A Arte Cristã em um Mundo Desencantado (Parte IV)

A Arte e seu Serviço de “Discretos Reencantos”

 Por Rodolfo Amorim

Embora o cenário de desencanto apresentado até o momento seja inquietante, alguns sinais em contextos culturais supostamente secularizados e desencantados nos alertam para um aspecto importante, o qual doravante orientará nosso argumento. O número de pessoas que dizem ter experienciado um encontro descrito como religioso fora dos contextos da Igreja e da religião institucionalizada nas últimas décadas se mostra expressivo. Em uma pesquisa sobre a religiosidade na Inglaterra, David Hay e Kate Hunt constataram que, embora o número de atendentes às Igrejas no país tenha caído mais de 20% entre 1980 e 2000, com dados girando em torno de 8% aos domingos, o número de pessoas que descreveram ter tido uma experiência espiritual ou religiosa cresceu 60% no mesmo período, de 48% para mais de 76% na amostra nacional [1]. Embora estas supostas experiências não correspondam necessariamente a um encontro com o Deus cristão, indicam um fato importante. Em grande medida, estes encontros com um sentido mais profundo e uma idéia do sagrado se dão em contextos em que pessoas são expostas a artefatos culturais artísticos, como em contextos de filmes, músicas, concertos, performances teatrais, dentre outros. Segundo Jonhston, dentro da própria indústria de cinema contemporânea existe um claro direcionamento para temas e abordagens que proporcionem ao expectador uma experiência de transcendência [2].
Em seu importante estudo “The Reenchantment of the World”, em que aborda a tentativa da arte enquanto instituição cultural de se posicionar como opção de reencantamento da realidade, Gordon Graham (2007) demonstra com variados exemplos o potencial presente, ainda que insuficiente, da arte em desvelar experiências de totalidade e narrativas fornecedoras de sentido diante da crise das religiões estabelecidas e visões tradicionais da realidade. Este potencial da arte em organizar sentidos e prover narrativas atua de forma ainda mais potencializada diante de uma realidade cultural fragmentada e reducionista, como temos visto aqui. Vários são os casos nos quais a exposição de pessoas a um produto artístico específico desencadeara uma experiência profunda do sagrado. Relatando sobre seu primeiro encontro com a arte do Cinema, que definiria sua relação com este pelo resto de sua vida, Martin Scorsese diz que:

A primeira sensação foi a de haver entrado em um mundo mágico – o carpete, o cheiro de pipoca fresca, o escuro, o sentimento de segurança e, sobretudo, de santuário – em minha mente é como se estivesse entrando em uma igreja. Um lugar de sonhos. Um lugar que estimulou e expandiu minha imaginação.” (Scorcese apud Johnston 2006, p. 28)

Gareth Higgins, escritor e crítico cultural norte-americano, compartilha em seu livro “How Movies Helped to Save My Soul” sua experiência pessoal em que, assistindo a um filme com poucas referências religiosas (Clube da Luta), percebeu que existia na realidade humana uma tensão fundamental que devia ser enfrentada, o pecado. Após algum tempo de conflito e resistência a tal idéia, Gareth se converteu à fé cristã, e atua como crítico e comentarista cinematográfico junto à comunidades cristãs nos EUA [3]. Carl Sandburg, premiado poeta e educador norte-americano, comentando sobre o poder da indústria de filmes em moldar comportamentos e atitudes pelo mundo, afirma que “qualquer coisa que o leve às lágrimas por meio do drama faz algo à mais profunda raiz de nossas personalidades.” Todos os “filmes, bons ou maus, são educacionais, e Hollywood é a instituição educacional mais influente na terra” [4].
Segundo Graham (2007), a arte cristã com suas obras em abundância pelo ocidente continua sendo um testemunho constante da realidade do sagrado e do encanto da criação, alertando o homem moderno sobre a existência de realidades que transcendem o mundo bruto dos fatos experimentado nas rotinas da vida contemporânea [5]. Romances como os de Dostoievsky e Tolstoi, músicas como as de Bach e Handel, pinturas como as de Rembrandt e Caravaggio, são poderosos lembretes de uma consciência e imagem constantemente negadas pela contemporaneidade.
A arte tem se apresentado como um aliado na reconfiguração de um olhar unificador da realidade, que fornece não apenas entretenimento, como pensam muitos, mas fornece um acesso à realidade por vias outras daquelas comentadas, seja da experiência ordinária do dia a dia ou da análise teórica. Calvin Seerveld, teórico cristão das artes, defende que o poder da imaginação a serviço da arte, com sua capacidade de mesclar sentidos da realidade e exagerá-los (hineinlebentanschaung), além da capacidade do artista de desvelar nuances e sentidos da muitas vezes ocultos do olhar desatento, revelam dimensões da realidade de uma forma rica e própria. Ela unificaria sentidos que são geralmente separados na análise teórica (gegenstand), e desvelaria aspectos outrora imperceptíveis às pessoas em sua vida ordinária6. Quando pessoas se relacionam com um artefato cultural esteticamente qualificado, que caracteriza a obra de arte, elas não estariam suspendendo o contato com a realidade, como defenderiam teorias de viés marxista ou psicanalista de estética, antes, pelo contrário, estariam sendo expostas à dimensões da realidade de uma forma distinta e própria. Em uma visão semelhante sobre o serviço da arte na cultura, Dostoievsky afirma e defende a capacidade da arte como forma de cognição distinta e válida da realidade, que unifica sentidos e rivaliza a ciência em sua capacidade de discernir acontecimentos e saliências ocultas aos homens modernos. Segundo Dostoievsky.

A arte realiza descobertas e provê fundamentos para predições independentemente das ciências. O artista é uma pessoa com um talento especial para notar e apontar características salientes da realidade, ele observa e demonstra elementos da realidade não manifesto a outros; ele é alguém que capta, detecta na vida, que percebe toda a sua riqueza e complexidade com profundidade. E além de todo o discernimento de fatos e suas relações, o bom artista tem a habilidade de explicar e predizer, rivalizando o cientista neste respeito. (Dostoievsky apud Scanlan 2002, p. 146)

 

Por apresentar um acesso legítimo à realidade de forma distinta do modelo dominante de cognição e atuação, pode a arte prestar precioso serviço de contrapor as forças de desencantamento modernas, antecipando e fornecendo os insights para a profundidade e a abrangência que a religião pode conquistar no reencantantamento da realidade [7]. A arte tem servido a muitos, e em muitos contextos, como um lembrete de realidades profundas e esquecidas da vida, do sentido total e integrado do cosmo, da necessidade humana de transcendência, da existência e da providência de Deus sobre os fatos aparentemente caóticos da história. A arte teria uma forma própria de acessa sentidos profundos e dar forma ao encanto e maravilhamento que pulsam da criação. Segundo Joshua Heschel:

Interceptar as alusões que estão submergidas nas imperceptibilidades, nos valores interstícios que nunca emergem à superfície, a dimensão indefinível de toda existência, é uma tarefa da verdadeira poesia. Por isto a poesia é para a religião o que a análise é para a ciência, e certamente não foi por um acidente que a Bíblia não tenha sido escrita more geométrico, mas na linguagem dos poetas. (Heschel 1951, p. 37)

A partir desta constatação, de que a arte tem oferecido um serviço de encantamento em contextos de intensa secularidade e fragmentação, cabe-nos apontar caminhos intencionais e apropriados de atuação da arte na cultura contemporânea. Porém, precisamos clarificar e reforçar um ponto fundamental. Poderia a arte, por si só, oferecer uma opção ao desencantamento? Qual tipo de compreensão de arte seria apropriado para tal tarefa?
Arte, o Reencanto e a Força da Religião

(em breve parte V)

Quando nos perguntamos sobre a capacidade da arte em cumprir a tarefa de enfrentar o processo de desencanto da realidade, estamos buscando definir limites e ordenar nosso pensamento, a fim de que não sejamos frustrados em expectativas equivocadas. A tentativa de estabelecer a arte como substituto da religião foi, de fato, proposta por vários filósofos, pensadores e artistas nos séculos XVIII e XIX. Esta abordagem teve fortes defensores como Nietzsche, Schoppenhauer, Mathew Arnold, Kandinsky e Max Ernst, direcionando movimentos artísticos inteiros.

1 Cf. Hay e Hunt, apud Johnston. Reel Spirituality: Theology and Film in Dialogue. Baker Academic, Grand Rapids, 2006, p. 90.
2 Ibidem, p. 91.
3 Cf. Higgins, Gareth. How Movies Helped to Save my Soul. Relevant Books, Lake Mary, 2003, PP. 1-11.
4 Cf. Sandburg apud Johnston. Reel Spirituality: Theology and Film in Dialogue. Baker Academic, Grand Rapids, 2006, p. 27.
5 Cf. Graham, Gordon. The Reenchantment of the World: Art Versus Religion. Oxford University Press, New York, 2007.
6 Cf. Seerveld, Calvin. A Christian Critique of Art and Literature. Guardian Press, Hamilton, 1977, pp. 70-73.
7 A relação entre arte e religião será esclarecida adiante.