Livro da Semana  | Cinema e Fé Cristã

 

QUANDO PERGUNTAMOS A UMA PESSOA o que ela achou de um filme, duas das respostas mais frustrantes de se escutar são: “gostei” e “não gostei”.

Especialmente quando acompanhadas de uma incapacidade de explicar o porquê. Porém, quando tem um conhecimento básico das estruturas da narrativa de uma história, o espectador bem informado consegue ver um filme e desfrutar da história. Afinal, ele pode empregar, ao mesmo tempo, o seu senso crítico para entender o que o filme está tentando dizer sobre a maneira como devemos viver ou não.

Já falamos que as histórias não existem em um vácuo ou sem sentido. Os filmes comunicam os mitos e valores culturais dominantes. Esse efeito cultural é muito mais profundo do que o excesso de sexo e violência. É algo que se estende à filosofia por trás do filme. A maneira como vemos o mundo e as coisas em termos de “certo” e “errado” é incorporada pela estrutura redentora da própria narrativa.

Não é preciso que o público esteja consciente de que o filme está comunicando uma mensagem ou maneira de ver o mundo. A criação de uma história leva o espectador a ter experiências dramáticas e passar a ver as coisas do modo como os roteiristas querem que ele as veja. Algo similar ocorre na definição de forma visual, cor e composição de um pintor para guiar os olhos e a mente de uma pessoa e fazer com que ela veja apenas o que o pintor quer.

Faremos uma breve análise desses elementos estruturais, com filmes que ilustram cada um deles.1 Para isso examinaremos dois filmes que possuem um tema similar, mas apresentam visões de mundo opostas e também são de gêneros opostos: Amadeus, a tragédia vencedora do Oscar de 1984, sobre o homem que matou Mozart (no filme, embora isso não tenha ocorrido na vida real); e O Show de Truman (1998), comédia com Jim Carrey sobre um homem ingênuo que descobre que sua vida é exibida como um show na televisão para o resto do mundo.

Tema

O primeiro elemento a considerar quando analisamos um filme é o tema que ele aborda. Todo bom filme possui um tema. Alguns podem chamar isso de “moral da história”; outros, de “mensagem”. Mas o tema é aquilo sobre o que a história trata. Você pode estabelecer propositadamente um tema, como uma premissa que leva a uma conclusão. Normalmente, ele pode ser estabelecido em termos simples: “x que leva a y”2 ou algo equivalente, como: “o medo que os outros têm do que é diferente os leva ao distanciamento” (Shrek); ou: “a ganância leva à autodestruição” (Proposta Indecente e Um Plano Simples).

Outros exemplos de temas em que podemos pensar:

Traffic: na guerra às drogas, ninguém sai limpo, nem mesmo os mocinhos.
Babe, o Porquinho Atrapalhado: a biologia pode ser transcendida pelas escolhas pessoais (um porco prova que ele pode ser um cão pastor de ovelhas).
Atração Fatal: a infidelidade é um tiro que sai pela culatra.
Sociedade dos Poetas Mortos: o conformismo mata o espírito, mas a individualidade o liberta.
O Exterminador do Futuro e Jurassic Park — Parque dos Dinossauros: a tecnologia desenfreada se volta contra a humanidade.

O tema é o propósito ou a moral da história, encarnado na trama. Aristóteles descreve a trama como a sequência inevitável ou provável de eventos.3 Se alegamos que uma sequência de eventos é inevitável baseados no comportamento inicial do personagem, acabaremos chegando a uma conclusão moral sobre o mundo. X leva a y. Se nos comportamos de tal maneira, tal fim ocorrerá. Nossa história encarna o nosso tema.

Amadeus, escrito por Peter Shaffer, conta a história de Antonio Salieri, o compositor da corte durante o governo do imperador austríaco Joseph II. No filme, Salieri é um homem que desde a infância desejava glorificar a Deus compondo grandes músicas. Mas ele logo percebe que Deus acabou “escolhendo” para essa tarefa o infiel e infantil Wolfgang Amadeus Mozart, pois concedeu-lhe uma criatividade invejável. Salieri fica tão irritado com o que parece ser um capricho de Deus que acaba decidindo se vingar do Senhor destruindo Mozart. Sua tentativa acaba levando-o para uma clínica para perturbados mentais. O tema é: O homem encontra a verdadeira liberdade quando aceita o destino que Deus lhe dá; tentar controlar o destino resulta em escravidão.

O Show de Truman, escrito por Andrew Niccol, trata de um jovem inocente chamado Truman, que sonha em abandonar a pequena e idílica cidade de Seahaven para ver o mundo e encontrar o seu primeiro amor. Todas as suas tentativas de sair da ilha acabam sendo frustradas até ele descobrir que tudo o que acontece em sua vida é exibido em um programa de TV. Quem controla tudo é um produtor de televisão chamado Christof, que parece uma espécie de “deus”. Truman precisa confrontar seus desejos interiores, bem como o produtor do show, para se libertar do controle externo e escolher seu próprio destino na vida. O tema de O Show de Truman é: o homem encontra a verdadeira liberdade quando consegue controlar o seu próprio destino. O controle soberano de Deus sobre a nossa vida resulta em escravidão; a autonomia humana conduz à liberdade.

Como você pode ver, as duas histórias — Amadeus e O Show de Truman — lidam com o tema da soberania de Deus e da liberdade humana, embora cheguem a conclusões opostas.
Muitos filmes apresentam vários temas. Alguns podem ser mais gerais do que os outros. Por exemplo, um outro tema de O Show de Truman é a noção de que a mídia nos Estados Unidos se tornou um substituto da vida real. Porém, mesmo esse tema serve ao tema principal da vida como liberdade autônoma.

O herói

Com o tema estabelecido, pensemos sobre a estrutura básica da história. A maioria dos espectadores estão familiarizados com a ideia de que as histórias possuem heróis e vilões. Em termos simples, o herói é o personagem principal, ao redor de quem gira a trama. O herói de O Show de Truman é, obviamente, Truman. Amadeus possui uma perspectiva única sobre o herói porque, em certo sentido, o vilão é o herói. Salieri é aquele que tenta lutar contra Deus e matar Mozart, e isso faz com que ele seja o vilão. Mas Peter Shaffer faz uma mudança radical de perspectiva, quando decide contar a história sob a ótica do vilão, como se ele fosse o herói. Por isso, para Salieri, Deus é o vilão.

O objetivo do herói

O herói sempre tem um objetivo, um forte desejo que conduz a história. Sem um objetivo, não há história. E o herói normalmente chega a ficar obcecado pela conquista de seu objetivo.
Para Salieri, o objetivo principal é glorificar a Deus com músicas bonitas e famosas. Desde a juventude, ele se dedica à conquista desse objetivo, estudando música com todo o seu empenho.
O objetivo de Truman é deixar a pequena cidade onde foi criado e ir para um lugar distante e exótico como as ilhas Fiji. Mas ele tem também um objetivo secundário: encontrar a garota por quem se apaixonou em um período anterior de sua vida.

O adversário

O adversário é aquele que se opõe ao herói e o seu objetivo. Uso a palavra adversário no lugar da palavra vilão porque esta muitas vezes parece mais o estereótipo apresentado em filmes para crianças. Creio que esse ponto de vista pode confundir as distinções e as sutilezas de personagens mais complexos.4 Em essência, o adversário representa o sistema de crenças contrastante ao do herói, resultando em uma história que, no final, é um conflito de visões de mundo. Um adversário pode ser um indivíduo, como o Scar do desenho animado O Rei Leão, ou uma força, como o destino em Forrest Gump — o Contador de Histórias, ou ainda a natureza, como em Mar em Fúria. Um adversário pode ser alguém que é 100% mau, como os inimigos de James Bond, ou um personagem complexo, com virtudes positivas, como a personagem vivida por Sally Field em Uma Babá Quase Perfeita ou o professor de matemática que tenta ajudar o menino prodígio Will em Gênio Indomável.

Em O Show de Truman, o adversário é Christof, que acaba sendo, no final, um símbolo de Deus. Não é coincidência que em inglês seu nome sugere “Christ off” [Fora Cristo], e que no final do filme ele fala com Truman como somente Deus poderia falar, com uma voz vinda do céu. Seu desejo é o bem de Truman, mas ele sempre acaba impedindo-o de ir para as ilhas Fiji, seu grande objetivo.
Na esfera terrena, o adversário de Salieri é Mozart. Mas, na verdade, Mozart torna-se um símbolo tangível da escolha de Deus, ficando em oposição ao desejo de Salieri. Logo, Salieri simplesmente não pode aceitar que Deus escolha um infiel para produzir música divina e relegue um cristão devoto como ele a viver nas “sombras da mediocridade”.

• Trecho retirado de Cinema e Fé Cristã, de Brian Godawa (Editora Ultimato).
Leia mais:
 
 
Engolidos pela Cultura Pop – Arte, mídia, e consumo: uma abordagem cristã, de Steve Turner (Editora Ultimato).
 

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