Livro da Semana   |   Cristianismo Equilibrado, John Stott

Nosso temperamento tem mais influência em nossa teologia do que costumamos perceber ou reconhecer.

 

Estruturas seculares estão desmoronando em todos os lugares. Há uma rebelião mundial contra formas institucionais rígidas e um sentimento universal por liberdade e flexibilidade. A igreja cristã, tida em muitas partes do mundo como uma das principais estruturas tradicionais, não pode fugir desse desafio do contexto atual. Além disso, o desafio vem tanto de dentro como de fora. Muitos jovens cristãos estão clamando por um tipo de cristianismo novo e desestruturado, destituído dos fardos eclesiásticos herdados do passado.

Deixe-me expor três principais expressões dessa corrente. Referem-se à igreja e ao seu ministério, à condução do culto público e às relações entre os irmãos. Normalmente, não é prudente fazer generalizações, mas alguém pode dizer, em primeiro lugar, que muitos estão buscando igrejas sem forma fixa. Grupos de cristãos, encontrando-se em várias partes do mundo, estão libertando-se da tradição e fazendo coisas à sua maneira.

Em segundo lugar, há um desejo por cultos sem ordem específica, nos quais o líder não está mais no controle de tudo, mas a congregação é encorajada a participar; nos quais o órgão é substituído pelo violão e a liturgia antiga, pela linguagem de hoje; e onde há muito mais liberdade e menos formalidade, mais espontaneidade e menor rigidez.

Em terceiro lugar, há uma rejeição ao denominacionismo e uma nova ênfase em independência. A geração mais nova sente-se satisfeita ao cortar aquilo que os prende ao passado e até mesmo algumas igrejas do presente. Desejam ser chamados cristãos sem nenhum rótulo denominacional.

Sem dúvida, essas três demandas são consideravelmente irrefutáveis. São sentidas fortemente e afirmadas energicamente. Não podemos simplesmente ignorá-las como irresponsabilidades juvenis. Há uma busca generalizada pelo livre, flexível, espontâneo, desestruturado. A geração mais antiga e tradicional de cristãos precisa entendê-las, simpatizar com elas e pactuar com elas até onde for possível. Todos precisamos concordar que o Espírito Santo pode ser – e algumas vezes tem sido – aprisionado em estruturas e sufocado por normas.

Ainda assim, há algo a ser dito sobre o outro lado. Liberdade não é sinônimo de anarquia. Será que se pode construir um argumento a favor de formas e estruturas de algum tipo?

Primeiro, uma igreja estruturada. Cristãos vêm de diferentes contextos religiosos e prezam diferentes tradições, mas a maioria de nós, senão todos, concordará que o Fundador da igreja pretendia que tivesse uma estrutura visível. Sim, a igreja tem seu aspecto invisível, pois “o Senhor conhece os que lhe pertencem” (2Tm 2.19). Ainda assim, não podemos refugiar-nos na doutrina da invisibilidade da verdadeira igreja de forma a negar que Jesus Cristo pretendia que seu povo fosse visto e reconhecido como tal. Ele mesmo instituiu o batismo como um rito de iniciação à sua igreja e este é um ato público e visível. Instituiu também a ceia como uma refeição da comunhão cristã por meio da qual a igreja identifica-se, exclui não membros e exercita disciplina sobre os membros. Além disso, nomeou pastores para alimentar seu rebanho. Assim, onde quer que haja batismo, a ceia do Senhor e um pastorado, ou, em termos tradicionais, um ministério e sacramentos, há uma estrutura. Pode ser mais simples e mais flexível do que em muitas denominações históricas, mas permanece uma estrutura clara e definida. Além disso, alguns podem argumentar firmemente o valor de ter um ministério e sacramentos (ou mandamentos) que são reconhecidos por várias igrejas.

Segundo, culto formal. Pessoalmente, sou a favor do louvor espontâneo, exuberante, alegre e barulhento dos jovens, mesmo que às vezes seja doloroso, como em Beirute, quando meu ouvido estava a apenas centímetros de distância do trombone! Alguns de nossos cultos são formais, respeitáveis e monótonos demais. Ao mesmo tempo, em algumas reuniões modernas, perturba-me a perda quase total da noção de reverência. Alguns fiéis acreditam que a prova mais importante da presença do Espírito Santo é o barulho. Será que nos esquecemos que, assim como o vento e o fogo, a pomba também é um símbolo do Espírito Santo? Quando ele visita seu povo com poder, às vezes, traz quietude, silêncio, reverência e temor. Sua voz tranquila e baixa é ouvida. Pessoas curvam-se maravilhadas com a majestade do Deus vivo e adoram: “O Senhor, porém, está em seu santo templo; diante dele fique em silêncio toda a terra” (Hc 2.20). Não estou sugerindo que reverência e formalidade andam sempre juntas, pois reuniões informais também podem ser reverentes e cultos formais podem ser dignos e belos sem ter reverência verdadeira, espiritual. Porém, onde dignidade exterior e interior andam juntas, a adoração oferecida honra a Deus grandemente.

Terceiro, um princípio conector. A maioria de nós insistiria ao menos em algum grau de independência para a igreja local. De acordo com o Novo Testamento, cada igreja local é uma manifestação específica, visível da igreja universal. A igreja local, não apenas a universal, é chamada templo de Deus e corpo de Cristo (a igreja local em 1Co 3.16; 12.27; e a igreja universal em Ef 2.29-22; 4.4,16). Todavia, é possível levar longe demais esse princípio de autonomia da igreja local e praticamente ignorar todos os outros cristãos do presente e do passado. Quando isso ocorre, a igreja local torna-se tão autocentrada a ponto de desprezar a igreja de Deus no tempo e no espaço.

 

>> Trecho retirado de Cristianismo Equilibrado, de John Stott (Editora Ultimato). Algumas frases para degustação:

> Nosso temperamento tem mais influência em nossa teologia do que costumamos perceber ou reconhecer.

> Não me importo com a pluralidade, desde que vá de mãos dadas com a unidade.

> Quando sentimos medo, abrigamo-nos em relacionamentos e guetos nos quais nos sentimos seguros com pessoas que pensam como nós.

> Às vezes, esquecemo-nos de que Deus ama a diversidade e criou uma rica profusão de tipos, temperamentos e personalidades humanos.

> Ainda que nossa apreensão da verdade bíblica dependa da iluminação do Espírito Santo, ela é inevitavelmente influenciada pelo tipo de pessoa que somos, pela época em que vivemos e pela cultura a que pertencemos.

> Nas coisas essenciais, unidade; Nas coisas não essenciais, liberdade; Em todas as coisas, caridade.

> Muitos imaginam que a fé é completamente irracional, mas as Escrituras não colocam fé e razão em pontos opostos ou incompatíveis. Ao contrário, a fé só pode despertar e crescer dentro de nós com o uso da mente.

> O asceticismo é a rejeição das boas dádivas do bom Criador. O oposto é o materialismo – não apenas possuir coisas materiais, mas passar a preocupar-se com elas. Entre o asceticismo e o materialismo estão a simplicidade, o contentamento e a generosidade, que deveriam marcar todos nós.

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