Na varanda com o autor | Gladir Cabral

 

É bem provável que o leitor já tenha cantarolado algum verso ou a composição inteira do nosso entrevistado. E, também sem ligar o nome ao autor-compositor, ouviu em algum casamento, numa roda de música ou na boca de músicos conhecidos algumas das suas canções cheias de poesia e verdades bíblicas. Gladir Cabral é colunista da revista Ultimato, na seção “Literatura e Cultura”, músico, pastor e professor de letras na Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc). 

Na Varanda com o Autor recebe hoje um dos poetas da igreja brasileira da atualidade. Um papo cheio de bom gosto e sensibilidade cultural, com uma riqueza enorme de indicações de leitura, dicas e boas influências para a nem sempre fácil relação entre fé cristã e cultura brasileira.

 

Alguma pessoa ou livro, em especial, influenciou sua aproximação da leitura e da escrita?

É praticamente impossível detectar todas as influências que recebemos na vida. Elas veem de todos os lados e em todos os momentos. No meu caso, poderia citar, na escrita, os vários poetas que venho lendo ao longo da vida e as várias canções que venho ouvindo. Poetas e cantores populares são duas fontes inesgotáveis de inspiração para a sensibilidade poética. Quando uma canção me toca de verdade, sinto imediata vontade de compor, um impulso quase incontrolável. Saio cantarolando pela calçada, improvisando versos, rabiscando versos numa folha de papel. O mesmo ocorre quando leio um verso vibrante de um poema.

Entre os escritores que mais marcaram-me a mente e o coração, destaco Cruz e Souza, Casimiro de Abreu, Dostoiévski, Drummond, Bandeira, Vinícius, Adélia, Cecília Meireles, Jorge de Lima, Guimarães Rosa, Robert Frost, Maya Angelou, Walt Whitman, Fernando Pessoa, Mark Twain, Dylan Thomas… Acho que essa lista não tem fim. Mas é preciso colorir a imaginação com alguns exemplos de como a palavra escrita com arte e criatividade pode afetar a vida de um ser humano. Quando li Recordações da Casa dos Mortos, de Dostoiévski, tinha 18 anos, e minha cabeça virou de cabeça para baixo ao conviver com o narrador e seus companheiros de prisão nos invernos da Sibéria. Logo em seguida descobria Alexander Soljenítsin. Pronto, leria toda a série do O Arquipélago Gulag.

Mas não só de linguagem em prosa vem a influência. A saudade cantada em versos pelos poetas românticos também me marcou. Nunca imaginei que, ao ler “Minha terra tem palmeiras como canta o sabiá”, estaria lendo um poema que seria tão citado na literatura, na música e na cultura popular brasileira. A linha desse poema começa em Gonçalves Dias e apenas estaria de passagem em Casimiro de Abreu, passando por Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Carlos Drummond, Mário Quintana, José Paulo Paes, Chico Buarque e Tom Jobim. Pronto, a poesia me havia feito refém.

Mas claro, é preciso lembrar que eu já estava predisposto a ser tocado pela poesia, visto que minha criação foi no protestantismo histórico, com direito a muitas leituras dos Salmos, Cantares, os profetas, e todos livros históricos da Bíblia. O teólogo Walter Brueggemann observa que todos os profetas do Velho Testamento eram poetas. Ler Isaías é ler poesia. Além disso, aprendi a cantar todos os hinos tradicionais, mesmo quando “Homem bom, doce à fé” me chegava como “Homem bom, dá café”… rs. Isso para não falar do “Se, da vida, as vagas procelosas são…”, cujo significado eu não acessava. Mas não importava, tinha a música, o ritmo de marcha e estribilho, que volta e meio surge-me à mente.

Anos mais tarde, a formação teológica me permitiu conhecer Dietrich Bonhoeffer, Rubem Alves, Thomas Kelly, John Donne, John Bunyan, Albert Schweitzer, Emil Brunner, Carlos Mesters e outros. Depois, os estudos literários me apresentariam autores ingleses, norte-americanos e canadenses. Alumbramento.

Nem vou falar das canções populares que me marcaram. Deixo isso para outro texto, outra entrevista, pois são muitos e diversos.

Quando a inspiração para escrever não vem…

Quando a inspiração não vem, que fazer? O melhor é dar uma boa caminhada, ler, ouvir uma canção, tirar uma soneca, desviar o foco do muro intransponível que é a folha de papel em branco. Com o tempo, fui aprendendo a estabelecer algumas estratégias de enfrentamento do bloqueio de escrita: tenho sempre comigo um bloco de anotações onde rabisco minhas ideias para textos, canções, poemas, ensaios, sermões, projetos de pesquisa… Costumo usar a técnica do mapa conceitual para rabiscar ideias para textos. Costumo também escrever palavras que tenham uma associação. Vou fazendo uma lista aparentemente aleatória de palavras que estão ligadas entre si, tipo janela, vidro, varanda, alpendre, fazenda, porteira… e por aí vai. Isso geralmente me dá as palavras que poderei usar na canção, no poema ou no artigo que estou escrevendo. Agora, quando estou sem ideias, desvio o foco para outra coisa. Não fico malhando em ferro frio. Não faço uma canção só porque tenho que fazer uma canção. Claro que isso às vezes me joga no limite da data de entrega de um trabalho, por exemplo. Aí não tem jeito. Alguns textos nascem a fórceps. Felizmente, não todos.

O que os adultos devem ler para as crianças?

Hoje, felizmente, a literatura infantil brasileira está repleta de autores e obras de grande importância nacional e internacional. Há sempre uma grande quantidade de autores novos publicando seus trabalhos, alguns com grande êxito, mas eu gostaria de lembrar os autores que já se tornaram clássicos: Ruth Rocha é fundamental, assim como Ziraldo, Ana Maria Machado, além de Clara Maria Machado, Lygia Bojunga, Tatiana Belinky, Eva Furnari e até as conhecidíssimas Cecília Meireles e Clarice Lispector. Ruth Rocha, por exemplo, é grande mestra da formação humana da criança, a noção de vida coletiva, de respeito ao outro, a questão do poder e da violência, da repressão e do sonho de liberdade. Literatura infantil é coisa muito séria. Recomendaria também nosso querido C.S. Lewis e seus contos de Nárnia, que não ficam para trás de nenhuma grande obra da literatura mundial. Li tardiamente, mas recomendo muito os contos de Hans Christian Andersen, cheios de profundidade, sensibilidade e densidade.

Que conselho você gostaria de ter recebido na sua juventude?

Na juventude, gostaria que me tivessem dito para ler mais e melhor. Gostaria que me avisassem para aproveitar o tempo com as pessoas mais velhas e experientes na leitura de mundo, pois rapidamente elas partiriam. Eu teria aproveitado mais a biblioteca do Seminário Presbiteriano de Campinas, por exemplo, ou as oportunidades que tive de conversar com Rubem Alves, Júlio Andrade Ferreira, Lázaro Lopes de Arruda, meu professor de história da igreja, que era poeta e apaixonado pela poesia caipira brasileira, e outras tantas pessoas que conheci ao longo da vida.

Como você lida com o envelhecer?

Gladir, sua esposa Ruth e as filhas Johana e Julia

Ainda estou aprendendo essa lição, agora em aulas mais intensivas. A velocidade com que o tempo passa nos deixa atordoados. Um poeta da minha terra certa vez escreveu: “A nuvem que passa deixa uma sobra que passa no rio que passa”. Cada vez me assusto mais com essa verdade. O fluxo da vida é rápido e, como diz o salmista, somos como um sopro, um sonho. A literatura fala muito sobre a finitude e a velhice. Tenho aprendido muito com Rei Lear, de Shakespeare, A Vida é Sonho, de Pedro Calderón de la Barca, mas também com Quintana, Cecília, Cora Coralina, Manoel de Barros. O envelhecer tem suas belezas, como o pôr-do-sol, uma delas é o conhecimento e as lições que vamos aprendendo com a vida.

Uma das lições mais importantes, diria Elizabeth Bishop, é aprender a perder as coisas, pouco a pouco, uma chave, uma casa, uma pessoa que se ama. Lição nada fácil. Outro desafio que a velhice nos traz é a limitação física. É preciso preparar-se para isso, fazer a lição de casa, exercícios físicos, dieta saudável, caminhadas… É preciso também reinventar-se sempre, encontrar novas versões de si mesmo, aprender sempre, até o fim. Ao fim, é bom lembrar, como disse certa vez o apóstolo Paulo, nosso interior pode não envelhecer, mesmo que nosso exterior se corrompa. Nesse sentido, pode haver gente idosa com 24 anos de idade, a mente fechada, pensamento conservador, formal, travado. E pode haver gente feito nosso querido Rev. Elben, oitenta anos no corpo, 30 anos na mente, sempre aprendendo, sempre pensando, sempre rindo, sobretudo de si mesmo.

O que mais o anima e o que mais o incomoda no meio evangélico?

O que mais me anima é sua rica herança reflexiva, de exercício da leitura, de belos hinos, de ênfase na vida devocional, de cuidado de si, de escrita (sobretudo a escrita de si), mas também da leitura. No entanto, no nosso caso do Brasil, há coisas que me incomodam muito nessa herança: nosso individualismo fundamental, que às vezes se traduz em desprezo pelas questões sociais e históricas de nosso tempo, o discurso moralista tão cheio de contradição que já afastou tanta gente do evangelho, o espírito de conservadorismo político que se revelou quando os evangélicos apoiaram o golpe militar de 64, por exemplo, e a ditadura que se estabeleceu posteriormente, e agora a decepção com os evangélicos que definiram os rumos do país ao ajudarem a eleger o presente governo. Como pode, um povo que segue a Cristo apoiar gente que elogia torturadores e que tem um discurso tão violento de ódio e intolerância? Como pode os evangélicos apoiarem discursos de ignorância e obscurantismo, nós que aprendemos tanto sobre a liberdade de pensamento e a busca do conhecimento.

Tudo isso me cansa muito. Sei que há exceções e quero me lembrar delas, pois me inspiram a entender o que é ser protestante numa sociedade materialista como a nossa, o que é ser evangélico de verdade, num tempo em que tantos que se dizem crentes dão péssimo testemunho de amor às pessoas e ao mundo que Deus criou e nos deu para cuidar. Vivemos um tempo de juízo. Espero que saiamos desse encantamento, dessa fascinação ilusória pelo poder.

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  1. Cid Mauro Oliveira

    Evangélicos ficaram sem opção. Antes de dizer sim a este governo, disseram não ao que passou. Não é possível fazer uma análise do que está aí, isentando o que o outro candidato representava. Não culpem os evangélicos, isentando a esquerda de sua responsabilidade. No mais, concordo com Gladir. Cid Mauro Oliveira.

  2. Como é bom ler um texto/entrevista com tanta lucidez e sabedoria. Este texto revigora o ânimo de quem está perplexo com tanta falta de coerência e sensatez no meio evangélico.
    Parabéns também ao site, pois tem sido raro os chamados sites gospel, publicarem algum texto que não siga a linha reacionária de apoio do governo atual.

  3. Marcos Nunes de Carvalho

    Inspiradora e reconfortante ler a entrevista do professor Gladir Cabral, valorizando a palavra e as palavras, trazendo vivas cores para o meio evangélico , que por vezes se afasta de tudo o que “não é permitido”, deixando escapar a liberdade para a qual fomos chamados e de conhecer a multiforme sabedoria. Parabéns!

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