Ult_355_ponto_finalHá um momento de esquina da vida, ligado à maturidade. Um momento em que questões de poder devem ser discernidas e equacionadas pelos discípulos de Jesus.

Proponho olhar para esse momento como uma estação da vida; e chamá-lo de “estação cordeiro”. Hoje em dia, ele começa a partir dos 60 anos, sob a marca da plenitude pessoal. É melhor explicar de onde me vêm esses pensamentos.

Ao ler, em Mateus 26.51-54, o relato da prisão de Jesus, vejo as últimas horas de sua vida em carne; a estação final de sua missão. Nesse instante de profunda crise, surge uma espada, como proposta humana de solução; ou então mais de doze legiões de anjos, como alternativa divina. Entretanto, nenhuma delas será adotada, pois é necessário que a vontade de Deus se cumpra. E o Leão de Judá se fará Cordeiro.

O poder dará lugar à mansidão: a espada será, para sempre, embainhada, e a vontade do Pai, recebida sem atalhos. Só a sabedoria que esta estação traz é capaz de discernir vitória representada por essa escolha. Paradoxalmente, a expressão “eu venci o mundo” não é perceptível em sua realidade cósmica. Mas está ali, em toda a sua glória: “embainha a tua espada”.

Esse momento da vida costuma ser a estação do poder. É quando nos dizem que vencemos; que estamos no auge do intelecto, do acúmulo financeiro; do poder de influenciar pessoas; temos amigos poderosos (e gente que sabe manusear espadas). Todavia, diante disso tudo, preferimos a mansidão. Virtude a se buscar no leão e não na ovelha, pois é de se admirar que aquele abra mão de suas garras, de sua ferocidade e da majestade de sua juba para fazer-se ovelha. Com efeito, não há virtude em ter nascido ovelha; mas é de se admirar que alguém, tendo chegado à condição de leão, escolha viver a estação cordeiro.

É quando nosso Senhor deseja mais o cumprimento das Escrituras do que resolver seu problema imediato; ele está mais interessado na vontade de seu Pai; e sabe que, para isso, precisa “apresentar-se como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. Eventualmente, há de ser considerado como “ovelha de matadouro”, para que a vontade de Deus se cumpra em sua vida. E será tido, por olhos capazes de ver, como “mais que vencedor”.

A “estação cordeiro” é aquela em que percebemos que a lógica da espada (rugidos, garras, juba majestosa etc.) estabelece um modo de viver marcado pelo corte e pela morte. E o sentimento que a caracteriza é que não desejamos mais solucionar conflitos desse modo; queremos fazer-nos mansos; ninguém se afastará de nós por medo.

Sintetizo e encerro esses pensamentos com a “Fábula do Lobo, do Leão e do Cordeiro”.

Certo dia, numa clareira da floresta, à espreita de um cordeiro que bebia no riacho, encontraram-se o lobo e o leão.

O lobo olhou para o leão e viu que era um felino já maduro e sábio (aparentando 60 anos): seu rugido era poderoso; suas garras, imensas, e sua juba, majestosa. Sem dúvida, ali estava o rei dos animais.

E o lobo, de aparência jovem, invejou o leão. Saudando-o com um beijo na face, perguntou:

— Como faço para conseguir esse rugido? — porque os lobos só sabem uivar.

— E essa majestosa juba? — porque os lobos não têm jubas.

O leão, então, olhou para o lobo e disse:

— Você está invejando o animal errado. Está vendo aquele cordeiro, na beira do rio? Daqui a alguns minutos ele estará morto. Mas, ainda assim, meu sonho é ser como ele.

Porque sabemos que, aos olhos do Criador, seremos tão mais leões quanto mais cordeiros nos fizermos.

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Ponto Final 355

Ponto_final_354_OK“Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.” (Ef 4.15)

Como nossas relações poderiam crescer e se edificar a ponto de se tornarem profundas, maduras, afetuosas, misericordiosas, verdadeiras, terapêuticas e duradouras, como se espera que aconteça numa família ou na Igreja? Talvez a resposta esteja em uma aliança de amor, verbalizada e celebrada entre mim e o Pai, e com seus filhos, meus irmãos. Eventualmente essa celebração seria um conteúdo a ser lembrado na Santa Ceia.

verdade, nesse contexto, seria buscada “em amor”. Ela seria alcançada na convivência, sempre sob o pressuposto de que amamos e somos amados; de que estamos seguros, pois somos amigos e irmãos; de que a retirada de máscaras e véus é possível e necessária, e de que a luz dessa verdade não virá para julgar e condenar, mas para reconciliar e salvar.

amor, por seu turno, não seria omisso, tímido, medroso ou negligente. Não, ele seria sábio e paciente, mas também forte, destemido e verdadeiro. Não “passaria a mão na cabeça” do engano e do erro. Haveria espaço para a exortação, a correção e a admoestação. Para a verdade. Mas aconteceria, também, dentro do mesmo pacto de amor. Ele não deixaria que a “articulação” adoecesse por timidez, por medo da verdade, por receio de perder o irmão. Não, ele abriria mão do conforto e encarnaria para salvar — e também para salvar-se. Sim, salvar-se.

Como pode ser isto? — perguntará você. É possível, nos dias de hoje — em que guardamos distância segura até do cônjuge, para não ferirmos e não sermos feridos –, celebrar uma aliança desse tipo? É possível, em tempos de indiferença, construir e viver uma proximidade tão perigosa? Será que minhas atuais amizades sobreviveriam se soubessem quem realmente sou, ou se eu começasse a lhes propor a verdade, ainda que afetuosamente? Será que, iluminadas as nossas relações, nossa igreja sobreviveria?

Perguntas difíceis. Minha resposta é a de quem crê, juntamente com o Credo dos Apóstolos, na “comunhão dos santos”. De quem crê na nova aliança, no poder da oração, no corpo de Cristo. Porque se não for assim e se, como igreja, abrirmos mão desse ideal, o que nos restará? Trago para reflexão o texto de 1 João 1.5-7: “Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado”.

Entendo que a harmonização do texto de Efésios 4.15-16 com o de 1 João 1.5-7 nos levará a compreender que o cuidado com as juntas, às quais Paulo se refere, passa por um tipo de relacionamento que só é possível em um ambiente muito iluminado. Para andarmos na luz da verdade, precisamos manter comunhão com Deus e com os irmãos.

Eis o desafio: celebrar uma aliança de amor, em que a timidez e o medo são lançados fora, e a luz da verdade é trazida, amorosamente, para as juntas e articulações do corpo de Cristo; desafio que só poderá ser enfrentado no poder de Deus, derramado em nossos corações.

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Versão Original.

BaumanZygmunt Bauman, sociólogo polonês, conta que um jovem amigo lhe disse que havia feito 500 amigos, no facebook, em apenas um dia. E ele pensou: “eu tenho 86 anos e não tenho 500 amigos; logo a palavra não deve querer dizer a mesma coisa para nós dois”.

Para Bauman, são dois tipos diferentes de amizade. A “amizade de facebook” provém de uma rede. Já a tradicional, “off-line”, provém dos laços humanos. Ele explica, então, que a comunidade nos precede. Pense numa família: ela já está lá, quando você chega. Ao contrário, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes: conectar e desconectar.

O grande atrativo da “amizade de facebook” é a facilidade de se desconectar. Nas conexões off-line, não virtuais, romper uma amizade é sempre uma experiência traumática. “Você tem que explicar, encontrar desculpas, eventualmente, mentir”, diz Bauman. Já na internet você aperta o delete e pronto: um amigo a menos. Mas isso é temporário, porque amanhã você conseguirá outros 500. “E isso mina os laços humanos”, conclui.

Laços humanos são bênção e maldição

“Laços humanos são bênção e maldição”, retoma ele. Bênção porque é prazeroso e satisfatório ter parceiros em quem confiar e por quem poder fazer algo. Esse é um tipo de experiência menos disponível para a “amizade de facebook”. Mas é maldição porque quando você estabelece um laço desse tipo, você tende a empenhar a sua vida, seu passado e seu futuro. Você leva para a amizade uma bagagem imensa, daquilo que você tem e é.

Pensamento meu: e você não retira essa “bagagem” da amizade sem feridas, sem deixar coisas para trás; coisas que “eram vocês dois”.

Bauman termina com o seguinte comentário: “há dois fatores indispensáveis a uma vida satisfatória e relativamente feliz. Um é segurança e o outro é liberdade. Você não consegue ter uma vida digna na ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão; liberdade sem segurança é caos. O problema é que ninguém ainda encontrou a fórmula de ouro, a mistura perfeita de segurança e liberdade. Cada vez que você quer mais segurança, você entrega um pouco da sua liberdade; cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte da sua segurança. Então, você sempre ganha e perde algo”.

Terminada a entrevista, eu fiquei pensando que Deus poderia ter montado uma rede social, mas preferiu estabelecer laços humanos. Sacrificou, em Cristo, sua liberdade até o ponto de ser lançado numa cruz. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes a segurança de serem feitos família de Deus.

Amor de PaiBranco, negro, gordo, magro, católico, protestante, rico, pobre. Não importa quantos fatores sociais, econômicos, culturais ou religiosos difiram entre as pessoas, nós todos temos algo em comum: viemos ao mundo graças a um pai e uma mãe, e o amor deles por nós faz toda a diferença na nossa vida.

Segundo um novo estudo, ser amado ou rejeitado pelos pais afeta a personalidade e o desenvolvimento de personalidade nas crianças até a fase adulta. Na prática, isso significa que as nossas relações na infância, especialmente com os pais e outras figuras de responsáveis, moldam as características da nossa personalidade.

“Em meio século de pesquisa internacional, nenhum outro tipo de experiência demonstrou um efeito tão forte e consistente sobre a personalidade e o desenvolvimento da personalidade como a experiência da rejeição, especialmente pelos pais na infância”, disse o coautor do estudo, Ronald Rohner, da Universidade de Connecticut (EUA). “Crianças e adultos em todos os lugares tendem a responder exatamente da mesma maneira quando se sentem rejeitados por seus cuidadores e outras figuras de apego”.

E como elas se sentem? Exatamente como se tivessem sido socadas no estômago, só que a todo momento. Isso porque pesquisas nos campos da psicologia e neurociência revelam que as mesmas partes do cérebro que são ativadas quando as pessoas se sentem rejeitadas também são ativadas quando elas sentem dor física. Porém, ao contrário da dor física, a dor psicológica da rejeição pode ser revivida por anos.

O fato dessas lembranças – da dor da rejeição – acompanharem as crianças a vida toda é o que acaba influenciando na personalidade delas. Os pesquisadores revisaram 36 estudos feitos no mundo todo envolvendo mais de 10.000 participantes, e descobriram que as crianças rejeitadas sentem mais ansiedade e insegurança, e são mais propensas a serem hostis e agressivas.

A experiência de ser rejeitado faz com que essas pessoas tenham mais dificuldade em formar relações seguras e de confiança com outros, por exemplo, parceiros íntimos, porque elas têm medo de passar pela mesma situação novamente.

É culpa do pai, ou é culpa da mãe?

Se a criança está indo mal na escola, ou demonstra má educação ou comportamento inaceitável, as pessoas ao redor tendem a achar que “é culpa da mãe”. Ou seja, que a criança não tem uma mãe presente, ou que ela não soube lhe educar.

Porém, o novo estudo sugere que, pelo contrário, a figura do pai na infância pode ser mais importante. Isso porque as crianças geralmente sentem mais a rejeição se ela vier do pai.

Numa sociedade como a atual, embora o nível de igualdade de gênero tenha crescido muito, o papel masculino ainda é supervalorizado e muitas vezes vêm acompanhado de mais prestígio e poder. Por conta disso, pode ser que uma rejeição por parte dessa figura tenha um impacto maior na vida da criança.

Com isso, fica uma lição para os pais: amem seus filhos! Homens geralmente têm maior dificuldade em expressar seus sentimentos, mas o carinho vindo de um pai, ou seja, a aceitação e a valorização vinda da figura paterna, pode significar tudo para um filho, mesmo que nenhum dos dois saiba disso ainda.

E para as mães, fica outro recado: a próxima vez que vocês forem chamadas à escola por causa de algo que o pimpolho aprontou, tenham uma conversa com o maridão. Tudo indica que a culpa é dele! Brincadeiras à parte, problemas de personalidade, pelo visto, podem resolvidos com amor de pai. E quer coisa mais gostosa?

Fonte: HypeScience

Opi_03_07_15_Triste_olhar

Naquele domingo, a classe de Escola Dominical foi tumultuada. Um rapaz dizia que, se tivesse que acreditar que existe um Deus, este seria prepotente e injusto. Para começar, dizia o rapaz, ele não me consultou se eu queria nascer ou não. E pior, ao me obrigar a nascer, ainda me coloca num paizinho subdesenvolvido, cheio de gente mais ou menos e, para piorar, escolhe para mim uma família pobre e cheia de problemas. Só pode ser brincadeira, concluía ele.

Era para ser uma aula sobre “graça e graças” em Romanos: a iniciativa divina e a reação humana esperada. Mas a aula não fluiu porque as atenções foram todas sequestradas pelo rapaz. Era quase um clamor. “Que graça?”, dizia ele. Deus está em dívida comigo; deve-me muitas explicações! E logo se recuperava do deslize: isto é, se ele existisse. E arrematava: prefiro acreditar que sou um lixo cósmico, e que o destino não me favoreceu.

Eu fiquei triste com aquele discurso, sentindo-me meio culpado da minha felicidade, da minha gratidão, da minha “sorte” de não ser um joão-ninguém. Senti culpa de me alegrar com uma bela manhã de sol, com o canto dos pássaros, e até da decisão de ter meus próprios filhos. Depois daquela conversa, o pensamento era inevitável: e se, de repente, um filho meu me dissesse que não pediu para nascer, e que eu tinha a obrigação de tornar sua vida o mais fácil possível, para compensar a ousadia da decisão egoísta? Continue lendo →

Talvez, por sua dramaticidade, a Páscoa seja o momento mais visível da ação reconciliadora de Deus. Sim, naqueles dias de paixão e morte é possível perceber que “Deus estava, em Cristo, reconciliando consigo mesmo o mundo” (2Co 5.19).

Entretanto, quando penso na Páscoa, não consigo evitar a ideia de que naquelas conversas no monte da transfiguração, no Cenáculo ou nos acontecimentos do Getsêmani, Jesus estava sendo aperfeiçoado.

“Porque convinha que aquele, por cuja causa e por quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles” (Hb 2.10).

Ousando um paralelismo de linguagem, eu diria que Deus estava, em Cristo, aprendendo sobre o sofrimento humano (Hb 5.7-10). “Embora sendo Filho, “aprendeu” a obediência pelas coisas que sofreu” (v. 8).

Imagino o desconforto que acabo de causar. Deus aprendendo?! — dirá você.

Esse mesmo incômodo devem ter sentido os primeiros cristãos, ao lerem o trecho da Carta aos Hebreus citado acima. Jesus sendo aperfeiçoado?! — devem ter pensado. — Jesus aprendendo sobre obediência? Isso é possível? E essa ressalva: “Embora sendo Filho”, o que quer dizer?

Meu pensamento é que Deus, em Cristo, estava amando o mundo de uma maneira plena e difícil de compreender (Jo 3.16). Não “apenas” um amor imenso; nem mesmo “apenas” um amor que vê o necessitado, se compadece dele e toma providências sacrificiais (esse é o significado da palavra “caridade”). Mais que isso, meu coração discerne, na Páscoa, um Deus que deseja ser amigo, que quer estar tão próximo que se oferece ao aperfeiçoamento e à aprendizagem que provêm da convivência conosco, em nosso dia a dia. Oferece-se a uma aliança do tipo “tudo o que é meu é teu”.

Ele já não se contenta em ser “apenas” o Altíssimo; quer mais, quer ser pai amoroso, “abba”; quer ser o primogênito entre muitos irmãos; quer ser o servo da casa e também fiel sumo sacerdote, quando tiver aprendido, por meio de sofrimentos, a compadecer-se das nossas dores e mazelas. Agora, “pelas coisas que sofreu” entre nós, por nós e à nossa semelhança, se tornaria capaz de uma intercessão plena, misericordiosa e perfeita.

Deus estava, em Cristo — penso –, aprendendo sobre nossas dores, do mesmo modo que um pediatra doutor em obstetrícia aspiraria conhecer a maternidade: engravidando. Impossível, se for um homem; há um limite para esse conhecimento, pois não lhe é dada a parte mais rica desse conhecimento: a experiência. Entretanto, se ele fosse Deus, escolheria, como trabalho de campo para sua tese de doutorado, fazer-se mulher e ter um filho. Então ele saberia.

A Páscoa nos diz que o projeto de habitar entre nós não foi cancelado quando as dificuldades surgiram. A exemplo daquela véspera de angústia, os cálices preparados pelo Pai não deveriam ser evitados.

O exemplo ficou. Ao contemplarmos a sua glória, quisemos fazer-nos suas testemunhas. À sua semelhança, permitiríamos que o Pai transformasse nossas dores em aperfeiçoamento. Aprenderíamos a lavar pés e a andar a segunda milha com alegria. E os eventos tristes de nossas vidas nunca mais seriam desnecessários e sem sentido. Doravante, aprenderíamos com eles sobre a misericórdia, em nossa personalíssima formação sacerdotal.