Livro da Semana  |  Fé Cristã e Cultura Contemporânea

O que qualifica um objeto como arte? Qual seria o núcleo de sentido da modalidade estética?

Para Rookmaaker, esse núcleo seria a beleza. Ainda que ele aprofunde o sentido do belo para além das elaborações clássicas, a tradição de valorizar a composição harmônica das partes em um todo é largamente mantida. Para ele, a beleza é uma qualidade formal, vista no arranjo e no inter-relacionamento entre as partes de um todo, e ligada intimamente à noção de unidade-na-diversidade. Na arte, a beleza é demonstrada na estrutura formal do tema expresso, bem como na composição interna da obra de arte:

A beleza é expressa nas linhas, na cor, no molde e na forma, no ritmo e no som, nas rimas e no relacionamento de palavras e composições, na unidade e na diversidade. É por meio destas coisas que a beleza é realizada: não de forma abstrata. [26]

Na visão de Rookmaaker, o artista, ao compor uma obra de arte, deve ter como meta a beleza, da mesma forma que Deus, ao fazer o mundo belo, viu que tudo era bom! A partir deste núcleo modal do belo como norma estética, Rookmaaker aponta as várias analogias estéticas em outras modalidades componentes da realidade polissêmica[27] da criação, como orientações do artista ao buscar uma arte profunda e verdadeira, ou reveladora da profundidade do real. Assim, devemos ter na arte a moderação dos excessos (antecipação da modalidade econômica do real),[28] harmonia social e balanço entre sentimentos e palavras, além do estilo, do princípio de identidade e contradição e do poder emocional.

A arte deve ter vida, movimento, ritmo estético, polifonia e unidade na diversidade. Na arte, devemos encontrar a predominância de alguns temas em relação a outros (antecipação da modalidade jurídica), a demonstração de amor pelo próximo e uma orientação geral em direção ao Criador, determinada pelo coração do artista.

Uma arte bela e enriquecedora da vida deve refletir as normas presentes em outras dimensões do real, sendo qualificada, porém, pela norma própria de sua modalidade estética, a beleza. Na tradição neocalvinista de Kuyper e Dooyeweerd, a definição deste núcleo de sentido do estético é objeto de discussão e discordância, como a objeção de Calvin Seerveld, também um neocalvinista, que aponta o caráter alusivo, ou metafórico e oblíquo, de uma objetificação artística como núcleo de sentido do estético, rompendo com a tradição clássica do belo.

Arte moderna como a morte de uma cultura

Por ser carregada de sentidos inerentes à participação inexorável na teia polissêmica da ordem criada, a arte de determinada época deve ser analisada em termos de sua compreensão e expressão de aspectos múltiplos da realidade, sobretudo daqueles que lhe são mais caros, como a visão do humano e do divino. Rookmaaker faz essa abordagem de forma magistral em sua principal obra, A Arte Moderna e a Morte de Uma Cultura. De acordo com sua análise do desenvolvimento da arte, desde a antiguidade até as manifestações contemporâneas e modernas, essa forma artística representa claramente os valores e a compreensão da realidade de uma cultura pós-cristã. Essa cultura, ao abandonar os valores inerentes a uma visão cristã da realidade, cria uma nova forma de compreender o homem, a criação, o belo, o justo e todas as facetas do real. O acesso ao fluxo histórico dessa mudança cultural fornece os instrumentos necessários para a correta compreensão do abrangente fenômeno da arte moderna. Ao introduzir o tema, Rookmaaker faz a seguinte afirmação:
A arte moderna não aconteceu simplesmente. Ela veio como resultado de uma profunda reversão de valores espirituais na era da razão, um movimento que no curso de pouco mais de duzentos anos modificou o mundo. (29)

Para Rookmaaker, a compreensão manifesta na arte moderna não se apresenta apenas em expressões esteticamente desqualificadas, que podem ser destrutivas e empobrecedoras da vida. O protesto libertino contra as normas culturais e criacionais como reação ao achatamento racionalista da realidade, o incentivo ao uso de drogas, a busca de um misticismo irracional, a fuga do real na abstração excessiva, o cientificismo e a redução da polissemia do real são facetas da realidade moderna representadas na arte do nosso tempo, exploradas e criticadas por Rookmaaker. O feio na arte moderna, para ele, tem um sentido distinto do feio encontrado em obras de períodos anteriores, pois nelas o feio contrasta com o belo em uma conexão intrincada com a verdade, numa criação bela, apesar de reconhecidamente manchada pelo horror do pecado. Em relação à arte moderna, Rookmaaker questiona:

Qual a diferença entre a beleza destas “horríveis” obras e o “horrível” que encontramos na arte moderna? Novamente, é uma questão de verdade. A arte moderna fala constantemente (e até de forma pesada) sobre a feiúra da criação de Deus, ou do desespero da esperança, ou da ausência de sentido do que é significante: uma vez que estas coisas são mentiras, elas nunca podem ser belas. Um pensamento horrível nunca pode ser verdadeiramente belo, pois uma mentira não pode ser verdadeira; mas a verdade é bela quando demonstrada em sua profundidade e plenitude. (30)

Um chamado à realidade criada, à riqueza da vida vivida na criação de um Deus de amor, que criou o homem à sua imagem, e suas implicações na vida do artista são direções apontadas por Rookmaaker como resposta à perda de contato com a realidade, consequência da cultura e da arte modernas. Esta última seria o resultado de uma declaração de autonomia em relação a Deus e às normas criadas por ele. De acordo com a análise detalhada de Rookmaaker, a nova cultura e sua arte estão em total desconexão com a expressão rica e verdadeira da realidade oferecida por Deus em sua criação, afirmada pela regeneração em Cristo Jesus e corretamente interpretada por meio de sua revelação.

O cristão nas artes e os traços de uma arte cristã

Como alternativa a uma arte negadora da vida humana, Rookmaaker não propõe uma arte sacra, ou bíblica em seu conteúdo, mas uma arte que seja plenamente fiel à realidade criada por Deus, que represente o ser humano e a polissemia do real de forma fiel e verdadeira, a partir de insights bíblicos. Para ele, o cristão nada mais é do que o homem na plena concepção da palavra:

Cristo veio nos redimir para que possamos ser humanos, no sentido pleno da palavra. Ser novo homem significa que podemos começar a agir em nossa plena e livre capacidade humana, em todas as facetas da vida. […] ser cristão significa que a pessoa tem humanidade, liberdade de trabalhar na criação de Deus. (31)

Para Rookmaaker, a arte cristã não é a expressão de atos criativos individuais de pessoas que supostamente teriam encontrado a Cristo. O pecado, com seu potencial destrutivo, pode se manifestar tanto na obra de arte de um cristão como na de um não cristão. Ele afirma que “há uma profunda diferença entre o cristão e o não cristão, mas não podemos procurar esta diferença nos locais errados”. Ela está nas atitudes básicas do homem, “em suas esperanças e na compreensão de sua tarefa”. Porém, ao analisarmos uma atividade específica, constatamos que “o cristão pode ser tão tolo e pecador quanto o incrédulo sábio e correto”.32

A expressão de uma arte cristã deve ser buscada em manifestações artísticas de realidades históricas concretas de uma cultura que viveu e percebeu de forma rica e plena a realidade de Deus, colhendo os frutos desta vida de obediência e percepção em seus produtos culturais. Este reflexo cultural da produção de artistas individuais é fruto da bênção de Deus sobre uma realidade histórica, segundo sua promessa nas Escrituras (Cf. Dt 30.9). É preciso levar em conta a mão de Deus na história ao tentar discernir o significado de uma arte cristã.

Seguindo a linha de pensamento de Schaeffer, Rookmaaker busca discernir exemplos históricos de manifestações culturais moldadas por uma visão cristã da realidade, com características profundamente bíblicas. As manifestações artísticas do período da Reforma Protestante são um bom exemplo, assim como as inclinações culturais cristãs da arte gospel, do blues e do jazz primitivo, no contexto das comunidades negras norte-americanas profundamente influenciadas pelo evangelho. Existe uma sabedoria culturalmente compartilhada por grupos sociais a partir da vivência multifacetada da aliança de Deus em sua realidade criada, que se manifesta em expressões artísticas mais ou menos cristãs. Rookmaaker supõe que a arte dos séculos 16 e 17 em seu país natal reflete claramente uma visão cristã da realidade:

A qualidade e a quantidade de obras de arte produzidas no século 17 na Holanda são impressionantes. Todos os museus do mundo se orgulham das obras de arte desse período de ouro […] não apenas por ter existido tantos grandes artistas (Rembrandt, Ruysdael, Hobbema, Frans Hálls, Terborch, Potter, van de Velde, Vermeer, de Hoog e outros), mas por tantos artistas menores que também produziram arte de grande qualidade […]. Certamente o calvinismo teve grande influência nos temas utilizados nas pinturas […]. A pregação pura da Palavra permeava toda a vida na Holanda, introduzindo uma visão mais abrangente da realidade e da vida. Não havia necessidade de representar um mundo mais ideal do que seu próprio país e tempo, mais ideal do que o mundo entre a queda e os últimos dias. Havia beleza suficiente para ser encontrada neste mundo. (33)

De acordo com Rookmaaker, se consideramos que arte cristã é aquela produzida por um artista cristão nascido de novo, ficamos sem padrão para avaliar a qualidade artística da obra ou mesmo a subjetividade do artista em questão. Se, porém, consideramos que arte cristã é aquela inspirada pela Palavra de Deus, no sentido de representar uma visão de mundo e da humanidade fiel às Escrituras, então podemos afirmar que a arte de determinada época — como a holandesa do século 17, ou o gospel, jazz e blues do século 20 nos Estados Unidos — é uma arte com inclinações cristãs.

Esse padrão conduz Rookmaaker a apresentar Rembrandt como representante histórico de uma arte cristã, ainda que inserido em formas e estilos próprios de sua época. Embora não se possa comprovar que Rembrandt tenha sido de fato um cristão nascido de novo, sua arte reflete uma rica visão da realidade retirada das Escrituras e transformada em sabedoria existencial na forma de perceber a criação. Uma profunda sabedoria em relação à compreensão da realidade, exemplificada magistralmente por Rembrandt, é essencial para uma arte cristã. Rookmaaker comenta a sabedoria no contexto das obras de Rembrandt:

Uma pessoa não pode escrever, falar ou pintar em um nível mais profundo do que sua sabedoria lhe permite. Nenhum romance, estudo, discussão ou obra de arte pode apresentar maior entendimento do que seu autor possui. Não precisamos, no entanto, entender esta sabedoria de forma individualista. Pois a sabedoria, que é uma combinação de insight, conhecimento, experiência de vida, perceptividade, entendimento de normas, senso comum e empatia, não pode ser apreendida em sua inteireza por uma pessoa. A sabedoria e insight, conhecimento e visão de mundo da cultura circundante sempre nos ajudam ou nos limitam. (34)

Esta é a razão por que nossa cultura oferece uma visão tão rasa da realidade nas artes que produz. Uma visão permeada pelo secularismo, que reduz tudo a fatores econômicos e tecnológicos, não pode ser um solo fértil para o artista, que ali é nutrido. Daí a necessidade de uma reforma cultural e de insights em relação à realidade, possíveis mediante o retorno a uma visão bíblica e cristã da realidade. Para Rookmaaker, uma arte plenamente cristã só pode florescer em um contexto de vida espiritual e cultural enriquecido e por meio de vidas com um depósito de insight e de sabedoria profundamente bíblico, que permitam uma percepção correta da realidade.

Trecho retirado do livro Fé Cristã e Cultura Contemporânea (Editora Ultimato).

 

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