Livro da Semana  | Pais Santos, Filhos Nem Tanto

O exemplo da família de Davi nos ajuda a avaliar o que pode ser evitado dentro de casa.

O exemplo da família de Davi nos ajuda a avaliarmos o que pode ser evitado dentro de nossos lares para que não venhamos a experimentar tragédias como as que aconteceram na casa do mais conhecido rei de Israel. Embora fosse um homem segundo o coração de Deus, Davi não teve sucesso como pai de família. […]

Para evitar uma catástrofe familiar, fujamos da ideia de que os desejos dos filhos não podem ser reprimidos. Uma das maiores mentiras da nossa sociedade é a de que é preciso dar aos filhos tudo o que não tivemos na infância ou adolescência, sejam bens materiais ou liberdades. Falsos especialistas afirmam que, ao agir assim, não traumatizamos nossos filhos. Porém, se os pais não deixam claro para o filho, desde muito cedo, que ele não pode nem precisa ter tudo que a sociedade de consumo oferece com promessas de felicidade e satisfação, correm o risco de vê-lo começar a impor condutas e liberdades que julgam erradas. Além disso, podem surgir discussões fervorosas com os pais, as quais terminarão em gritos e até mesmo agressões físicas.

Certa vez, atendi em meu consultório um pai que, após ter levado um soco do filho adolescente de 16 anos, se queixava dizendo:
— Não entendo por que ele fez isso. Sempre dei-lhe tudo o que me pediu. Só porque mandei que desligasse o computador às três da manhã?

Este pai fez o filho acreditar que a vida nunca impõe limites, mas que ele pode fazer o que quiser, pois todos sempre concordarão. Pais que não querem ver a desgraça bater à porta das próprias casas não podem ser permissivos com os filhos. Não devem ceder quando o filho não quer ir à igreja, pois “precisa” ficar jogando no computador. Caso contrário, ao chegar à adolescência, a filha quererá que o namorado durma com ela no quarto, pois viu isso na televisão. E ainda exigirá que os pais comprem para ela uma cama de casal, afirmando que “em casa é mais seguro”. Eles terão poucas forças emocionais para se opor a isso. Limites devem ser estabelecidos desde cedo na vida da criança, sobretudo quando ela tenta manipular os pais com choro. Uma mãe disse certa vez que a filha de três anos ainda dormia junto com o casal, pois, “quando ficava sozinha no quarto dela, chorava e a mãe tinha de dormir com ela”. Afirmei a essa mãe que as chantagens emocionais aumentam com o passar do tempo e, caso ela não impusesse limites claros, logo perderia o controle.

Alguns “especialistas” afirmam que não devemos impor nossos valores aos filhos, antes, devemos deixá-los escolher livremente aqueles que julgarem melhores, pois isso é a “verdadeira liberdade”. Nada mais equivocado. É necessário deixar claros aos filhos os valores que julgamos importantes para a vida. Assim, se seguimos os princípios cristãos ensinados por Jesus nos Evangelhos, devemos transmiti-los aos filhos desde cedo, contando histórias da Bíblia para eles e realizando momentos de devocionais em família. De igual forma, devemos contar-lhes nossas experiências pessoais com Deus e os pequenos milagres que ele realizou em nossas vidas, pois isso os influenciará nas escolhas que terão de fazer. É importante reservar um tempo especial para contar histórias bíblicas e orar com os filhos antes de dormir. Esta tarefa não pode ser delegada a terceiros. Um dos grandes equívocos de Davi foi conferir o cuidado do coração dos filhos a terceiros. Os pais são líderes espirituais na família, e isso é um privilégio.

É preciso que deixemos claros aos filhos os valores que temos sobre sexualidade. Se não o fizermos, eles buscarão informações e valores na internet, nos debates televisivos dos canais voltados ao público adolescente e nas cartilhas mal elaboradas e tendenciosas que receberão na escola. A melhor forma de transmitir valores relacionados à sexualidade é a vivencial. Quando o marido trata a esposa com ternura, respeito e carinho, falando e demonstrando abertamente que a ama, o filho associa a sexualidade com estes valores e incorpora uma visão saudável do significado de um relacionamento íntimo em que o outro é tratado como sujeito e não como objeto.

Um elemento importante que contribui para a desgraça familiar na narrativa bíblica que analisamos é o silêncio de Davi em relação aos filhos, como já mencionamos. Evitar o diálogo com o cônjuge e os filhos é caminhar a passos largos para uma tragédia. Além disso, as conversas não devem ser superficiais ou baseadas em cobranças, apenas para saber como vão as notas no colégio ou como foi o resultado do futebol. Precisamos desenvolver diálogos profundos sobre temas significativos, como projetos de vida, e também sobre os “antivalores” que eles ouvem na convivência com os colegas.

Os pais não podem ter medo de demonstrar emoções — principalmente as positivas — na frente dos filhos durante os diálogos. Emocionar-se é mostrar-se humano, e os filhos conseguem aproximar-se com mais facilidade quando percebem humanidade nos pais. Infelizmente, alguns pais só demonstram emoções na hora da raiva, fazendo valer o porte físico e o timbre de voz para gritar com os filhos e intimidá-los. Talvez acreditem que os gritos ajudam os filhos a ouvi-los melhor ou, pior ainda, recorram à força física para demonstrar ira e indignação.
Este modo de expressar as emoções pode ser um veneno mortal para o vínculo entre pais e filhos, sobretudo se o filho for adolescente. Neste caso, a reação paterna gerará amargura, pois o filho se sentirá agredido. Além disso, fará com que o coração dele se distancie do coração dos pais.

É necessário disciplinar os filhos sempre. Isso deve ser feito olhando nos olhos deles. Os olhos são a janela da alma e, se os pais olharem bem fundo nos olhos deles, verão uma criança ou adolescente ingênuo, que precisa aprender a lidar de forma saudável com o meio onde está — e não um monstro a ser domado com gritos e bofetões.

>> Trecho retirado do capítulo 8, Composição desastrosa, do livro Pais Santos, Filhos Nem Tanto (Editora Ultimato).

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