Livro da Semana  | Simplesmente Cristão, por N. T. Wright

 

Mesmo tendo boas intenções, é difícil evitar que façamos uma imagem de Jesus conforme a nossa própria imagem

 

Jesus: a chegada do reino de Deus

O cristianismo diz respeito a algo que aconteceu. Algo que aconteceu a Jesus de Nazaré. Algo que aconteceu através de Jesus de Nazaré.

Em outras palavras, o cristianismo não diz respeito a um novo ensino moral — embora estivéssemos moralmente perdidos e precisássemos de orientações novas ou mais específicas. Não estamos negando que Jesus e alguns de seus primeiros seguidores deixaram lições morais revigorantes e racionais. Apenas insistimos que esse ensino moral faz parte de uma estrutura maior — a história de algo que aconteceu e transformou o mundo.

O cristianismo não se restringe ao exemplo moral oferecido por Jesus, como se nossa principal necessidade fosse observar uma vida de intenso amor e devoção a Deus para que pudéssemos imitá-la. Se essa era a principal intenção de Jesus, pode ter produzido algum efeito. A vida de algumas pessoas tem realmente mudado simplesmente por observar e imitar o exemplo de Jesus. Mas, por outro lado, poderíamos nos sentir frustrados. Posso observar Richter tocar piano ou Tiger Woods jogar golfe, mas isso não significa que eu possa imitá-los. Só me faz perceber que não consigo e que jamais conseguirei.

O cristianismo também não é uma nova rota estabelecida por Jesus para que as pessoas possam “ir para o céu quando morrerem”. Trata-se de um equívoco baseado na noção medieval de que a finalidade principal de toda religião seria simplesmente garantir que você vá para o céu, que quando acabar a peça você ficará do lado certo na pintura da Capela Sistina (isto é, no céu e não no inferno). Mais uma vez, não estamos negando que as ações que praticamos em vida ou nossas crenças não tenham consequências futuras. Porém, não era esse o propósito da obra de Jesus nem é essa a “finalidade” do cristianismo.

Por último, o cristianismo não veio dar ao mundo um novo conceito de Deus, embora, se a afirmação cristã for verdadeira, podemos aprender muito sobre Deus olhando para Jesus. O ponto principal não é tanto o fato de que somos ignorantes e precisamos de mais informação. A questão é que estamos perdidos e precisamos de alguém que venha nos socorrer; é como se estivéssemos afundando na areia movediça, esperando por alguém que possa nos resgatar e nos dar uma nova vida.

Mas, afinal, do que trata o cristianismo?

O cristianismo fala do Deus vivo que, no cumprimento de suas promessas e como clímax da história de Israel, nos encontrou, salvou e nos deu nova vida em Jesus. Através de Jesus, a operação-resgate de Deus foi colocada em prática de uma vez por todas. Uma grande porta se abriu, e jamais poderá ser fechada. Trata-se da porta da prisão onde vivíamos acorrentados. Porém, nos foi oferecida a liberdade: liberdade de experimentar o resgate de Deus, de passar pela porta aberta e explorar o novo mundo ao qual agora temos acesso. Todos nós fomos especialmente convidados — ou melhor, convocados — a seguir Jesus e descobrir que esse novo mundo é, na verdade um lugar de justiça, espiritualidade, relacionamento e beleza. Não devemos apenas desfrutar de todas essas coisas, mas trabalhar para que elas se tornem evidentes, assim na terra como no céu. Quando ouvimos a voz de Jesus, descobrimos que é essa voz que ecoa no coração e na mente de toda a raça humana.

Romances e ficção

No ultimo século, a quantidade de livros escritos sobre Jesus apresentou um rápido crescimento. Isso pode ser explicado em parte pelo fato de Jesus frequentar a memória e o imaginário da cultura ocidental como poucas figuras do passado ou do presente. Nossa datação do tempo ainda usa como referência a data provável do nascimento de Jesus. (Na verdade, o monge do sexto século que fez o cálculo errou em alguns anos; Jesus deve ter nascido no ano 4 antes de Cristo, o ano em que morreu Herodes, o Grande). Em meu país [USA], mesmo aqueles que pouco ou nada sabem sobre Jesus ainda usam seu nome como garantia em um juramento, numa espécie de reconhecimento indireto ao seu impacto cultural.

Na América, afirmações levianas a respeito de Jesus ainda produzem manchetes de jornais: talvez ele não fosse nada daquilo que consta nos evangelhos; talvez ele fosse casado, talvez não pensasse ser o Filho de Deus, e assim por diante. Alguns autores têm escrito romances e obras de ficção histórica com enredos fantasiosos a respeito de Jesus, como O Código Da Vinci, de Dan Brown, que insiste (entre outras coisas) que Jesus era casado com Maria Madalena e tinha um filho. O extraordinário sucesso desse livro não pode ser explicado simplesmente por ser um thriller inteligente e bem escrito. Há muitos outros como ele. A possibilidade de descobrir algo novo sobre Jesus, algo que passou despercebido à nossa cultura desperta nas pessoas um sentimento de novas possibilidades e perspectivas.

Isso acontece, em parte, porque como qualquer outro personagem histórico, Jesus está sujeito a diferentes interpretações. As pessoas escrevem biografias revisadas de Winston Churchill, do qual há muitas evidências, ou de Alexandre, o Grande, do qual há bem menos. Na verdade, quanto maior o número de evidências, mais há para ser interpretado; quanto menor, mais suposições são levantadas, a fim de preencher as lacunas. Assim, tanto em relação a um personagem recente, do qual há muita informação, quanto a um personagem antigo, do qual não há quase nada, há sempre trabalho de sobra para o historiador.

Jesus, na verdade, tem um pouco de cada. É claro que temos muito menos material a seu respeito do que temos, por exemplo, de Churchill ou J. F. Kennedy. Mas sabemos bem mais sobre Jesus do que sobre muitos personagens do mundo antigo, como Tibério, o imperador romano na época da morte de Jesus, ou Herodes Antipas, o governador judeu no mesmo período. Na verdade, temos tantas frases atribuídas a Jesus e tantos relatos de suas ações que podemos escolher apenas alguns deles para usarmos de forma sucinta neste capítulo e no próximo. Ao mesmo tempo, no entanto, há brechas incômodas, não apenas em grande parte de sua infância e adolescência, como também em algumas coisas que um biógrafo contemporâneo gostaria de saber. Ninguém fala nada sobre sua aparência física, ou o que ele tomava no café da manhã. Ninguém, o que é mais importante, nos diz como ele lia as Escrituras, ou — exceto em rápidas menções — como ele orava. O segredo, portanto, é procurar entender o mundo de Jesus, o mundo complicado e perigoso do Oriente Médio no primeiro século, de modo a fazer com que suas palavras e suas ações adquiram um sentido histórico, pessoal e teológico.

O lugar do encontro entre a dimensão de Deus e a nossa

Mas, como já dissemos, há algo mais, algo que torna a tentativa de compreender Jesus muito mais complexa e contestada do que qualquer outro personagem na história antiga ou moderna. Os cristãos têm afirmado desde o início que apesar de Jesus não mais andar pela Palestina, onde qualquer um poderia encontrá-lo e conhecê-lo, ele está de fato “conosco” em sentido diferente, e podemos conhecê-lo de uma maneira não completamente diferente do modo como conhecemos outras pessoas.

Isso acontece porque o elemento essencial para a experiência cristã, não meramente para o dogma cristão, está no fato de que em Jesus de Nazaré o céu e a terra se uniram para sempre. O lugar do encontro entre a dimensão de Deus e a nossa não é mais o Templo de Jerusalém. É o próprio Jesus. A mesma cosmologia que fez sentido em relação à afirmação sobre o Templo faz sentido também em relação a essa afirmação. Não podemos esquecer que “céu”, no pensamento judaico-cristão não é um lugar quilômetros acima do firmamento, mas é, por assim dizer, a dimensão de Deus em relação ao cosmos. Assim, embora os cristãos creiam que Jesus está agora “no céu”, ele está também no nosso mundo, acessível e ativo. Para qualquer um que crê nisso e tenta viver por isso, escrever a história de Jesus é muito mais complicado que simplesmente documentar a vida de um personagem do passado. É mais como escrever a biografia de um amigo que ainda está bem vivo e que ainda pode nos surpreender.

Não seria mais simples, então, dizer que deveríamos abandonar a tentativa de escrever sobre Jesus como personagem histórico e passar a escrever a partir de nossa experiência com Jesus? Atualmente, há muitas pessoas que defendem essa posição vigorosamente, não só por estarem fartos das tolices escritas por estudiosos e autores populares. Mas eu não farei isso. Já é bastante difícil, mesmo tendo boas intenções, evitar que façamos uma imagem de Jesus conforme a nossa própria imagem. Quando deixamos de lado a história, perdemos o freio e o retrato passa a ser uma ilusão.

• Trecho retirado do livro Simplesmente Cristão, de N. T. Wright (Editora Ultimato).
  1. ALEXANDRE DE BRITO SILVA

    Muito florido, prolixo, quase sem conteúdo esse testículo! O cristianismo trata da criação da possibilidade de salvação do homem perdido. Perdido por interferência direta de satanás, interferência essa foi permitida por Deus! E porque? Não sabemos! Parece que era uma tese a ser demonstrada e o cenário para que isso fosse discutido era o universo! Rubem Amorese foi o pensador que melhor explicou isso em seu livro Meta-história, a história por trás da história da salvação.
    Pessoas inteligentes querem saber “a real” das coisas! E porque não dizê-las? Acha-se que serão menos críveis? Olha, quem tem que crer crerá de qualquer jeito, porém dizendo a verdade é mais digno, academicamente coerente e honesto, e mais didático!!!!

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