Livro da Semana   |   Engolidos Pela Cultura Pop

Um dos problemas encontrados por quem tenta compreender a cultura popular de forma cristã é o fato de que a Bíblia não a reconhece como uma categoria separada. Em parte porque os filhos de Israel viviam em uma teocracia onde cultura popular e cultura religiosa eram sinônimos e em parte porque muito do que hoje classificaríamos como cultura popular só passou a existir por causa da eletricidade. Muitas das formas de arte com as quais lidamos hoje não existiam nos tempos do Antigo ou do Novo Testamentos.

Ainda assim, as bases para a cultura foram estabelecidas bem no início da Bíblia: cuidar do jardim e nomear os seres em Gênesis 2, cuidar da terra e fazer roupas em Gênesis 3, construir cidades e tocar harpas e flautas em Gênesis 4, construir barcos em Gênesis 6, construir um altar em Gênesis 8, plantar frutas e produzir vinhos em Gênesis 9, produzir tijolos em Gênesis 11, produzir tendas em Gênesis 12. Na descrição da construção do tabernáculo em Êxodo encontramos as mais detalhadas informações sobre ornamentação artística por meio de medidas precisas, tipos preferenciais de madeira e instruções sobre o uso de ouro, prata e pedras preciosas.

O primeiro artista citado pela Bíblia é Bezalel, que é especificamente cheio “do Espírito de Deus”, que lhe dá “destreza, habilidade e plena capacidade artística” (Êx 31.3). Ele foi capacitado para trabalhar com ouro, prata e bronze, esculpir madeira, talhar e empilhar rochas, gravar e bordar. Apesar de seus dons terem sido dados para ajudar na construção de um lugar para adoração, neste texto é estabelecido o princípio de que Deus gosta de beleza, design e harmonia. Deus queria ser lembrado de uma forma especial em uma construção que foi o produto da cultura popular da época.

Nos tempos do Novo Testamento, os judeus viviam em um território comandado pelos romanos. Suas vidas se resumiam a trabalho, cuidados da casa, preparação e consumo de alimentos, celebrações, conversas e ao movimento da sinagoga. Assim como acontecia com meu avô quase dois mil anos depois, praticamente não havia tempo para entretenimento. A destreza dos músicos, dançarinos e contadores de história era utilizada em festas e festivais. Como nas sociedades atuais que estão em áreas em desenvolvimento, a cultura popular tinha o papel de unir a comunidade, marcar transições importantes e relembrar sua história. Não era algo divorciado da rotina. Quando o filho pródigo volta para casa, seu pai o veste com “a melhor” roupa (Lc 15.22) e coloca um anel em seu dedo. Em seguida, ele oferece uma festa que envolve “música e dança” (Lc 15.25).

O músico contemporâneo Emmanuel Jal cresceu em uma vila no Sudão, e o que ele me disse sobre o papel da música em sua cultura é provavelmente verdade em todas as outras: “Você sabe como é na África” – ele disse. “A música é tudo. Quando há uma festa, há música. Quando há um casamento, há música. Quando um líder faz uma visita, há música. Há música quando um bebê é recebido na família. Há música para confortar aqueles cujos corações foram partidos”.

Jesus fez uma referência interessante ao comparar a geração sem fé, que ignorou João Batista e que o estava ignorando, a “crianças que ficam sentadas nas praças” e gritam umas às outras:
Nós lhes tocamos flauta, mas vocês não dançaram; cantamos um lamento, mas vocês não se entristeceram.
– Mateus 11.17
Isto era uma alusão a um jogo das crianças judaicas no primeiro século. É uma indicação da natureza fundamental dos rituais e jogos, e pelo tom do comentário, podemos presumir que Jesus aprovava e até já havia brincado desse jogo.

Paulo e a cultura popular

Como sabemos, Paulo se aproximou bastante da cultura popular; mas, fora os princípios diretivos de comprometimento com o mundo de forma geral, em nenhum lugar ele dá conselhos sobre a melhor forma de abordar a cultura. As cidades que visitava – tais como Roma, Éfeso, Corinto, Atenas e Filipos – tinham lojas, mercados, piscinas públicas, fóruns, teatros, arenas e circos. Os cidadãos romanos daquela época gostavam de participar de jogos, ouvir recitais de poesia, exercitar-se, banhar-se, participar de competições esportivas e assistir corridas de carruagem e disputas de gladiadores. Não há menção de Paulo participando dessas atividades, apesar de ele citar o boxe, a luta, o exercício, a corrida e a conquista de prêmios ao comparar nossa vida espiritual com uma competição física.

Uma das possíveis razões para Paulo não mencionar tais coisas é que ele era missionário, professor e pastor, não um comentarista cultural. Logo, ele se focava nos discursos com os quais se comprometia e no oferecimento de aconselhamento pastoral. Outra razão é que alguns desses entretenimentos eram brutais e profundamente não cristãos (como o combate de gladiadores), enquanto outros eram baseados na adoração a falsos deuses. É claro – como já descobrimos – que ele havia lido os poetas conhecidos pelos atenienses, mas não há registro de seus pensamentos no teatro grego ou romano.

Entretanto, a falta de instruções específicas sobre cultura popular não difere da falta de instruções sobre, por exemplo, ética médica. Nosso entendimento de como agir tem de surgir da sobreposição de princípios bíblicos. Só posso concluir que Deus gosta que busquemos insights. Afinal, a Bíblia poderia facilmente ser um manual de regras, mas é uma mistura de gêneros literários escritos por muitas pessoas diferentes no decorrer dos tempos.

Principais perguntas

Podemos começar considerando quais são as principais perguntas sobre cultura popular e então ver se a Bíblia nos oferece alguma orientação. A pergunta inicial pode ser: “A cultura popular é em si algo bom?”. Não podemos prosseguir até sabermos a resposta. Imagine se alguém perguntasse como seria um bordel cristão e a resposta fosse que deveria haver Bíblias ao lado de cada cama e o lugar deveria ser cheio de justiça, cortesia, generosidade e amor. A resposta só é ridícula porque não fizemos a primeira pergunta: “Os bordéis são em si algo bom?”. É impossível desenvolver uma abordagem cristã para a cultura popular se ela for algo do qual devemos fugir.

A Bíblia não hesita em aprovar a cultura. Poderíamos dizer que uma de nossas principais tarefas na terra é produzir cultura. Nossa necessidade básica por comida e bebida leva à agricultura, jardinagem, culinária, restaurantes, botequins, lojas e receitas. Estas atividades, por sua vez, exigem ferramentas, roupas de trabalho, transporte, celeiros e panelas. Como nunca queremos ficar com o básico, temos a olaria, a cerâmica, os trabalhos com vidro e a decoração. As refeições se tornam momentos de celebração, festa e amizade ao invés de simples pontos de reabastecimento. A simples necessidade de nutrição leva à formação de cultura.

Nossa demanda básica por algo que nos aqueça inevitavelmente resulta no uso de roupas, dando origem à moda. E moda envolve design, cores e marcas. Nossa demanda básica por abrigo gera construção, arquitetura, planejamento de cidades, canalização e carpintaria. Nossa demanda básica por comunicação exige palavras, histórias, papéis, canetas e tinta. Para exercermos nossas necessidades primárias precisamos desenvolver uma cultura. Jesus trabalhou com madeira. Paulo fez tendas. Davi escreveu poesia. Noé construiu um barco.

Os benefícios da cultura

A próxima pergunta a se fazer é: “Como a cultura nos beneficia?”. Alguns cristãos no passado afirmavam que qualquer dependência da cultura para nosso prazer ou educação era uma falha na dependência de Deus. Eles diziam: “Porque preciso de todos esses entretenimentos baratos quando deveria depender de Deus para tudo? Apenas os incrédulos precisam dessas coisas, pois suas vidas são muito vazias sem Deus”.

Tal argumento falha na compreensão de como Deus nos encoraja e preenche. Ele pressupõe que estamos nos deleitando em Deus apenas quando fazemos algo deliberadamente “religioso”. Contudo, experimentamos a bondade de Deus por meio das coisas que ele nos dá, bem como nos momentos de reflexão e adoração. A luz do sol e a chuva são bênçãos. Deus demonstra seu amor não apenas com fervorosos sentimentos internos, mas também através da família, dos amigos e (às vezes) de estranhos. Deus nos encoraja não apenas com as Escrituras, mas também com ovos, pão e leite. Ele nos cura não apenas pela imposição de mãos, mas também por procedimentos cirúrgicos, remédios, exercício e fisioterapia.

A cultura é uma das formas pelas quais Deus estimula nosso intelecto, afaga nossas mentes atribuladas, revela as maravilhas da vida, nos dá insights sobre os sentimentos dos outros, suaviza o golpe das adversidades, desafia nossas certezas, treina nossos olhos para ver, revela-nos tanto o belo quanto o feio, exalta nosso espírito, satisfaz nossos sentidos, nos faz rir e nos revela aspectos do seu caráter.

Estamos familiarizados com a história da tentação de Cristo. Quando o Diabo o desafia a transformar pedras em pão, Jesus diz: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). É fácil entender a partir disso que a Bíblia é tudo o que precisamos, mas não é isso que está sendo dito. Precisamos de ambos, do pão e da Bíblia. Se o Diabo tivesse oferecido a Bíblia a Jesus, ele talvez teria respondido: “O homem não deve viver só da Bíblia, mas de pão também”.

Aqueles que se apoiam apenas na cultura popular estão se privando da mesma forma que aqueles que se apoiam apenas na Bíblia. Tornamo-nos mais equilibrados, úteis, enriquecidos e holísticos quando tiramos vantagem da cultura. Além disso, assim como não usamos o exemplo do glutão para nos impedir de comer, não devemos usar o exemplo do réprobo secularizado para nos afastar da cultura. Os homens e mulheres que mais me ajudaram em minha vida cristã são pessoas que apreciavam a Bíblia e desfrutavam de uma forma saudável da cultura. A maioria dos homens e mulheres que conheço que tiveram um ministério destrutivo na igreja foram pessoas exclusivamente bíblicas.

Uma das formas usadas para punir as pessoas é privá-las da cultura, que é essencial para nosso ser. Elas são colocadas em salas sem decoração e vestidas com roupas que retiram o senso de individualidade. Seu acesso aos meios de comunicação é reduzido. Se não se comportam bem, todo seu contato social é cortado e elas são colocadas em confinamento solitário. Claro que há cristãos que foram aprisionados sozinhos e testemunharam da presença de Deus com eles, mas não é assim que deveríamos viver. Imagino se a frase “não é bom que o homem viva só” tem uma aplicação mais ampla além da aplicação imediata sobre casamento.

Maneje com cuidado

Uma vez que aceitamos que a cultura é boa e que a vontade de Deus é que ela seja uma forma de nos educar, surgem perguntas sobre a maneira ideal de lidarmos com ela. Não é uma pergunta que Adão precisou fazer antes da queda. Até aquele momento, a cultura contava apenas com aspectos bons. Deus criou os animais e Adão cuidou deles e os nomeou. Ele estava fazendo cultura junto com Deus. Entretanto, após a queda, a cultura passou a ter o potencial de aumentar a distância entre os humanos e Deus. Podemos até colocar a cultura no lugar de Deus. Caim, o fugitivo assassino de Abel, foi o primeiro construtor de cidades. A primeira menção aos tijolos e argamassa é feita durante a descrição da torre de Babel, uma construção humana que pretendia aproximar as pessoas do céu (Gn 11.1-9).

Podemos ser tentados a fazer da cultura nossa religião. Muitas pessoas envolvidas com artes dizem: “A pintura é minha religião”, ou “a música é minha religião”. Não significa que a pintura ou a música respondem às mesmas perguntas que a religião, mas que essas coisas as inspiram, as consomem e as animam da mesma maneira que imaginam que a religião faz com seus seguidores. Talvez queiram dizer também que essas artes dominam suas vidas, que tudo o mais é subordinado a elas. Mesmo pessoas que não declaram tão enfaticamente que a arte é sua religião vivem centradas em atividades como jogos, boates e televisão. No século 19, o poeta Shelley escreveu: “Ando impaciente esperando a dissolução do cristianismo”,1 e “há uma força maior e mais espiritual para ocupar seu lugar. A poesia é algo divino. É o centro e a circunferência de todo o conhecimento”.

Trecho retirado do livro Engolidos Pela Cultura Pop – Arte, mídia, e consumo: uma abordagem cristã, por Steve Turner (Editora Ultimato).

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