Por Simone Carvalho

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Não tenho muitas memórias do início da juventude, mas escondo uma dentro do peito como quem guarda um tesouro. É sobre o dia em que Jesus se apresentou a mim pela primeira vez através das Escrituras. O dia em que eu soube, mesmo tímida e cheia de dúvidas, que ele nunca rejeitaria minhas perguntas de menina curiosa e que elas não o ofenderiam.

Esse nosso bonito encontro aconteceu no livro de Mateus, quando no capítulo 24 fui surpreendida por uma narrativa de tirar o fôlego: os discípulos, rapazes que andavam lado a lado com Jesus, fazem para ele uma pergunta, a mesma que me atormentava há meses. Naquela época, eu estava cansada de ser julgada como uma jovem rebelde e sem fé e resolvi apenas ir aos cultos para acompanhar minha mãe. Mas naquele momento, diante da Palavra, uma porta se abriu e, mesmo sem imaginar, minha vida jamais seria a mesma.

Eu pensava que minha pergunta era simples e definitiva: se Jesus vai mesmo voltar, gostaria de saber quando. Eu ouvia canções e pregações falando sobre a sua volta, mas ninguém me dizia quando seria o dia em que chegaria a esperança que dava sentido à minha fé. Depois de perguntar para algumas pessoas e receber respostas nada respeitosas, desisti. Estava certa de que a volta de Jesus era uma mentira religiosa. Sem consciência, eu estava sendo levada pelos ventos do positivismo e as respostas abstratas não me satisfaziam e nunca satisfariam.

Mas, naquele dia, Deus me convidou para uma conversa sóbria e honesta, como apenas a “pessoa da verdade” pode fazer. Eu sentia enrubescer a face ao perceber que as letras saltavam do livro. Uma batalha estava travada dentro de mim: sabia que de alguma maneira havia sido fisgada como um peixe, mas estava certa de que a maioria dos acontecimentos que Jesus estava narrando em sua resposta, a partir do verso quatro, já estavam acontecendo, não havia mais nada a se cumprir. Certo temor me abraçava: e se fosse tudo mentira mesmo, qual seria meu destino eterno? Ele percebeu meu sentimento, levemente pegou minha mão e, olhando carinhoso em meus olhos úmidos, convidou-me para o verso seguinte: “E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo como testemunho a todas as nações, e então virá o fim”. Tremi.

Ele me amava tanto que estava me respondendo. Finalmente uma resposta honesta à minha pergunta sincera! A voz dele era como som de águas em meu coração. Ele não poderia mentir, Ele é a verdade. Naquele momento compreendi que havia apenas um motivo que impossibilitava que ele voltasse para mim: Ele deseja que todos ouçam em todos os lugares. Entendi como quem mastiga flores, estranha e lentamente, e uma convicção irresistível ia nascendo dentro de mim: “Se é isto que o faz demorar, vou gastar esta vida para que todos saibam!”.

Desde então nossa amizade cresce. Em uma igreja de paredes altas e grandes janelas, em uma cidade pacata do interior, aprendi a viver a fé que ele plantou em mim. Ele me deu amigos, também peregrinos nesta terra, e juntos aprendemos o valor da oração, a graça de adorar a Deus e o amor pelas nações; aprendemos a gastar tempo em comunhão e a fazer as perguntas certas; compartilhamos nossos sonhos de viver para trazê-lo de volta. Aprendemos a contar os dias e ler as estações de nossas vidas; amadurecemos e aprendemos a ser igreja. Assistimos e fomos suporte para nossos namoros, noivados e casamentos, partilhando do nosso desejo de agradar a Deus. Passaram-se anos até acharmos nosso lugar. Hoje, apreciamos com alegria a bonita canção que Jesus tem composto sobre a vida dele em nós. Daqueles jovens do interior, muitos estão na missão de Deus, servindo nossa geração e a que está surgindo em endereços diversos.

Quanto a mim? Vivo uma aventura com ele bem maior do que pudesse merecer, em um lugar seguro que só Ele pode me levar… Há nove anos tenho o privilégio de gastar minha vida para facilitar a volta do “meu amado” em Jovens Com Uma Missão (JOCUM). Venho desenvolvendo um trabalho com povos indígenas, mas inicialmente trabalhei com crianças em risco. Ele me levou pelo Brasil inteiro, muitas etnias visitadas, muitos amigos e irmãos de outras nações deste nosso quintal.

Hoje, pela graça dele, treino jovens para cumprir o propósito de Deus para suas vidas, buscando dar-lhes ferramentas para ir aos “povos não alcançados” (PNA) dentro do Brasil e fora dele. Vivo o prazer de ser uma plataforma para que jovens possam ouvir a voz de Deus e obedecer, assim como um dia eu pude ouvir.

Se você que está lendo esse texto sente que há uma inquietação especial em seu coração, algo parecido com a saudade de um lugar desconhecido, saiba: Ele deseja lhe contar segredos. Minha oração é que uma pergunta comece a arder em seu cérebro e coração: “Qual é o meu lugar no mundo?”. O meu lugar, agora eu sei, é onde for preciso para fazer com que ele venha.

• Simone Carvalho, historiadora em formação, trabalha com treinamento em Jovens Com Uma Missão (JOCUM). Casada com Vagner, mãe de 3 Annas e Bebel.

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