Reflexao sertao Paraíba

Por Dave Bookless

Depois de três anos e 36 blogs, estou iniciando uma pausa na escrita de artigos para o Planetwise (blog A Rocha Internacional), e me parece apropriado concluir esta série em eco-personagens bíblicos com Jesus. Escrevi antes sobre a falsa percepção de que Jesus ignorou o cuidado com a criação. Mencionei que seu ensino usou metáforas da natureza por toda parte, que no coração da oração do Senhor estava  uma visão do aterramento do Reino de Deus, e que a grande comissão que ele deu a seus seguidores incluía pregar as boas novas ‘a toda criatura’. Outros solicitamente comentaram em meu blog assinalando a continuidade de Jesus com os ensinos do Antigo Testamento sobre o cuidado da criação, e que embora ele não pudesse ter abordado o atual contexto de eco-cídio, seus ensinamentos condenaram a ganância e materialismo que constituem a base da cultura de hoje. (por exemplo, Lucas 6:20-26.)

Tudo isso é útil, mas refletindo mais a respeito percebi que falhei em abordar as questões mais importantes de todas. Quem era Jesus e qual era sua missão na Terra? Acredito que individualizamos tanto Jesus que o reduzimos a um salvador pessoal portátil: ‘Meu Cristo, meu Salvador’ – linda canção, mas perigosa doutrina com seu pronome possessivo e foco. Então, vamos dar um passo atrás e nos perguntar quem Jesus era e é em relação a toda a ordem criada…

Primeiramente, Jesus era o ‘novo Adão’ (1 Coríntios 15:22; Romanos 5:1-18). Isso não apenas implica que a vida, morte e ressurreição de Cristo deram a possibilidade de um novo começo para toda a raça humana, mas também o liga a Adão (e portanto a toda a humanidade) como feito a partir do adamah – o solo ou a terra. Como James Jones assinalou [1], Jesus era o novo filho do solo (o Filho do Homem/Adão), quebrando a maldição que o pecado de Adão colocou sobre a terra (Gênesis 3:17). Além disso, no nascimento de Jesus como bebê humano, a criação material é reafirmada. Significativamente, o evangelho de João fala de Jesus, o Verbo, tornando-se ‘carne’ (sarx), deliberadamente escolhendo um termo que carrega em si todos os animais, e não apenas ‘seres humanos’ (anthropos). No nascimento de Jesus, aquele através do qual e para o qual todo o universo foi feito (Colossenses 1:15-16; João 1:1-3) torna-se uma minúscula e vulnerável parte da criação, e naquele momento a nova criação começa. Na encarnação de Jesus uma semente é plantada que torna um novo início possível, não apenas para nós, seres humanos, em nosso relacionamento com Deus, mas para toda a ordem criada.

Em segundo lugar, Jesus era e é o ‘Salvador do mundo’ (João 4:42; 1 João 4:14). Enquanto os samaritanos que primeiro usaram estas palavras estavam provavelmente celebrando o fato de que Jesus veio para os gentios assim como para os judeus, e enquanto “Deus amou o mundo de tal maneira” em João 3:16 parece ter o contexto imediato do mundo da sociedade humana, ambos os versos usam ‘cosmos’ para mundo – uma palavra que tanto no grego clássico quanto no grego do Novo Testamento significa a mesma coisa que hoje – tudo o que existe na criação. O evangelho de João é um texto teologicamente sofisticado e ele sabia exatamente o que estava implicando. João 1 conscientemente começa com as mesmas palavras que Gênesis 1, mostrando que Jesus, o Verbo, é uma figura cósmica – o Criador (João 1:3) – que também trás luz ao mundo, tanto física quanto espiritualmente. Em outro momento, Paulo afirma categoricamente que Jesus é aquele por meio do qual Deus se agradou de ‘reconciliar consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra quanto as que estão nos céus, estabelecendo a paz por seu sangue derramado na cruz’ (Colossenses 1:20). Assim, todas aquelas canções e sermões que falam de Jesus vindo ‘para mim’ e ‘para nós’ (embora corretamente enfatizando o quão pessoalmente Deus nos ama) correm o perigo de reduzir Jesus ao nosso tamanho. Jesus veio para morrer e ressuscitar para realizar todo o grande projeto de Deus de criação e nova criação. Cada vale e montanha, cada pássaro e árvore, cada nação e cada pessoa é parte do porquê Jesus veio ao mundo.

Em terceiro e último lugar, Jesus é o futuro da criação. De acordo com a carta de Paulo aos Efésios (1:9-10), o grande plano de Deus – o mistério no coração do universo – é “fazer convergir em Cristo todas as coisas, celestiais ou terrenas.” Muito frequentemente, nossa meta como cristãos tem sido pequena demais. Sim, nossa missão inclui pregar o evangelho, fazer discípulos, cuidar do pobre, buscar justiça, promover a paz, mas nenhum destes é nosso alvo último. Todas estas são peças de um quebra-cabeças maior – a renovação de toda a criação em Cristo. Este é o objetivo da missão de Deus, o quadro geral que devemos ter em mente em todas as nossas atividades e prioridades. Segue-se que ‘missão’ que danifica o planeta, prejudica o pobre ou falha em abordar as necessidades espirituais das pessoas é, na melhor das hipóteses, incompleta, e na pior, falso evangelho. A criação anseia pela libertação da escravidão da decadência, e é a missão da Igreja articular e auxiliar nessa libertação. A Bíblia não poderia ser mais clara: ‘a natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados’ (Romanos 8:19-21).

Então, no alvorecer de um Novo Ano, com enorme potencial para bem ou mal, para a libertação da criação da destruição alimentada por combustíveis fósseis e para ação possibilitando ‘tudo o que respira’ a louvar ao Senhor (Salmo 150:6), que Jesus vamos seguir? Vamos reduzir Jesus a uma apólice de seguro eterna portátil ou um cobertor de conforto espiritual, ou vamos adorar o Senhor de toda a criação e buscar seu senhorio em nossos estilos de vida, nosso voto, nossas prioridades e nossa relação com cada parte de seu maravilhoso, ferido mundo?

 

[1] Jones, James. (2003). Jesus and the Earth. London: SPCK (Publicado no Brasil pela Editora Ultimato: http://www.ultimato.com.br/loja/produtos/jesus-e-a-terra )

 

Tradução : Juliana Szabo

Revisão : Sabrina Visigalli

Artigo original em http://blog.arocha.org/post/how-big-is-your-jesus/

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