Opi_03_07_15_Triste_olhar

Naquele domingo, a classe de Escola Dominical foi tumultuada. Um rapaz dizia que, se tivesse que acreditar que existe um Deus, este seria prepotente e injusto. Para começar, dizia o rapaz, ele não me consultou se eu queria nascer ou não. E pior, ao me obrigar a nascer, ainda me coloca num paizinho subdesenvolvido, cheio de gente mais ou menos e, para piorar, escolhe para mim uma família pobre e cheia de problemas. Só pode ser brincadeira, concluía ele.

Era para ser uma aula sobre “graça e graças” em Romanos: a iniciativa divina e a reação humana esperada. Mas a aula não fluiu porque as atenções foram todas sequestradas pelo rapaz. Era quase um clamor. “Que graça?”, dizia ele. Deus está em dívida comigo; deve-me muitas explicações! E logo se recuperava do deslize: isto é, se ele existisse. E arrematava: prefiro acreditar que sou um lixo cósmico, e que o destino não me favoreceu.

Eu fiquei triste com aquele discurso, sentindo-me meio culpado da minha felicidade, da minha gratidão, da minha “sorte” de não ser um joão-ninguém. Senti culpa de me alegrar com uma bela manhã de sol, com o canto dos pássaros, e até da decisão de ter meus próprios filhos. Depois daquela conversa, o pensamento era inevitável: e se, de repente, um filho meu me dissesse que não pediu para nascer, e que eu tinha a obrigação de tornar sua vida o mais fácil possível, para compensar a ousadia da decisão egoísta? Continue lendo →

Talvez, por sua dramaticidade, a Páscoa seja o momento mais visível da ação reconciliadora de Deus. Sim, naqueles dias de paixão e morte é possível perceber que “Deus estava, em Cristo, reconciliando consigo mesmo o mundo” (2Co 5.19).

Entretanto, quando penso na Páscoa, não consigo evitar a ideia de que naquelas conversas no monte da transfiguração, no Cenáculo ou nos acontecimentos do Getsêmani, Jesus estava sendo aperfeiçoado.

“Porque convinha que aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles” (Hb 2.10).

Ousando um paralelismo de linguagem, eu diria que Deus estava, em Cristo, aprendendo sobre o sofrimento humano (Hb 5.7-10). “Embora sendo Filho, “aprendeu” a obediência pelas coisas que sofreu” (v. 8).

Imagino o desconforto que acabo de causar. Deus aprendendo?! — dirá você.

Esse mesmo incômodo devem ter sentido os primeiros cristãos, ao lerem o trecho da Carta aos Hebreus citado acima. Jesus sendo aperfeiçoado?! — devem ter pensado. — Jesus aprendendo sobre obediência? Isso é possível? E essa ressalva: “Embora sendo Filho”, o que quer dizer?

Meu pensamento é que Deus, em Cristo, estava amando o mundo de uma maneira plena e difícil de compreender (Jo 3.16). Não “apenas” um amor imenso; nem mesmo “apenas” um amor que vê o necessitado, se compadece dele e toma providências sacrificiais (esse é o significado da palavra “caridade”). Mais que isso, meu coração discerne, na Páscoa, um Deus que deseja ser amigo, que quer estar tão próximo que se oferece ao aperfeiçoamento e à aprendizagem que provêm da convivência conosco, em nosso dia a dia. Oferece-se a uma aliança do tipo “tudo o que é meu é teu”.

Ele já não se contenta em ser “apenas” o Altíssimo; quer mais, quer ser pai amoroso, “abba”; quer ser o primogênito entre muitos irmãos; quer ser o servo da casa e também fiel sumo sacerdote, quando tiver aprendido, por meio de sofrimentos, a compadecer-se das nossas dores e mazelas. Agora, “pelas coisas que sofreu” entre nós, por nós e à nossa semelhança, se tornaria capaz de uma intercessão plena, misericordiosa e perfeita.

Deus estava, em Cristo — penso –, aprendendo sobre nossas dores, do mesmo modo que um pediatra doutor em obstetrícia aspiraria conhecer a maternidade: engravidando. Impossível, se for um homem; há um limite para esse conhecimento, pois não lhe é dada a parte mais rica desse conhecimento: a experiência. Entretanto, se ele fosse Deus, escolheria, como trabalho de campo para sua tese de doutorado, fazer-se mulher e ter um filho. Então ele saberia.

A Páscoa nos diz que o projeto de habitar entre nós não foi cancelado quando as dificuldades surgiram. A exemplo daquela véspera de angústia, os cálices preparados pelo Pai não deveriam ser evitados.

O exemplo ficou. Ao contemplarmos a sua glória, quisemos fazer-nos suas testemunhas. À sua semelhança, permitiríamos que o Pai transformasse nossas dores em aperfeiçoamento. Aprenderíamos a lavar pés e a andar a segunda milha com alegria. E os eventos tristes de nossas vidas nunca mais seriam desnecessários e sem sentido. Doravante, aprenderíamos com eles sobre a misericórdia, em nossa personalíssima formação sacerdotal.

O que você faria se recebesse uma herança? Recém-aposentado, tenho pensado sobre como viver melhor os anos que me restam. E o que quer que eu decida, gostaria de começar em janeiro de 2015.O que tenho em comum com o herdeiro? Acho que, entre muitas coisas, ambos não precisamos mais ter um patrão nem obrigações de trabalho. Poderíamos acrescentar que, se quisermos, podemos reduzir os compromissos, as metas de produtividade, as avaliações de rendimento e coisas assim. Ou seja, podemos, agora, seja como herdeiros, seja como beneficiários do INSS, viver a vida que quisermos.Um primeiro pensamento: quanto mais cedo isso acontecer, melhor. No meu caso, a saúde reduzirá as opções. Alpinismo e MMA já não posso incluir entre meus projetos. Não será possível nem me transformar num maratonista da terceira idade. Coluna. Mas se eu tivesse herdado uma aposentadoria aos 30 anos…

Mesmo assim, “viver a vida que eu quiser” não é, ainda, a resposta. Surge a pergunta: que vida? Como seria o seu 2015 se você acordasse com uma razoável renda mensal no dia 1º de janeiro? Largaria o seu emprego? Viajaria pelo mundo? Compraria uma casa na praia, com quartos para toda a família? Ou doaria tudo para missões, com medo do que esse dinheiro poderia fazer com a sua cabeça? Você seria, finalmente, feliz? Ou, pelo menos, mais feliz?

Se você disser que nada mudaria; que gosta do seu trabalho, porque ele lhe traz significado de vida e realização; que poderá continuar nele até o fim da vida, sem precisar se aposentar; que o dinheiro só melhoraria o conforto da vida; eu diria que você é, de fato, feliz. Conheço artistas, profissionais liberais, pastores e empresários com esse perfil. Com a idade, vão reduzindo a carga e a agenda, mas terminam como Oscar Niemeyer: tendo um brilho de animação no olhar, aos 104 anos.

Conheço gente que gosta de viajar. E viaja muito, sem se cansar. Bem, para esses, o projeto é sustentável. Outros, depois de alguns meses, se cansaram. Era uma ilusão. Conheço gente que comprou uma casinha na praia. Longe do mundo e do mal. E, passado um ano, voltou, contabilizando prejuízos e desilusão.

Enfim, não dá para estabelecer regras. Entretanto, deixar para pensar sobre isso apenas quando a idade chegar pode ser pior; eis a razão pela qual proponho a imagem da herança. Serve para qualquer um – agora.

Transformo minhas pesquisas, até aqui, em recomendações. Ainda genéricas, mas que têm guiado meus projetos para este ano.

Se ainda estiver trabalhando, pense em uma carreira paralela; agora sem patrão e sem salário.

Pense em algo que você goste de fazer. Melhor, que você faria por amor. Ou por amar. Ou seja, não diretamente para ganhar dinheiro, prestígio, ou coisa assim. Talvez para ganhar afeto ou novas amizades.

Pense em algo que beneficie, que abençoe pessoas. Individualmente ou em grupo. Algo que você doe a elas. Sem esperar retorno. Sem que elas possam lhe pagar.
Pense em algo que promova a união entre todos, por laços afetivos, incluindo você. E que essa união seja gostosa e esperançosa.

Finalmente, que tudo isso seja gostoso e perfumado. Que essa carreira ou atividade tenha gosto de pão e de vinho; e que seu cheiro seja do bom perfume de Cristo.

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Texto original

Quando a jornada terminar,
E a casa recolher os seus;
Uma trombeta ressoar,
A chamar os amados de Deus;
E quando o mar os entregar,
Então, nesse despertar, pra casa voltarão.

Quando os mistérios desvendar,
E a solidão já não houver,
Quando o enfermo restaurar
E também a alegria trouxer;
Quando sua obra terminar,
Então, homem ou mulher, ao Pai exaltarão.

Nesse dia de glória, de uma nova canção;
Consumando a história, unidos, multidão,
Ao Cordeiro a vitória! todos proclamarão.
Alvorada da glória, da nova criação.

E quando o tempo ele enrolar
Como um tapete que puiu;
Quando a cortina retirar,
A mostrar quem tão cedo partiu;
E quando a porta se fechar,
Então, pelos séculos, seus filhos reinarão.

Em multidão te cantaremos
Teu canto de amor.

 

Tara Parker Pope

The New York Times

26/01/2015

 

A pesquisa científica sobre os benefícios da escrita expressiva é surpreendentemente vasta. Estudos mostraram que escrever sobre si mesmo e sobre experiências pessoais pode melhorar distúrbios de humor, ajudar a reduzir sintomas entre pacientes de câncer, melhorar a saúde de uma pessoa depois de um ataque cardíaco, reduzir as visitas ao médico e até melhorar a memória.

Agora os pesquisadores estão estudando se o poder de escrever –e reescrever– sobre a história pessoal pode levar a mudanças de comportamento e aumentar a felicidade.

O conceito é baseado na ideia de que todos nós temos uma narrativa pessoal que molda nossa visão do mundo e de nós mesmos. Mas, às vezes, nossa voz interior não interpreta muito bem as coisas. Alguns pesquisadores acreditam que, ao escrever e editar nossas próprias histórias, podemos mudar a percepção que temos de nós mesmos e identificar obstáculos que se colocam no caminho de uma saúde melhor.

Pode soar como uma bobagem de auto-ajuda, mas a pesquisa sugere que os efeitos são reais.

Em um dos estudos mais recentes sobre editar a história pessoal, pesquisadores reuniram um grupo de 40 calouros da Universidade Duke que estavam com dificuldades nos estudos. Eles não só estavam preocupados com as notas, mas questionavam se eram intelectualmente iguais aos outros alunos da escola.

Os alunos foram divididos em grupos de intervenção e controle. Alunos do grupo de intervenção receberam informações mostrando que é comum para os estudantes terem dificuldades em seu primeiro ano de estudos. Eles assistiram a vídeos de estudantes universitários calouros e veteranos que falavam sobre como suas notas melhoraram à medida que eles se adaptaram à faculdade.

O objetivo era estimular os alunos a editarem suas próprias narrativas sobre a faculdade. Em vez de pensar que não levavam jeito para aquilo, eles foram encorajados a pensar que só precisavam de mais tempo para se adaptar.

Os resultados dessa intervenção, publicados no Journal of Personality and Social Psychology, foram surpreendentes. A curto prazo, os alunos que passaram pela intervenção para mudar a narrativa conseguiram notas melhores em uma prova escolhida como amostra. Mas os resultados a longo prazo foram mais impressionantes.

Os alunos que foram estimulados a mudar sua história pessoal melhoraram suas médias e demonstraram menos probabilidade de abandonar os estudos no ano seguinte do que os alunos que não receberam nenhuma informação. No grupo de controle, que não recebeu conselho sobre notas, 20% dos alunos abandonaram a faculdade dentro de um ano. Mas no grupo da intervenção, só um aluno –ou apenas 5%– abandonou a faculdade.

Em outro estudo, pesquisadores de Stanford se concentraram em estudantes negros que estavam com dificuldades para se adaptar à faculdade. Pediram para que alguns dos alunos criassem um ensaio ou um vídeo sobre a vida na faculdade para ser mostrado para futuros alunos. O estudo revelou que os estudantes que fizeram o ensaio ou o vídeo receberam melhores notas nos meses seguintes do que os do grupo de controle.

Outro estudo sobre escrita pediu para casais escreverem sobre um conflito como se fossem um observador neutro. Entre 120 casais, aqueles que exploraram seus problemas através da escrita mostraram uma melhora na felicidade conjugal maior do que aqueles que não escreveram sobre seus problemas.

“Essas intervenções de escrita podem, de fato, empurrar as pessoas de uma forma de pensar derrotista para um ciclo mais otimista que reforça a si mesmo”, disse Timothy D. Wilson, professor de psicologia da Universidade da Virgínia e principal autor do estudo da Duke.

Wilson, cujo livro “Redirect: Changing the Stories We Live By” [literalmente: “Redirecionando: Mudando as histórias que vivemos”] foi lançado este mês, acredita que, embora escrever não resolva todos os problemas, isso pode definitivamente ajudar as pessoas a lidar com eles.

“Escrever obriga as pessoas a reconstruir o que quer que as esteja preocupando e encontrar um novo significado naquilo”, disse ele.

A maior parte do trabalho sobre escrita expressiva foi liderada por James Pennebaker, professor de psicologia da Universidade do Texas. Em um de seus experimentos, foi pedido que estudantes universitários escrevessem 15 minutos por dia sobre uma questão pessoal importante ou tópicos superficiais. Ao final, os estudantes que escreveram sobre questões pessoais tiveram menos doenças e visitas ao centro de saúde da universidade.

“A ideia aqui é fazer com que as pessoas entrem em termos com quem elas são, com aonde querem ir”, disse Pennebaker. “Eu penso na escrita expressiva como uma correção de curso da vida.”

No Instituto de Desempenho Humano da Johnson & Johnson, os instrutores pedem aos clientes para identificar suas metas e depois escrever por que não as atingiram ainda.

Depois que o cliente escreve suas velhas histórias, pedem para que ele reflita sobre elas e edite as narrativas para criar uma nova interpretação, mais honesta. Embora o instituto não tenha dados de longo prazo, a intervenção teve relatos de resultados importantes. Em um exemplo, uma mulher chamada Siri escreveu inicialmente em sua “velha história” que ela queria melhorar sua forma física, mas como arrimo de família, ela tinha que trabalhar muitas horas e já se sentia culpada pelo tempo que passava longe dos filhos.

Com o incentivo, ela eventualmente escreveu uma história, baseada em parte dos fatos, mas com uma abordagem mais honesta sobre o motivo de não se exercitar.

“A verdade é que eu não gosto de fazer exercícios, eu não valorizo minha saúde o bastante. Eu uso o trabalho e meus filhos como desculpas por não me exercitar”, ela escreveu.

Intrigada com as provas que sustentam a escrita expressiva, decidi eu mesma tentar, com a ajuda de Jack Groppel, cofundador do Instituto de Desenvolvimento Humano.

Como Siri, eu tenho inúmeras explicações para não encontrar tempo para me exercitar. Mas, uma vez que comecei a escrever o que penso, comecei a descobrir que, ao mudar as prioridades, posso conseguir tempo para me exercitar.

“Quando você chega àquele momento de confrontar a verdade naquilo que importa para você, isso cria uma grande oportunidade de mudança”, diz Groppel.

Tradutor: Eloise De Vylder

Articulacoes

Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte,efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor. (Ef 4:15,16)

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izíamos na primeira parte desta conversa (Verdade e Amor I) que a verdade e o amor aparecem no argumento do apóstolo Paulo como a base para o crescimento e edificação do corpo de Cristo. Dizia ainda entender que o apóstolo está recomendando, como condição para “a justa cooperação de cada parte”, duas formas de entender a combinação entre verdade e amor, expressa na fórmula “verdade em amor”: uma verdade amorosa, no sentido de uma verdade que edifica e ajuda e um amor verdadeiro, entendido como aquele não mente para o ser amado.

Parece que o autor está pensando em juntas e articulações entre os membros do corpo. Parece também que a combinação dos dois termos se destina a amenizar a dureza da verdade, que pode se tornar cruel e justiceira, e a leniência do amor que não vê defeitos, não corrige nem disciplina.

Tanta coisa se poderia dizer sobre o tema aberto. Cortes se fazem necessários. Foi assim que terminei o texto anterior perguntando: quanto amor é preciso para resistir (ou suportar) à verdade que nossa comunhão requer para que cheguemos à intimidade cristã? Perguntando de outra maneira: nosso amor resistirá à verdade que deve existir entre nós?

Do pouco que tenho aprendido sobre essa questão, percebo que o ideal dos apóstolos é que não mintamos uns aos outros. Um dos sinais da conversão ao evangelho é o abandono da mentira e a disposição de pagar o preço do falar a verdade uns aos outros.

Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos (Cl 3:9).

Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros (Ef 4:25).

Este último verso está no contexto da argumentação sobre um corpo que trabalha seu próprio crescimento e “se edifica a si mesmo em amor”. Ou seja, cresce de forma saudável, conforme a orientação da cabeça.

Percebe-se que a questão da mentira não se restringe ao aspecto do “pecado”, visto pelo ângulo legal: “mentir é pecado, e crente evita o pecado”. A abordagem de Paulo certamente não menospreza esse ângulo, mas apresenta um sentido mais amplo para a busca e vivência da verdade: a construção de relacionamentos saudáveis. Como que a dizer que não se constroem relacionamentos do estilo “corpo de Cristo” com concessões à mentira.

Acrescente-se ainda que Paulo não se refere apenas ao ato de dizer a verdade ou não; ele está falando de trevas e de luz. Mentira, para ele, não é apenas a intenção de enganar; é também a ausência da verdade. Daí ser compreensível que “deixar a mentira” seria como deixar um ambiente de penumbra, de trevas. Nesse ambiente, o mentiroso, aquele de quem João diz: “e a verdade não está nele”, pode também estar sendo enganado. Poderíamos chamar a esse engano de mentira sincera; distorções da realidade nas quais acreditamos, ou sobre as quais não refletimos adequadamente. Ausência da luz da verdade.

Num ambiente assim, vivemos como se estivéssemos numa sala escura, dando encontrões uns nos outros, machucando uns aos outros, intencionalmente ou não. É o caso dos preconceitos de cor, raça, religião, classe social, sexo etc., pelos quais menosprezamos ou desprezamos pessoas, grupos ou situações. Pelo lado contrário, é o caso de mistificações, endeusamentos, fanatismos e coisas assim, pelas quais pensamos de pessoas ou grupos mais do que realmente são.

Enquadram-se como mentiras sinceras sobre nós mesmos a vaidade, o orgulho, a soberba, a presunção, a vaidade e tantos outros vícios que distorcem nossa visão de nós mesmos, colocando-nos acima dos outros. Ao contrário, também, a baixa autoestima, a síndrome de perseguição, a desconfiança sistemática, a suspeição, o medo infundado (ou de origem ainda não esclarecida), a timidez paralisante etc. Ao misturarmos essas mentiras todas em uma experiência pessoal ou coletiva, criamos um ambiente onde a luz se enfraquece, e a visão clara se torna difícil.

Não é o caso de investir mais nesse conceito de mentira, que pode ser sincera. Precisamos de mais cortes.

Proponho, no momento, pensar em um relacionamento em que as juntas sejam marcadas por essas “mentiras tenebrosas”. Talvez não consigamos excluir ninguém, se formos sinceros. Será que nossas relações têm chance de crescer e se edificar, a ponto de se tornarem maduras, duradouras?

Termino lançando uma ideia que não desenvolverei no momento. Mas que me parece ser a resposta para essas considerações para mim aflitivas. No texto anterior eu adiantava que a resposta estava no evangelho. Agora digo que a resposta está na Aliança. Em uma aliança de amor. Explico.

Só é possível a verdade verdadeira, como componente saudável das articulações do corpo, se ela acontecer no ambiente de uma aliança de amor. Uma aliança de verdade em amor celebrada explicitamente. Não virtual, nem tácita. É preciso que seja dita, verbalizada, celebrada, se possível. E se for o caso, com a Santa Ceia. Sugiro que essa aliança seja construída verbalmente, entre casais de noivos, entre marido e mulher, no grupo de oração ou na igreja, em nome de Jesus. E que o Espírito de Deus seja invocado, como quem pede milagre; poder para vencer a mentira.

A verdade, então, será dita “em amor”, e assim será recebida. Ela será buscada nas conversas, na convivência, sob o pressuposto de que somos amados; de que há segurança, de que a confissão de pecados é possível; de que a retirada das máscaras é viável; de que a luz não vem para me julgar e condenar, que ela não vem para me humilhar.

O amor, por seu turno, não será omisso, negligente, insosso, “bondoso” (como o do Papai Noel). Não, ele será verdadeiro; não passará a mão na cabeça do engano e do erro; terá espaço para a exortação, para a correção, para a admoestação. Para a verdade. Mas acontecerá dentro dos pressupostos da Aliança. O amor se entregará para salvar, para soerguer, para redimir, para reconciliar. Mas não deixará que o outro se perca, ou que a relação se desgaste; que a articulação adoeça, por medo da verdade. O amor não se calará por medo de perder o outro. Não, ele abrirá mão da sua glória e encarnará para salvar — e talvez para salvar-se.

Como pode ser isto? — perguntará você. É possível, nos dias de hoje, em que guardamos distância segura de todos, para não ferir e não sermos feridos, celebrar uma aliança dessas? É possível, em tempos de indiferença, celebrar e viver essa proximidade perigosa? Será que sobreviverão minhas atuais amizades se realmente souberem quem sou ou se eu começar a lhes propor a verdade, ainda que em amor? Será que, iluminadas as nossas relações, nossa igreja sobreviverá?

Perguntas difíceis. Minha resposta será uma resposta de fé, de quem decide crer que sim. De quem crê na comunhão dos santos. De quem crê na Aliança, na oração, no corpo de Cristo.

De todo modo, se não for assim, se não buscarmos diligentemente esse ideal, o que nos restará? Trago, para pensarmos, o texto de 1 João 1:5-9:

Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.