Versão ampliada do artigo publicado na seção Arte para todos, da Ultimato 366

Por Bruna Steudel

Arquivo pessoal

Existe um livro de Mário de Andrade cujo nome é Há uma Gota de Sangue em Cada Poema. Desde criança isso me intrigou. Por que a maioria dos poemas mais conhecidos de determinados poetas vem de algo extremamente profundo do seu ser? Passei um ano estudando e lendo poemas, procurando entender o que da vida de cada artista tinha na sua obra.

Sempre fui apaixonada por arte. Iniciei no teatro aos 8 anos de idade e na infância me dedicava a escrever e a desenhar coisas que eram confusas para mim.

Aos meus 16 anos, pude conhecer a Cristo. Foi como se em mim se renovasse uma esperança, um propósito maior para a minha existência, um amor até então desconhecido. E, ao contrário do que alguns filmes cristãos pregam, desse encontro não veio a solução para todos os meus problemas. Foi aí que começou a caminhada. Jesus revelou quartos escuros, sentimentos a serem tratados, preconceitos a serem quebrados. O desejo de viver uma verdadeira liberdade nele. Nessa caminhada encontrei uma missionária, que numa pequena reunião discursava sobre o amor que tinha pelo seu campo missionário. Alguns a ouviam, outros falavam que ela não era humana, que as pessoas hoje em dia não querem saber daquilo. Constrangeu-me ver aquela mulher se esforçando ao máximo para falar que era normal, que sentia dores e medos como qualquer um. Naquele momento percebi mais uma coisa que precisaria aprender nessa caminhada: que eu conhecia muito pouco sobre o ser humano, principalmente aqueles que fogem dos nossos padrões sociais e buscam se dedicar a grandes causas. Refleti sobre quanto pensava somente em mim e sobre quanto minhas orações giravam em torno de mim mesma.

Semanas depois surgiu o projeto Imperfeitamente Iguais, que tem como objetivo usar o cinema para conhecer pessoas que tem sido relevantes no mundo, saber quais são suas dores e vitórias, compreender que não são super-heróis, mas que apesar disso têm levado o amor de Deus para diversos lugares. Junto com mais dois amigos, Ana Azevedo e Daniel Bernardon, viajamos para a Índia para conhecer mais sobre os missionários de lá, suas batalhas, seus medos. Como consequência, aprender sobre nós mesmos. Das nossas batalhas, questionamentos e aprendizado com Deus, surgiu o filme Índia, Revelando o Amor que Nos Une. Em 2016 ganhamos como melhor documentário no Festival Internacional de Cinema Cristão. Porém, o maior privilégio que temos visto são as pessoas que assistem ao filme e percebem que também podem cuidar de outras, que não precisam ser perfeitas, que é possível caminhar com Cristo e falar do seu amor, pois ele nos capacita.

Continuamos nossa caminhada. A cada dia Deus revela algo para melhorarmos e sermos mais parecidos com ele. Não é fácil. É muitas vezes sentir-se vulnerável, ressignificar sentimentos, mas ainda assim sentir-se aceito e amado.

Que possamos ver cada vez mais expressões artísticas de artistas que se conhecem e têm buscado caminhar com Cristo. Quanto mais profundo nosso relacionamento com Deus, mais entenderemos nossa condição humana e mais autênticas e sinceras se tornam nossa arte e nossas expressões; dessa forma é possível alcançar o público. Enquanto buscarmos não nos expor e não falarmos dos nossos defeitos, nossa arte será sempre superficial, de relacionamentos utópicos.

• Bruna Steudel é formada em publicidade e propaganda, técnico em cinema digital e direção de fotografia na Academia Internacional de Cinema, SP. Especialização em cinema, processos e reflexões pela Universidade Positivo. Fez diversos cursos de roteiro cinematográfico com nomes como Miguel Machalski, Di Moretti, Aly Muritiba e Paula Gaitan. Preparação de elenco para cinema e TV no Studio Fátima Toledo, SP. Direção e criação de série televisiva não ficção com Sebastián Gadea, B_arco, SP. Roteirista e diretora de 22 espetáculos teatrais e de sete curtas-metragens. Finalista na categoria melhor direção do festival Rio WebFest com a série de curtas-metragens “Cartas e Recordações”. Também atriz (DRT 0024840/PR), participou atuando em mais de quarenta espetáculos. Diretora do projeto Imperfeitamente Iguais, que busca utilizar o cinema para aproximar as pessoas de grandes causas, como a diferença de classes na Índia, a adaptação dos refugiados sírios e sudaneses na Europa e trabalhos sociais nas comunidades do Rio de Janeiro. Atualmente, é diretora da produtora BS Filmes. A paixão por contar histórias permeia o seu trabalho e o cinema tem sido uma forma sincera e profunda de retratá-las.

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