[LIVRO DA SEMANA]

Por John Stott

Há duas tendências na igreja: a primeira é a indiferença. A segunda, é o pessimismo. Os cristãos não podem se tornar cínicos quanto a possibilidade de mudança

Jesus falou tanto de guerra quanto de paz. Por um lado, ele nos advertiu quanto a “guerras e rumores de guerras”; por outro, ele incluiu em sua caracterização dos cidadãos do reino de Deus o papel ativo da pacificação. Ele considerou seus seguidores pacificadores como bem-aventurados por Deus e como filhos de Deus (Mt 5.9). Pacificação é uma atividade divina. Deus estabeleceu paz conosco e entre nós por intermédio de Cristo. Não podemos reivindicar sermos seus filhos autênticos a não ser que também nos envolvamos na pacificação.
Quais são as iniciativas práticas de pacificação que podemos tomar?

1. OS PACIFICADORES CRISTÃOS DEVEM RECUPERAR O ÂNIMO

Há duas tendências na igreja de hoje que minam a disposição cristã. Ambas devem ser repudiadas firmemente.

A primeira é a tendência à trivialização. Preferimos a passividade de ser entretidos ao desafio de nos tornarmos envolvidos. É fácil ignorar os problemas do mundo por reduzi-lo à nossa própria agenda. Mas nada poderia ser mais urgente do que a ameaça de autodestruição, o sofrimento de milhões ou a destruição do nosso modo de vida.

A segunda tendência que mina a disposição de ânimo é ser tão pessimista a respeito do futuro que se acomoda ao sentido geral de impotência. Porém, tanto a indiferença quanto o pessimismo são impróprios para os seguidores de Jesus. Nós somos chamados para nos envolver com a nossa cultura contemporânea, não ser indiferente a ela e, sim, ser exemplos de esperança numa cultura de desespero em que as pessoas têm se tornado cínicas a respeito de qualquer possibilidade de mudança para melhor. É importante que a voz da igreja cristã seja ouvida não apenas localmente, mas nacional e internacionalmente. Isso significa deixar nossos pontos claros na mídia e fazer lobby no governo quando mudanças forem necessárias. O mundo precisa de pacifistas militantes.

 

2. OS PACIFICADORES CRISTÃOS DEVEM ORAR

Por favor, não rejeite essa exortação como uma parte de irrelevância pietista. Para os cristãos, isso não é nada desse tipo. Independentemente da base racional e da eficiência da prática da oração, recebemos a ordem de exercê-la. Jesus, nosso Senhor, disse-nos especificamente para orar pelos nossos inimigos. Paulo afirmou que nosso primeiro dever, quando nos reunimos como uma congregação adoradora, é orar pelos nossos líderes nacionais, de tal modo que “tenhamos uma vida tranquila e pacífica, com toda a piedade e dignidade” (1Tm 2.2). Porém, hoje, “muitas vezes a oração pastoral no culto público é breve e superficial; as petições são tão prosaicas e sem novidade que quase chegam às ‘vãs repetições’; e as pessoas cochilam e sonham em vez de orar”.42 Há uma necessidade enorme de levar o período de intercessão no culto público a sério, bem como orar pelos governantes e governos, paz e justiça, amigos e inimigos, liberdade e estabilidade e por livramento do fantasma da guerra. O Deus vivo ouve as orações sinceras de seu povo e as responde.

3. OS PACIFICADORES CRISTÃOS DEVEM ESTABELECER O EXEMPLO COMO COMUNIDADE DA PAZ

O chamado de Deus a nós não é apenas para “pregar a paz” e “fazer a paz”, mas também incorporá-la. Seu propósito, por meio da obra do seu Filho e seu Espírito, é criar uma nova sociedade reconciliada na qual nenhuma cortina, parede ou barreira, é tolerada; e na qual as influências divisórias de raça, nacionalidade, classe e sexo foram destruídas. Ele deseja que sua igreja seja um marco do seu reino – ou seja, um modelo de como é uma comunidade humana quando está sob o seu domínio de justiça e paz. Uma autêntica comunidade do reino então desafiará o sistema de valores da comunidade secular e oferecerá uma alternativa viável. Dificilmente podemos convocar o mundo à paz enquanto a igreja não consegue ser a comunidade reconciliada que Deus deseja que ela seja. Se a misericórdia começa em casa, assim também a reconciliação. Temos que banir toda malícia, ira e amargura tanto da igreja quanto dos nossos lares e fazer deles, ao contrário, comunidades de amor, alegria e paz. A influência para a paz de comunidades de paz é inestimável.

4. OS PACIFICADORES CRISTÃOS DEVEM CONTRIBUIR PARA A CONSTRUÇÃO DA CONFIANÇA

Não há razão para que o conceito de “medidas de edificação de confiança” (confidence building measures, CBMs) seja restrito a problemas especificamente militares. Em todas as situações em que as pessoas se sentem ameaçadas, nossa reação cristã deve ser a de procurar eliminar o temor e edificar a confiança. Eu já falei a respeito da necessidade de “gestos audaciosos de paz” e isso precisa ser seguido pelas CBMs. Seja estabelecendo escolas cooperativas para crianças protestantes e católicas romanas, ou reunindo famílias palestinas e israelenses para compartilharem a respeito da cultura delas, as CBMs são vitais para a paz. Contatos pessoais eliminam caricaturas e ajudam as pessoas a descobrirem umas às outras como seres humanos. Para os cristãos, é mais importante ainda viajar, servir e compartilhar, de tal maneira que eles encontrem uns aos outros como irmãos e irmãs em Cristo.

5. OS PACIFICADORES CRISTÃOS DEVEM PROMOVER O DEBATE PÚBLICO

Movimentos de paz contribuirão para a pacificação apenas se tiverem sucesso em estimular a discussão informada. Sempre há necessidade de uma discussão nova com novas perguntas. Por que precisamos de arsenais de armas de destruição em massa? A “posse moral e uso imoral” é uma postura viável ou totalmente contraditória? Há o que às vezes chamamos de “diretrizes políticas alternativas de defesa”?43 A constituição de exércitos “convencionais” torna a redução de armas de destruição em massa mais segura, ou ambas podem ser reduzidas simultaneamente? Seria justificável comprar a defesa nacional a custo de milhões de vidas de civis? O que é mais importante no final: a integridade nacional ou a segurança nacional? Essas perguntas – e muitas outras – precisam ser feitas e debatidas.

Todo cristão é chamado para ser um pacificador. As beatitudes não são um conjunto de oito opções das quais alguns escolhem ser mansos; outros, misericordiosos e outros ainda pacificadores. Juntas, elas são a descrição de Cristo a respeito dos membros do seu reino. É verdade que não seremos bem-sucedidos em estabelecer a utopia na terra, nem o reino de Cristo de justiça e paz se tornará universal dentro da história. Somente quando ele retornar é que as espadas serão forjadas em relhas e as lanças em objetos de poda. Mesmo assim, esse fato não dá permissão possível para a proliferação de fábricas para a manufatura de espadas e lanças. A predição de Cristo a respeito da fome nos impede de procurar uma distribuição mais equitativa do alimento? A sua predição de guerras não pode inibir a nossa busca pela paz. Deus é um pacificador. Jesus Cristo é um pacificador. Assim, se quisermos ser filhos de Deus e discípulos de Cristo, devemos ser pacificadores também.

#LivrodaSemana

Texto retirado de Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos, de John Stott.

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