Caros amigos, 

Hoje vou fazer uso da minha mineirice para contar a história de um trem. Na verdade, não é como um "trem" de mineiro; é um trem de verdade, um trem de ferro. Seus trilhos estão deitados num reino muito, muito distante. 

Da janela desse trem um viajante vê uma casinha branca, um Capitólio ao longe, gente elegante. À medida que vai andando, a paisagem muda… Agora o viajante vê mulheres pobres na janela, crianças barrigudas na rua, homens e seus cigarros de fumo. Esse trem traz açucar e leva carvão. É um trem preto e branco. 

Esta é a história que vejo todos os dias. O trem que passa pelo FMI, pelo Banco Mundial, pelo Capitólio e pela Casa Branca vem cheio de açúcar pela manhã: gente elegante, branca, de raça “pura”, trabalha nesses lugares. Difícil ver um negro nesse trem, quase nunca vejo. Quando vejo, não são os elegantes, os de ternos brilhantes.

Quando a noite chega, o trem está cheio de gente negra. Mas a direção que ele segue é outra: está indo para os subúrbios, para onde gente negra vive.

Obama pode ter chegado ao poder, mas isso não mudou a história desse trem. Emprego branco, emprego preto; cidade branca e rica, cidade preta e pobre. Washington D.C está entre as dez cidades mais violentas do mundo, mas posso lhe assegurar que isso é na cidade preta, para onde o trem leva seus carvões à noite.