Laurentino_Gomes2Eu me preparei para essa jornada durante décadas, mas sem me dar conta disso. Foi, portanto, uma preparação mais em nível inconsciente do que real. Estava no caminho sem saber. Era parte de uma busca profunda e menos visível por um significado espiritual para minha existência e para o mundo que me rodeia.

Venho de uma família católica, rural e conservadora, do interior do Paraná. Era uma tradição que o filho mais velho se tornasse padre. Por isso, na adolescência, fui seminarista da Pia Sociedade de São Paulo – a congregação dos padres e irmãos paulinos – por três anos. Saí ao descobrir que não tinha vocação para o sacerdócio.

Anos depois, ao me tornar jornalista, afastei-me quase que totalmente de qualquer prática religiosa. Nos meus tempos de redação, julgava que seria um sacrilégio alguém ousar dizer que era cristão, orar ou acreditar em qualquer coisa que não fosse o universo visível, racional e comprovável, prometido e autorizado pela ciência e pelas ideologias políticas do século 20. Apesar de todo esse ambiente, havia, sim, dentro de mim, um resíduo de vida espiritual, embora raso e inconstante. Nos momentos de dificuldades, repetia as orações aprendidas na infância, de formação católica. Por algum tempo, pratiquei meditação oriental – como, aliás, boa parte de minha geração. Nada disso, no entanto, me satisfazia plenamente. Até que, por fim, comecei a perceber que a resposta para a minha busca estava nas raízes cristãs que eu rejeitara na minha juventude. Começava ali meu processo de renascimento espiritual, que coincidiu com um período de crise pessoal, repleto de dor e sofrimento. O sentido de tudo o que eu buscava já estava arraigado dentro de mim, embora eu até então não fosse capaz de reconhecê-lo.

A fé para mim é altamente libertadora. Ao aceitar e confiar em Deus nos damos conta de que, a rigor, nada neste mundo está de fato sob o nosso controle. Somos frutos da graça divina e tudo que nos cerca e nos acontece também depende da graça. Tudo o que somos e o que vemos à nossa volta – e também aquilo que não vemos – está imerso na glória de Deus.

Nós temos fé porque confiamos na promessa divina de que ao final desta jornada, como peregrinos no mundo, também seremos transformados, ou ressuscitados, à imagem e semelhança de Jesus Cristo. Até lá é preciso caminhar com paciência, com perseverança e coragem, sem nunca desanimar, sabendo que não estamos sozinhos nem viemos ao mundo por mero acaso.

Laurentino Gomes é jornalista e historiador, escritor de sucesso com livros na área de História do Brasil, entre eles, “1808”, “1822” e “1889”. Recentemente, publicou, junto com o pastor Osmar Ludovico, o livro O Caminho do Peregrino – seguindo os passos de Jesus na terra santa.

Leia também a Entrevista com Laurentino Gomes, publicada na edição 361 da revista Ultimato.

 

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