Livro da Semana   |   Súplicas de Um Necessitado

Ó Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador e muito instável.

 

Livra-me dos altos e baixos. Livra-me dos altos e baixos frequentes demais. Livra-me da instabilidade emocional.

Ajuda-me a consultar o passado, mas não a me acorrentar a ele. Ajuda-me a esquecer das coisas que para trás ficam e avançar para as que estão diante de mim.1 Não me deixes colecionar tristezas, nem dores, nem decepções, nem afrontas, nem amarguras. Não me deixes chorar para sempre a morte de um ente querido. Dá-me o raciocínio de Jó: “O Senhor o deu, e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!”2 Dá-me a capacidade de entrar na tua casa e adorar-te, mesmo depois da morte de um filho.3

Peço-te a graça de não desprezar, e muito menos supervalorizar, as emoções.

Ajuda-me a colocar a tua Palavra e a minha confiança em ti na frente das emoções. Para eu não condicionar a minha alegria e a minha disposição aos pequenos e poucos períodos de facilidade. Se eu tiver uma dor de cabeça ou uma indisposição física; se o dia amanhecer encoberto ou chuvoso; se estiver muito quente ou muito frio; se meu salário vier atrasado ou com muitos descontos — que nada disso altere o meu vigor.

Coloca-me a salvo da sensibilidade exagerada, da tristeza prolongada, da amargura doentia, da dor no íntimo, da melancolia dos românticos, da preocupação excessiva, dos nervos à flor da pele, do pavio curto e da dificuldade de perdoar — fazendo-me esquecer.

Não me deixes trazer os problemas de ontem e os problemas de amanhã e ajuntá-los todos com os problemas de hoje. Ajuda-me a não me esquecer de observar as aves do céu e os lírios do campo e a me lembrar daquela palavrinha de Jesus: “Basta a cada dia o seu próprio mal”.4

Livra-me de abrir caminho para a depressão. Seja pelos cuidados espirituais, seja pelos cuidados médicos, seja pela boa manutenção de minhas relações humanas. Não me deixes temer a depressão. Que teus braços sejam meu refúgio contra ela e que neles eu encontre a proteção da paz “que excede todo o entendimento”.5

Amém.

1. Filipenses 3.13; 2. Jó 1.21; 3. 2 Samuel 12.20; 4. Mateus 6. 25-34; 5. Filipenses 4.7.
• Trecho retirado de Súplicas de Um Necessitado, de Elben César (Editora Ultimato).

A edição 366, de julho-agosto, da revista Ultimato já chegou na casa do assinante.

E, agora, também pode ser lida online, aqui no Portal.

Na capa e no miolo, os 500 anos da Reforma Protestante.

O leitor vai encontrar as marcas da Reforma no mundo – na política, na cultura e na sociedade –; a linha do tempo, com os principais acontecimentos do período, começando em 1384, com a morte e o legado de John Wycliffe, passando por outras dezenas de datas que marcaram o movimento e os atores da Reforma, em especial a afixação das 95 teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, por Lutero, em 1517, até a Confissão de Fé de Westminster, em 1647. Outros artigos ainda respondem o que é e por que é importante lembrar a Reforma, mostram a centralidade das Escrituras no movimento e até os aspectos negativos nos desdobramentos do ideal reformador.

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Boa leitura.

[500 Anos da Reforma]
Por Martinho Lutero

Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: “O justo viverá pela fé”. [Romanos 1.17]

Quando eu era monge, não consegui coisa alguma por meio de jejum e oração. Isso porque nem eu nem qualquer outro monge reconhecíamos o nosso pecado e a nossa falta de reverência a Deus. Nós não entendíamos o pecado original nem percebíamos que a incredulidade também é pecado. Acreditávamos e ensinávamos que, não importa o que as pessoas façam, elas nunca podem estar certas da bondade e da misericórdia de Deus. Como resultado, quanto mais eu corria atrás de Cristo e o procurava, mais ele se esquivava de mim.

Assim que compreendi que era apenas por intermédio da graça de Deus que eu seria iluminado e receberia vida eterna, trabalhei com empenho para entender o que Paulo diz em Romanos 1.17 – uma justiça que vem de Deus é revelada no evangelho. Procurei por muito tempo e tentei por várias vezes entendê-la. Mas as palavras em latim para “a justiça que vem de Deus” eram um obstáculo para mim. A justiça de Deus geralmente é definida como a característica pela qual ele é impecável e condena o pecador. Todos os mestres, com exceção de Agostinho, interpretavam a justiça de Deus como a ira de Deus. Assim, todas as vezes que eu lia essa passagem, eu desejava que Deus nunca tivesse revelado o evangelho. Quem poderia amar um Deus irado que nos julga e condena?

Por fim, com a ajuda do Espírito Santo, olhei mais cuidadosamente para o que o profeta Habacuque disse: “O justo viverá pela sua fé” (Hc 2.4, ARA). Desse trecho, concluí que a vida deve vir da fé. Portanto, levei o nível abstrato para o nível concreto, como costumamos dizer na escola. Relacionei o conceito de justiça a uma pessoa que se torna justa. Em outras palavras, uma pessoa torna-se justa por meio da fé. Isso abriu toda a Bíblia – até o próprio céu – para mim!

Em 2017, Ultimato vai relembrar e celebrar os 500 anos da Reforma Protestante. O Blog publica, sempre às segundas-feiras, uma devocional do reformador Martinho Lutero, retirado do seu Somente a Fé – Um Ano com Lutero.

Livro da Semana   |   A Oração Nossa de Cada Dia

E quando orarem, não fiquem sempre repetindo a mesma coisa, como fazem os pagãos. Eles pensam que por muito falarem serão ouvidos. Não sejam iguais a eles, porque o seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem.

[Mateus 6.7-8]

Vimos que os hipócritas se expressam com arrogância e buscam publicidade pessoal. Eles oram em pé nas esquinas das praças e nas sinagogas para serem percebidos pelas pessoas. Os gentios, por sua vez, apelam para a crença em seus métodos e artifícios de manipulação e controle de suas divindades – “… pensam que pelo seu muito falar serão ouvidos…”.

Estamos considerando gentio os religiosos que se relacionam com o mundo sagrado com a concepção de que são capazes de dobrar as divindades para atenderem seus interesses e expectativas.

O primeiro aspecto – Nesta parte, falamos sobre os agentes da religião, aqueles que tomam as decisões e controlam o espaço religioso. No espaço religioso idolátrico, como os devotos serão ouvidos se o ídolo não tem audição nem inteligência?

O segundo aspecto – Aqui, explicamos algo sobre as crenças ou técnicas de manipulação que os devotos ou os empreendedores mágicos das religiões presumem possuir nos monólogos de oração às suas divindades. Neste caso, estamos considerando a oração um monólogo, porque o ídolo tem boca, mas não fala.

OS AGENTES DA RELIGIÃO E O ESPAÇO RELIGIOSO IDOLÁTRICO

Toda religião depende de três agentes principais para o seu funcionamento: a) divindade(s), b) sacerdote(s) ou especialistas da religião e, c) devotos. Os demais elementos são desdobramentos da criatividade dos especialistas e dos devotos da religião. Eles vão criando lugares e elementos ou símbolos de poder, utilizados exclusivamente pelos empreendedores do negócio religioso. Continue lendo →

Versão ampliada do artigo publicado na seção Arte e cultura, da Ultimato 366.

Por Armindo Trevisan

Vista interior dos vitrais na Basílica de Saint-Denis

Só é possível compreender o surgimento da técnica do vitral, de sua evolução estética, e de sua utilização maciça nas catedrais góticas, quando evocamos uma das principais características do imaginário cristão: a obsessão pela luz.

Semelhante obsessão derivou da Bíblia.

No Livro do Gênesis lê-se:

No princípio, quando Deus criou o céu e a terra, a terra era um caos sem forma nem ordem. Era um mar profundo coberto de escuridão; e um vento fortíssimo soprava na superfície das águas. Então Deus disse: “Que a luz exista!” E a luz começou a existir.[1]

A luz foi considerada pelos medievais o atributo divino por excelência. Francisco de Assis dedicava particular afeição ao fogo. A luz era, também, apreciada pela sociedade medieval por uma razão sócio-ambiental: as pessoas viviam literalmente na rua, à luz do sol, não conhecendo outra forma de iluminação senão a do fogo. Continue lendo →

Versão ampliada do artigo publicado na seção Arte para todos, da Ultimato 366

Por Bruna Steudel

Arquivo pessoal

Existe um livro de Mário de Andrade cujo nome é Há uma Gota de Sangue em Cada Poema. Desde criança isso me intrigou. Por que a maioria dos poemas mais conhecidos de determinados poetas vem de algo extremamente profundo do seu ser? Passei um ano estudando e lendo poemas, procurando entender o que da vida de cada artista tinha na sua obra.

Sempre fui apaixonada por arte. Iniciei no teatro aos 8 anos de idade e na infância me dedicava a escrever e a desenhar coisas que eram confusas para mim.

Aos meus 16 anos, pude conhecer a Cristo. Foi como se em mim se renovasse uma esperança, um propósito maior para a minha existência, um amor até então desconhecido. E, ao contrário do que alguns filmes cristãos pregam, desse encontro não veio a solução para todos os meus problemas. Foi aí que começou a caminhada. Jesus revelou quartos escuros, sentimentos a serem tratados, preconceitos a serem quebrados. O desejo de viver uma verdadeira liberdade nele. Nessa caminhada encontrei uma missionária, que numa pequena reunião discursava sobre o amor que tinha pelo seu campo missionário. Alguns a ouviam, outros falavam que ela não era humana, que as pessoas hoje em dia não querem saber daquilo. Constrangeu-me ver aquela mulher se esforçando ao máximo para falar que era normal, que sentia dores e medos como qualquer um. Naquele momento percebi mais uma coisa que precisaria aprender nessa caminhada: que eu conhecia muito pouco sobre o ser humano, principalmente aqueles que fogem dos nossos padrões sociais e buscam se dedicar a grandes causas. Refleti sobre quanto pensava somente em mim e sobre quanto minhas orações giravam em torno de mim mesma. Continue lendo →