Auditório amplo

Chão escuro acarpetado

Poltronas vermelhas

Ocupadas pela metade

Quase todos negros

Poucas mulheres

No palco, mesa e púlpito

Na mesa, sete pessoas

Quatro negros, dois mulatos, um branco

Entre eles, uma mulher.

Reunião ordeira

Rostos alegres

Roupas coloridas

A Igreja da África reunida

Entramos no auditório

Representantes da igreja brasileira

Somos sete

Todos mais ou menos brancos

E um negro

Subimos juntos ao palco.

Na tribuna, nosso porta-voz

Leitura pausada e controlada

Nos últimos parágrafos

Voz embargada, tremor nas mãos

Silêncio completo

Seguido de palmas, em pé.

Alguém, lá atrás

Inicia um cântico

Cantam todos, suavemente

Lágrimas nos olhos

Brasileiros e africanos

Mulheres e homens.

Querem nos abençoar

Ajoelhamo-nos

Querem nos declarar seu perdão

Assim seja.

Na carta, a culpa e o pedido de perdão

400 anos de escravidão:

“Pecado do nosso povo contra seu povo.

De nossa nação contra a nação de vocês.”

E, também o desejo:

“entender a amplidão do amor de Cristo

que derrubou o muro de separação

que nos fez uma família n’Ele!”

O perdão, a bênção, o abraço

De todos da mesa, um a um

Abraço forte, sentido, sem pressa

Antes de voltar ao meu lugar

O abraço mais longo da minha vida

Ela, negra, encaixa meu rosto em seu ombro

E afaga meus cabelos

Eu, muito branca, acaricio seu rosto molhado

E admiro sua beleza

Deus nos abraça a ambas

A cor importa?

Enviado por Klênia Fassoni

  1. Oi,
    Que poema lindo, cheio de detalhes que nos coloca no meio da cena, da emoção. E lhe digo, a cor importa sim. Ela representa a diversidade de Deus nesse mundo e a marca da indiividualidade de como a pessoa se vê na família e na sociedade geral. E, sabendo que foi o Deus de Israel que a criou, pode afirmar que Ele não se engana ao nos fazer como pessoas, coloridas e culturalmente diferenciadas. E, sabendo quem somos, podemos apreciar e abraçar ao que é diferente de nós.

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