Segundo a reportagem da Folha de São Paulo divulgada ontem, 15 de agosto, o número de evangélicos que se declaram desvinculados de igrejas instituídas passou de 4%, em 2003, para 14%, em 2009. Em números absolutos, tratam-se de 4 milhões de pessoas enquadradas nesta categoria, segundo dados utilizados da Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2009.

Como é característica da era multimidiática, bastou os perfis online da Folha divulgarem a matéria para que se tornasse um dos assuntos mais comentados na “webesfera”, especialmente entre os próprios evangélicos. Vários foram os sites que comentaram, criticaram, reproduziram, desmentiram… Poucos, todavia, se prestaram a refletir a respeito das variáveis envolvidas na equação que levou a esse número. Uma das críticas sãs que vimos por aí foi escrita por Sandro Baggio, pastor do Projeto 242, comunidade de São Paulo. Reproduzimos abaixo seu texto lembrando a importância de caminhar em conjunto, não necessariamente sob o teto de uma igreja ou comunidade física, com nome na porta… Pense a respeito. 

 

Os novos evangélicos

Li ontem a reportagem da Folha de São Paulo sobre o número crescente de evangélicos sem ligação com igrejas e também diversas reações à mesma. Uns celebraram a reportagem, pois parece confirmar a eles algo positivo, ou seja, que a vida cristã ou espiritualidade verdadeira precisa libertar-se do contexto institucional poluído para ser vivida com graça. Mas será que é isto que a reportagem realmente indica?

A começar pelo título, já encontramos uma certa contradição e negação aos prognósticos daqueles que estavam decretando o fim da igreja evangélica. Fala-se de evangélicos sem ligação com igrejas. Mesmo tendo deixado seus vínculos com uma igreja local, estas pessoas ainda se identificam como sendo evangélicos e alguns ficam indo de igreja em igreja como consumidores que “usufruem de rituais e serviços religiosos mas se sentem livres para ir e vir.”

No entanto, é o perfil deste “novo evangélico” traçado nas análises feitas para esta desinstitucionalização, que me faz pensar se, como seguidor de Cristo, existe algo a ser celebrado.

Ricardo Mariano aponta como motivos para esta desinstitucionalização “o individualismo e da busca de autonomia diante de instituições que defendem valores extemporâneos e exigem elevados custos de seus filiados” e fala ainda sobre o “crer sem pertencer”. Individualismo, busca de autonomia, rejeição de valores extemporâneos e descompromisso… seriam marcas a serem buscadas por um discípulo de Cristo?

Não é estranho que tais pessoas sejam chamadas de “crente genêrico”, que criaram seu próprio “blend” de crenças (resultado do pluralismo e sincretismo religioso) e sejam comparadas ao católico não praticante. Para um seguidor de Cristo, não há o que celebrar aqui.

O que a reportagem não diz é que estes que abandonaram a ligação com as igrejas institucionais se uniram a novas igrejas “não institucionais” em busca de uma experiência renovada e libertadora de fé. Se isto estivesse acontecendo, talvez fosse algo a ser celebrado. Mas, neste caso, eles não seriam evangélicos “sem ligação com igrejas”, e sim evangélicos em “novas igrejas”.

A única coisa positiva neste artigo é a confirmação do fenômeno da desinstitucionalização como uma das marcas da pós-modernidade. Isto não é novidade, mas algo que vem sendo apontado há anos.

  1. O Ricardo Mariano está certo, posto que vai em cima do dado pesquisado pelo IBGE. Mariano é declaradamente não-cristão, para ser light com a expressão próxima de ateu. E a sua análise sociológica é correta: “o individualismo e da busca de autonomia diante de instituições que defendem VALORES EXTEMPORÂNEOS e exigem elevados CUSTOS de seus filiados”. (sociologia em cima de dados, gostando ou não de Mariano).

    Quanto ao Sandro, eu concordo com ele, mas tanto a inferência sobre o dado como as observações não se aplicam ao caso (sociológico da pesquisa).

    A pesquisa é de análise eminentemente sociológica. O IBGE não saiu indagando as razões teológicas do crescimento até 14% . Eu no meu ‘chutômetro’ suponho que seja mais, a julgar pelo número de pessoas que filiadas a uma igreja (denominação, instituição) ‘shop’ em outras igrejas como uma frequência de beija-flor: não renunciam à primeira, e ‘passeiam’ como em shopping nas outras.

    A preocupação do Sandro é legítima, mas pode muito bem ser avaliada não necessariamente pelo olhar da pesquisa.

    Se amanhã de 14% cair para 4% isso em nada alterará o resultado da questão levantada por ele.

    O fenômeno da desinstitucionalização como uma das marcas da pós-modernidade; a vida cristã ou espiritualidade verdadeira precisa libertar-se do contexto institucional, antecipa sim, a meu ver, um juízo de valor sobre os dados que o IBGE traz, o que remete os 14% não à teologia, portanto, mas ao caráter opcional da religião como na maior parte dos itens de consumo da sociedade moderna (não necessariamente amarrando-se à teologia, propriamente).

    O que há a celebrar na pesquisa é o fato, para mim incontestável, de que a massa religiosa de evangélicos hoje no Brasil ficou ‘aguada’, rala mesmo (não alinho as razões aqui). O ‘evangelicalismo’ brasileiro levou ao pé da letra (distorcendo, claro, o sentido do texto) a expressão bíblica, “tudo pode ao que crê”.

    Ora, se religião é (e assim tem sido nos últimos 100 anos) um ‘experimento religioso’ o IBGE apenas aponta para esse fato.

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