Especial Lausanne III – Voltei com muitas recordações das quase duas semanas na África do Sul para participar do 3º. Congresso do Movimento de Lausanne, Cidade do Cabo 2010, e ainda refletindo o que ficou dessa marcante experiência — lugares, pessoas (encontros e reencontros), o evento, as conferências, as conversas de corredor, as interações, especialmente com a delegação latino-americana e brasileira, os temas e desafios presentes e ausentes etc.

Confesso que não fui com grandes expectativas do que ocorreria lá. Como muitos da minha geração, aprendemos que Lausanne I (1974, Lausanne) fora um momento histórico, mas Lausanne II (1989, Manila) tinha tido muito menos impacto. Na verdade, falou-se do último como um passo atrás e outro à direita. O que poderíamos esperar de Lausanne III?

Com a ressalva de que uma avaliação é sempre um olhar a partir de certo lugar, olhar marcado por convicções, experiências e trajetória construída em anos de participação na vida e missão da Igreja Evangélica brasileira, tentarei resumir em linhas gerais minhas impressões sobre este Congresso. Imagino que outros participantes da delegação brasileira farão o mesmo. É importante buscar conhecer outras avaliações. Ofereço um olhar particular, o meu olhar.

1) O congresso foi muito bem organizado. Da inscrição às refeições, dos horários às múltiplas atividades, tudo correu com disciplina, rigor, ordem. Pouquíssimas coisas ficaram fora de controle como o acesso à Internet (hackearam a rede e tivemos dificuldade em alguns dias). Destaque seja dado à maneira como fomos dispostos no auditório: em mesa de seis para partilhar, orar, estudar o livro de Efésios e fazer a ressonância das plenárias da manhã. Na mesa que me reservaram, partilhei com um bispo salvadorenho de uma igreja evangélica carismática, um pastor e assessor da Visão Mundial no Equador, um professor peruano do Seminário Nazareno das Américas na Costa Rica, um coordenador de projetos de uma agência missionária da Igreja Luterana no Brasil e a ex-primeira dama do Paraguai (isso mesmo! e estava lá conosco seu esposo, o ex-presidente e atual senador Nicanor Duarte). Como podem ver, uma mesa diversa! Uma experiência enriquecedora poder partilhar diferentes pontos de vista, convergências e divergências em um Espírito de valorização da voz e perspectiva de cada um/uma.

2) A diversidade da igreja global presente é algo que sempre impressiona em eventos como esse: evangélicos de todos os continentes, de mais de 190 países, de diferentes idiomas e culturas num ajuntamento para celebrar a fé e refletir sobre a vida e missão da Igreja. Fomos expostos à realidade de como o evangelho está sendo vivido e anunciado em muitas partes do mundo. Particularmente, a experiência daqueles que sofrem por compartilhar o Evangelho em algumas partes do mundo faz-nos sempre prender o fôlego, mesmo que discordemos de seus métodos.

3) Quanto aos temas, muitos observaram como a agenda e as prioridades estiveram marcadas por um olhar demasiado norte-americano (estadunidense, para ser preciso!). Esse olhar enviesado de quem organizou e financiou, denuncia a dificuldade (ainda!) daqueles do Norte Global de considerar os pontos de vista e a agenda daqueles do Sul Global (que, diga-se de passagem, é onde mais cresce e já é maioria no cristianismo global). Particularmente, a América Latina e, ainda mais particularmente, o Brasil, tiveram um espaço significativamente inferior em relação às outras regiões e países. Tivemos dois latino-americanos em plenárias principais (Ruth Padilla DeBorst – Argentina/Costa Rica e David Ruíz – Guatemala), nenhum brasileiro (Valdir Steuernagel teve uma pequena participação numa das noites regionais).

4) Esse olhar enviesado também afetou o programa, com um enfoque desmedido sobre a Verdade (com ênfase na apologética, na defesa e afirmação da verdade), mais afeito ao debate sobre Pluralismo/Secularismo que enfrentam os cristãos da América do Norte e Europa, em detrimento das realidades contextuais dos países do Sul como a Desigualdade, a Pobreza, a Violência, a Insegurança Alimentar etc. Alguns congressistas se escandalizaram por não ouvir uma palavra sequer sobre o Apartheid (pelo menos para pedir perdão pela conivência da maioria das igrejas evangélicas) num congresso realizado num país que ainda lida com suas consequências sociais e econômicas. Muito menos se ouviu uma crítica sequer ao sistema capitalista global que é causa de muitas das mazelas que a maioria dos nossos países no Sul e algumas significativas minorias no Norte sofrem todos os dias. A pequena participação de René Padilla e Samuel Escobar, lembrando do legado de Lausanne I e chamando a atenção para o problema ecológico, para a globalização econômica e para a necessidade de um discipulado radical, foi sintomático de como o Movimento de Lausanne precisa escutar o clamor das margens, sempre silenciadas pelos que têm mais dinheiro e poder.

5) Esse enfoque desmedido fez com que as respostas fossem mais reativas e numa lógica de conquista do que numa chave de autocrítica, diálogo e humildade. Deu-se muita ênfase, por exemplo, ao mundo muçulmano (o Outro do Ocidente desde o 11 de setembro) em detrimento de outras realidades religiosas da Ásia, África e América Latina. Falou-se pouco de diálogo ecumênico e inter-religioso e muito de alcançar os povos não-alcançados (terminologia já gasta e muito criticada na missiologia contemporânea) e de erradicar a pobreza bíblica (novo termo da missiologia norte-americana).

6) Mas, para não fazer apenas críticas ao programa, vale destacar dois dias cujos temas foram importantes para tentar balancear uma pauta que se quis majoritária: o que tratou da Reconciliação destacou os problemas da AIDS, do Tráfico Humano e as novas formas de Escravidão e a situação dos Dalits (grupo que formam conjunto de castas inferiores na sociedade indiana, muito discriminados). Outro dia importante foi o que discutiu o tema da Integridade, denunciando a falta de humildade, a corrupção e abuso de poder nas igrejas, a sobrevalorização da prosperidade material, o consumismo e a falta de transparência.

Todos esses temas deverão aparecer de alguma forma no documento final que uma comissão liderada pelo teólogo britânico Chris Wright escreveu: o Compromisso da Cidade do Cabo — documento que pretende nortear a igreja evangélica global a partir do que foi discutido no Congresso de Lausanne III. Pretende-se que seja uma síntese e uma referência dos desafios e respostas que a Igreja precisa dar para avançar a evangelização mundial. Esse documento tem duas partes: a primeira já está disponível; a segunda será elaborada até dezembro. Você pode conferir a primeira parte em português na seção “Recursos” de Novos Diálogos . De especial interesse para os que estão sensíveis para com a tarefa missionária de uma perspectiva integral é a parte que sinaliza a importância da preocupação com o meio ambiente. No conjunto, o documento é uma reafirmação de antigas fórmulas doutrinárias (coerente com a preocupação sempre renovada dos evangélicos com a verdade) numa linguagem que coloca em destaque o tema do amor. Está ausente do documento qualquer análise do contexto em que a missão está inserida e no qual a igreja exerce sua tarefa missionária.

Será que Lausanne III ficará marcado na história da igreja evangélica global? Ainda é muito cedo pra dizer. Não há muitos sinais de esperança. Para os latino-americanos, resta-nos, como muitos chamaram atenção, olhar para o CLADE V.

Flávio Conrado é editor da revista eletrônica Novos Diálogos. Este texto foi publicado no site Novos Diálogos.

Legenda foto: Detalhe do interior da Igreja Presbiteriana Kenilworth, em Cidade do Cabo, África do Sul. Crédito: Lissânder Dias

  1. Sem dúvidas! Mesmo sabendo que são vários os campos a serem analisados, vejo que a repercussão do evento chegou aos olhos do mundo, com grandes veículos como The Economist e o inglês The Guardian lançando matérias e abrindo a discussão para cristãos e não cristãos.
    Em relação às transformações “planejadas” em Cape Town, só veremos mudanças a partir do momento que sairmos do campo das idéias e as levarmos para prática. Por ex: reverter o quadro que 86% dos budistas, hindus, muçulmanos e pertencentes a religões tribais do mundo não têm contato com um cristão em vida precisa de uma atitude transformadora.
    E sobre o Brasil, só quebraremos o paredão americano quando tivermos líderes mais relevantes mundiais, como por exemplo, um Vishal na Índia.
    Existe uma grande expectativa sobre nós e esperamos que transição do Global Norte para o Sul vai comece a mostrar os líderes com a nossa cara.

  2. Lendo o documento realmente percebi a inquietação de Flávio Conrado.Pois muitos dos princípios elementares deste (infelizmente) óbvio documento já estão de certa forma inseridos dentro de qualquer confissão de fé de qualquer igreja histórica.

    Ao invés de se discutir os grandes desafios e as grandes indagaçõs do mundo (como ecologia e bioética) em relação ao nosso papel e relevância hoje, ficamos mais uma vez confessando o óbvio.

    Mais do mesmo…

  3. Queridos leitores,
    sugiro que todos acessem o site da III Lausanne Conference e assistam aos videos das apresentações.
    Falou-se mto sobre meio ambiente, ética, mídia, tecnologia e outras áreas relevantes ao Cristianismo atual. Saimos do feijao com arroz

  4. Falou-se muito pouco de diálogo ecumênico e o WCC foi convidado e falou. Alguém mencionou isso por aqui? Outra coisa: acho que esse pessoal que fica falando em pedir perdão deveria ter um certo pudor e reconhecer o papel de um Desmond Tutu.

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