Livro da Semana   |   Crer é Também Pensar

 

A expressão “crer é também pensar” não significa exaltar a mente em detrimento da fé, mas de torná-la discípula de Cristo.

“Você tem certeza? Isso não vai colocar em risco a sua fé? A universidade não é algo muito perigoso para um cristão sincero?”; “Se você conseguiu entrar nessa universidade é porque você é inteligente, mas como pode uma pessoa que pensa crer nessas histórias da Bíblia?”; “Você precisa pensar menos e crer mais!”; “Tenho certeza que, quando você começar a pensar de maneira séria, aos poucos vai abandonar essas crendices primitivas sobre Deus, Jesus e a Bíblia!”

Frases como estas me foram ditas em um curto período de tempo, colocando-me numa experiência de “fogo cruzado”. De um lado, amigos da igreja preocupados com a minha possível perda da fé por ter entrado na universidade; de outro, os meus novos colegas de curso, surpresos por verem um cristão num ambiente onde imperava uma forma materialista–dialética de ver a vida e tudo mais.

Diante de tantas surpresas, passei a me questionar se minha fé em Jesus Cristo e na Bíblia, como Palavra de Deus, implicava um suicídio intelectual. Ampliei estes questionamentos me perguntando se a maneira cristã de ver a vida teria alguma contribuição para a sociedade em geral. Busquei na memória aquilo que havia aprendido da história do povo de Deus, desde os tempos do Antigo Testamento, passando pela caminhada de Jesus na Palestina, o surgimento da Igreja, chegando até as histórias das missões modernas. Esta visão panorâmica me ajudou a ver que a integração entre o crer e o pensar sempre fora fonte de permanente tensão para os cristãos, tanto em relação a Deus como em relação ao seu entorno social. Foi assim no passado e é assim em nossos dias.

Foi uma tremenda descoberta quando vi a primeira edição de Crer é Também Pensar. Não podia imaginar o impacto que este livro viria a produzir em mim. Eu o li de forma ávida, repetidas vezes, até quase memorizá-lo. Meu exemplar, da primeira edição, se esfarelou em minhas mãos devido ao uso contínuo. As páginas ficaram multicoloridas porque, a cada leitura, eu marcava as frases com cores diferentes. Nas margens acabei “escrevendo outro livro” com minhas observações e ideias de aplicações possíveis da mensagem de John Stott. Não seria exagero dizer que devorei o livro! Tempos depois, tive a oportunidade de compartilhar com “tio John” — como aprendemos a chamá-lo, de forma carinhosa, no contexto do ministério estudantil — o impacto do livro na minha vida e na vida de muitos outros estudantes que, ao longo de mais de trinta anos, tive oportunidade de discipular. Crer é Também Pensar era nosso guia nos primeiros passos para a formação de uma mente cristã.

Como disse anteriormente, entender que a fé não dispensa o uso da mente foi um desafio no passado e continua sendo em nossos dias. Isso se aplica a nossa relação com Deus, assim como a nossa relação com a sociedade. É de vital importância perguntar a uma igreja que segue em um ritmo acelerado de crescimento numérico o que significa este processo. Qual a contribuição de tal crescimento para a missão da igreja, seja em relação a sua proclamação, seja em relação a sua presença social? Algumas formas de misticismo têm crescido no meio da igreja, introduzindo novas formas mais sutis de idolatria, produzindo um esvaziamento da dimensão ética da fé, que é substituída por rituais mágicos para lidar com a realidade. Os que antes eram conhecidos como o povo do Livro agora se veem numa postura que confunde livre acesso à Escritura com livre interpretação da Escritura.

Nessa confusão não se faz justiça ao texto, nem ao contexto, muito menos ao chamado para uma fé que pensa e uma razão que crê. O resultado é uma elaboração de pretextos apresentados no tradicional esquema dos três pontos com uma pequena variação: agora se lê o texto, se esquece do texto e nunca mais se retorna ao texto. Temos o desafio de outras formas de leitura, que colocam o texto sob suspeita, mas não suspeitam de quem suspeita. Outros ainda pretendem exercer sobre o texto bíblico um controle tal, que se esquecem de que o maior desafio não é ler as Escrituras, mas ser lido por elas.

Deve ficar claro que a expressão “crer é também pensar” não sugere a possibilidade de uma fórmula capaz de tornar o evangelho palatável a uma geração que, encantada com a inteligência dos cristãos, vejam reduzidas a dimensão de loucura e de escândalo da mensagem da cruz de Jesus Cristo. Fazer isso seria adulterar o evangelho para torná-lo quase inofensivo, uma muleta que se preste a ser suporte para o status quo vigente, uma ideologia a serviço de interesses outros, contrários aos valores e esperanças do reino de Deus, conforme anunciado por Jesus Cristo.

Não se trata de exaltar a mente em detrimento da fé, mas de torná-la discípula de Cristo, pois só assim entenderemos o que é um verdadeiro culto a Deus, com todo o nosso ser. Só assim será possível discernir a vontade de Deus, reconhecer a voz do bom pastor, compreender o real significado de uma vida de santidade e fazer um anúncio fiel ao evangelho, poder de Deus para salvação de todo aquele que nele crê.

Minha oração e esperança é que as novas gerações possam ser impactadas de forma tão intensa como a minha geração o foi. Que encontrem nas palavras deste livro um guia, um caminho, uma inspiração para manter em harmonia aquilo que Deus nunca colocou em oposição. Afinal, o que Deus uniu — fé e razão — não separe o ser humano!

Ziel J. O. Machado é pastor da Igreja Metodista Livre da Saúde (Concílio Nikei), em São Paulo. Foi obreiro da Aliança Bíblica Secundarista, da Aliança Bíblica Universitária do Brasil e da International Fellowship of Evangelical Students por mais de trinta anos

• Prefácio à edição brasileira de Crer é Também Pensar, de John Stott (ABU Editora).

 

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