Continuum
Captura de Tela 2011-12-17 às 13.13.11stava assistindo à primeira temporada da série Continuum, em que “Kiera Cameron é uma policial do ano 2077 que acaba indo parar no ano 2012 quando uma gangue de terroristas viaja no tempo para fugir da prisão” (Sinopse). Aqui no presente ela inventa pertencer a uma unidade policial canadense, super secreta, que a enviou para lidar com essa gangue, por conhecê-la bem. Assim, encobre sua verdadeira origem, a origem da gangue que passa a aterrorizar a cidade com armas e conhecimento de 65 anos à frente, e passa a trabalhar em parceria com um colega policial do ano 2012.

Entretanto, essa tarefa de lidar com terroristas do futuro acaba colocando em risco sua identidade. Ao final de uma dessas situações em que eles quase morreram, e ela quase foi desmascarada, seu colega lhe diz: “chega de mentiras e segredos, ok? Daqui em diante, será 100% verdade entre nós. Sem mentiras nem segredos, combinado?” E Kiera responde: “Não, não pode ser assim; é preciso que mantenhamos alguns segredos, para que nossa missão tenha chance de sucesso”.

Essa cena me lembrou uma outra, muito mais perigosa, vivenciada por um amigo. Sem mais nem menos, sua esposa lhe perguntou: “meu bem, você acha que estou gorda?”. Risco de vida iminente: se você disser que sim, está morto; se disser que não, e não for hábil na mentira, está morto. Que fazer? — me perguntou o amigo?

O que há em comum entre as duas histórias? Bem, talvez entre outras coisas, a questão da necessidade da mentira ou, pelo menos, da não-verdade. E antes que você se escandalize comigo, permita-me lembrar um texto bíblico famoso:

Egito-1

O rei do Egito ordenou às parteiras hebréias, das quais uma se chamava Sifrá, e outra, Puá, dizendo: Quando servirdes de parteira às hebréias, examinai: se for filho, matai-o; mas, se for filha, que viva. As parteiras, porém, temeram a Deus e não fizeram como lhes ordenara o rei do Egito; antes, deixaram viver os meninos. Então, o rei do Egito chamou as parteiras e lhes disse: Por que fizestes isso e deixastes viver os meninos? Responderam as parteiras a Faraó: É que as mulheres hebréias não são como as egípcias; são vigorosas e, antes que lhes chegue a parteira, já deram à luz os seus filhos. E Deus fez bem às parteiras; e o povo aumentou e se tornou muito forte. E, porque as parteiras temeram a Deus, ele lhes constituiu família. (Ex 1:15-21)

Veja que as parteiras enganaram o Faraó; mentiram para ele. E Deus aprovou sua atitude. E lhes deu família como prêmio, porque temeram a Deus. A aprovação não foi do engano e da mentira, mas do temor ao Senhor. No caso, os subterfúgios foram um meio de expressar esse temor.
Em que dificuldades esses pensamentos nos colocam!

— Meu bem, você sabe que eu sou crente e que só digo a verdade. Então, lá vai: eu acho, sim, que você está gorda. Pronto, falei! E que Deus honre meu testemunho da verdade.

Esse não precisa de anjo da guarda; precisa de um destacamento celestial.

Há um outro versículo que me tem dado trabalho, ao pensar nesses assuntos. Ele é necessário, me parece, para o estabelecimento do equilíbrio bíblico:

Articulacoes
Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor. (Ef 4:15,16)

“Verdade em amor” aparece aqui como base para o crescimento e edificação do corpo. Parece que Paulo está recomendando uma verdade amorosa (no sentido de uma verdade que edifica e ajuda) e um amor verdadeiro (no sentido de que aquele que ama não mente para o ser amado). Verdade e amor são a glucosamina e a condroitina das juntas do corpo de Cristo. Parece que esses dois elementos são destinados a atuar nas articulações entre os membros do corpo.

Repare que a construção “verdade em amor” elimina a precedência de um sobre o outro. A verdade deve ser amorosa e o amor não deve ser cego para os pecados e defeitos do irmão. Não é um amor que “passa a mão na cabeça” do delinquente; nem uma verdade que julga sem a intenção de reconciliar e salvar. Verdade em amor remetem para Deus, em seu Filho.

Então, talvez seja o caso de perguntar: quanto amor é preciso para resistir (ou suportar) à verdade que nossa comunhão requer para que cheguemos à intimidade cristã? Perguntando de outra maneira: nosso amor resistirá à verdade que deve existir entre nós? Ou, para que ele sobreviva, não podemos ser inteiramente verdadeiros, não podemos dizer nossa verdade? Precisaremos ser um pouco Kiera ou parteiras do Egito?

Minha opinião é que esse problema só se resolve com o Evangelho. Explico: precisamos de um “pacto no corpo”; uma aliança de amor. Aguarde que vou desenvolver essa ideia em “Verdade em Amor II”. Aguarde e confie. 🙂

~image4Estamos todos esperando pela Amanda, aqui em casa. Ela deve dar o ar de sua graça em fevereiro próximo.

Como se trata de minha primeira experiência como avô, já vou me preparando, como todo avô que se preza.

Entre tantas circunspecções, dedilhei uma singela canção de ninar. Ela vai precisar. Compartilho com você. Repara não.

ImitadoresLeia comigo Efésios 5:1,2: “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados; e andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave”.

Eu vejo nessa recomendação do apóstolo Paulo uma mensagem natalina. Ela fica clara quando tento responder à pergunta: “imitadores de Deus em que sentido?” E a resposta vem sugerida pelo próprio Apóstolo: “no sentido de Jo 3.16”: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna“.

A expressão “de tal maneira” traz a ideia de grandeza, sem especificá-la. Porém, no contexto da recomendação paulina de ser imitador de Deus, ela se torna importante. Como que a dizer: “ame, você também, de tal maneira que dê”.

E o que significa “amar de tal maneira”? Significa, talvez, que meu amor deva ser algo parecido com o exemplo utilizado por Paulo: “como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós”.

Encontro nos dicionários as palavras charis, no latim, e ágape, no grego, para descrever “caridade”; o amor que pressupõe um necessitado. Não temos caridade em relação a um ursinho de pelúcia. Nem mesmo em relação a uma flor (a não ser que sejamos o Pequeno Príncipe). Eles não têm necessidades. O amor de Deus olha para um necessitado e o ama com ágape ou caridade. E dá seu Filho. Ou se entrega a si mesmo, na pessoa dele.

Entretanto, a expressão “de tal maneira que” traz também a ideia de intensidade. Ou seja, “ame com a intensidade suficiente para movê-lo”.

Já lhe aconteceu de tentar ligar o carro, de manhã, e, embora as luzes internas estejam acesas, na hora de girar o motor, ele não roda? A bateria! Ela tem um pouco de carga, mas não o suficiente para girar o motor de arranque. Os imitadores de Deus, os caridosos, têm uma “carga de amor” capaz de mover o “motor” das boas obras.

Natal é tempo de caridade. Não apenas no sentido comum de ajudar a um pobre da rua, inspirado pelo “espírito das festas”. É mais que isso; é um chamado à caridade. Um chamado à imitação da Caridade, ao ponto de fazer de nós pessoas caridosas: gente que olha, vê e socorre o necessitado. Gente disposta a viver as alegrias e dores que esse amor traz. Como as alegrias e dores que Deus, em Cristo, viveu (e ainda vive) em relação a nós.

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Acho que a aposentadoria não chega às pessoas do mesmo modo. Seja por conta da situação delas, antes de se aposentar (profissão, hobbies, família, amigos, clube, igreja etc.), seja por sua personalidade.

Muitos jamais poderão se aposentar, chegada a idade legal, por causa do valor da pensão a que terão direito. Sem falar no famigerado “fator previdenciário” e nas reduções da pensão, ao longo do tempo. A legislação brasileira é cruel com os idosos.

Outros, terão uma passagem menos drástica, por conta da profissão que exerciam. Paul Tournier (cujo livro É Preciso Saber Envelhecer tem inspirado estes textos), que era médico e psiquiatra, continuou a fazer o que gostava; apenas com uma redução de carga. Há, também, aqueles que investiram em um plano de complementação de aposentadoria, sejam servidores públicos ou da iniciativa privada. Esses poderão parar, sem grandes perdas salariais.

Alguns esportistas conseguirão se transformar em técnicos, professores ou “cartolas”, em sua área. Outros, profissionais liberais ou autônomos, não terão esse marco de tempo muito rígido. Mas restará, ainda, um grande contingente que, uma vez vencidas as prorrogações, se verão, finalmente, na situação de parar definitivamente, a atividade formal ou profissional.

Com uma personalidade “orientada por objetivos”, as vontades e os sonhos nunca tiveram muita atenção em minha vida. Eram os embates imediatos e os projetos que contavam. Isso faz da pessoa uma realizadora, se consegue conduzir bem essas lutas.

Agora que voltou ao Éden, e sendo perguntado pelo Senhor o que vai fazer dele, as dificuldades resultantes dessa configuração de personalidade aparecem.

— O que você deseja fazer, daqui em diante? — pergunta o Senhor.

— O que há para fazer? Quais são as opções? — respondo, fugindo do verbo “desejar”, sempre problemático a quem foi soldado a vida toda.

— Qualquer coisa. Você é livre para escolher o que mais desejar. Agora poderá realizar seus sonhos.

— Desejar? como assim? Sonhos?

Diante da dificuldade, pode surgir a solução de continuar a fazer o que fazia antes. Entretanto, também não é tão simples. Tem o lance da motivação. Antes, na batalha pela vida; na busca por sustento, realização, segurança e significado, sucesso, reconhecimento, sei lá, havia coisas a realizar, sacrifícios a enfrentar, investimentos de curto e longo prazo, avaliações de utilidade, pertinência e custo/benefício ligados ao que se fosse empreender. A motivação estava meio que embutida na necessidade. Mas e agora, no Éden, onde o “não fazer nada” é possível? Será desejável? Seria bom?

Conheci alguns colegas de trabalho que sonharam a vida toda com uma casinha na praia. Uma vila de pescadores, sossego e nada mais. Dois deles voltaram com menos de um ano. Com prejuízos bem grandes. Disseram que é uma ilusão; as coisas não são bem assim; no final, a realidade é bem mais difícil e menos romântica.

Parece que agora precisaremos de novas razões para fazer as coisas. Por exemplo: quando resolvi aprender uma nova língua, havia toda uma gama de utilidades ligadas a isso: valorização do currículo profissional, carreira, salário, promoções, novas oportunidades de emprego ou negócios etc. E hoje? Por que motivo eu me lançaria a aprender uma nova língua?

Talvez por conta da parte do aprimoramento pessoal? Ou pelo simples prazer de aprender? Talvez para viabilizar viagens ao exterior? Sem falar na pergunta utilitária, agora acrescida de dramaticidade: isso é o melhor que posso conceber para ocupar este último tempo de vida que me é dado? Sim, tudo o que se pensa nesse momento, tem um quê de “o que você faria se soubesse que vai morrer daqui a uma semana?”. Agora, você não pode mais errar. Ou não?

Exemplifico ainda com o simples ato de ler um bom livro. Nunca gostei muito de ler (sim, é verdade). Mas li bastante porque precisava. Precisava do resultado da leitura. Não há meio melhor de aprender e saber. E o saber acaba desembocando em salário, em relações sociais e até em identidade pessoal. Tudo muito prático, muito ligado a segurança e sobrevivência. Entretanto, agora que, em grande parte, não dependo mais desses mecanismos de segurança financeira e social, por que continuaria a ler livros técnicos ou científicos, mesmo dentro de minha antiga área profissional? Então, passei a adotar uma máxima que aprendi recentemente: “livro é como namorado: se começar a dar muito trabalho, fecha e sai para outro”.

Imagine que eu tenha sido, de fato, orientado por objetivos. Mas que, ao mesmo tempo, tenha sido motivado por aqueles objetivos que poderiam me render os melhores benefícios. Essa motivação terá sido reforçada ao longo de toda a minha vida profissional pela necessidade de apresentar resultados. A mim mesmo (pelas gratificações psicológicas  e funcionais das realizações) e aos meus “clientes”, sejam eles o chefe, a esposa, a família, ou o pastor. Entretanto, agora, no Éden, sou confrontado pela consciência de que não preciso mais fazer essas coisas. Mas então, o que farei? Será que terei que enfrentar a pergunta sobre o que desejo, sobre meus sonhos? Tudo para evitar que o mato cresça na minha parte do jardim?

O fato é que os fatores de motivação precisam mudar. Já mudaram, em parte, porque alguns antigos fatores já não movem mais o moinho, como as missões que meu chefe me passava. É preciso encontrar novas inspirações e novos desafios. Essa é uma situação de quem consegue se aposentar cedo, ainda com energias. Inspirações que me inspirem e desafios que me desafiem, bem entendido. Senão, nada feito. E o “pijama assassino” está à espreita.

Bem, sei que isso é muito pessoal. Quase incomunicável. Como dormir com um barulho desses? Para pensar.


Rubem_25_08_14_Arvore_outono

 

Estou lendo o livro É Preciso Saber Envelhecer, de Paul Tournier (Editora Ultimato). Talvez seja uma das leituras mais dialogadas que já fiz. A leitura segue lenta, por causa desse diálogo. De tempos em tempos eu peço licença ao autor para dar uma volta. Fecho o livro e vou pensar. Quando volto, tenho algumas perguntas e inquietações na cabeça, e começo a ler como quem procura respostas nas experiências dele.

É que estou vivendo a mesma estação da vida que o Paul. Talvez um pouquinho atrás, o que me dá a vantagem de encontrá-lo já em fase de sínteses existenciais. E uma delas ele reúne em seu livro, pensando, basicamente, sobre a experiência da aposentadoria, com suas alegrias, inquietações e temores.

Até onde já li, ele relata experiências de quem se perdeu, ao se aposentar.

“É terrível” — responde —, “estou aposentado há três meses! Nunca pensei que fosse tão duro.” E acrescentou uma reflexão que me tocou profundamente, porque eu estava escrevendo este livro: “Nada é pior para o homem do que perder a possibilidade de brilhar!” E conversamos um pouco sobre a condição humana.

Esse amigo rapidamente deu um jeito de voltar à ativa.

Algumas semanas depois eu o encontrei no mesmo lugar: “E então, como vão as coisas?”. Vivaz, resplandecente, respondeu-me: “Muito bem! O banco onde eu trabalhava precisa organizar um trabalhinho de classificação, então me pediram para ir algumas horas por dia. É uma grande sorte”. Cumprimentei-o, naturalmente, e alegrei-me por ele. Também experimentei admiração por esse homem, capaz de encontrar tão facilmente novo impulso para um trabalho que, há pouco, deixara para outro mais jovem; na verdade, contentava-se com uma modesta possibilidade de brilho; pouca coisa bastava para transfigurá-lo. Mas, por quanto tempo? O problema estava adiado, é verdade, mas sem verdadeira solução.

Estou aposentado há três anos. Às vésperas da decisão, ouvi muita gente falar do “pijama assassino”. Recomendam a você que não pare, porque vestir esse pijama é marcar um encontro com enfermidades, solidão, senilidade e, finalmente, a morte. E lá vem a lista de ex-colegas que se aposentaram “totalmente”: passaram a viver em casa, assistindo “sessão da tarde” e lendo livros. Muitos já morreram.

Mas Paul Tournier conta também de gente que não se deu tão mal:

“Aposentadoria? Nunca estive tão ocupado como estou desde que me aposentei!” — disse-me. E acrescentou, ele também, uma reflexão: “O fundamental é continuar se levantando pela manhã na mesma hora em que se levantava para ir ao escritório”.

Entretanto, o comentário que ele faz sobre esse caso, bate com o que eu pensava, enquanto lia:

Perfeito, mas também neste caso há um adiamento; certamente mais válido do que o anterior, mas um adiamento: esse homem tão ativo e feliz está aposentado apenas do ponto de vista administrativo, porque na verdade continua produtivo; deixou o seu cargo de diretor, mas assumiu outras responsabilidades. Quem sabe algum dia a aposentadoria chegue, de fato, para ele.

E eu pensei: é o que meus amigos e colegas me sugeriam há três anos: aposentar-se sem se aposentar. E acho que assim não vale. Ou vale? Aposentar-se para continuar fazendo a mesma coisa é sinal de que gostava muito do que fazia ou de que não tem a menor ideia do que gostaria de fazer? Fica para mim meio que como um escravo recém-alforriado. O que ele vai fazer com sua liberdade? Pedir ao antigo dono para aceitá-lo como trabalhador?

Como servidor público, eu poderia ter postergado a assinatura da minha “Lei Áurea” até a famosa “expulsória”; a aposentadoria obrigatória, que acontece aos setenta anos. Mas decidi encará-la logo. Meu receio era de, por medo, permanecer no trabalho, para sair “na pazinha de lixo”, quando alguém varresse a minha sala. Estou querendo dizer que, naquele momento, eu terei menos condições de aproveitar o tempo de aposentadoria. Tão esperada por alguns e tão temida por tantos. Sairia do serviço a contragosto e sem nenhum “projeto de vida” e, pior, sem as energias que tinha aos sessenta anos. Ou seja, teria um encontro marcado com o temível “pijama assassino”. Só que mais tarde.

A essas alturas das minhas conversas imaginárias com o Paul Tournier, estou convencido de que tomei a decisão correta. É melhor agora, enquanto tenho energia. No entanto, o autor me sugere o que já não posso fazer: planejar esse momento, a partir dos quarenta e cinco, cinquenta. Já era. Mas posso fazê-lo agora. Posso correr atrás do prejuízo.

Considero, também, que minha condição de crente de igreja me dá muito das condições que o autor sugere para essa nova fase da vida. Para alguém que vive em comunidade, com toda a sua dinâmica, exigências, carências e necessidades, sempre haverá uma missão. Na verdade, a seara é imensa, maior do que tudo o que pudermos fazer. Se eu quiser me envolver com a “missão Jerusalém”, pensando somente em minha família e na igreja local, não me sobrará tempo para pensar no pijama novo. E sem quebra de continuidade. Talvez, sim, eu possa pensar em ajustes.

Ajustes? Neste ponto, coloquei o marcador no livro e o fechei. Penso nisso, com calma, e volto mais tarde.

Enquanto não volto à leitura, uma ideia me martela a cabeça: o Éden. Parece que meus amigos que sempre sonharam com a aposentadoria, agora morrem de medo dela. Sempre sonharam com aquele dia em que voltariam à condição de crianças. Crianças de férias escolares. E eu, concordando, penso que Deus me trouxe de volta ao Éden. E me pergunta: como você vai viver, agora, neste jardim que lhe preparei? Finalmente, você chegou aqui. Agora você já não precisa mais “lutar pela vida”, está livre das exigências do “suor do seu rosto”. Agora você tem a chance de viver no meu jardim, do jeito que quiser. Como vai fazer isso? Vai deixar o mato crescer? Vai viver num eterno parque de diversões? Vai se sentar à beira de um riacho e deixar o tempo passar?

Bem, deixe-me voltar à leitura.

paz

Estamos tristes.

Mas somos felizes.

Porque nossa felicidade também atende por “paz”.

Aquela que uma vitória não traz.

Mas que também uma derrota não toma.

Um bom (e belo) dia a todos.

🙂

Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas — Dt 6: 6-9.

Quando teu filho, no futuro, te perguntar, dizendo: Que significam os testemunhos, e estatutos, e juízos que o Senhor, nosso Deus, vos ordenou? Então, dirás a teu filho: Éramos servos de Faraó, no Egito; porém o Senhor de lá nos tirou com poderosa mão — Dt 6: 20, 21.

 

Infant Grabbing Man's FingerPassadas as emoções da Páscoa, resta-nos viver “em Canaã”. Marcados por esses eventos formadores de identidade — tanto os do Egito quanto os de Jerusalém —, já não podemos viver como servos, pois agora Deus nos quer povo dele. Livres para adorá-lo.

É assim que nossa identidade cristã se funda e se edifica em um fato e em uma história. O fato é a libertação da servidão, seja do Faraó, seja do poder da morte; e a história é o legado — e o testemunho vivo — dessa experiência de salvação, transmitido de geração em geração.

Os textos acima nos mostram como o povo judeu passava, por força de mandamento, aos seus filhos essa experiência, ao ponto de torná-los parte da aliança entre Deus e Abraão. A incorporação desses fatos à sua própria biografia fazia deles herdeiros da promessa, membros da aliança.

Esse mecanismo de tradição permanece. Ainda hoje vivemos a experiência pessoal e íntima da “saída do Egito” e da longa “caminhada a Canaã”. Uma experiência comunitária, que se exercita e se concretiza — como concreto — no caráter de um filho, de uma filha.

Juntamente com a experiência de libertação, precisamos manter o legado do caminho; a herança do que aprendemos no deserto: experiências de fé recebidas dos mais antigos para ser transmitidas e vividas junto com os nossos filhos.

Encerradas as emoções simbólicas da Páscoa, resta-nos passar aos mais novos um fato e uma história. Não apenas narrativas, mas vivências.

As novas gerações ficarão intrigadas com os caminhos que percorreremos; com as escolhas que faremos; com os valores que adotaremos e aos quais nos apegaremos; com os limites éticos que livremente nos imporemos. Ficarão intrigadas com nossa obstinação em nos fazermos povo, em andarmos juntos, em sermos família e igreja. Ainda que sozinhos na repartição, na sala de aula, empurrando no carrinho do supermercado, permaneceremos igreja.

Então, nossos filhos nos perguntarão: o que significa esse jeito de viver? E lhes diremos: somos um povo; povo de Deus. Já fomos escravos; mas o Senhor nos libertou com poderosa mão.