Carioca, mulato filho de mãe mulata, o pai foi quem o apresentou ao encanto da música e junto com mãe o ensinaram a temer e amar a Deus. Ele é apaixonado por samba, mas não nega que tem uma quedinha pelo baião. Diz que está no sangue. Seu amor pela música popular brasileira é a marca registrada de seu trabalho musical.

Autor de Ser Evangélico, Sem Deixar de Ser Brasileiro, publicado por Ultimato, Gérson Borges também coleciona quase uma dezena de álbuns. Casado com Rosana Marcia – a “Cinha” –, Borges é licenciado em Letras e pós-graduado em Teologia e Sociologia. Atualmente, ele se ocupa com o pastorado e com viagens pelo Brasil, espalhando arte e cultura por meio da sua música e palestras.

Na Varanda, o músico fala sobre suas influências na literatura e conta sua receita para fomentar a criatividade, quando a inspiração não aparece.

Alguma pessoa ou livro, em especial, influenciou sua aproximação da leitura e da escrita?

Para começar, revistas em quadrinhos e minhas professoras de língua portuguesa, sem dúvida. Aprendi a ler entre os cinco e seis anos e me tornei aficionado aos gibis. E na escola, lia com avidez e prazer tudo o que era indicado. Na quinta série, Dona Lourdes marcou minha vida. Ao perceber meu gosto pela leitura, trazia livros da própria biblioteca pessoal e me recomendava. O primeiro foi “1984”, de George Orwell. Para mim, leitura desses gibis e romances de formação sempre foi e será releitura. Poucos prazeres se comparam a redescoberta de um velho texto que nos tocou no passado – e que se mantém forte, vivo, espiritual e intelectualmente estimulante. Ler é reler.

Quando a inspiração para escrever não vem…

Releio trechos dos meus mestres e mentores, visito livrarias, dou um tempo, silencio. Solitude e quietude são imbatíveis para fomentar a criatividade. Nada me ajuda mais a produzir do que não produzir nada por um tempo. Com a escrita é mais fácil, mas com a música a coisa é mais complicada. Se fico tempo sem essas referências artísticas e espirituais minha alma murcha. Por isso o Shabat é revigorante, tanto do ponto de vista da produção artística como da manutenção da criatividade. Parar. Dormir. Dar um tempo.

O que os adultos devem ler para as crianças?

Os clássicos infantis (meus filhos adoravam), gibis, narrativas bíblicas e qualquer texto que eles peçam! Tenho lido a Bíblia em quadrinhos com o filho caçula. A gente começa devagar e, “záz”, daqui a poucos minutos já se foi um tempo maravilhoso em torno dessa leitura. Só há um jeito de ganhar gosto pela leitura: lendo.

Que conselho você gostaria de ter recebido na sua juventude?

Como se preparar para provas de matemática! Eu sempre tive muita dificuldade. Considero-me um analfabeto funcional da linguagem matemática. Ainda bem que me casei com uma matemática (risos).

Gérson Borges e a esposa

Como você lida com o envelhecer?

De forma natural, como sendo a colheita de uma semeadura. A gente envelhece de dentro para fora, preciso dizer. Velhice saudável é uma atitude mental e espiritual. O corpo acompanha. Agora, a saudade da infância e juventude não tem jeito, dói para quem presta atenção à vida. Apesar de apenas me avizinhar aos cinquenta – portanto, meia-idade –, procuro cultivar a gratidão, alegria e a paz de espírito (sugestões de Paulo aos filipenses). Uma pessoa madura, que deseja envelhecer bem, precisa dessas virtudes. E ainda lembro de Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Carpe diem, né? Viver para a glória de Deus. Vida dentro da vida. Eis meu projeto de melhor-idade: “Tomar o meu vinho ao lado da mulher da minha mocidade”, como diz o pregador hebreu nas Escrituras. Um tipo de hedonismo cristão para um cristão sênior (risos)!

O que mais o anima e o que mais o incomoda no meio evangélico?

Fico animado com jovens líderes, especialmente pastores, verdadeiramente piedosos, crentes, inteligentes e “aptos a ensinar”. Devoção e instrução é uma combinação poderosa e irresistível. O que me desanima é muito maior, infelizmente: religiosidade, graça barata, mediocridade, a miopia do denominacionalismo, frieza espiritual, analfabetismo bíblico e histórico – coisas tristes, assim. E, é claro, o esvaziamento do termo e do movimento evangélico. A palavra é muito boa para parar na lata do lixo histórico pelas mãos da religiosidade utilitarista da famigerada “teologia da prosperidade” e seus profetas radiofônicos, televisivos e “internéticos”, cínicos e covardes. Pois enganam o povo, enquanto enchem os bolsos. Mas Deus é Juiz. Isso me consola. E toco o barco. Mais do que condenar o que está errado, que o Senhor me ajude a fazer o que é certo. Tenho orado assim.

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