Por Dave Bookless

A narrativa bíblica de Ruth e de sua sogra Noemi sempre foi a minha estória favorita – tanto assim que demos o nome Noemi-Ruth a uma de nossas filhas. Há muitos temas ali presentes: a provisão de Deus em meio às dificuldades, o acolhimento do estrangeiro, os deveres para com a família estendida, a hospitalidade generosa, o amor à Deus, à família e ao próximo. Há também a importância de um livro no centro de todas as experiências, relacionamentos e resiliência de mulheres, numa época e cultura em que eram marginalizadas…. e logicamente é uma clássica estória de amor. No entanto, meu enfoque neste blog é de que Ruth é também um livro sobre agricultura e economia.

 

2014-05-Stoic-by-Ashley-Jonathan-Clements

Uma Noemi da modernidade (‘Stoic’ por Ashley Jonathan Clements)

 

Noemi e família foram refugiadas por razões ambientais, forçadas, pela fome (1.1) e falta de grãos, a escaparem para Moabe, onde um de seus filhos casou-se com Ruth, uma moabita. Não sabemos porque o marido de Noemi e seus dois filhos morreram lá (1:3-5), mas a pobreza, a fome e a doença são a porção que recai sobre os pobres desprovidos de terra na maioria das culturas. Sendo assim, Noemi e Ruth (que, de forma admirável, escolheu segui-la) tornaram-se novamente imigrantes por questões econômicas, voltando à terra natal de Noemi após ouvirem que naquele momento havia alimento em Judá (1:6).

Chegaram sem nada e Ruth decidiu buscar alimento, recolhendo sobras às margens de um campo de um parente distante de Noemi, Boaz (2:2-23). No mundo urbano de hoje, Ruth poderia ter se tornado uma “catadora de lixo” ou “andarilha” situando-se entre os marginalizados da sociedade. Finalmente, com a mediação de Noemi (3:1-8), Boaz casou-se com Ruth e o filho deles tornou-se o avô do rei Davi (4:13-22).

Tudo parece muito rural, romântico e pitoresco, mas é uma estória de grande relevância para um mundo de transformação ambiental e de sobressaltos. É difícil encontrar estatística precisa a respeito, mas dezenas de milhares de pessoas estão trocando as terras dos antepassados em função da desertificação, seca, enchente, aumento do nível do mar, desordens climáticas e erosão do solo por nações ocidentais e capitais regionais que provam exercer uma atração irresistível. Nos dias de hoje, Ruth e Noemi se afogam em barcos nas costas do Mediterrâneo, são contrabandeadas em caçambas de caminhões, são pegas cruzando a fronteira do México ou estão morando em favelas no Cairo, Xangai, Lima e Mumbai.

A resposta de Boaz é acolher o refugiado imigrante. Ele está apenas seguindo as instruções bíblicas: “Quando fizerem a colheita da sua terra, não colham até às extremidades da sua lavoura, nem ajuntem as espigas caídas da sua colheita. Deixem-nas para o necessitado e para o estrangeiro. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês”. (Lv 23:22 e 19:9-10, Dt 24:19-21). A forma como plantamos, produzimos alimento, tratamos as riquezas naturais da criação não são apenas questões de economia ou de eficiência. São escolhas morais e atos de adoração – a Deus ou a Mamom. A terra é do Senhor, não apenas os campos e lavouras, mas os combustíveis fósseis, a vida selvagem bem como as pessoas, o solo e os oceanos. Eles são nossos para trabalharmos mas nunca para os possuirmos completamente, nem para serem objeto de superexploração para prejudicar o pobre, o refugiado ou outra criatura.

Ruth e Noemi apenas sobrevivem porque seu parente remidor, Boaz, sabe que as margens do campo são mais importantes do que as margens de lucro. O lucro líquido é medido não apenas no balanço final mas na balança da Justiça de Deus. Se nossa produção, negócio, compra ou investimentos estão ferindo pessoas desprovidas de terras ou destruindo os habitats remanescentes da vida selvagem, então nosso trabalho tornou-se idólatra e nossa adoração vazia. Parece que há uma longa distância entre Ruth e os latifúndios de óleo de palma, a alienação de combustível fóssil e os padrões de imigração em massa mas talvez Ruth esteja bem mais próxima do que imaginamos.
Tradução: Ana Luisa Barreiros

Revisão: Billy Viveiros

Postado em 31 de maio de 2014  em http://blog.arocha.org/post/ruth-economic-migrant-or-environmental-refugee/

 

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