Por Bruno Brasil

“Lembrem-se dos que estão na prisão, como se aprisionados com eles…” (Hb.13.3)

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Penso que a mais significativa expressão de amor seja fruto de uma experiência de identificação. A encarnação e os ensinamentos de Jesus traduzem isso. Não encontramos um mandamento cujo princípio ele mesmo não tenha assumido. Sentir dor, como dizia John Stott, é exclusividade do Deus cristão. Portanto, estar em Cristo é desejar viver nessa esfera de amor, onde cada expressão de fé ganha real sentido. Parece que responsabilidades com a estrutura eclesiástica, certos compromissos e tradições tendem a ficar na antessala quando o Senhor deseja aprofundar nosso relacionamento com ele. Deus muitas vezes nos tira de cena para nos fazer experimentar a bênção da identificação; uma realidade nem sempre com “sabor de mel”, mas saborosamente libertadora.

Nossa igreja sentiu a bem-aventurada experiência de ter um dos nossos na prisão. O chão se abriu. Toda atividade religiosa desde então, por mais bem-intencionada que fosse, fazia pouco sentido não fosse carregada de lembranças e identificação com nosso irmão. Exemplo de pai, marido, filho, servo do Senhor. É o modo estranho de Deus falar e tratar da gente.

Foram 38 dias de angústia, ansiedade, orações, nos quais os encontros eram sempre motivos para lembrar dele. Nunca duvidamos do seu caráter e sabíamos de sua inocência. Alguns irmãos mais exaltados buscavam meios de dar explicações a tudo que parecesse ameaçar a sua honestidade. Mas fomos percebendo Deus agindo em nós para nos aproximarmos dele e de sua missão. Estar junto já não era opção, mas necessidade. Ninguém sabia quanto tempo isso duraria, assim como passamos a não nos preocupar com o tempo dos nossos encontros.

O que Deus estava fazendo em nós? Essa era uma pergunta.

Sem dúvida, fez crescer cada uma das virtudes do seu Espírito. Passamos a olhar pra nós e tentar responder outra pergunta que surgia: O que o Senhor deseja fazer de nós?

Chegamos ao presídio; era domingo à tarde. Queríamos dizer ao nosso amigo e irmão que estávamos juntos, e que não eram aquelas grades que nos separavam. Na primeira vez recebemos insultos e desconfiança dos demais encarcerados, mas não demorou para que percebessem que aquilo tinha a ver com eles também.

Passamos a nos encontrar todos os domingos no presídio, cultuando ao Deus que conhecíamos e que nos dava a graça de conhecê-lo mais. Um muro nos separava, mas o amor nos aproximava! O coração da igreja foi se aquecendo a cada culto, e a identificação passou a ser não apenas ao nosso irmão, mas também aos demais, que agora ficavam na expectativa de nossa chegada. Não fosse um de nós, essa identificação dificilmente viria com naturalidade. Fomos tocados de dentro pra fora, cujo o “lavar as mãos” se tornou impossível devido ao tamanho de tudo que chegou.

No dia em que ele estava para sair, a igreja lá estava. Foi marcante. Lágrimas, emoções e a certeza dos abraços não falsificados. Sua mensagem era: “Passei a valorizar as pequenas coisas que Deus estava me dando”. Deus tratara de seu coração, lapidando para que celebrações normais hoje fossem expressas com lágrimas.

Sabemos que nenhuma circunstância é capaz de nos separar do amor de Deus, porém algumas nos fazem perceber onde está a nossa verdadeira liberdade.

Nosso irmão não é o mesmo. Nossa igreja também não. No entanto, não devemos desanimar, antes “consideremos uns aos outros para nos incentivarmos ao amor e às boas obras […] procuremos encorajar-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia” (Hb.10.24-25).

• Bruno Brasil é casado com Flaviane, pai de Bruno e Manuela. É pastor na Congregação Presbiteriana Betel em Caratinga, MG.

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