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Por Dave Bookless

 

Quando busco no Google ‘Coisas materiais têm importância para Deus?’ encontro mais de 20 milhões de resultados. Alguns sites (confissão: não chequei todos eles) alertam para os perigos que as coisas materiais representam para nosso relacionamento com Deus: ‘seja espiritual e não caia em preocupações mundanas’. Outros alegam oferecer o segredo da prosperidade material, geralmente mediante o pagamento de uma taxa. Parece que os cristãos estão extremamente confusos se as coisas que pensamos que possuímos, o mundo natural e até nossos corpos são, em sua essência, bons ou não.

Esta confusão surgiu, em boa parte, porque o pensamento cristão ocidental foi comprometido pelo conceito não-bíblico da filosofia grega: a separação entre corpo e alma e material e espiritual. Ainda que citemos ‘Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas’ (Colossenses 3:2), a verdade é que passamos a vida buscando e quase adorando coisas materiais – casas e carros bonitos, boa comida, pessoas de boa aparência, igrejas confortáveis. Os resultados são desastrosos assim para nosso mundo como para nosso relacionamento com Deus. A crença de que coisas materiais não importam nos divorcia dos constantes lembretes bíblicos de que nossas atitudes e práticas com relação a posses, pessoas, outras criaturas e a terra que habitamos estão no coração de nossa relação com Deus.

 

Certamente, Gênesis é claro. Tudo o que Deus fez, tanto escuridão como luz, tanto peixes como frangos, montanhas, pântanos, vermes (presumo!) e eu, são todos bons. Se colocarmos todos juntos, em sua totalidade são ‘muito bons’. A matéria realmente tem importância para Deus, tanto que ele a criou em enorme quantidade. Em milhões de variedades. Como disse acertadamente (ainda que metaforicamente) o cientista ateu J. B. Haldane: Deus tem ‘um afeto impressionante por besouros’. Afinal, ele criou pelo menos 400 mil espécies.

 

Coisas materiais foram feitas para serem celebradas e valorizadas. Não foram almas desencarnadas que foram ‘feitas de um modo assombroso e tão maravilhoso’; foram nossos corpos físicos (Salmo 139:14). Deus fez pessoas inteiras, não almas, como coloca Tom Wright. Jesus não nos disse para contemplar questões filosóficas. Ele nos encorajou a estudar os pássaros e as flores para entender o Reino de Deus (Mateus 6:25-34). De fato, a matéria importa tanto para Deus que em Jesus ele entrou em sua criação material. Jesus, Deus conosco, é o maior ‘Sim!’ possível para a vida física, de carne e osso, tanto humana como animal.

 

Veja Jó: um homem que tinha tudo, materialmente falando, e perdeu tudo, inclusive família e saúde. Como Deus respondeu à sua raiva e questionamentos? Não foi dizendo-lhe para ser mais espiritual, ou para contemplar a felicidade que receberia após a morte. Deus o fez olhar mais de perto para o mundo bio-físico ao redor. Ironicamente, o problema de Jó foi não ter dado importância suficiente para as coisas materiais, especificamente o mundo natural não-humano. Seu mundo havia sido centrado nele mesmo. Foi em meio ao selvagem, ao mistério e majestade da natureza indomada, em reconhecendo que este mundo não é para nós, mas é no senso mais profundo para Deus, que Jó começou a juntar as peças novamente.

 

E quanto a nós? Se tentarmos fazer de conta que a matéria não importa, caímos em um materialismo inconsciente, tratamos a Terra de Deus sem o respeito com que Deus a trata, deixamos de adorar a Deus com todo o nosso ser e deixamos de desfrutar as bênçãos materiais de Deus – que não são encontradas em possuir, mas em desfrutar, receber e compartilhar o presente da criação. Então, da próxima vez que você precisar de terapia material, fique longe do shopping. Leia o Salmo 104 e saia para mergulhar na maravilha da criação de Deus.

 

Tradução: Juliana Pereira

Revisão: Sabrina Visigalli

Artigo original postado em 28 de fevereiro de 2012. http://blog.arocha.org/post/author/davebookless/ 

  1. Caro Eduardo. Discordamos de você, mas é interessante ouvi-lo e estimular o diálogo. Nós, da A Rocha (Dave, inclusive) procuramos ter uma vida mais simples, menos consumista, onde o consumo não seja o centro e diga o valor que temos.
    E é justamente sobre isso o artigo. Como qualquer ser vivo precisamos consumir para viver, a nossa crítica está em como fazemos isso. Precisamos refletir sobre como temos consumido e, mais ainda, sobre como esse nosso jeito de consumir degrada o meio ambiente e empobrece ainda mais as pessoas mais vulneráveis.
    Mudar hábitos não é um processo fácil, mas acreditamos que temos um caminho a percorrer.
    Que Jesus, que tinha uma vida simples, nos mostre o caminho a seguir.

  2. Olá, gostei muito do texto porque ele nos leva a uma reflexão interessante: sempre procuramos a contrariedade, o certo versus o errado.
    Eu acho que isso tem sido usado sempre pela imprensa e pelos formadores de opinião. Talvez nem seja consciente, às vezes pode ser apenas uma maneira mais fácil de passar uma mensagem, visto que cada dia mais lutamos contra a falta de tempo e precisamos consumir as coisas de forma rápida.
    Porém quando isso se transforma na maneira de pensar, isso se torna perigoso, pelas associações simplistas do tipo: está comigo ou está contra mim? Isso tem afastado as pessoas nessa época de relacionamentos virtuais, onde as opiniões são essencialmente palavras sem o sincronismo, a entonação e a linguagem não-verbal de uma conversa real.
    Neste sentido, o caminho citado de busca pelo equilíbrio é realmente libertador. É fundamental para isso, ouvir opiniões divergentes, respeitar a diferentes crenças e ter humildade para saber que não somos donos da verdade sobre nenhum assunto. Acho que o cristianismo ensina isso, mas infelizmente alguns religiosos se deixam levar por essa armadilha dualista do nosso cérebro (eu tbm faço isso toda hora, hehehe)

    Obrigado por publicar e traduzir esse texto.

  3. Gostaria apenas de esclarecer dois pontos, principalmente ao Eduardo:

    1 – Nem a Ultimato, nem o Dave Bookless nem as pessoas que defendem o consumo consciente acreditam que pessoas devam passar fome e ficar mal nutridas, e logicamente reconhecem que a agricultura proporciona mais alimento para mais pessoas. A questão, como bem disse “A Rocha Brasil” em seu comentário, é como fazer isso para atingir aos dois objetivos: dar condições dignas de vida a todas as pessoas e não esgotar os recursos de que dispomos para fazer justamente isso. Além de pensar em bem-nutrir e na sobrevivência não apenas das pessoas, como de todos os seres vivos do planeta.

    2 – Você criticou a revista por ter gasto com a tradução do artigo. Tenha também o mesmo cuidado de se informar antes… Saiba que ela foi feita por uma equipe de tradução voluntária, da qual faço parte.

    Acho também o diálogo importante, só não concordo com a falta de respeito com que algumas coisas são colocadas, e resolvi responder para esclarecer também uma inverdade que foi escrita.

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