Colunista da revista Ultimato e autor de, entre outros Pensamentos Transformados, Emoções Redimidas, Ricardo Barbosa de Souza é conhecido no Brasil especialmente por falar e escrever sobre espiritualidade. Pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto, Ricardo Barbosa estudou no Regent College, em Vancouver, no Canadá, foi presidente da Fraternidade Teológica Latino-Americana e atualmente coordena o Centro Cristão de Estudos, em Brasília, DF.

É com ele o nosso papo “Na Varanda com o Autor”, o terceiro convidado do Blog em 2017.

Alguma pessoa ou livro, em especial, influenciou sua aproximação da leitura e da escrita?
Herdei de minha mãe o gosto pela leitura. Ela gostava de ler e sempre nos estimulava à leitura. Nas férias tínhamos que ler algum livro, geralmente algum clássico da literatura brasileira. Herdei dela a coleção de José de Alencar, Machado de Assis e vários outros. O interesse na literatura teológica cresceu quando me envolvi com a Fraternidade Teológica Latino Americana. Era um ambiente onde você convivia com autores e isso me estimulava a conhecer o que eles escreviam e o que pensavam.

Não me considero um escritor, mas o esforço para escrever começou na igreja. Durante muito tempo, ao invés de escrever a pastoral do boletim, usava textos que encontrava em revistas ou livros. Fui estimulado a começar a escrever as pastorais pelo Rubem Amorese. No começo era muito difícil, mas fui aprendendo. Duas pessoas me influenciaram no meu primeiro livro: Valdir Steuernagel e René Padilla. O Valdir ouviu numa reunião da Fraternidade minha apresentação de um texto que continha todo o conteúdo do que viria a ser o Caminho do Coração, meu primeiro livro. Quando terminei, ele me pediu para trabalhar naquele texto e transforma-lo num livro. O René Padilla é reconhecido, entre tantas virtudes, pela sua paixão em publicar autores latinos. Numa conversa com ele no início dos anos 90, ele me estimulou a escrever. Quando ouvi isso dele, me senti encorajado a ir adiante. Foi muito importante ter alguém da estatura do René acreditando em mim. Eu nunca tinha escrito nada, nenhum artigo ou livro. Ele não me estimulou porque eu era bom ou porque ele tinha visto algo que o fizesse acreditar em mim. Simplesmente ele acreditou e me estimulou a seguir adiante. Isso foi decisivo.

Quando a inspiração para escrever não vem…
Nem sempre me sinto inspirado. Sou muito dispersivo e tenho dificuldade de concentração. Porém, de vez em quando a inspiração vem. Meu último livro Pensamentos Transformados, Emoções Redimidas foi assim. Escrevi em um mês num período sabático. Ele já estava praticamente elaborado na minha mente, mas isso não é comum. Quando vai chegando o prazo final da entrega de um artigo para a revista ou de outro compromisso, procuro separar um tempo para ler outras coisas, olhar um arquivo que tenho de pensamentos avulsos que me ocorrem e buscar nestas fontes alguma inspiração. Ela sempre aparece. O interessante é que algumas coisas que você escreve por pura responsabilidade, sem muita inspiração, quando fica pronta e você recebe a revista e lê, muitas vezes eu mesmo fico me perguntando de onde saiu aquilo. Penso que é assim que o Espírito Santo atua.

O que os adultos devem ler para as crianças?
Meus filhos já estão crescidos. Quando eram crianças lia para eles fábulas e clássicos da literatura infantil que herdei de minha mãe, além, é claro, das histórias bíblicas que são ricas na formação da imaginação cristã. Hoje tenho os meus netos. A literatura de C. S. Lewis é uma que está na minha lista para ler para eles. Comprei também os contos dos irmãos Grimm com novas ilustralções, e conheci, através de uma amiga, a obra de Beatrix Potter, cujo texto e ilustrações são de grande beleza.

Como você lida com o envelhecer?
Meu pai hoje está com 89 anos e é uma boa influencia para a minha velhice. Ele é bem-humorado, sabe aceitar os limites da idade, conversa com naturalidade sobre os desafios de ficar velho e preserva sua fé viva e comprometida com Cristo e sua igreja. Isso é um estímulo para mim. Tive também o privilegio de ter conhecido do Dr. James Houston em Vancouver, no Canadá, em 1991. Desde então nos tornamos muito próximos e ele tem uma grande influência na minha vida, particularmente na forma como hoje olho o envelhecimento. Ele completa 95 anos este ano e está em plena atividade acadêmica, literária (está trabalhando atualmente em 5 novos livros), viajando e recebendo pessoas em sua casa para conversas o tempo todo. Vive sozinho (ficou viúvo em 2014), prepara as refeições para seus convidados todos os dias e procura manter-se atualizado não só com as notícias do mundo, mas com os temas que requerem dos cristãos conhecimento e interação como neurociência, inteligência artificial, etc. A vida dele, sua disposição de seguir trabalhando, produzindo e relacionando-se com pessoas é inspiradora.

O que mais o anima e o que mais o incomoda no meio evangélico?
Eu gosto da Igreja de Jesus Cristo, sempre gostei. Apesar dos problemas que sempre existiram, vejo que ela busca realizar o propósito de Deus no mundo. É claro que temos muitos problemas, divergências, conflitos éticos, teológicos, morais, mas ainda assim, vejo o povo de Deus com muita esperança. Tenho sido pastor por quase 40 anos. Somos uma igreja de pecadores que buscam compreender a graça de Deus e viver uma vida de santidade, mas muitos não se preocupam com isso, persistem em sua condição de pecadores e tornam-se competentes em esconder suas fraquezas, perversidades e outros vícios. Tudo isso aborrece e muitas vezes causa algum desanimo. Mas quando vejo que também sou assim, com fortes tendências à autoindulgência, dissimulação e engano, e que a graça de Deus tem sido sempre benevolente para comigo, me esforço para olhar para os outros com a mesma paciência que Deus olha para mim.

Que conselhos você daria a quem assumisse sua coluna na próxima edição da revista?
Procurar escrever a partir do coração. Isto é, ser pessoal naquilo que escreve.

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