Livro da Semana  |  A Arte e a Bíblia, Francis Schaeffer

 
Ainda que a criatividade em si seja algo bom, nem tudo o que é feito pelo ser humano é intelectual ou moralmente bom

Todos nós nos relacionamos diariamente com obras de arte, mesmo que não sejamos artistas profissionais nem amadores. Lemos livros, escutamos músicas, observamos cartazes e admiramos arranjos de flores. Arte, com o significado que estou utilizando, não inclui apenas “arte elevada”, isto é, pintura, escultura, poesia e música clássica, mas também as expressões mais populares — romances, teatro, cinema, música popular e rock. De fato, há uma razão real pela qual a vida cristã em si deveria ser nossa obra de arte mais grandiosa. Mesmo para o grande artista, a obra de arte mais crucial é sua vida.

A seguir, busco desenvolver uma perspectiva cristã sobre a arte em geral. Como criadores e apreciadores da beleza, como devemos compreendê-la e avaliá-la? Creio que existem pelo menos onze perspectivas distintas a partir das quais o cristão pode considerar e avaliar os vários aspectos da arte. Estas perspectivas não esgotam os vários aspectos da arte. O campo da estética é rico demais para que isso acontecesse. Porém, elas cobrem uma parte significativa do que deve ser o entendimento do cristão nesta área.

A obra de arte como obra de arte

A primeira perspectiva é a mais importante: Uma obra de arte tem valor em si mesma. Para alguns, este princípio pode parecer óbvio demais para ser mencionado, mas, para muitos cristãos, é algo impensável. Assim, se ignorarmos este ponto, perderemos a essência da arte. A arte não é algo que simplesmente analisamos ou avaliamos por seu conteúdo intelectual. É algo a ser apreciado. A Bíblia diz que as obras de arte no tabernáculo e no templo estavam lá pela beleza.

Como um artista deve começar a fazer sua obra como artista? Eu diria que ele deve iniciar seu trabalho decidindo fazer uma obra de arte. Isso tem significados diferentes em escultura e poesia, por exemplo, mas, em ambos os casos, o artista deve se dedicar a fazer uma obra de arte.

Como cristãos, sabemos por que uma obra de arte tem valor. Primeiro porque uma obra de arte é uma obra de criatividade, e a criatividade tem valor porque Deus é o criador. A primeira frase da Bíblia é uma declaração de que o Criador criou: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1). Assim também são as primeiras palavras do prólogo do Evangelho de João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.1-3). Portanto, a primeira razão para valorizarmos a criatividade é que Deus é o Criador.

A criatividade faz parte da distinção entre ser humano e ser não-humano

Em segundo lugar, uma obra de arte tem valor como criação porque o homem é feito à imagem de Deus e, portanto, pode não apenas amar, pensar e sentir emoções — ele tem também a capacidade de criar. Tendo sido feitos à imagem do Criador, somos chamados à criatividade. De fato, sermos criativos ou termos criatividade faz parte da imagem de Deus em nós. Jamais encontraremos um animal, um ser não-humano, que faça uma obra de arte. Por outro lado, jamais encontraremos seres humanos em qualquer lugar do mundo ou em qualquer cultura que não produzam arte. A criatividade faz parte da distinção entre ser humano e ser não-humano. Todas as pessoas são, em algum nível, criativas. A criatividade é intrínseca à nossa hominalidade.

Contudo, precisamos tomar cuidado para não inverter a ordem das coisas. Nem toda criação é uma nobre expressão de arte. Nem tudo o que é feito pelo ser humano é intelectual ou moralmente bom. Assim, ainda que a criatividade em si seja algo bom, não significa que tudo que provém da criatividade humana é bom. Embora tenha sido feito à imagem de Deus, o homem está corrompido. Além disso, por possuírem dons e talentos diversos, é impossível que todas as pessoas criem tudo igualmente bom. Entretanto, o ponto principal é que a criatividade em si é algo bom.

Quando eu era mais jovem, pensava ser errado utilizar a palavra criar para se referir a obras de arte. Achava que ela deveria ser usada apenas em relação ao que Deus pode fazer. Posteriormente, percebi que estava absolutamente enganado. Estou convencido de que é importante compreender que tanto Deus quanto o homem são capazes de criar. Ambos fazem algo. A distinção é que Deus, por ser infinito, pode criar as coisas a partir do nada, por meio de sua palavra falada. Nós, por sermos finitos, conseguimos criar somente a partir de algo previamente criado. Ainda assim, a palavra criar é apropriada, pois sugere que a ação do ser humano sobre o que já existe é que significa criar algo novo. Algo que não existia antes — que começou como uma parte não-humana da realidade — é transformado pela hominalidade do ser humano e agora reflete tal característica.

Estou certo de que as pessoas gastam milhões para fazer museus de arte não apenas para se ter algo “estético”, mas porque as obras de arte nos museus são expressões da hominalidade do ser humano. Quando observo a prata pré-colombiana ou as máscaras africanas ou os antigos bronzes chineses, não os vejo apenas como obras de arte, mas como expressões da natureza e do caráter da humanidade. Como sou humano, de certa forma elas são parte de mim e vejo nelas a manifestação da criatividade inerente à natureza do homem.

Parece-me que muitos artistas modernos têm esquecido o valor que a arte tem em si mesma. Grande parte da arte moderna é intelectualizada demais para ser considerada nobre. Penso, por exemplo, em um artista como Jasper Johns. Muitos artistas modernos parecem não enxergar a distinção entre o que é humano e o que não o é. Faz parte da confusão do homem moderno não mais conseguir valorizar uma obra de arte como obra de arte.

Com frequência pensamos que uma obra de arte tem valor somente se a reduzirmos a propaganda

Temo que, como evangélicos, tenhamos cometido o mesmo erro. Com frequência pensamos que uma obra de arte tem valor somente se a reduzirmos a propaganda. Isso também é ver a arte somente como uma mensagem para o intelecto.

Existem três possibilidades básicas concernentes à natureza de uma obra de arte.

A primeira visão é relativamente recente na teoria da arte pela arte. É a noção de que a arte simplesmente existe e é só isso que interessa. Não se pode falar a respeito dela, não se pode analisá-la e ela não diz nada. Penso que esta visão é um tanto quanto irracional por uma razão: nenhum artista opera apenas no nível da arte pela arte. Pense, por exemplo, na alta Renascença, começando por Cimabue (c. 1240-1302), passando por Giotto (1267-1337), Masaccio (1401-1428) e chegando a Michelangelo (1475-1564) e Leonardo da Vinci (1452-1519). Todos estes artistas trabalhavam a partir de um de dois pontos de vista e, às vezes, havia confusão entre os dois. Eles trabalhavam a partir de sua noção de cristianismo (que, para nós que temos um ponto de vista bíblico, era bastante imperfeita) ou a partir de uma forma renascentista de humanismo. Florença, por exemplo, onde tantas obras de arte excelentes foram produzidas, foi um centro de estudo do neoplatonismo. Alguns artistas estudaram com Ficino (1433-1499), talvez o maior dos neoplatonistas e alguém muito influente em toda a Europa.

Também é verdade que os grandes artistas modernos, como Picasso, jamais trabalharam a arte simplesmente pela arte. Picasso tinha uma filosofia que ele demonstrava em suas pinturas. Muitos artistas menores atualmente trabalham, ou tentam trabalhar, na perspectiva da arte simplesmente pela arte, mas os grandes mestres não o faziam.

A segunda visão é que a arte é somente a materialização de uma mensagem, um veículo para a propagação de uma mensagem particular sobre o mundo, o artista, o ser humano ou qualquer outra coisa. Esta visão tem sido compartilhada por cristãos e não-cristãos, sendo que a única diferença entre suas perspectivas é a natureza da mensagem materializada pela arte. Contudo, como já dissemos, esta visão reduz a arte a uma declaração intelectual e a perspectiva da obra de arte como obra de arte acaba desaparecendo.

A terceira noção essencial da natureza da arte — que eu considero correta, que de fato produz uma arte grandiosa e a possibilidade de uma arte grandiosa — é que o artista produz uma obra de arte e esta demonstra sua cosmovisão. Ninguém que entenda de Michelangelo ou Leonardo da Vinci pode olhar para suas obras de arte sem compreender algo sobre suas respectivas cosmovisões. Estes artistas começaram fazendo obras de arte e, então, suas cosmovisões transpareceram no conjunto de suas obras. Enfatizo o conjunto das obras de um artista porque é impossível que uma única pintura, por exemplo, consiga refletir a totalidade da visão de um artista sobre a realidade. Contudo, quando vemos uma coleção de pinturas de um artista ou uma série de poemas de um poeta ou um conjunto de romances de um romancista, tanto a fundamentação quanto certos detalhes da concepção do artista sobre a vida se manifestam.

Trecho retirado de A Arte e a Bíblia, de Francis Schaeffer (Editora Ultimato).

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>