Livro da Semana   |   Todd D. Hunter

 

Como resgatar a escuta de sermões – bons ou nem tanto – para que eles produzam vida e não culpa?

 

Se existe uma vida leve e libertadora para seguir a Jesus, como vamos interagir com os sermões para que possamos caminhar nesta direção?

Já estive nos dois lados de um sermão medíocre, no do pregador e no do ouvinte! Vamos ver se conseguimos deixar de lado as preocupações e experiências normais com os sermões — ótimos, bons ou razoáveis — e, em vez disso, nos concentrarmos em como podemos resgatá-los como voz de Deus a serviço da vida para a qual Jesus nos chama.

Para resgatarmos a prática de ouvir sermões de modo que eles sejam traduzidos em uma vida livre e libertadora, podemos começar com a epístola de Tiago. Tiago afirma que quando deixamos a Palavra “entrar por um ouvido e sair pelo outro” desprezamos algo muito importante e cometemos um grave erro. Ele insta seus ouvintes a viver “na prática”. Afirma que a pessoa que assim o faz “vai longe e será abençoada por Deus” (Tg 1.22-25).

Por experiência própria, muitos de nós achamos que Tiago não está certo. Nossa experiência nos diz que a prática da fé cristã é penosa. Vejamos duas versões de Efésios 5.3-4 como exemplo:
Mas a impudicícia e toda sorte de impurezas ou cobiça nem sequer se nomeiem entre vós, como convém a santos; nem conversação torpe, nem palavras vãs ou chocarrices, coisas essas inconvenientes; antes, pelo contrário, ações de graças. (RA)

Não permitam que o amor se transforme em paixão carnal! Vocês podem cair na ladeira escorregadia da promiscuidade, da perversão ou da cobiça desenfreada. Ainda que alguns gostem de uma fofoca, os seguidores de Jesus devem usar a língua para o melhor. Nada de falar besteira e baixaria. Isso não condiz com o estilo de vida de vocês. Ação de graças sempre deve ser a marca da nossa linguagem.

Fico imaginando se quando ouvimos um texto como esse não pensamos: “Bem, eu não entro nas bancas de revistas pornográficas, não falo mal das pessoas nem conto piadas racistas”. Se reagimos dessa maneira é porque não entendemos o texto. Perdemos a oportunidade de participar do jugo suave de Jesus. Paulo está tratando daquilo que é normal na nova sociedade de Deus.5 Ele está descrevendo aquilo que acontece naturalmente àqueles que compartilham do jugo de Jesus. Não são regras que você tem de obedecer para se livrar do fogo do inferno. Pensando na metáfora de Colossenses 3.12, essas são as novas roupas que vestimos quando começamos a seguir a Jesus.

Como ilustração, vamos falar de maledicência. Há algum tempo, pediram-me para participar de um debate sobre se era razoável os cristãos usarem certos tipos de palavrões. Achei tudo muito estranho. Fiquei pensando por que alguém iria querer falar palavrão. Alguns diziam que às vezes um palavrão era a palavra perfeita para determinado contexto. Outros achavam que seria hipocrisia se, de vez em quando, um cristão não mandasse alguém para aquele lugar ou usasse outro palavrão. Essa ideia é um grave engano para os que estão querendo seguir o seu caminho sob o jugo de Jesus.

Embora as palavras sejam, sem dúvida alguma, importantes e poderosas, não acredito que Paulo esteja pensando apenas nelas. Ele está pensando em algo mais, como a natureza das coisas para aqueles que estão sob o jugo de Jesus. O sentido grego subjacente a esta frase é que não deve haver “mentes sujas entre nós expressando-se em palavras obscenas”.6 Quando prestamos atenção suficiente à realidade interior — a mente de onde procedem as palavras —, saímos de uma preocupação legalista com o que podemos usar para a natureza interior essencial que Paulo tem em mente. Minha contribuição básica para o debate sobre o uso de palavrões é esta: use como referência a regra de ouro. Se você não gosta de ser xingado, então, não xingue os outros. A regra de ouro é chave para prosseguirmos e agirmos em sintonia e em compasso com Jesus.

 

USANDO MAL O SERMÃO DOS DOIS LADOS DO PÚLPITO

Infelizmente, os pregadores às vezes sermonizam, isto é, utilizam um estilo de comunicação dogmático, condescendente, manipulador e provocador de culpa. Ainda que o pregador não tenha essa intenção, os ouvintes estão condicionados a ouvirem desse modo. Como milhões de outros, gosto demais da história de A Cabana. O diálogo entre Mack e as pessoas da Trindade mostra como as más compreensões sobre a espiritualidade cristã facilmente interferem na vida leve e suave.
Mack diz a Jesus: Você não quer que a gente estabeleça prioridades que você conhece: Deus em primeiro lugar, depois tudo o que vier em seguida?
Sarayu (o Espírito Santo) responde: O problema de viver por prioridades […] é que enxerga-se tudo em termos de uma hierarquia, uma pirâmide […] e quando você coloca Deus no topo, o que isso realmente significa e como se mede o que é suficiente? Quanto tempo você precisa dar para mim antes de voltar para os seus afazeres no restante do dia, a parte que você está mais interessado?
Papa (Deus Pai) interrompe: Percebe, Mackenzie, eu não quero apenas um pedaço de você e de sua vida. Mesmo que você fosse capaz, o que você não é, de me dar o maior pedaço, não é isso que quero. Quero você inteiro e tudo de todas as suas partes.
Jesus, então, fala mais uma vez: Mack, não quero ser o primeiro em uma lista de valores; quero ser o centro de tudo. Se eu viver em você, então, poderemos juntos passar por tudo que acontece com você.9

Para mim, essa passagem é um retrato clássico tanto do que pode dar errado quanto do que pode dar certo quando resolvemos resgatar a prática de ouvir sermões. De algum modo, precisamos reprogramar nossa escuta de sermões para significar a adoção de um novo modo de pensar a interação com Jesus. Nunca podemos deixar nossa vida com Jesus se tornar um conjunto de princípios despersonalizados. Estar sob o jugo de Jesus é um novo modo de viver a nova história de Deus. Quando ouvimos sermões com isso em mente, eles se tornam parte vital de nossa formação espiritual.

Outra dificuldade com a prática espiritual de ouvir sermões vem de achar que nós sabemos mais do que realmente sabemos. Essa percepção vem de Eugene Peterson. Ele descreve o que isso significa para aqueles que há décadas ensinam a Bíblia, que estão envolvidos em aconselhamento espiritual ou tiveram outra função bastante visível na igreja. Isso passou por minha mente inúmeras vezes:

Há uma distância enorme entre o que eu sou e o que as pessoas pensam de mim. Quanto melhor é a minha atuação [como pastor] e quanto mais cresce a minha reputação, mais me sinto uma farsa. Conheço muito mais do que pratico. Quanto mais vivo, mais adquiro conhecimento e maior se torna a brecha entre o que sei e o que pratico. Pioro a cada dia.10

Talvez você também se identifique com isso. Talvez nem precise ser um profissional eclesiástico para cair nessa armadilha. Como sair dessa? Como podemos resgatar a escuta de sermões para que eles produzam vida e não culpa? Aqui está uma dica: “A obra do Espírito na criação não se limita a levantar perguntas como: ‘Quando isso ocorreu? Como foi que aconteceu?’. Agora perguntamos: ‘Como posso fazer parte disso? Qual é o meu papel nessa história?’. E oramos: ‘Cria em mim…’” (Sl 51.10).11

Sugiro que nós escutemos sermões dessa maneira — não importa o que o pregador esteja dizendo. Por exemplo, suponha que o pregador diga: “Paulo escreveu essa carta no ano XYZ, a tais pessoas, para comunicá-las sobre isso ou aquilo”. Ao ouvir isso, dizemos a nós mesmos: “Uau! Como posso fazer parte disso? Qual é o meu papel nessa história? Como a incorporo em minha vida, meu tempo, meu povo e nos desafios do meu mundo? Agora sim estamos resgatando a prática de ouvir sermões como modo de vida.

• Trecho retirado de Dê Outra Chance à Igreja, de Todd Hunter (Editora Ultimato).

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