Versão ampliada do artigo Arte que gera mais, oferecido na seção “Arte para Todos”, na edição #368 da revista Ultimato

Por Laise S. Ribeiro

Camelos em crochê são uma das peças artesanais que as mulheres atendidas no “Gera Mais” aprendem a fazer

A Família Aziz mudou-se em 2014 para o Oriente Médio com o objetivo de iniciar os trabalhos da MAIS – Missão em Apoio à Igreja Sofredora – na região. A igreja sofredora é a comunidade de cristãos oprimidos por circunstâncias externas ou alheias à sua vontade, como a perseguição e a catástrofe. Os quatro pilares de atuação da organização são ajuda humanitária, desenvolvimento comunitário, treinamento e acolhimento, para desenvolver autonomia, autoestima e vocação.

Especificamente no Oriente Médio, a MAIS atende cerca de 3000 famílias em situação de refúgio (sírios e iraquianos), com cestas básicas e projetos de desenvolvimento comunitário. Entre os projetos, destaca-se o “Gera Mais”, o qual promove integração entre mulheres em situação de refúgio, vindas principalmente do Iraque e da Síria, que não podem trabalhar no país que as acolheu. Atualmente, o projeto é administrado pelo casal César e Jéssica, líderes do projeto “Faz e Transforma”.

O “Gera Mais” oferece capacitação, produção e geração de renda a partir de aulas de costura, bordado, maquiagem e inglês. Além de ensinar trabalhos manuais, proporcionamos um curso profissionalizante de maquiagem para que essas mulheres possam ter oportunidades de renda. Ainda, oferecemos curso de inglês, pois a maioria das mulheres fala apenas o árabe e está esperando uma resposta do ACNUR – órgão que administra o pedido de refúgio – para conseguir acolhimento em um país de língua inglesa.

Além de ser uma fonte de renda para as mulheres, a arte ajuda na recuperação da autoestima, pois elas têm a oportunidade de superar os traumas devido à perseguição do Estado Islâmico, por meio de relacionamentos no projeto e do aprendizado de uma profissão de maneira lúdica.

A arte tem sido uma importante aliada na reintegração e inclusão social, já que, além da dificuldade com a nova cultura, idioma e costumes, as mulheres chegam ao país em situação de pobreza, emocionalmente abaladas e com pouca perspectiva de se reestruturarem. Ainda, sofrem com práticas discriminatórias, motivadas por fatores econômicos, raciais ou étnicos.[1] A integração local é um processo complexo e gradual, que envolve várias dimensões socioculturais.[2] O objetivo do projeto é que essas mulheres aprendam uma profissão e possam exercê-la em qualquer outro país onde morem, e recuperem a autoestima enquanto esperam a definição do seu futuro.

O projeto atende cerca de trinta mulheres, sírias e iraquianas, que têm aulas em diferentes dias da semana, para que todas tenham espaço e oportunidade. A professora é uma refugiada síria, que ensina lindos bordados.

É certo que não podemos alcançar todas as mulheres vítimas da perseguição religiosa, mas as que participam do “Gera Mais” têm a oportunidade de se reintegrar cultural e socialmente por meio da arte. Conforme o exemplo de Madre Teresa, “não podemos fazer grandes coisas; apenas pequenas coisas com grande amor”.[3]

A partir da cosmovisão cristã, buscamos manifestar, por meio de uma realização prática, o amor que Jesus ensinou, pois as mulheres não perdem seus direitos inerentes à dignidade por estarem fora do país de origem, como refugiadas.

Juntas, as mulheres do “Gera Mais” são uma família e dividem histórias e aprendizados. Por meio dos relacionamentos proporcionados pela arte, mostramos compaixão, que não é mero sentimentalismo, mas uma virtude orientada pelos relacionamentos em busca de transformação. Amar é andar junto tempo suficiente para que o outro seja a melhor pessoa possível.

Os produtos desenvolvidos pelas mulheres são camelos de crochê, marcadores de página, almofadas, chaveiros e carteiras manuais. Destaque para o marca-página com a letra N, que em árabe significa nazareno ou cristão. No Iraque, o Estado Islâmico marcava as casas dos cristãos com a letra N, para persegui-los. No “Gera Mais”, o N virou uma oportunidade de as mulheres expressarem seus sentimentos e dividirem suas histórias.

Notas:
[1]MILESI, Rosita; CARLET, Flavia SILVA. Refugiados e políticas públicas. In: Cesar Augusto S. da (org.). Direitos humanos e refugiados. Dourados: ed. UFGD, 2012. p. 86-87.
[2]UN High Commissioner for Refugees (UNHCR). UNHCR Global Trends 2011; a year of crises. 2012. p. 9. http://www.refworld.org/docid/4fdeccbe2.html.
[3]Madre Teresa. In: MILLER L., Darrow. Discipulando nações. Curitiba: FatoÉ Publicações, 2003. p. 256.

• Laise S. Ribeiro é advogada, membro da Comissão de Liberdade Religiosa da OAB do Paraná e mora no Oriente Médio, onde desenvolve trabalho humanitário em favor de refugiados.

Contato: geramais.refugiados@gmail.com
Catálogo com os produtos do projeto “Gera Mais”:
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