Livro da Semana  | Pensamentos Transformados, Emoções Redimidas

 

Sabemos que Deus é digno de confiança, mas carregamos marcas profundas de medo e insegurança em nossa história e não sabemos o que significa confiar.

 

É o apóstolo Paulo quem diz: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”. Seguramente havia muitos contra ele. Tudo o que atuava contra ele, pessoas e circunstâncias, possuía um grande poder para levá-lo a duvidar de que Deus era realmente por ele.

Os problemas que enfrentou, as injustiças que sofreu, as portas que se fecharam, os amigos que o abandonaram, tinham grande força de provocar na sua alma um profundo sentimento de insegurança, medo e rejeição e a necessidade de desenvolver mecanismos de controle para se proteger. Muitos, por muito menos, abandonaram a fé. Porém, não foi isso o que aconteceu com Paulo.

É importante observar que Paulo não diz: se Deus é por nós, nada irá acontecer contra nós. A pergunta que ele faz é: “Quem será contra nós?”. Se Deus é por nós – para colocar de modo mais pessoal: se Deus é por mim, se ele está trabalhando e lutando a meu favor, se o Todo-Poderoso está do meu lado, se o Emanuel, o Deus conosco, é por mim, o que todas estas coisas ou pessoas podem fazer contra mim? O que todos os abandonos, traições, injustiças e prisões podem fazer contra mim?

Certamente eles irão fazer com que eu fique abatido, entristecido, afligido. São reações normais, esperadas por quem passa por esses tipos de situação. Certamente Paulo teve esses sentimentos. Mas isso não significa ser tomado pela paralisia do medo e da insegurança, por sentimentos de revolta ou de ter sido abandonado. Paulo não se sentiu rejeitado ou abandonado por Deus, nem desenvolveu um sentimento de revolta e cinismo em relação a sua fé. […]

Uma consequência desses sentimentos é a dificuldade de estabelecer relações de confiança. Ao longo da vida aprendemos a controlar nossos relacionamentos, a domesticar as emoções e a reprimir os desejos pelo medo de sermos feridos pelas forças que atuam contra nós. Cultivamos certa suspeita das pessoas que nos cercam e chegamos a duvidar do amor e do cuidado de Deus.

Mantemos uma distância segura dos outros para não sermos novamente feridos ou abusados. Interpretamos os problemas e angústias que vivenciamos como uma espécie de fatalismo – “Isso sempre acontece comigo”, “Sabia que não podia confiar nesta pessoa” e, por fim, não nos entregamos nem a Deus nem aos outros.

O futuro nos assusta

O futuro também nos assusta. Quando o passado permanece confuso pelas feridas emocionais que carregamos e as mágoas e os ressentimentos se arrastam conosco através dos anos, o medo e a incerteza crescem dentro de nós e o futuro torna-se ameaçador. Insistimos em querer controlá-lo buscando algum mecanismo que nos ofereça segurança contra as incertezas, como um trabalho estável ou competência profissional, porque confiamos apenas em nós, mas ao primeiro sinal de perda de controle nos desestruturamos emocional e espiritualmente.

Num ambiente de medo, insegurança, desconfiança e suspeita não crescemos. Permanecemos isolados no nosso mundo fechado. Mantemos nossas defesas sempre em estado de alerta e nossos mecanismos de controle a postos. Conseguimos abrir pequenas frestas para poucos relacionamentos, mas sempre com a possibilidade de fechá-las a qualquer momento diante da primeira ameaça. Mesmo em relação ao cônjuge e aos filhos, há sempre uma ponta de suspeita. As críticas ou um simples comentário tendem a ser vistos como um tipo de censura, depreciação ou mesmo ameaça, e podem nos desestruturar emocionalmente.

Deus está a nosso favor, nunca contra

A grande afirmação de Paulo é: “Deus é por nós”. Deus está a nosso favor, nunca contra nós. Sendo ele por nós, o que dificuldades, conflitos, angústias e sofrimentos do passado, da vida presente e futura podem fazer contra nós? Se eliminarmos a primeira parte da frase, eles podem fazer muito contra nós. Porém, quando consideramos a segunda parte da frase à luz da primeira, todo o cenário muda. Deus fez uma aliança com seu povo. Selou essa aliança com o sacrifício do seu Filho e nos deu o Espírito Santo. Prometeu ser o nosso Deus e Jesus, antes de subir aos céus, disse:
“E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20). Ele também afirmou que é a luz do mundo e quem o segue não andará em trevas. […]

Os problemas eram reais. Todos eles tinham o potencial de fazer com que Paulo se sentisse abandonado e rejeitado por Deus e pela igreja e de desestruturar sua vida e missão, mas não foi isso o que aconteceu. E ele mesmo nos dá a explicação da sua reação:
Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas. [2 Coríntios 4.16-18]

Por que ele não desanimava? Porque por trás de todos esses problemas e lutas que ele enfrentava estava em curso um processo de santificação e renovação espiritual ao qual ele estava sempre atento. Ele nos oferece pelo menos dois motivos para não desanimar e se desestruturar emocional e espiritualmente.

O primeiro envolve a consciência que ele tinha da necessidade do fortalecimento interior e da fragilidade do corpo. Não são duas realidades distintas: o interior versus o exterior, ou o espírito versus o corpo. Paulo não trabalha com esse tipo de dicotomia. No entanto, ele reconhece que o corpo tem suas limitações e sofre os desgastes naturais da vida. Ele sofre com a má alimentação, e esse era um problema que Paulo enfrentava em suas viagens e prisões; sofre com o desgaste do tempo; sofre as dores e feridas dos açoites. Mas ele também reconhece que a renovação interior não acompanha o mesmo ritmo do desgaste físico; pelo contrário, o corpo envelhece e fica mais fraco e o interior se renova e fica mais forte. O fortalecimento interior nos ajuda a reagir de maneira adequada ao desgaste exterior, seja ele natural – envelhecimento ou doenças – ou provocado pelas vicissitudes da vida – perseguição, rejeição, abandono.
Por causa das suas convicções ele sabia que seu compromisso com a pregação do evangelho iria trazer conflitos e desgastes físicos; ele era muito realista em relação à sua missão. Foi o que Jesus disse. Porém, em virtude da sua mente transformada pelo poder do evangelho ele sabia que, apesar do cansaço e do desgaste físico, todas aquelas tribulações e perplexidades não teriam o poder de abalar a certeza de que Deus era por ele e que, em vez de desestruturarem sua fé, elas fortaleciam e renovavam sua confiança em Deus.
[…]

As convicções moldam as emoções

As convicções e pensamentos de Paulo moldaram suas emoções e seus sentimentos. Muitos pastores e missionários já abandonaram o ministério, e tantos outros abandonaram a fé e o compromisso com Cristo por muito menos. Isso sem falar daqueles que vivem uma experiência espiritual confusa, infantil e codependente por não saberem lidar com situações semelhantes. Como eu disse, os fatos em si não são o problema, mas o modo como os interpretamos e a relação que eles têm com Deus e a fé que professamos. O modo como Paulo interpretou os fatos e reagiu a eles foi determinado por uma mente transformada pelo poder do evangelho.
O medo, a insegurança e o abandono são grandes obstáculos ao crescimento e amadurecimento espiritual. Pessoas que cultivam esses sentimentos buscam “fórmulas” religiosas, não o crescimento espiritual. Buscam as “orações poderosas”, soluções mágicas. São atraídas por líderes dominadores e manipuladores que alimentam uma fé infantil e dependente. Pessoas assim não crescem nem amadurecem. A santidade é percebida de modo moralista e legalista. Precisam de regras e não de princípios. Permanecem infantis porque o medo não permite que sejam “aperfeiçoadas no amor” (veja 1Jo 4.18).

A importante afirmação de Paulo é: “Deus é por nós”. Deus nos criou à sua imagem e semelhança; ele fez de nós o seu povo e celebrou uma aliança conosco; ele nos salvou e nos libertou em Cristo Jesus; perdoou todos os nossos pecados e nos reconciliou com ele mesmo por meio de Cristo, que prometeu que estará conosco todos os dias até o fim dos tempos. [..]

Deus atua a nosso favor. Ele nunca conspira contra nós. Ele faz com que todas as coisas e todos os acontecimentos cooperem para o nosso bem (Rm 8.28). Seu maior desejo é que sejamos conformados à imagem de Jesus Cristo, seu Filho unigênito, e isso não acontece sem sofrimento, perda, luta e conflito. Toda a revelação bíblica é um longo testemunho do cuidado de Deus para com o seu povo, e mesmo quando precisa discipliná-lo ele faz isso para o bem do seu próprio povo. Ele transtorna o mundo por causa do seu povo. Confira Isaías 43.1-5 […].

Ele é o Senhor que nos criou, formou, redimiu, que nos chama pelo nome; nós pertencemos a ele, ele está sempre conosco; somos preciosos aos seus olhos, somos amados por ele. Do que mais precisamos saber para ter a certeza de que ele é por nós?

Se Deus é por nós, por que agimos como se ele fosse contra nós? Por que sentimentos de medo, insegurança, abandono e desconfiança nos acompanham todas as vezes que enfrentamos uma situação difícil? Por que estamos sempre querendo ter tudo sob controle, mesmo sabendo que isso não é possível? Por que nossas emoções e sentimentos não acompanham nossos pensamentos e convicções a respeito da bondade e do cuidado de Deus? Talvez, numa resposta aparentemente simplista, isso acontece porque não confiamos em Deus. Isso não significa que não sabemos que Deus é digno de confiança; é claro que sabemos, mas significa que carregamos marcas profundas de medo e insegurança em nossa história e não sabemos o que significa confiar.

• Trecho retirado do livro Pensamentos Transformados, Emoções Redimidas, de Ricardo Barbosa de Sousa  (Editora Ultimato).

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