por Rubem Amorese

Hoje é um dia de espanto, em Jerusalém. Discípulos em alegre disparada, Maria Madalena, que nem se aguenta de felicidade, guardas do túmulo temendo por suas vidas, autoridades judaicas de senho franzido, e um zum-zum correndo a cidade como rastilho: “ele ressuscitou! ele ressuscitou!”.

Ninguém sabe muito bem o que fazer; ninguém sabe aonde ir. Os discípulos, instintivamente, vão procurando uns aos outros, e tentando estar juntos; pensam em algum lugar; pensam em chamar os outros; está faltando alguém?
Maria, a mãe, na mesa da cozinha, sente a energia no ar. Ao perceber a agitação lá fora, não consegue se levantar da cadeira, pois as pernas lhe faltam, e um sobressalto, associado a uma deliciosa vontade de gritar, a assalta. Ela crê, mas não acredita! Ela quer estar junto com os outros. Como quem espera notícias.

Nesse momento, ouve a porta abrir, como se estivesse sendo arrombada. É Maria Madalena que vinha correndo, abre a porta e para, com a mão no trinco. O tempo também para. Os sons silenciam entre as duas que se olham. Então Maria, a mãe, mesmo tendo a luz da rua por trás, distingue no olhar da outra Maria aquela certeza, aquela confirmação, aquele sorriso que quer gritar, que quer pular, que não cabe lá dentro. É mistura de paz com turbilhão; de serenidade com festa; de choro com dança. Maria, a mãe, cai de volta na cadeira, pois as pernas fraquejam novamente. De olhos fixos nos da Maria que chega, ela dá um soluço convulsivo, mas sem produzir nenhum som. As lágrimas que haviam secado estão de volta e em grande profusão. Mas agora são outras lágrimas! E sem tirar os olhos dos olhos da amiga, Maria, a mãe, diz: — Aleluia!

Maria Madalena acaba de entrar, com um vento sem som e, num rodomoinho, se ajoelha e se deita no colo da Maria mãe. E choram e riem, as duas, em silêncio. Não sei por quanto tempo. Quem se importa?

Rubem Amorese

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