Tempo, Resgate
“Tudo tem seu tempo determinado
Há tempo pra tudo debaixo do céu
Há tempo de espalhar e recolher
Há tempo de amar e aborrecer
E todo mundo quer saber, quanto tempo ainda resta
E todo mundo quer viver, pelo menos duzentos anos
É preciso entender, que o amor demonstrado
Na cruz traz vida eterna
Não adianta voltar o relógio pra trás
O que passou, passou
Não volta mais
E todo mundo quer saber, quanto tempo ainda resta
E todo mundo quer viver, pelo menos duzentos anos
É preciso entender, que o amor demonstrado
Na cruz traz vida eterna”


Eu lembro quando escutei essa música em um pequeno grupo na ABS (Aliança Bíblica Secundarista), nos idos de 2004… naquela época, o tempo já me preocupava há muito. Desde que me percebi saudosista, eu vi que tinha dificuldade de lidar com a realidade de que o tempo passava e isso significava que eu envelhecia e ia sempre deixando para trás fases da minha vida. Eu me lembro adolescente, quando eu achava que minha infância era a melhor época da vida, pra desmentir isso na juventude, dizendo que era a adolescência a melhor época. Agora, lutando bravamente contra o título de adulta, acho que a melhor fase da vida é (e deve ser) a que eu estou agora. Afinal, é a única que eu tenho – o presente, tudo que temos para mudar ou continuar, revolucionar ou firmar conceitos, coisa que Charles E. Hummel, autor de Livres da Tirania da Urgência, já dizia: “O presente deve ser mais que uma ponte interligando passado e futuro. Precisamos redescobrir como viver no presente. Tudo que temos ao nosso alcance é o hoje, esta hora”. Mas confesso que desde criança isso é uma coisa difícil de eu entender.
Geralmente somos assim mesmo, torcemos para crescer quando somos pequenos para depois querer voltar no tempo. Mas, como me contou meu pai um dia que um antigo poeta escreveu: “o tempo não para no porto, não apita na curva, não não espera ninguém”, ou, na versão de Resgate “Não adianta voltar o relógio pra trás / O que passou, passou, não volta mais…”
Por outro lado, Paulo olha com um olhar mais maduro para estas coisas: “Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino”(1 Co 13 : 11), e, bem, é assim mesmo que tem que ser, embora o processo de crescer e envelhecer aconteça por meio de um caminho às vezes bem custoso.
Palavra que sempre me consolou acerca disso foi a famosa passagem de Eclesiastes 3, que me garante, como relembra Resgate nesta canção, que “Tudo tem seu tempo determinado / Há tempo pra tudo debaixo do céu“. Sim, nem todo tempo é “tempo de abraçar”… até para o abraço fazer sentindo, é preciso haver aquele tempo de “afastar-se de abraçar”,  e até para a vida é necessário o “tempo de morrer”. “Há tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar…” (Ec 3: 2-4). E o mais incrível é ver que todas estas coisas foram determinadas… não são um acaso, elas tem um propósito, elas tem uma lógica, um plano, elas fazem sentido. Como eu posso não amar isso? Olhando assim, como o tempo pode continuar sendo tirano, e não meu amigo, uma dádiva concedida a nós? Como duvidar que Deus é mesmo o Senhor do Tempo?
Resgate também diz um pouco sobre a intrigante questão da morte: “E todo mundo quer saber, quanto tempo ainda resta/E todo mundo quer viver, pelo menos duzentos anos”. Uma vez um pastor de jovens nos perguntou sobre o que faríamos, como seria nossa agenda, que atividades planejaríamos caso soubéssemos que temos apenas mais um dia de vida. Eu fiquei refletindo um tempo sobre isto… poxa, dá vontade de fazer tanta coisa! Há muito para consertar antes de ir “embora”. Há outras coisas que eu simplesmente queria ter feito e até hoje não fiz, e sabendo que não haverá um amanhã, este seria o tempo de fazê-las. Na verdade, não sei se caberiam em um dia… elas durariam uma vida inteira.
Mas enquanto eu divagava nas minhas lembranças da lista de desejos de Jamie (a mocinha de Um Amor pra Recordar), o pastor continuou: o ideal seria se não mudássemos nada em nosso itinerário com esta notícia, supondo que a cada dia fazemos sempre o que é importante. Bem, está claro que esta realidade não parece tão fácil assim para todos. A maioria de nós, ao contrário do que aconselhou Renato Russo, não vivemos “como se não houvesse amanhã”, ou como viveu Paulo, que pregava intensamente, como “um moribundo, pregando aos moribundos”. Pessoas como eu, que ainda não aprenderam a viver tão intensamente assim e ainda depositam muitas expectativas no futuro ou saudades no passado, talvez precisem mesmo de “pelo menos duzentos anos” se fosse para realizar tudo que gostaríamos…
No entanto, como Deus não se fatiga de repetir para mim nestes dias, “agora é o tempo”, e você já tem tudo o que você precisa para viver o agora. E eu digo: “Sim, é verdade. Mas… pode repetir, Senhor?”. E ele me lembra, de novo, que a vida é aqui, agora, e é ao vivo. Vou aprendendo.
A canção ainda traz mais um consolo: “É preciso entender, que o amor demonstrado
na cruz traz vida eterna”… assim, olhando para o Deus atemporal, que nos amou a ponto de entrar no tempo que Ele mesmo criou, por nossa causa, dividindo a história em “antes” e “depois”; assim, olhando para a cruz, que era a morte, mas também era a vida – a nossa vida!-; assim, olhando para um amor que se expande através do tempo e nos alcança, permitindo que tenhamos vida eterna, posso olhar com mais paciência o tempo agora.

“Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens”.
1 Co 15:19

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Ana Cláudia Nunes tem 23 anos, é publicitária, trabalha na Ultimato e gosta muito de cantar.

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