Parte I

Rodolfo Amorim Carlos de Souza *1
L’Abri Brasil e AKET

 

Já não é nova a afirmativa de que o ocidente compartilha de uma imagem de mundo pós-cristã e secularizada, e de que a forma de se conhecer e relacionar com a realidade modificara-se profundamente, conduzidos pelo avanço técnico e científico e sua eficiência na conquista de progresso em vários campos da vida humana. A moralidade de agora, diz-se, seria mais autêntica e menos dogmática. As visões religiosas tradicionais não teriam satisfeito as novas demandas de um homem emancipado e conhecedor do mundo. Porém, neste breve artigo, argumentamos que uma visão moderna e desencantada do mundo, com origens no período renascentista, é incapaz de fornecer uma visão integradora e profunda da realidade, cooperando para a criação de uma cultura sem princípios orientadores para a vida pessoal e comunitária, conduzindo ao achatamento da vida em suas ricas possibilidades.
Defendemos nas próximas páginas que somente pelo retorno a uma narrativa bíblica da realidade e sua reinserção apropriada no terreno da cultura ocidental, pode o homem contemporâneo voltar a florescer em toda sua potencialidade e desfrutar da shalom, ou plenitude, que procedem da vida intencionada pelo Criador. Neste contexto de retorno a um encantamento maduro da realidade, argumentamos que a arte se apresenta como uma aliada estratégica fundamental, pois possui um modo distinto de acesso e interação com a realidade criada, crescentemente ignorada e incultivada pela mentalidade fragmentada e reducionista de um mundo em desencanto. A partir da constatação sobre o papel estratégico da arte, apontamos caminhos e atitudes passíveis de cultivo pela comunidade cristã na esperança de oferecer uma opção viável ao quadro cultural de desencanto apresentado.
Do Jardim ao Caos: Um mundo em desencanto
Já não encontramos no seio da cultura ocidental uma imagem da realidade na qual os homens se encontrem conscientemente cercados de uma rica ordem criada, com propósito, profundidade e beleza procedente e mantida providencialmente pelo Deus Criador. Distante de nossa rotina está a expressão de uma alma que exulta diante da riqueza da vida na criação, dizendo “Oh Senhor, quão variadas são as tuas obras! Todas as coisas fizeste com sabedoria; cheia está a terra das tuas riquezas” (Sl. 104: 24). O homem moderno já não se percebe como dádiva e imagem de Deus, “pouco menor do que os anjos, coroado de glória e honra” (Sl. 8: 5). Outrora pequeno diante da grandeza de Deus e em espanto em sua rica criação, o homem moderno se tornou simultaneamente maior do que é perante o Criador e menor do que é perante Suas criaturas. Perdido entre sua gloriosa dignidade e comparativa insignificância, controlador de tudo, o homem contemporâneo se encontra entediado com as rotinas vazias de um mundo à deriva no imenso e impessoal cosmo. O acolhedor jardim de Deus fora abandonado pelo indiferente caos. O mistério que inspirava grandes obras e sacrifícios de amor é substituído pela crueza de fatos sem sentido e a legitimada vontade de poder. O homem ocidental, na celebração de sua suposta emancipação das forças de um mundo impessoal e desafiador, encontra-se em um estado de profundo tédio e cinismo, pois se pensa descobridor das causas por trás dos fenômenos que movem a realidade.
Este estado interior enfermo revela-se de forma crescente em múltiplos sintomas. A constante ameaça ao equilíbrio ambiental, a opção preferencial pelo controle racional e técnico da vida e da sociedade, uma base econômica pautada na manutenção de níveis artificiais de consumo, as relações pessoais pautadas no interesse pragmático e na competição *2, o olhar cínico para o fundamento das relações no mundo e das pessoas *3, uma arte altamente abstrata e carente de temática e sentido metafórico *4 e o enfraquecimento da razão em questões de sentido e verdade *5 são alguns dos vários sintomas de uma crise cultural originada pela modernidade e seu afastamento de Deus e suas direções para a vida humana. Pois, como falar em pós-modernidade quando se colhem agora os frutos maduros do abandono pródigo dos domínios do Pai? De fato, vivemos em um mundo desencantado, entediado em sua raiz mais profunda e, reconhecidamente, doente. Um mundo que, não obstante seus expressivos avanços técnicos e sua aparência de liberdade, encontra-se fragilizado e vulnerável diante das grandes questões que envolvem a vida, como o sentido da existência e do cosmo, o consolo real diante da eminente morte, a base da dignidade do homem e uma orientação promissora e justa aos projetos culturais e o trabalho humano. Sem que fundamentos básicos estejam postos, o caminho de uma cultura desencantada está constantemente ameaçado pela barbárie e pelo abuso nas relações entre os homens e a natureza criada.

A Desconfiança de Deus na Raiz do Desencanto

O processo de desencanto já fora percebido e delatado há algum tempo por distintas vozes que reconheceram, em meio ao frenesi e agitação cultural dos séculos XVIII e XIX, o deslocamento de um fundamento que apresentaria mudanças sem precedentes na cultura e vida ocidental. Nietzsche descreveu com as seguintes palavras o que percebeu em meados do século XIX:

Este é o maior evento recente – que Deus está morto. Que a crença no Deus cristão se tornou inaceitável – está começando a lançar suas primeiras sombras sobre a Europa. Para aqueles poucos cujos olhos, a suspeita em cujos olhos são fortes e sutis o suficiente para este espetáculo, algum tipo de sol se pôs; uma antiga confiança se tornou em dúvida; para estes, nosso mundo se tornou mais outono, mais desconfiado, mais estranho, mais velho. Mas no principal alguns podem dizer: este evento é grande demais, distante demais, ainda fora de questão para que estas pistas sejam tidas por presentes. (Nietzsche 1887/2001, p.199).

Segundo o pensamento de Nietzsche, que discerniu de forma incisiva seu próprio tempo, uma aberta desconfiança se instaurou no centro da civilização ocidental em relação à idéia de Deus e suas orientações os homens, evento que apenas iniciava seu processo de transformação da realidade, e que fora percebido por poucos em suas consequências certas e profundas. Com um foco voltado às conseqüências desta reorientação cultural para as práticas sociais da sociedade ocidental Max Weber descreve, em inícios do século XX, como uma profunda racionalização da vida surgira na esteira do abandono de Deus:
Agora as rotinas de nossa vida do dia a dia desafiam a religião. Muitos deuses de outrora levantam-se de seus túmulos; eles estão desencantados, e assim, eles tomam a forma de forças impessoais (…) o que é difícil para o homem moderno, e especialmente para a geração mais jovem, é se mostrar apto para a experiência do trabalho diário (…) o destino de nosso tempo é caracterizado pela racionalização, intelectualização e, acima de tudo, pelo desencantamento do mundo.” (Weber, 1948/2004, p. 149)

Weber, como Nietzsche, percebera de forma clara as conexões entre a dessacralização do mundo e o surgimento de novas forças de controle e organização da vida. Porém, estas novas forças impessoais não apresentam a inspiração necessária para que a vida siga seu ritmo com sentido e propósito. Segundo Kolakowski, em uma análise mais valorativo deste processo cultural moderno:

A cultura, quando perde seu sentido sagrado, perde todo o sentido. Com o desaparecimento do sagrado, que colocava limites a todas as perfeições que poderiam ser alcançadas pelo profano, faz levantar uma das mais perigosas ilusões de nossa civilização – a ilusão de que não há limites para as mudanças pelas quais a vida humana pode passar. De que a sociedade, em princípio, é uma coisa indefinidamente flexível.“ (Kolakowsky, apud Graham, 1990, p. 72)

Uma rica imagem da realidade fora abertamente descartada e substituída. Em seu livro The Discarded Image (1964), C. S. Lewis descreve as diferenças que caracterizam o modelo de representação medieval e o moderno na compreensão da realidade e seu reflexo em produções culturais como as artes, literatura e a ciência. Segundo Lewis, na era medieval, não obstante o desconhecimento sobre variados fenômenos que caracterizam o cosmo material, havia uma conexão interna e profundidade na imaginação humana e concepção da realidade, mais rica e plena de significado em comparação com a era moderna posterior. A centralidade da terra no cosmo, bem como a centralidade de Deus na vida dava, ao mundo medieval, um toque de encanto e de acolhimento. As realidades que circundavam os negócios humanos eram amadas e descritas em seus minuciosos detalhes, consideradas em proporção ao objetivo da própria vida. Segundo Lewis, concluindo sobre os resultados de seu estudo, “poucas construções da imaginação parecem-me ter combinado esplendor, sobriedade e coerência no mesmo grau” que o velho modelo medieval 6.
Mas quais são as motivações centrais e consequências observáveis deste processo de desencantamento na história da civilização ocidental? Como esta forma de imaginar, entender e interagir com a realidade se formou historicamente? Somente a partir deste diagnóstico podemos encontrar caminhos e possibilidades de inserção consciente em nossa cultura, além de trabalhar em possíveis direções de uma recondução saudável da vida humana na criação.

CONTINUA….

 

*1 Rodolfo Amorim Carlos de Souza é professor universitário com mestrado em Sociologia pela UFMG, especialização em Gestão do Terceiro Setor e graduação em Relações Internacionais pela PUC-Minas. Estudou teologia no IBIOL de Londres, é obreiro do L’Abri Brasil e membro fundador da Associação Kuyper para Estudos Transdisciplinares (AKET).
*2 Para a discussão dos limites ambientais e econômicos intrínsecos ao sistema capitalista moderno e seu foco no progresso, cf. Goudzwaard, Bob. Capitalism and Progress: A Diagnosis of Western Society. Wedge Publishing Foundation, Toronto, 1978, pp. 121-142. Schuurman, E. Faith and Hope in Technology. Clements Publishing, Toronto, 2003, pp. 111-133.
*3 Para uma penetrante análise sobre as raízes e consequências do cinismo contemporâneos, cf. Keyes, Dick. Seeing Through Cynicism: A Reconsideration of the Power of Suspicion. IVP Books, Downers Grove, 2006.
*4 Sobre a crise moderna das artes, cf. Rookmaaker, Hans. Modern Art and the Death of a Culture. Crossway Books, Downers Grove, 1994.
*5 Para uma discussão sobre a crise contemporânea no sentido de verdade, cf. Midleton, R. J. e Walsh, B. J. Truth is Stranger than it Used to Be: Biblical Faith in a Post Modern Age. IVP Books, Downers Grove, 1995, pp. 28-45.
*6 Cf Lewis, C. S. The Discarded Image: An Introduction to Medieval and Renaissance Literature. Cambridge, Cambridge University Press, 1964, p. 198-216.