Foto: Glauco Umbelino

Uma imagem simples vem à mente. Profunda e bonita, como a poesia. Dois amigos, Milton e Caetano, poetas por terem o coração sensível aos seus anseios e ao desejo do mundo por sentido. Acordam cedo, ansiosos, como se fosse este o momento esperado para receberem do alvorecer a resposta que aguardavam. Sentam-se em silêncio sobre um banco de madeira, um ao lado do outro, na varanda da casa velha de uma fazenda, posta calidamente em harmonia sobre alguma das ondas do mar de morros de Minas. Um café forte na mão para aquecer o corpo, e os olhos atentos ao horizonte, que dança em cores sortidas a medida que o sol faz dengo para se levantar. “O tempo dispara”, assim como o coração. Mas o tempo também para, e a alma registra a eternidade, a beleza do que é verdadeiro. E é justamente a busca pela verdade que faz este tempo ser eterno, precioso. Isto é o que imagino.

“Quem será que manda na vida? Quem dá a partida?” pergunta um para o outro, enquanto observam a luz ser reinventada. E as perguntas me remetem a um cantor do passado. Alguém que, observando a mesma luz e o mesmo céu, em estado de contemplação se emociona, como os amigos, e, sabendo a resposta das perguntas dos nossos poetas do presente, poem-se a perguntar ao criador do tempo: “que é o homem para que dele te lembres?”¹

“Como é mesmo que anda o tempo? Será sempre assim tão lento? Será que passa por dentro de nós?”, continuam ambos divagando. “Sim”, diria outro poeta mais antigo, enquanto balança a cabeça: “a eternidade passa e permanece em nós, abrigada, nos instigando a conhecê-la, nos movendo a desfrutar dela em cada tempo da vida. Pois há tempo para tudo²”. Se ouvissem essa intervenção, Caetano e Milton sorririam em concordância, e voltariam ao silêncio contemplativo. E o silêncio não se conteria e logo daria espaço para mais perguntas: “será que é o sol que ordena e o tempo que obedece? Ou será que o sol só desce, quando o tempo eleva a luz?”.

A resposta não é nenhuma das opções. E fico maravilhado ao perceber que numa simples reserva de tempo — seja para ver o nascer do sol ou para a árdua, mas encantadora tarefa de traduzir em música o sentimento que se observa na melodia do silêncio — dois poetas são agraciados com a resposta certa “nada conta além da graça do amor!”. E é verdade. Tudo é vaidade e correr atrás do vento³ — já dizia o pregador. A não ser aquilo que permanece, que está acima do sol, projetado pelas mãos do poeta maior que nos põe dependentes deste amor. “O amor que é raio e centro”, caminho e destino. “Eternidade e momento”. Nosso redentor. O único que dá sentido ao tempo: o (Deus) amor.

Notas

¹ Salmo 8.3

² Eclesiastes 3

³ Eclesiastes 1.2

 

Reveja as dicas número 3 e número 2

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Lucas Rolim, 24 anos, é administrador pela UFV, trabalha como auxiliar de marketing na Editora Ultimato e brinca de fazer arte nas horas vagas

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