Por Gladir Cabral

Era um tempo de forte e exaltada excitação. O país estava armado até os dentes, a guerra acontecia, em cada peito ardia a chama sagrada do patriotismo; os tambores estavam rufando, as bandas tocando, as armas de brinquedo disparando, fogos de artifício assobiando e explodindo aos montes; em cada lado das ruas, em telhados e sacadas, uma selva agitada de bandeiras brilhava ao sol. Diariamente os jovens voluntários marchavam pela larga avenida, alegres e vistosos em seus uniformes, os orgulhosos pais e mães e irmãs e namoradas os saudavam com vozes embargadas de alegre emoção enquanto eles desfilavam; todas as noites multidões compactas se reuniam para ouvir e se emocionar com a oratória patriótica, que mexia com as profundezas dos seus corações, cortada por breves intervalos de aplausos ciclônicos, as lágrimas rolando por suas bochechas; nas igrejas os pastores pregavam a devoção à bandeira e ao país, e invocavam o Deus das Batalhas, implorando Sua ajuda em nossa nobre causa em um derramamento de fervorosa eloquência, que comovia todo e qualquer ouvinte. Foi verdadeiramente uma época feliz e generosa, e a meia-dúzia de espíritos imprudentes que se arriscaram a desaprovar a guerra e a questionar a sua legitimidade receberam imediatamente um aviso sério e furioso de que para o seu próprio bem sumissem de nossas vistas e nunca mais fizessem algo tão absurdo.

Chegou a manhã de domingo – no dia seguinte os batalhões partiriam para o front; a igreja estava repleta; os voluntários lá estavam, suas faces joviais iluminadas por sonhos de guerra – visões do firme avanço, da força coletiva, o rápido ataque, os sabres reluzentes, a fuga do inimigo, o tumulto, a fumaça envolvente, a perseguição ferrenha, a rendição! Então a volta da guerra para casa, heróis de bronze, bem-vindos, adorados, submersos em mares dourados de glória! Com os voluntários sentavam-se seus seres queridos, orgulhosos, felizes, invejados pelos vizinhos e amigos que não tinham filhos ou irmãos para enviar ao campo de honra, para lá vencer pela bandeira, ou, ao falhar, morrer a mais nobre das mortes. O serviço prosseguia; um capítulo de guerra do Velho Testamento foi lido; a primeira oração foi dita; ela foi seguida por um forte acorde do órgão que fez tremer o prédio, e num só impulso a casa se ergueu, com olhos brilhantes e corações pulsantes, e professou aquela tremenda invocação: 
“Deus todo-poderoso! Vós que tudo dominais! Trovão é o vosso clarim e relâmpago a vossa espada!”

Veio então a “longa” oração. Ninguém poderia se lembrar de nada parecido com aquela prece apaixonada e comovente e sua bela linguagem. O conteúdo daquela súplica era que um Pai de todos nós tão piedoso e benigno olhasse por nossos nobres jovens soldados, e os ajudasse, confortasse e encorajasse em seu trabalho patriótico; que os abençoasse, fosse seu escudo no dia da batalha e na hora do perigo, que os pusesse em Suas mãos poderosas, e os fizesse fortes e confiantes, invencíveis no combate sangrento; que os ajudasse a esmagar o inimigo, que lhes desse e à sua bandeira e país, honra e glória imortais.

Um idoso estranho entrou e se moveu em passos lentos e silenciosos pelo vão central, seus olhos fixos no ministro, seu corpo esguio vestido numa túnica que alcançava seus pés, sua cabeça descoberta, seu cabelo branco caindo como uma catarata espumante sobre seus ombros, seu rosto marcado artificialmente pálido, assustadoramente pálido. Com todos os olhos seguindo-o com curiosidade, ele fez o seu trajeto silencioso; sem parar, subiu até ao lado do pregador e ficou esperando. Com os olhos fechados o pregador, sem perceber a sua presença, continuou com a sua comovente prece, e ao final arrematou com essas palavras, pronunciadas em apelo fervoroso: “Abençoe nossas armas, dê-nos a vitória, ó Senhor nosso Deus, Pai e Protetor da nossa terra e da nossa bandeira!”

O estranho tocou em seu braço, fazendo-o mover para o lado – o que o assustado ministro aceitou – e tomou o seu lugar. Por alguns momentos ele examinou o enfeitiçado público com olhar solene, onde brilhava uma luz misteriosa; então numa voz profunda ele disse: “Eu venho do Trono – trazendo uma mensagem do Deus Todo-Poderoso!” As palavras deixaram a casa em choque; e se o estranho percebeu isso, não deu a mínima atenção. “Ele ouviu as preces deste pastor Seu servo, e lhes atenderá o desejo depois que eu, Seu mensageiro, tiver explicado a vocês o seu significado – ou melhor, seu significado completo. Pois ela é como muitas das preces dos homens, em que se pede coisas de que aquele que faz a oração não tem conhecimento – a menos que ele pare e pense.”

“O servo de Deus e de vocês fez sua oração. Ele parou para pensar? É uma única prece? Não, são duas – uma proferida e outra não. Ambas chegaram aos ouvidos d’Aquele que ouve todas as súplicas, as ditas e as não ditas. Ponderem isto – tenham isto em mente. Se vocês suplicam uma benção sobre vocês mesmos, tenham cuidado para que mesmo sem intenção vocês não invoquem uma praga sobre seu vizinho ao mesmo tempo. Se vocês oram pela benção da chuva sobre sua plantação que precisa dela, por este ato vocês possivelmente estão rogando uma praga sobre a plantação de algum vizinho que pode não precisar daquela chuva e pode ser prejudicado por ela.”

“Vocês ouviram a prece do seu servo – a parte proferida. Fui encarregado por Deus de pôr em palavras a outra parte dela – aquela parte que o pastor – e também vocês em seus corações – fervorosamente disseram em silêncio. Terá isso ocorrido de forma ignorante ou impensada? Deus pensou que sim! Vocês ouviram estas palavras: ‘Dê-nos a vitória, ó Senhor nosso Deus!’ Isto é suficiente, toda a prece pronunciada foi compactada nessas palavras intensas. Não é preciso elaborar muito. Ao rogarem pela vitória vocês rogaram por muitos outros resultados não mencionados, decorrentes da vitória – que têm que se seguir a ela, irremediavelmente. Sobre o acolhedor espírito de Deus caiu também a parte não proferida da prece. Ele me incumbiu de pô-la em palavras. Ouçam!”

“Ó Senhor nosso Pai, nossos jovens patriotas, ídolos dos nossos corações, avançam para a batalha – estejais Vós perto deles! Com eles – em espírito – também nós avançamos da doce paz de nossos amados lares para atacar o inimigo. Ó Senhor nosso Deus, ajudai-nos a fazer dos soldados deles pedaços sangrentos de corpos, graças às nossas bombas; ajudai-nos a cobrir seus alegres campos com as pálidas formas de seus patriotas mortos; ajudai-nos a sufocar o trovejar das armas com os gritos dos seus feridos contorcendo-se de dor; ajudai-nos a arrasar seus lares humildes com um furacão de fogo; ajudai-nos a esmagar os corações de suas viúvas inocentes com irremediável pesar; ajudai-nos a torná-los desabrigados com criancinhas solitárias a vagar pelos restos de sua desolada terra em farrapos, com fome e com sede, à mercê do sol flamejante de verão e dos ventos gelados do inverno, desolados, acabados pelo trabalho duro, implorando a Vós pelo refúgio do túmulo e não sendo atendidos. Por nós, que Vos adoramos, Senhor, arrasai suas esperanças, deteriorai suas vidas, prolongai sua amarga peregrinação, façais pesados os seus passos, molheis o seu caminho com suas lágrimas, manchai a neve alva com o sangue dos seus pés feridos! Isto nós pedimos, no espírito do amor, d’Ele que é a Fonte do Amor, e que é o sempre fiel refúgio e amigo de todos os que estão aflitos e sofrendo e buscam a Sua ajuda, de corações humildes e contritos. Amém.”

(Após uma pausa)

“Vocês assim rogaram. Se ainda desejam isto, falem! O mensageiro do Mais Alto aguarda!”

Acreditou-se, depois, que aquele homem era apenas um doido, porque suas palavras não faziam sentido.

***

Nota do editor norte-americano: Revoltado com a intervenção militar norte-americana americana nas Filipinas, Mark Twain escreveu este texto e o enviou à revista Harper’s Bazaar em 1905. Esta revista feminina rejeitou o artigo por ser radical demais. O texto só foi publicado depois da morte de Mark Twain, quando a I Guerra Mundial tornou-o ainda mais oportuno. Apareceu na revista Harper’s Monthly, de novembro de 1916.
Fonte: “Mark Twain’s Weapons of Satire”, Jim Zwick (ed.), Syracuse University Press, 1992, p. 156-160. Essa “oração” também está mencionada, brevemente, na biografia de Mark Twain que faz parte do livro Vidas de Grandes Romancistas, de Henry Thomas e Dana Lee Thomas, Editora Globo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo, 1954, p. 228-229.
Tradução: Ney Barrozo
• Mark Twain foi um escritor e humorista norte-americano.

• Gladir Cabral é pastor, músico e professor de letras na Unesc. Acompanhe o seu blog pessoal.

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