A nosso pedido, Silvana Pinheiro, escritora e poetisa, autora do único livro infantil da Ultimato (já esgotado), dá seis dicas de livros para crianças, mas que, por causa da beleza literária e visual, podem ser apreciados também por adultos.

1 – Diário da Montanha. Roseana Murray, Ed. Manati, 2012.Capa-Diario-da-Montanha

Ao longo das últimas décadas, os poemas de Roseana Murray encantam leitores de todas as idades, em publicações para crianças e jovens. “Diário da Montanha” mantém o mesmo encanto. Trata-se de um “diário”, o registro de momentos vividos e sonhados no silêncio da solitude de uma casa de montanha, onde os segredos da vida e da natureza se abrem a poeta e leitores, em forma de versos livres que prescindem de ilustrações, mas nem por isso deixam de provocar imagens, sons e cores a quem lê. O projeto gráfico sugere as características físicas do gênero textual apontado no título: capa dura, cores sóbrias, sem frieza, registros poéticos datados, respeitando uma lógica temporal. Abrindo e fechando as folhas internas do livro estão páginas que sugerem imagens de folhas de uma árvore que vão permanentemente brotar.

Sem dúvida um convite ao jovem leitor a entrar no mundo silencioso, onde a poesia descansa e alcança sensibilidade plena de significados.

 

Capa_alice_no_espelho2 – Alice no Espelho. Laura Bergallo, Edições SM, com ilustrações de Edith Derdyk

Texto e ilustrações fazem alusões claras às obras de Lewis Carrol, “Alice no País das Maravilhas” e “Alice através do espelho”, a começar da epígrafe do primeiro capítulo, que introduz a protagonista, também Alice: “Criança da fronte pura e límpida/ E olhos sonhadores de pasmo!”.

Alice vai se mostrando aos poucos: uma adolescente em processo de sofrimento por transtornos de anorexia e bulimia, frutos de uma sociedade governada pela ditadura da estética.

A temática da mulher presa ao espelho, como figura do culto ao corpo, aparece também na personagem da mãe, Elisa, cujo nome é um anagrama quase perfeito do nome da filha, que, sob muitos aspectos, a espelha.

Ao longo do livro, há inúmeras referências à obra de Carrol, na própria memória de Alice, cujo nome foi escolhido pelo pai, por causa do clássico infantil. Seu pai, quando ainda convivia com a filha, se mostrou um importante formador da Alice leitora, da palavra e do mundo, dado que a impulsiona, ao longo da trama, a sair da prisão do espelho.

O texto se constrói num diálogo permanente entre o mundo de fantasia de Carrol e a realidade da menina, que convive com o duplo abandono e ausência dos pais e a ambiguidade de sentimentos em relação a eles.

Em dado momento, Alice atravessa o espelho e encontra Ecila, seu personagem-reverso, um alter ego, de nome igualmente anagramático, que ajuda Alice a se reencontrar num mundo de aparências, vivenciando muitas aventuras.

Em contraste com o texto de Carrol, a passagem pelo espelho confronta Alice com um mundo imaginado, onde o faz-de-conta não subsiste à cruel realidade a que adolescentes de seu tempo são subjugadas. Ali, tudo remete ao mundo dos espelhos, dos modelos, das exigências de uma beleza padronizada. E é retornando desse mundo imaginado que espelha o real, que Alice consegue rever-se frente às exigências de seu tempo.

O livro é rico em possibilidades de leitura e relações intertextuais, levando o leitor a uma viagem fantástica pelos espelhos da contemporaneidade. Imperdível!

e_o_bicho_homem3 – É o Bicho… Homem! Ana Maria de Andrade (autora e ilustradora) Editora Imperial Novo Milênio, 2007

“De todos os animais da Terra, o mais complicado é o bicho Homem!” Assim Ana Maria de Andrade introduz o texto de seu livro. Junto ao texto, as ilustrações, também da autora, remetem ao mundo natural onde esse homem habita e ao mundo que ele cria, com sua inteligência e imaginação, mas que nem sempre preserva com as mesmas habilidades.

O texto é simples e aponta as contradições desse bicho, criado e ao mesmo tempo criante, construtor e também depredador, frente a um mundo aparentemente mais estável e coerente, onde subsistem os outros elementos de seu meio-ambiente.

Texto e ilustrações são uma chamada à reflexão, propícia ao nosso tempo, quando a discussão sobre a sustentabilidade do desenvolvimento em todas as áreas da vida humana parece estar na pauta do dia.

O livro é feito com papel reciclável, o que já aponta para o seu destino de ser um convite à preservação do meio-ambiente. Tudo nele inspira o contato mais sábio com o mundo em torno.

As ilustrações, feitas em origami e recortes, aproximam as crianças do livro, porque são de fácil reprodução, e possibilitam ao leitor recriar com a mente e com as mãos as imagens e contextos das páginas impressas ali.

“É o bicho… homem!” provoca, enfim, o leitor iniciante a pensar sobre o quanto o ser humano e sua dita racionalidade produzem tantas situações irracionais presentes no seu estilo de vida hoje e há bastante tempo.

 

acaixadeklara_sj_14 – A caixa de Klara. Rachel van Kooij. IlustradoraSandra Javera. Tradutora: Hedi Gnadinger. Edições SM 2014.

Klara Meindert é uma professora muito querida por seus alunos. Amiga e criativa, ela tem o dom de transformar cada aula em uma aventura especial. Mas ela está doente e não viverá muito tempo, e isso é um choque para as crianças. Aos poucos, elas se fortalecem para enfrentar a situação com o carinho que sentem pela professora e a memória de tudo que viveram juntos.

Ao longo do livro, principalmente por meio das experiências vivenciadas por Julius, um dos alunos de Klara, o leitor se depara com a realidade da morte e suas implicações sociais, religiosas e filosóficas, bem como com os dramas humanos de quem, por motivos e situações diversas, precisa lidar com esse fato grave da existência.

Embora seja um livro que aborda reflexões incomuns para a faixa etária juvenil, a autora consegue tratar a questão com delicadeza e sensibilidade, de tal forma a propiciar aos jovens leitores o contato com um dos grandes temas da literatura universal, sem abrir mão da leveza e até de certo humor. Por isso, o livro pode agradar leitores de qualquer idade.

 

Orie5 – Orie. Autora e ilustradora: Lúcia Hiratsuka. Ed. Pequena Zahar

Orie é o título e o nome da personagem principal do livro de Lúcia Hiratsuka, por empréstimo do nome de sua avó, uma imigrante japonesa que veio para o Brasil aos 20 anos de idade.

A narrativa é colhida das histórias contadas por essa avó, de origem camponesa, que morou às margens de um rio e sobre suas águas atravessava para chegar ao povoado onde a família realizava negócios. O enredo fala disso, evidenciando o olhar da personagem criança, olhar observador que a tudo perscruta poeticamente.

O texto é escrito em frases simples, diretas, curtas, no presente do indicativo, sem diálogos entre os personagens e com constantes repetições verbais que reproduzem o movimento do rio, do vento, do barco, do remo e das percepções da menina. A viagem sobre o barco e o rio até aportar na cidade é também metáfora do curso de crescimento da menina na relação aconchegante com uma família que lhe permite crescer e conquistar gradativamente a autonomia.

O belíssimo projeto gráfico em capa dura de fundo vermelho-terra, interior em papel craft e desenhos em carvão e pastel seco, usando poucas cores, traz imagens leves e delicadas ao estilo da arte japonesa, que não ocupam todos os espaços das páginas, reservando lugar de trânsito para o silêncio e a imaginação do leitor a cada folha.

 

A_velha_historia_do_peixinho6 – A velha história do peixinho que morreu afogado. Marilia Pirillo. Ilustrador: Guazelli. Edições de Janeiro

Marilia Pirillo inspira-se em conto popular, também narrado por Mário Quintana e Monteiro Lobato, para trazer aos jovens leitores “A Velha história do peixinho que morreu afogado”.
A autora recria de forma muito feliz a velha história de um peixinho que depois de retirado do rio por um homem e desfrutando de seu afeto e presença, ao voltar ao rio, morre afogado. O texto usa de humor e ironia, ao transportar a antiga narrativa para o contexto de vida urbana. A história se insere no espaço de uma grande cidade, onde flui o ritmo frenético de atividades diárias e rotineiras, a convivência com os desagravos ambientais e tudo que compõe as condições de existência nos grandes centros na contemporaneidade. O lúdico e o insólito do texto se misturam aos espaços reais da selva de pedra, igualmente bem captados pelos traços e cores das ilustrações. O texto verbal se realiza em interação harmoniosa com as ilustrações criativas de Guazelli, que são parte de um cuidadoso projeto gráfico de Raquel Matsushita. As imagens também dialogam com a linguagem dos quadrinhos e do cinema.

• Silvana Pinheiro é educadora e escritora. Autora do único livro infantil que a Editora Ultimato já publicou (De Bichos Pequenos e Grandes), e que está esgotado há alguns anos. Escreveu também o livro de poemas “Femear”, com foco no retrato feminino.

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