc 15.22) e coloca um anel em seu dedo. Em seguida, ele oferece uma festa que envolve “música e dança” (Lc 15.25).

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Em mais uma edição do Nossa Música Brasileira (NMB), dessa vez a 11ª, o Acampamento Jovens da Verdade, em Arujá (SP), foi palco de um final de semana de boa música cristã, conexão entre pessoas e discussão de assuntos atuais.

O som ficou por conta Gladir Cabral, João Alexandre, Paulo Nazareth, Carta Sonora, Estêvão Queiroga, Roberto Diamanso e Cezar Do Acordeon Abianto, Tiago Arrais, Vavá Rodrigues e Vocal Livre.

Enquanto o pessoal cantava, mais arte tomava o palco, essa através das tintas e dos pincéis. Marcelo Bittencourt, artista plástico e ilustrador, preenchia as telas com imagens que representavam as expressões musicais que aconteciam no evento.

Em setembro, durante a campanha “Encontros com Arte”, são essas imagens que ilustram os topos do nosso boletim Últimas. Aqui vai uma galeria com o registro de algumas delas. E se você ainda não recebe o Últimas, clique aqui para assinar gratuitamente e não perder esse conteúdo.

 

Os cristãos devem ter medo da ciência? A ciência pode ser fundamentalista e dogmática? 

A teologia natural pode responder perguntas que a ciência não consegue? Ela poderia funcionar como uma ponte entre o mundo da ciência e o da religião? É sobre estas e outras questões o lançamento de setembro da editora Ultimato, O Ajuste Fino do Universo – Em Busca de Deus na Ciência e na Teologia.

Confira abaixo o que diz o autor, Alister McGrath, sobre a relação entre ciência e fé cristã.

 

Conteúdo extra oferecido como Mais na Internet na seção Vamos Ler, da revista Ultimato edição #367.

A vida de David Brainerd

Jonathan Edwards
328 páginas
Fiel, 2016

Uma das biografias mais impactantes da história das missões. Inúmeros missionários e agências missionárias nasceram a partir do exemplo vívido de Brainerd. Missionário entre indígenas, morreu aos 29 anos. Sua curta e intensa vida foi mais proveitosa para o reino do que milhares que beiraram os 100 anos de idade. Um convite a renovar a paixão.

Por Heliel Gomes de Carvalho

História da Igreja em Quadros

Robert C. Walton
120 páginas
Vida, 2000

Conheça melhor a história da igreja cristã por meio de tabelas e diagramas cronológicos e explicativos. A obra é um valioso complemento aos compêndios de história e fornece um resumo dos principais dados da história eclesiástica de forma didática. Nela os fatos estão organizados e acessíveis, o que possibilita acesso rápido às informações básicas. Ideal para estudantes e professores.

Por Rute Salviano Almeida

The Apostolic Fathers with Justin Martyr and Irenaeus

Schaff, Philip (1819-1893)
Ante-Nicene Fathers, v. 1
Eternal Sun Books, 2017
520 páginas

A história da igreja cristã a partir dos escritos dos pais da igreja primitiva. Traduzidos na íntegra, os textos escritos antes do Concílio de Niceia (325 d.C.) estão reunidos nesta coleção de dez volumes. Cada volume apresenta um período da história dos quatro primeiros séculos depois de Cristo. Os pais da Igreja ante-nicenos compuseram textos que são fontes de pesquisa para os estudos da história, da teologia, da literatura, das biografias e do pensamento cristão. O conjunto da obra de Schaff é uma ferramenta de consulta. Fundamental para a compreensão dos caminhos trilhados pela comunidade cristã durante o processo de estabelecimento de um cânone doutrinário e teológico, o primeiro volume da coleção incluiu os escritos de Clemente, Matias, Policarpo, Inácio, Barnabé, Papias, Irineu e Justino Mártir – os pais apostólicos da Igreja, que viveram na geração que sucedeu a dos apóstolos de Jesus Cristo. Estes homens enunciaram em seus escritos as questões centrais da vida da Igreja: as práticas cotidianas no contexto de hostilidade política, as dificuldades de se estabelecer um cânone doutrinário mediante de mudanças conjunturais, fidelização de grupos submetidos a processos de deslocamentos demográficos e inseguranças. O que foi escrito pelos pais apostólicos e pelos pais ante-nicenos constitui-se na memória do passado da Igreja e contribui para a reflexão do tempo presente.

Por Catarina Maria Costa dos Santos

A Grande Onda Vai te Pegar

Marketing, espetáculo e ciberespaço na Bola de Neve Church
Eduardo Meinberg A. Maranhão Filho
236 páginas
Fonte Editorial, 2013

Referência temática da história da igreja cristã do tempo presente. O livro é um pulsante registro histórico-etnográfico da pesquisa de mestrado do jovem e audacioso historiador Edu Meinberg. Reúne os aspectos pontuais que caracterizam a Igreja Bola de Neve, da qual o autor foi membro. A análise descritiva que ele apresenta na obra conecta o leitor ao contexto das ações e das expressões religiosas em espaços urbanos modernos. Com base nas fontes de pesquisas a que teve acesso e utilizando-se de conceitos já consagrados nos estudos da religião, Meinberg difunde a ideia do uso de princípios de marketing e propaganda na igreja cristã. O livro é um convite para se pensar nessa grande onda midiática que chega às igrejas cristãs nos dias atuais produzindo novos modos de ser cristão, de interagir com o mundo, de conceber a fé, de cuidar do corpo e de ver a sociedade. É um tema da história da igreja local conectada com o global. O leitor pode tecer diálogos mais abrangentes, incluindo alguns temas polêmicos que emergem do livro, pois não são expressões e práticas exclusivas da Bola de Neve Church. Além disso, o livro é uma contribuição significativa para os estudos da história da igreja brasileira, que é múltipla e diversificada, e que merece ser escrita a partir de novos objetos e sujeitos e interpretada por diferentes ângulos.

Por Catarina Maria Costa dos Santos

Delas é o Reino dos Céus

Mídia evangélica infantil na cultura pós-moderna do Brasil (1950-2000)
Karina Kosicki Belloti
360 páginas
Annablume/FAPESP, 2010

Professora de história na Universidade Estadual de Maringá, Karina Kosichi Belloti apresenta ao público o resultado da sua pesquisa de doutorado com um título que é uma referência ao material didático utilizado na educação infantil nas igrejas do Brasil. O tema é abordado sob a perspectiva da história cultural e a leitura contribui para a compreensão dos processos de produção e de circulação dos ideais protestantes e da missão cristã em território brasileiro, na segunda metade do século 20. Ademais, as evidências documentais apresentadas pela autora demonstram que a cultura letrada de tradição protestante, que emergiu nas cidades brasileiras das décadas de 1950 a 2000, são expressões de um contexto sociocultural específico, fruto das relações entre o Brasil e Estados Unidos. Das revistas dominicais infantis aos desenhos animados de conteúdo evangélico, do material didático impresso à propaganda midiática, a historiadora observa que há um discurso que sugere modelos e padrões de ser e de viver do cristão, criando e promovendo uma cultura religiosa. A autora deixa claros o nome e o endereço das fontes pesquisadas a que teve acesso no Brasil e no exterior, demonstrando a abertura do tema para outras possibilidades de pesquisa. O rigor da linguagem acadêmica não compromete a leveza do livro. Por tudo isso, considero Delas é o Reino dos Céus uma obra indispensável para quem quer compreender mais um capítulo da história da igreja cristã, desta vez escrito sob uma outra perspectiva.

Por Catarina Maria Costa dos Santos

A Ética Protestante e o “Espírito” do Capitalismo

Max Weber
336 páginas
Companhia das Letras, 2004

Obra-prima da sociologia, não compõe o cânone da história da Igreja. Ao revogar uma história engessada em cronologias e fatos, nos permite conhecer ideias que forjaram a modernidade ocidental e identificar princípios da Reforma presentes em nossa cultura religiosa contemporânea. Infelizmente, alguns se dissiparam ao longo da história, alargando o fosso que nos separa de Wittenberg e Genebra.

Por Mateus Andrade