Livro da Semana   |   A Missão Cristã no Mundo Moderno

Qual deveria ser a relação entre evangelismo e ação social no contexto de nossa responsabilidade cristã total?

 

Se admitirmos que não temos liberdade nem para focalizar na evangelização a ponto de excluir o cuidado social, nem para tornar o ativismo social um substituto do evangelismo, precisaremos definir a relação entre os dois. Há três tentativas principais de se fazer isso.

Primeiro, alguns consideram a ação social um meio de evangelismo. Neste caso, evangelismo e conversão são os objetivos principais, mas a ação social é um meio preliminar útil e efetivo para alcançar estes objetivos. Em sua forma mais ostensiva, isto faz do trabalho social (seja alimentação, saúde ou educação) o açúcar no comprimido, a isca no anzol, ao mesmo tempo em que, em sua melhor forma, dá ao evangelho uma credibilidade que, de outra maneira, ele não teria. Em qualquer dos casos o cheiro de hipocrisia permeia nossa filantropia. O que nos impele a nos engajarmos nisso é um motivo francamente dissimulado. E o resultado de fazer do nosso programa social um meio para outro fim é que produzimos os chamados “cristãos cesta básica”. Isso é inevitável se nós próprios temos sido “evangelistas cesta básica”. Eles herdaram essa ilusão de nós.

Não é de se admirar que Gandhi tenha dito, em 1931: “Considero que o proselitismo disfarçado de trabalho humanitário é, no mínimo, doentio […]. Por que eu deveria mudar de religião devido ao fato de um médico que professa o cristianismo como sua religião ter me curado de alguma doença?”.

A segunda maneira de relacionar evangelismo e ação social é melhor. Ela diz respeito à ação social não como um meio para o evangelismo, mas como uma manifestação do evangelismo, ou, pelo menos, do evangelho que está sendo proclamado. Neste caso, a filantropia não está anexa ao evangelismo de modo artificial, externamente, mas cresce a partir dele como sua expressão natural. Podemos quase dizer que a ação social torna-se o “sacramento” do evangelismo, pois faz a mensagem significativamente visível. J. Herman Bavinck, no famoso livro “An Introduction to the Science of Missions”, defende esse ponto de vista. Medicina e educação são mais do que “um meio legítimo e necessário de criar uma oportunidade para a pregação”, escreve ele, pois “se estes serviços são motivados pelo próprio amor e compaixão, então eles deixam de ser simplesmente preparação, e naquele exato momento tornam-se pregação”.

Até aqui não devemos hesitar em concordar com isso, pois existe um precedente marcante no ministério de Jesus. Suas palavras e ações estavam correlacionadas, as palavras interpretando as ações e as ações incorporando as palavras. Ele não somente anunciou as boas novas do reino; ele também manifestou visíveis “sinais do reino”. Se o povo não acreditasse em suas palavras, disse ele, então que acreditassem nele “ao menos por causa das mesmas obras” (Jo 14.11).

O bispo John V. Taylor adota um pensamento semelhante em sua contribuição à série “Fundamentos Cristãos”, intitulada For All the World. Ele escreve sobre uma “apresentação do evangelho em três aspectos”,17 que significa que os cristãos são chamados para “articular o evangelho […] por meio do que eles dizem (proclamação), do que são (testemunho) e do que fazem (serviço)”.18 Isto também é verdade, e dita de maneira distinta. Mesmo assim, me deixa apreensivo. Pois faz do serviço uma subdivisão do evangelismo, um aspecto da proclamação. Não nego que as boas obras de amor tiveram um valor evidente quando realizadas por Jesus e verdadeiramente têm um valor evidente quando realizadas por nós (Mt 5.16). No entanto, não consigo aceitar que esta seja sua única ou mesmo maior justificativa. Se for, ainda assim, e talvez até conscientemente, elas são apenas um meio para justificar um fim. Se as boas obras forem uma pregação visível, então elas esperam um retorno; mas se as boas obras forem o amor visível, então elas são feitas “sem esperar nenhuma paga” (Lc 6.35).

Isso me traz ao terceiro modo de explicar a relação entre evangelismo e ação social, que creio ser a forma verdadeiramente cristã, ou seja, que a ação social é uma parceira do evangelismo. Como parceiros, os dois se completam, mas são, mesmo assim, independentes entre si. Lado a lado, cada um se sustenta por si e possui sua própria autonomia. Nenhum deles é um meio para o outro, ou mesmo uma manifestação do outro, pois cada um é um fim em si mesmo. Ambos são expressões de amor genuíno. Como o Congresso Anglicano Evangélico Nacional em Keele declarou, em 1967, “Evangelismo e serviço cheio de compaixão pertencem, juntos, à missão de Deus” (parágrafo 2.20).

O apóstolo João me ajudou a compreender isso com as palavras de sua primeira carta: “Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (1Jo 3.17-18). Aqui o amor em ação emerge de uma situação com dois momentos. Primeiro, “ver” um irmão passando necessidade e segundo, “possuir” os meios para satisfazer essas necessidades. Se eu não relacionar o que “tenho” ao que “vejo”, não posso afirmar que o amor de Deus habita em mim. Além do mais, esse princípio se aplica a qualquer tipo de necessidade vista. Posso ver uma necessidade espiritual (pecado, culpa, perdição) e ter o conhecimento do evangelho que satisfará essa necessidade. Ou a necessidade que vejo pode ser uma enfermidade, a ignorância ou uma moradia precária e posso ter o conhecimento médico, educacional ou social para aliviar a situação. Ver a necessidade e possuir o recurso impele o amor a agir, e a ação será evangelística, social ou até mesmo política dependendo do que “vemos” e do que “temos”.

Não significa que palavras e atitudes, evangelismo e ação social, são parceiros tão inseparáveis que todos nós devamos nos engajar em ambos o tempo todo. As situações variam, e o chamado dos cristãos também. Com respeito às situações, haverá momentos em que o destino eterno da pessoa é a consideração mais urgente, pois não devemos nos esquecer que os homens sem Cristo estão perecendo. Porém, certamente haverá outras vezes em que a necessidade material da pessoa será tão premente que ela não será capaz de ouvir o evangelho se o compartilharmos com ela. O homem que caiu entre os salteadores precisava, acima de tudo, naquele momento, de remédios e curativos para suas feridas, não de folhetos evangelísticos nos bolsos! Semelhantemente, nas palavras de um missionário em Nairóbi, citado pelo bispo John Taylor, “um homem faminto não tem ouvidos”.19 Se o nosso inimigo estiver faminto, nosso mandato bíblico não é evangelizá-lo, mas alimentá-lo (Rm 12.20)! E existe ainda a diversidade de chamados cristãos, e todo cristão deve ser fiel ao seu próprio chamado. O médico não deve negligenciar a prática da medicina para evangelizar, nem o evangelista deve se distrair do ministério da palavra para ministrar às mesas, como os apóstolos logo descobriram (At 6).

• Trecho publicado originalmente em A Missão Cristã no Mundo Moderno, de John Stott (Editora Ultimato).

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