Livro da Semana   |   Verdadeiros Cientistas, Fé Verdadeira

O livro Verdadeiros Cientistas, Fé Verdadeira acaba de ganhar o prêmio Areté 2017, de melhor livro do ano, na categoria “Apologética”.

O anúncio aconteceu na quinta-feira à noite, dia 31 de agosto, na abertura da Feira Literária Internacional Cristã (FLIC), em São Paulo (SP). O Prêmio Areté, que se destina a reconhecer e premiar a excelência em literatura cristã, é promovido pela ASEC (Associação de Editores Cristãos).

Verdadeiros Cientistas, Fé Verdadeira reúne uma preciosa coletânea de histórias de cientistas, como Francis Collins, Alister McGrath, John Houghton, Andrew Briggs, entre outros, que estão vinculados a algumas das principais universidades e organizações científicas europeias e americanas, e têm suas contribuições reconhecidas e premiadas pela comunidade científica internacional.

O blog da Ultimato coloca à disposição do leitor parte da história de Alister McGrath, contada por ele mesmo.

 

Verdadeiros cientistas não acreditam em Deus!

Essa frase de efeito soará tristemente familiar para aqueles que tiveram de lutar contra as divagações, exageros e mal-entendidos presentes no livro Deus, um Delírio, de Richard Dawkins (2006). Trata-se de um ponto de vista que se sustenta apenas pelo uso incansável de atenção seletiva e de uma retórica carregada de ataques-surpresa,* em vez de argumentos baseados em evidências. No entanto, é uma visão que muitos na cultura ocidental parecem dispostos a aceitar como a sabedoria da nossa era. Como observou Karl Marx, a frequente repetição de um postulado fundamentalmente falso gera a impressão de que ele é correto e confiável. 

Dawkins parece enxergar o ateísmo intrínseco das ciências naturais como uma verdade óbvia para todos à exceção dos idiotas inatos, ou daqueles que tiveram a mente distorcida e infestada pela noção debilitante de que há um Deus que se interessa por nós e pelo nosso bem-estar. Talvez isso nos ajude a entender sua ira, intolerância e arrogância em relação à persistência (alguns diriam ressurgimento) da crença em Deus quando os profetas secularizadores do final da década de 1960 e início de 1970 haviam previsto sua morte inevitável.

Dawkins é modesto ao fornecer detalhes autobiográficos. Contudo, se entendi seu relato de sua própria conversão ao ateísmo, um elemento essencial do processo foi uma crença cada vez maior de que o darwinismo oferecia uma explicação muito superior da natureza do mundo do qualquer outra que recorresse a Deus. Para Dawkins, a descoberta do darwinismo ocorreu quando ele era estudante na escola de Oundle e consolidou-se durante seus estudos de zoologia na Universidade de Oxford. Assim, as ciências naturais atuaram como um catalisador para sua “desconversão” do que aparenta ter sido uma forma anêmica de um anglicanismo nominal.

Não há dúvida de que tendemos a enxergar nossa própria história pessoal como algo revelador de um padrão mais abrangente das coisas, ou da estrutura mais profunda da realidade. Crenças que consideramos pessoalmente convincentes devem sê-lo para todos. Sendo assim, não é de admirar que aqueles que não se encaixam no padrão sejam vistos como perigosos. Eles tendem a ser rejeitados como excêntricos, idiotas ou loucos. Por quê? Precisamente porque são uma ameaça à credibilidade do credo simplista que eles se recusam a aceitar. Isso porque o que Dawkins vê como um padrão universal não é nada além de uma opção intelectual dentre várias, cada uma das quais tendo encontrado seus apoiadores ao longo dos anos. Neste ensaio, farei um relato da minha própria história, e deixarei que meus leitores decidam se ela tem ou não um significado mais abrangente.

Minha história de amor com as ciências naturais começou quando eu tinha 9 ou 10 anos de idade. Eu ficava impressionado com a beleza do céu à noite e tinha desejo de explorá-lo ainda mais. Ataquei os livros da biblioteca da minha escola que tratavam de astronomia, e até consegui construir um pequeno telescópio para me ajudar a observar as luas de Júpiter. Nessa mesma época, um tio-avô, que era o chefe do Departamento de Patologia no Hospital Real Victoria, em Belfast, presenteou-me com um antigo microscópio alemão, que me permitiu explorar um novo mundo. Ainda hoje ele está na mesa do meu escritório lembrando-me do poder que a natureza tem de fascinar, intrigar e provocar perguntas.

Uma dessas perguntas deixou-me profundamente perturbado. Nos meus anos de adolescência, eu havia absorvido um ateísmo acrítico de autores como Bertrand Russell. Segundo eu pensava, o ateísmo seria o lugar natural de uma pessoa cientificamente informada como eu. As ciências naturais haviam se expandido para ocupar o espaço intelectual outrora ocupado pela ideia abandonada de Deus. Não havia sequer a necessidade de propor, quanto menos levar a sério, uma ideia tão antiquada. Deus era uma relíquia ameaçadora do passado que os avanços científicos revelaram como sendo um delírio.

Então, qual seria o sentido da vida? Qual o seu significado?

À medida que refletia sobre a amplitude e o poder das ciências, fui gradualmente adotando a visão de que não havia sentido algum. Eu era nada mais que o resultado acidental de forças cósmicas cegas, o habitante de um universo no qual só se poderia falar de direção, mas não de propósito. Não era uma ideia muito atraente, mas consolava-me a ideia de que a sua soturnidade e austeridade seriam certos indícios da sua veracidade. Afinal, ela era tão repulsiva que só poderia ser verdade. Devo confessar certa presunção da minha parte nesse ponto, bem como um sentimento de superioridade intelectual em relação àqueles que encontravam consolo e satisfação na sua crença em Deus.

No entanto, certas perguntas persistiam. Conquanto continuasse a examinar o céu à noite, achava seu silêncio perturbador. Por meio do meu pequeno microscópio, eu gostava de observar a M31, a famosa nebulosa na constelação de Andrômeda, que é brilhante o suficiente para ser vista a olho nu. Sabia que ela estava tão distante que a luz que saía da nebulosa levaria 2 milhões de anos para chegar à terra, momento em que eu já estaria morto. O céu noturno então se tornou um símbolo lúgubre da desconcertante brevidade da vida humana. Qual era o sentido disso tudo? Os versos de Tennyson no poema The Brook [O riacho] pareciam resumir a situação humana:
Pois os homens vêm e vão
Mas eu sigo para sempre.

No entanto, eu permanecia obstinadamente convicto de que a seriedade e a obscuridade dessa posição eram confirmações da sua veracidade. Era axiomático que a ciência exigia ateísmo, e eu estava disposto a ir aonde a ciência me levasse.

Assim, continuei trabalhando com a matemática, a física e a química, e acabei recebendo uma bolsa de estudos para estudar química na Universidade de Oxford. Naquela época, a maioria das pessoas era aceita em Oxford no final do ensino médio. Soube que havia obtido uma bolsa para estudar em Oxford em dezembro de 1970, mas só iniciaria meus estudos em outubro de 1971. O que faria nesse intervalo? A maioria dos meus amigos havia deixado a escola para viajar ou para ganhar algum dinheiro. Eu decidi ficar e utilizar meu tempo para aprender alemão e russo, línguas que seriam úteis para meus estudos científicos. Tendo-me especializado em ciências físicas, eu sabia da necessidade de aprofundar meu conhecimento sobre biologia. Assim, preparei-me para iniciar um extenso período de leituras e reflexão.

Depois de aproximadamente um mês de leituras intensivas na biblioteca de ciências da escola, depois de ter devorado as obras de biologia, deparei-me com um setor que nunca havia notado; era intitulado “A história e a filosofia da ciência” e estava bem empoeirado. Eu não tinha tempo para esse tipo de coisas, e tendia a vê-las como críticas desinformadas das certezas e simplicidades das ciências naturais por aqueles que se sentiam ameaçados por elas.

A filosofia, assim como a teologia, seria apenas uma especulação sem sentido acerca de questões que poderiam ser resolvidas mediante alguns simples experimentos. Qual era o sentido disso? No entanto, ao finalizar a leitura dessas esparsas obras da escola nessa área, percebi que precisava repensar meus conceitos. Longe de ser o obscurantismo ignorante que colocava obstáculos desnecessários no caminho obstinado do avanço científico, a história e a filosofia da ciência propunham questões legítimas acerca da confiabilidade e dos limites do conhecimento científico. E essas eram questões que eu não havia ainda enfrentado. Problemas como a subdeterminação de teorias pelos dados, alterações radicais da teoria na história da ciência, as dificuldades de elaborar um “experimento crucial” e os problemas complexos relativos a qual seria “a melhor explicação” para um dado conjunto de observações me sufocavam, tornando turvas as águas da verdade científica que eu antes considerava claras, plácidas e, acima de tudo, simples.

Observei que as coisas eram mais complicadas do que eu imaginava. Meus olhos se abriram, e percebi que não poderia voltar para a visão simplista das ciências que antes conhecera e apreciava. Eu havia valorizado a beleza e a inocência de uma atitude infantil em relação às ciências, e desejava secretamente permanecer naquele lugar seguro. De fato, acho que parte de mim desejava profundamente nunca ter lido aquele livro, nunca ter feito aquelas perguntas, e nunca ter questionado a simplicidade da minha juventude científica. Porém, não havia retorno. Eu havia entrado por uma porta, e não poderia fugir do novo mundo em que agora habitava.

Quando cheguei a Oxford em outubro de 1971 percebi que tinha muitas coisas para repensar. Até aquele momento minha premissa havia sido que, quando a ciência não podia responder a uma pergunta, era porque não havia uma resposta a ser dada. Nesse momento comecei a perceber que poderia haver limites ao método científico, e que vastas áreas de território intelectual, estético e moral poderiam estar além de suas fronteiras. Posteriormente, essa ideia seria expressa por Peter Medawar no seu excelente Os Limites da Ciência (1984). Enfatizando que a “ciência é incomparavelmente o mais bem-sucedido empreendimento realizado pelos seres humanos”, Medawar faz distinções entre o que ele define como perguntas “transcendentais”, que devem ser legadas à religião e à metafísica, e perguntas científicas acerca da organização e estrutura do universo material. Segundo ele, com relação às últimas não haveria limites às possibilidades da conquista científica. E em relação à pergunta sobre Deus? Ou sobre haver um propósito no universo? Medawar deixou bem claro: a ciência não pode responder a essas perguntas, embora possa haver respostas a elas:

A existência, de fato, de limites para a ciência parece muito provável em razão de haver perguntas que ela não pode responder, e que nenhum avanço científico concebível a autorizaria a responder. […] Refiro-me a perguntas do tipo:

• Como tudo começou?
• Qual o propósito de estarmos aqui?
• Qual o sentido da vida?*

Eu não poderia mais me apegar ao que agora entendo como um positivismo científico ingênuo; para mim, ficara claro que eu teria de reexaminar uma série de perguntas que antes havia dispensado como sem importância e sem sentido – incluindo a pergunta a respeito de Deus.

Abandonando minha suposição bastante dogmática de que a ciência implicava necessariamente ateísmo, comecei a perceber que o mundo natural era conceitualmente maleável. A natureza pode ser interpretada de várias maneiras diferentes, sem qualquer perda de integridade intelectual. Alguns “leem”, ou “interpretam” a natureza de uma maneira ateísta. Outros a “leem” de uma maneira deísta, enxergando-a como um ponteiro em direção ao Criador-divindade, que não está mais envolvido nas suas questões. Deus havia dado corda ao relógio e depois o deixou funcionando por si mesmo. Outros adotam uma cosmovisão cristã, crendo num Deus que tanto cria quanto sustenta. Qualquer um pode ser um “verdadeiro cientista” sem comprometer-se com qualquer visão de mundo religiosa, espiritual ou antirreligiosa. Devo acrescentar que essa é a opinião da maior parte dos cientistas com quem falo, incluindo aqueles que se definem como ateístas. Diferentemente dos seus colegas ateístas mais dogmáticos, eles entendem perfeitamente por que alguns de seus colegas adotam uma visão de mundo cristã. Eles podem até discordar dessa abordagem, mas irão respeitá-la.

Stephen Jay Gould, cuja morte lamentável em decorrência de um câncer em 2002 fez Harvard perder um dos seus melhores professores, bem como um dos autores mais acessíveis da literatura científica, era totalmente claro a esse respeito.1 As ciências naturais – incluindo a teoria evolucionária – são compatíveis tanto com o ateísmo quanto com as crenças religiosas convencionais. Salvo se metade dos seus colegas cientistas fosse completamente idiota – uma suposição que Gould corretamente dispensou como uma insensatez, em qualquer dos casos – não haveria nenhuma outra maneira confiável de compreender por que as pessoas inteligentes e informadas que ele conhecia interpretavam a realidade de maneiras tão diferentes.

O verdadeiro problema reside no fato de que uma vez que o método científico claramente não implica ateísmo, aqueles que querem utilizar a ciência em defesa do ateísmo veem-se forçados a valer-se de uma série de ideias metafísicas não empíricas às suas versões de ciência, esperando que ninguém perceba essa manobra intelectual. Dawkins é um mestre nessa arte. No soberbo recente estudo The Music of Life [A música da vida],2 Denis Noble, o biólogo de sistemas de Oxford, tomou uma passagem de O Gene Egoísta,3 de Dawkins, e a reescreveu, retendo o que era empiricamente passível de verificação, e invertendo as premissas metafísicas um tanto questionáveis de Dawkins. O resultado ilustra de modo dramático a facilidade com que premissas não empíricas podem ser importadas para o pensamento científico.

Primeiro, consideremos a passagem original de Dawkins, que faz uma abordagem centrada nos genes à biologia evolucionária, que na época estava em plena ascensão. Observe como é atribuída uma qualidade de agente aos genes, que são retratados como sendo capazes de controlar ativamente seu destino. Enfatizei o que é empiricamente verificável:
Agora eles [os genes] apinham-se em colônias imensas, em segurança dentro de robôs desajeitados gigantescos, murados do mundo exterior, comunicando-se com ele por meio de vias indiretas e tortuosas, manipulando-o por controle remoto. Eles estão em mim e em você. Eles nos criaram, corpo e mente. E sua preservação é a razão última de nossa existência.*

Ao reescrever isso, Noble se afasta da ideia de que os genes possam ser considerados como agentes ativos. Mais uma vez, enfatizei o que é empiricamente verificável:
Agora eles [os genes] estão presos em colônias imensas, guardados dentro de robôs desajeitados gigantescos, moldados pelo mundo exterior, comunicando-se com ele por meio de processos complexos, através dos quais, cegamente, como por mágica, surge a função. Eles estão em mim e em você. Nós somos o sistema que permite que seus códigos sejam lidos; e sua preservação depende inteiramente da alegria que sentimos em nos reproduzir. Somos a razão última de sua existência.**

As perspectivas de Dawkins e de Noble são completamente diferentes. (Recomendo a leitura atenta e vagarosa de ambas as afirmações para que suas diferenças possam ser observadas.) É impossível que ambas estejam corretas. Ambas introduzem uma série de valores e crenças bem distintos. E, no entanto, suas afirmações são “empiricamente equivalentes”. Em outras palavras, ambas possuem fundamentos equivalentes em observação e evidências experimentais. Então, qual é a verdadeira? Qual é a mais científica? Como podemos decidir qual deve ser preferida em bases científicas? Como Noble observa – e Dawkins concorda – “ninguém parece ser capaz de propor um experimento que possa detectar uma diferença empírica entre elas”.

Quero voltar à explicação da minha própria reconsideração acerca da relação entre ciência e fé. Percebendo que um amor à ciência permitia uma liberdade de interpretação da realidade muito maior do que eu havia sido levado a acreditar, comecei a explorar modos alternativos de considerar essa questão. Embora tenha sido um crítico ferrenho do cristianismo quando jovem, eu jamais havia empregado a mesma avaliação crítica ao ateísmo, tendendo a supor que este era uma verdade autoevidente, desse modo não havendo necessidade desse tipo de avaliação. Nos meses de outubro e novembro de 1971, comecei a ver que a base intelectual do ateísmo era, na verdade, bem menos robusta do que eu havia pensado. Longe de ser uma verdade autoevidente, ele parecia apoiar-se em bases pouco estáveis. Por outro lado, o cristianismo provou ser bem mais robusto intelectualmente do que eu havia suposto.

Minhas dúvidas acerca dos fundamentos intelectuais do ateísmo começaram a se consolidar até que eu percebesse que o ateísmo era realmente um sistema de crenças, enquanto eu havia suposto, de maneira ingênua e acrítica, que ele era uma afirmação factual da realidade. Descobri também que sabia muito menos sobre o cristianismo do que pensava. Ficava cada vez mais claro para mim que o que eu havia rejeitado era um estereótipo religioso. Eu tinha muito sobre o que repensar. Ao final de novembro de 1971 eu havia tomado minha decisão: abandonei uma fé para adotar outra.

Não demorou muito para que eu começasse a perceber a complexidade intelectual da fé cristã. Ela não era apenas bem fundamentada; era também cheia de possibilidades e intelectualmente enriquecedora. Eis então uma lente que permitia uma focalização nítida da realidade. A fé cristã tanto fazia sentido em si mesma quanto trazia sentido das coisas como um todo. “Creio no cristianismo como acredito que o sol raiou, não apenas porque posso vê-lo, mas porque por meio dele posso ver todo o resto” (C. S. Lewis). Descobri subitamente que todo o empreendimento científico fazia muito mais sentido do eu jamais havia imaginado. Foi como se um sol intelectual raiasse e iluminasse todo o panorama científico, permitindo-me enxergar detalhes e interconexões que sem ele eu não teria visto.

Trecho retirado do capítulo “Ciência, fé e a compreensão do sentido das coisas”, por Alister McGrath, no livro Verdadeiros Cientistas, Fé Verdadeira, Editora Ultimato.
  1. “Cientistas” crédulos até creem que são cientistas. No fundo são indivíduos mal resolvidos que usam dois pesos e duas medidas. Não importa o que esse livro aí diga.
    Cezar Zillig

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