Por Bráulia Ribeiro

foto_reveEu morava numa casinha de madeira na selva atrás do centro missionário do Summer Institute of Linguistics em Porto Velho, que alguns anos depois viríamos a comprar para sediar a Jocum Ministério Transcultural. Na época nem sonhar com propriedades ou crescimento da missão era possível de tão pobres éramos.

Minha vida não era simples. Eu ia para a porta dos mercados da cidade pegar folhas externas de repolhos e verduras considerados muito estragadas para serem vendidas. Trazia, feliz da vida, a carga no único carro que a comunidade, um opala velho, que transportava desde a feira semanal para 40 pessoas, até caixão com gente morta para devolver ao solo materno nas tribos. Eu preparava as refeições para os novos alunos com arroz integral que no meu ponto de vista era como melhor podíamos alimentar a todos. Ninguém gostava. Além disto dava aulas, me ocupava da correspondência nacional e internacional da missão, acompanhava meu marido em seus compromissos com igrejas na cidade, e em visitas às tribos, sentava-me em longuíssimas reuniões de oração e aconselhamentos, porque nossa turma de jovens insistia em “pisar na bola” sem parar.

Enfim, tínhamos uma vida intensa e amalucada marcada pelo sonho de ter alguma relevância no gigantismo de necessidades que a Amazônia representava.

Foi ali que conheci o Rev. Elben que viajava em uma de suas expedições do “mineiro com cara de matuto.” A cordialidade, o espírito franco, de quem já tinha deixado para trás os preconceitos denominacionais, me conquistaram. Ele olhava para o corpo de Cristo no Brasil não só com o ar curioso de pesquisador, mas com carinho, como um pai, ou um irmão mais velho, ansioso para ver como os “filhos” iriam crescer. Conversamos, percorri com ele o terreno da missão explicando projetos e sonhos. Contei também sobre meu pai, escritor mineiro, que havia deixado uma imensa obra literária não publicada que me assombrava sempre. Tomamos café em xícaras de plástico, e em algum momento me atrevi a mostrar-lhe um texto que havia escrito sobre a questão do sustento missionário.

Ele se mostrou curioso, em nenhum momento me desencorajou, só disse, me dá o texto, vou analisar com calma e te escrevo. Aí meses depois, não me lembro se pela lenta internet discada que tínhamos na cidade ou se pelo correio físico, me chegou a notícia de que a revista Ultimato iria publicar meu artigo. A publicação me serviu de incentivo e à partir daí de vez em quando eu escrevia ao Rev. Elben. “Olha Pastor Elben, veja se gosta deste texto.” Alguns anos mais tarde ele me convida a fazer parte do quadro de contribuidores permanentes da revista. Não entedi como nem porquê. Entre tantos escritores no Brasil ele me escolheu, tirando da obscuridade a questão missionária indígena, e a mineira missinária com alma de escritora. Muito obrigada por isto, reverendo.

O Brasil vai sentir falta de sua mente arguta, do seu amor pelas letras, pela história do evangelho em nosso país, mas principalmente por sua capacidade de semear a unidade nos setores mais diversos da igreja, Católicos, Protestantes, Pentecostais novos e antigos, Batistas, Jocumeiros, missionários, todos nós fomos tratados com decência pela revista fundada pelo mineiro com cara de matuto.

Descanse em paz, reverendo. O céu e nós temos muito para celebrar em sua passagem por aqui.

Texto publicado originalmente em www.braulia.com.br

  1. Quando Élben apareceu no mundo editorial, por volta do fim da década de 60 com ULTIMATO, já existia revistas tais como O ESTANDARTE, O PURITANO, O BRASIL PRESBITERIANO e outros.

    Mas Élben introduziu um novidade editorial que não tinha precedentes. Ele deixava em aberto até uma aproximação com o catolicismo: se por um lado batia sem ferir, por outro soprava a ferida para a cura.

    Enfrentou o período da ditadura, mas não bateu de frente com ela. Curioso é que os figurões da época não apareciam nas páginas que, naquele tempo se reduzia a uma dúzia no máximo. Era gente nova, com ideias novas. Robinson Cavalcante vem desta época e era um jovem com ideias maduras e uma mente brilhante.

    Infelizmente ou felizmente, dependendo de como se olha, essa ideia novel continuou por décadas mas com pouca renovação tanto de ideias como de autores. As figuras que estão aí são as mesmas daquela época, com exceção de um e outro.

    A revista também diversificou, mas com isso perdeu muito de seu foco teológico claro e inequívoco, abraçou figuras da esquerda, sem dar espaço para pessoas da direita com muito equilíbrio e, como todo meio de comunicação, procurou atingir os jovens (Marcos Botelho), mas sem que se assistisse um rumo, um norte. Sua caixa ou fora da caixa permanece mais uma espécie de caixa de surpresas.

    O grande valor de Élben ao protestantismo editorial brasileiro foi sua capacidade de à época mostrar seus enormes recursos humanos. Numa época carente de ideias, em um período onde poucos tinham o que oferecer além de ‘partidos’ eclesiásticos, Élben, cortou ou cavou como que uma terceira via. Seu projeto editorial, com muita pena, não verá ele completar os 50 anos.

    A nova geração, e talvez seja esse o grande erro, foi de tomar esse potencial de recurso humano enorme que se expressa em ULTIMATO e dar a ele um caráter muito familiar. Familiar em dois sentidos. Sua família e figuras tradicionais que têm cooperado com a revista mas que infelizmente, pelo menos no sentido segundo de ‘família’, não se renovaram ao longo dos anos.

  2. Wanério Alex Neves Martins

    Foi uma grande perda para nós. Afinal, conheci ULTIMATO em 1994 e, desde então, depois da BÍBLIA, é o material mais importante pra mim, pois foi através de seus colunistas que aprendi mais sobre DEUS e sobre o verdadeiro Cristianismo, sem rótulos ou preconceitos.
    Parabéns a quem trabalhou para a formação desse importante veículo de incentivo à fé cristã.

  3. Quando esperamos ler e ouvir o que gostaríamos, isso já facilita o nosso interesse pela leitura exposta. Naturalmente somos atraídos por um periódico por esse motivo, mas outros motivos são imperantes, entre eles a coerência, a sensibilidade e a lucidez com que soube unir visões de uma mesma ideia: servir e seguir a Cristo da maneira clara que a palavra nos orienta, sendo como Ele.

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