PascoaEste ano a Páscoa vai ser diferente para os brasileiros. Quando você ler essa frase, pode ser que ela já tenha ocorrido, porque escrevo na quinta-feira de Páscoa.

Escrevo num momento de grande tensão, em todo o país. Nas ruas e nas praças se revezam multidões de cidadãos contra e a favor do governo. O número é crescente, contados aos milhares e, em alguns episódios, milhões. Os jornais trazem notícias inquietantes sobre prisões de empresários, políticos e autoridades, até aqui insuspeitas; falam de delações premiadas explosivas; de grampos telefônicos, de ataques verbais ao STF e a seus juízes; de julgamentos na Câmara dos Deputados; de propinas milionárias; de repatriação de bilhões roubados das estatais brasileiras; de prisões no Brasil e no exterior; de impeachment da presidente da República, e muitos outros.

Na Internet, o ambiente de confrontação pública de forças políticas abre espaço para boatos os mais sinistros. Chega-se a anunciar iminente golpe de estado, seguido da invasão do país por forças estrangeiras. Diz-se, em “posts” de autoria duvidosa, que haja quem esteja prestes a botar fogo no país. E o povo, atônito, já não sabe no que acreditar. Mas, com a facilidade de comunicação existente, passa a reenviar tais mensagens, tornando-as quase verdadeiras.

O país vive crise econômica e política. Quebradeira nas empresas, desemprego em alta, imprensa faturando com os escândalos. Clima propício para o surgimento de salvadores da pátria.

Nesse momento inquietante, percebemos que estamos na quinta-feira de Páscoa.

Há milhares de anos, o povo de Deus viveu um drama parecido; o drama dos dias turbulentos que antecederam sua saída do Egito. Naqueles dias, muitas pragas assolavam o reino, ferindo egípcios e israelitas.

Há dois mil anos, Jesus celebraria essa data com seus discípulos, para ser preso em seguida e, num julgamento viciado, ver-se condenado à morte. Nesta quinta-feira, ele celebrou a sua páscoa, trazendo para o momento um novo significado, uma nova aliança, no seu sangue.

Este ano, a cerimônia do lava-pés, inaugurada por Jesus e relembrada em muitas igrejas cristãs, certamente incluirá um momento de oração pela pátria e pelas autoridades. Independentemente de coloração política ou partidária. Será momento de contrição e arrependimento, quando se depositarão aos pés da cruz razões e convicções ideológicas e cada um se verá como povo brasileiro e se irmanará em família: filhos de um mesmo Deus e pai de todos. Porque aos pés da cruz somos todos por Deus “encerrados na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos”.

No momento do “sacrifício da Páscoa”, convém que as disputas cessem, que as diferenças desapareçam, que as distâncias se encurtem e que as pontes da fraternidade se lancem. À sombra da imensidão daquele gesto de reconciliação, gregos e judeus fazem-se irmãos.

Entretanto, ainda assim, haverá um misto de fé e sobressalto em cada coração. Como quando se comiam os pães asmos, em segurança, ao tempo em que se ouviam os gritos de dor nas casas egípcias; em muitos casos, vizinhos queridos. Como quando se ouviu Jesus dizer a Judas, enigmaticamente, que se apressasse a fazer o que tinha que fazer. E este deixou a ceia com um semblante sombrio.

Sim, esta Páscoa será especial para a igreja cristã brasileira, porque o ambiente remete ao momento das duas últimas pragas. Entretanto, é inevitável considerar, também, que nas duas ocorrências lembradas, esse momento de trevas precedeu a libertação. Da “casa da servidão”, na primeira, e da morte, na segunda. Em ambos os casos, o Senhor ouviu o clamor do seu povo e o libertou do jugo que lhe esfolava o lombo.

Essa consciência de que “Israel é meu filho” não deve perder-se em nossos corações. Muito menos a afirmação de que “este é o meu filho amado”. Não para nossa soberba, mas para que não percamos a paz que ele veio trazer. Uma paz que o mundo não pode dar, mas que também não pode tirar.

É tempo, sim, de contrição e arrependimento. Este é o modo de viver o presente momento nacional. É tempo de Páscoa; de crer no evangelho. É tempo de crer num Deus que comanda a história, para conduzi-la a um “eis que tudo era muito bom”. E que nos diz, por meio do seu Filho: “não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14:27).

Hoje é um dia apropriado para o cristão refletir sobre pecado e arrependimento; para responder para si mesmo o quanto ele detesta o mal e deseja apegar-se ao bem (Rm 12:9). Nesta quarta-feira, ao retornarmos de nossos retiros espirituais, onde imaginamos ter estado longe das depravações do mundo, materializadas no carnaval, talvez a simbologia das cinzas nos seja inspiradora, sabendo que, simbolicamente, nosso Senhor será crucificado daqui a 40 dias.

Muitos cristãos, hoje, observarão o rito religioso das cinzas, esse sinal de arrependimento e conversão. A frase por eles ouvida será do próprio Jesus: “arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1:15).

Iniciamos a Quaresma, os quarenta dias que preparam o espírito do cristão para a semana santa. Para muitos, trata-se de um dia reservado para o arrependimento dos “excessos” cometidos no carnaval; uma indulgência pré-agendada para a quarta-feira, com garantia de “conta zerada”, para poder iniciar o ano sem dívidas espirituais.

Conforme a tradição cristã ocidental, trata-se uma data litúrgica de jejum e abstinência, envolvendo contrição, arrependimento e conversão. Mais que o resgate dos pecados do carnaval, marca o início do período de preparação para a plena compreensão da morte e ressurreição de Cristo.

Os evangélicos, em geral, são refratários a essa prática. Tanto porque não adotam a tradição das cinzas quanto porque as associam exclusivamente ao carnaval. E temos a tendência de desprezar o ritual, que consideramos, no mínimo, equivocado: “liberou geral nos quatro dias e depois quer zerar tudo na quarta-feira; muito conveniente”. De fato, se alguém pensa e age com essa perspectiva, revela uma obtusa esperteza. Parece que não são poucos os que pensam assim. “Na dúvida, melhor dar uma chegadinha na igreja; vai que…”.

Entretanto, as cinzas do arrependimento remontam à antiguidade. Encontramos a figura do jejum com saco e cinzas em vários episódios bíblicos. Jó, ao final de sua dolorosa experiência, diz assim:”por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza”(Jó 42:6). Mordecai, tio de Ester, também usa o costume. Quando ele soube que seu povo estava ameaçado de aniquilamento, “rasgou as suas vestes, e se cobriu de pano de saco e de cinza, e, saindo pela cidade, clamou com grande e amargo clamor” (Et 4:1). Ainda Daniel diz assim: “voltei o rosto ao Senhor Deus, para buscá-lo com oração e súplicas, com jejum, pano de saco e cinza” (Dn 9:3).

Tenho para mim que esse período, estabelecido logo nos primeiros séculos da Igreja, abriga uma sabedoria e um mistério. A sabedoria consiste na metáfora destinada à preparação do povo para a semana mais importante do calendário cristão: a semana da paixão, morte e ressurreição de Cristo, nosso Senhor. Assim é que a contagem dos dias se faz a partir da quinta-feira santa, contando-se quarenta dias para trás; e estaremos na quarta-feira de cinzas. Olhando para a frente, veremos a sexta-feira da paixão e o domingo da ressurreição com o coração mais piedoso.

Essa forma de contagem, da frente para trás, nos lembra da própria vida cristã; como que a dizer que lá na frente nos encontraremos com Cristo. Porque é chegado o reino de Deus. Pessoalmente, não sabemos quando será esse dia. Por isso mesmo, é de bom alvitre que, hoje, nos arrependamos e creiamos no evangelho.

O número quarenta também é pleno de significados. Originalmente, a Quaresma se associa aos quarenta dias em que Jesus foi tentado no deserto. Entretanto, mesmo esses dias de tentação têm o antecedente da peregrinação do povo no deserto, por quarenta anos, após a libertação da servidão no Egito. E muitos outros, sempre associados à privação, à purificação e à caminhada em direção à esperança.

O mistério está exatamente no que nos é pedido: que nos arrependamos e creiamos. Ora, como poderemos atender a essa conclamação? Como iremos buscar, lá dentro de nós mesmos, a transformação da mente (metanóia), a mudança emocional (contrição), pela qual passamos a nos entristecer com nosso pecado, e chegar àquele arrependimento ativo, que nos leve a uma quebra de rumos e caminhos (conversão)? Não se parece com a situação em que alguém nos diz: “acalme-se”? Oras, se estou nervoso ou perturbado, como me acalmar?

Entretanto, o chamado ao arrependimento e à fé são integrantes da tradição judaica e também cristã. E as palavras das cinzas, hoje, vêm do próprio Jesus: “arrependei-vos!”

Muitas tentativas de desvendamento deste mistério já encheram páginas e mais páginas de livros. Não vou ousar. Prefiro encaminhar esta conversa para o lado pastoral: arrependamo-nos e creiamos; mesmo que não tenhamos pulado carnaval, arrependamo-nos e creiamos no evangelho. Mesmo que não tenhamos em mente que faltam 40 dias para a paixão; mesmo que não estejamos vivendo um tempo de deserto; mesmo que não creiamos que está próximo o nosso encontro definitivo com nosso Mestre, arrependamo-nos já. E creiamos no evangelho. Esse chamado não se destina a foliões, apenas. Sim, a eles também; por que não? Mas destina-se àqueles que tiverem ouvidos para ouvir. E que o Espírito de Deus nos ajude naquilo que nos é impossível, naquilo que nos é velado do nosso próprio coração.

Senhor, há muitas coisas que não entendo. Mas se ouço, nesta quarta-feira de cinzas, o teu chamado à contrição; se percebo que o carnaval, em sua essência, não é totalmente estranho ao meu modo de viver; se percebo que o dia do resgate já foi marcado, e que meu escrito de dívida já foi encravado naquela cruz, que antevejo da distância de quarenta dias, peço-te então que me ajudes a encontrar caminhos de contrição e arrependimento para o meu coração. Porque sei que coração compungido e contrito não desprezarás, ó Deus.

Confio que, pela obra do Espírito em mim, voltarei o rosto ao Senhor Deus, para buscá-lo com oração e súplicas, com jejum, pano de saco e cinza. Amém.

Adorador“Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és”, diz o ditado popular.

Será a influência das companhias tão forte a ponto de modificar o caráter de uma pessoa? Para o bem ou para o mal? Será esse fenômeno tão concreto e visível que tenha sido destilado em sabedoria resistente ao desgaste dos séculos?

Creio que sim, e que também é verdadeiro: “dize-me com que deus andas e dir-te-ei quem és”. Ou seja: “somos parecidos com o deus que adoramos”. Inclusive, se somos adoradores nominais, displicentes, formais, ou apenas “frequentadores”, certamente nosso “caráter cristão” refletirá essas características devocionais.

Será, então, apropriado usar a expressão “mau-caráter espiritual”? Ou que alguém tenha “um problema de caráter” no que toca à religião? Meu pensamento é, também, que sim. Acredito que haja uma simetria entre os processos relacionais humanos e dos humanos com a divindade. E essas influências (que deixam as mães tão inseguras) são verdadeiras.

Com que deus nos parecemos nós? Depende do deus que adoramos. E de como o adoramos.

De pronto, descobrimos que se trata de um Deus triúno; uma emulação em santidade de três pessoas que, não se contentando com essa autossuficiência, decide ampliar suas relações de amor e criar-nos à sua imagem e semelhança, para vivermos também nós, em harmonia e unidade, na plena felicidade de uma família perfeita. E dessa concepção eterna (Ef 1:4-6), tomou o nome do Pai toda a família, tanto do céu como da terra (Ef 3: 14,15).

Parecemo-nos com um Deus afetuoso. Um Deus que nos propõe uma relação de amor. Melhor, de “(e)ternos afetos e misericórdias”, a transbordar horizontalmente para os irmãos. Em vez das bases pagãs de medo e interesse, materializadas em trocas, oferendas, sacrifícios de apaziguamento e liturgias herméticas e obrigatórias, ecoa pelos séculos sua busca por intimidade conosco: “dá-me, filho meu, o teu coração, e os teus olhos se agradem dos meus caminhos” (Pv 23:26).

Mas o que dizer de suas leis e ordenanças? Elas dirão muito do seu caráter. São muito duras, complicadas, exigentes? Ouçamos Jesus resumi-las em apenas duas: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22:37-39). Aí estão a lei e os profetas: uma família construída por, e ambientada em, “ternos afetos e misericórdias”. Dá para acreditar?! Sim, eu sei que dá. Mais que isso, é matéria para a fé; é influência para mudar quem sou.

Sou encantado com esse Deus. Espero ser mais e mais encantado pela sua intimidade. De modo que meu caráter mude, sob a influência de sua companhia.

Começamos a viver em clima de festa. As festas natalinas. Como será a imagem da ceia deste ano? Já não nos choca mais a cena da família sentada à mesa, de cabeça baixa, em silêncio, com os rostos iluminados por smartphones. Alguns até brincam, sugerindo que aquelas pessoas estão conversando umas com as outras de um modo novo. E que, nesse novo cenário, as crianças e os idosos têm voz. Eles também “postam” ideias e opiniões.

Então, a imagem que me vem, para o Natal de 2015, é a de uma grande mesa, cheia de guloseimas, aromas inconfundíveis, ambiente aconchegante; gente de todas as idades; embrulhos abertos, papéis de presente espalhados pelo chão e crianças felizes com seus brinquedos novos: smartphones ou tablets que lhes permitem participar, com os adultos, do recém-criado grupo familiar “Christmas Talk”.

Essa cena não tem som. Como se o áudio estivesse desligado. Mas não; é que estão de fato em silêncio total. Todos sentados, “festejando” em seus aparelhos maravilhosos. Uns enviam “selfies”, outros compartilham imagens do presépio, da estrela, dos magos, do menino na manjedoura. E a dona da casa, a única que levanta os olhos, está aflita porque a comida está esfriando.

A criança que acaba de ganhar seu aparelho novo já usa linguagem avançada: “Crc, vei, s mnn jsus ta snistr! Kkkkkkk” (“‘Caraca’, ‘véi’, seu menino Jesus está sinistro! Risos”). Se ainda não entendeu, consulte seu filho ou neto.

Por mais desconcertante que possa parecer essa cena e por mais que seja inquietante a realidade que ela retrata, penso, entretanto, que alguns elementos originais podem ser resgatados, caso haja espaço para uma palavra “analógica”. Talvez seja possível um momento em que alguém se levante e diga alguma coisa, com o uso de seu aparelho fonador. Neste caso, o que se poderia dizer que conectasse aquele momento com o verdadeiro Natal? Há algumas ideias.

Estão reunidos em torno de uma mesa. Tem gente, inclusive, que veio de longe. Estão todos juntos, em torno de um aniversariante. Só ele faz anos, nesse dia. Deve, portanto, ser considerado. Quem é? Quantos anos faz? Por que nos reunimos e celebramos, dando tanta importância à data?

Considere-se a “mesa posta”, que aponta para um Pai que deseja reunir seus filhos para uma ceia em família. E convida os que estão perto e os que estão longe para o banquete e para o diálogo. Uma festa que tem como ponto alto proximidade e entendimento. E assim celebra-se a família. O mistério da família de Deus, em Cristo.

Se for oportuno, as ideias do afeto e da comunhão devem ser trazidas. Mencione-se que esse Pai já havia “tele-falado” de muitas maneiras, anteriormente, maneiras mais “sinistras” que um WhatsApp, mas que nestes últimos tempos optou por chegar perto, física e afetivamente (Hb 1.1-3). Porque o amor quer abraçar, beijar, presentear, comer e beber junto.

O amor quer saber como anda a vida – os estudos, o trabalho e o coração – e se pode fazer alguma coisa para ajudar a resolver os problemas; quer orientar, quer carregar a carga, quer aliviar o sofrimento.

À medida que isso acontecer, aquele momento se tornará significativo e inesquecível. Porque Deus estava, em Cristo, reunindo seus filhos para um delicioso banquete (Lc 13.29).

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Ponto Final

paiHá alguns dias, faleceu a Marília Pêra, aos 72 anos. Os artistas da geração dela estão partindo, um a um. Este ano foram muitas as notas de falecimento de galãs e divas de tv da velha guarda. Sem falar que a mídia agrava as perdas com depoimentos, retrospectivas e, como neste caso, com cobertura jornalística do funeral. Na internet, o nome de Marília está entre os trending topics do Twitter. “A arte chora”, escreveu Serginho Groisman.

Um detalhe que me tem chamado a atenção é uma expressão repetida por alguns famosos, como Tarcísio Meira, ao se referirem a alguns desses colegas que partem “para o plano superior”: “ele era presente, atento e cuidadoso”.

Notei que essa expressão, usada no meio artístico, qualificava uma pessoa que estabelecia laços, coisa talvez mais difícil naquele meio. Ainda mais na vida corrida de hoje. Imagino que um artista deva se movimentar mais que uma borboleta. Mas alguns, ao falecer, recebem o reconhecimento da “presença”, da “atenção” e do “cuidado”. Gente que conseguiu estar ali, quando ali estava; conseguiu ter olhos do coração para quem estava à sua volta; e, pasmem, conseguiu cuidar dos seus colegas. Na profundidade e intimidade possíveis. Isso não é curioso?

Nessa hora, o Tarcísio Meira fez aquela boca torta, olhou para dentro da câmera — eu cheguei a me afastar, pensando que estava olhando dentro dos meus olhos — e disse: fulano “era presente, atento e cuidadoso”. E eu não pude evitar de pensar: “é Deus falando comigo” (eu sei, tem horas em que exagero nas “leituras devocionais” dos fatos corriqueiros da vida). Ouvi-o dizer: “aí está um alvo para a sua maturidade”. E imediatamente respondi: “sim, eu também quero isso pra mim; amém”.

Que problema eu arrumei! — Como? Como é ser presente, atento e cuidadoso? Estar presente já ajuda, mas não resolve totalmente. Os ausentes sempre falam de “qualidade”. Em geral, sobre o tempo que dedicam aos filhos e cônjuges. Mas presença é mais que estar perto. Lembro-me de uma professora que, depois da chamada, perguntava: “quem de vocês está aqui?”

Aí, entra a segunda perna do tripé: atenção. Sim, presença com atenção me parece um bom caminho. E o banquinho vai parar em pé com a terceira perna: o cuidado de quem cuida. Sem terceirizações, “corbãs” ou transferências.

Quem almeja esse tripé, excelente coisa almeja. Imagine a glória para um pai, uma mãe, um avô, um cônjuge ou um pastor, ser lembrado nestes termos: “sempre foi presente, atento e cuidadoso”.

Faço desse tripé meu voto para 2016, com a ajuda de Deus.

ShoppingOutro dia, no shopping, encontrei um irmão que eu não via há muito tempo. Percebendo eu não me lembrava dele, apresentou-se: membro de uma igreja tradicional da cidade e ex-aluno meu. Conexões refeitas, surge logo aquela intimidade de “amigos de infância”. Muito legal.

Abraço pra cá, tapinha pra lá, o que você tem feito nestes últimos anos, e percebi que ele estava com ar grave, apressado. Agitado, talvez. Mal podia esperar para ir direto ao assunto. Fiz silêncio de atenção, para que ele pudesse centrar o foco. Ele sabia que precisava ser rápido, conciso e direto, pois estávamos num encontro de passagem. Família dos dois lados esperando. De repente, ele pareceu encontrar o jeito de começar e disparou algo assim:
— Você conhece alguém que entenda de Deus?
E eu: — Como?
— Pode me apresentar? Estou procurando. Alguém que possa falar dele com conhecimento prático, chegado, de convívio.
— Bem, a gente pode pensar…
— Não vale um teórico ou estudioso sem experiência pessoal. Não procuro, exatamente, um profissional; alguém que tenha lidado apenas com igrejas, agências missionárias e outras entidades que procurem cumprir seus papéis.
— Vejo que você já tem um perfil na cabeça…
— Não precisa ter muito estudo. Na verdade, isso nem importa. Mas preciso de alguém que possa me orientar.

Atônito, eu até me esqueci de me ofender com a abordagem dele. Afinal, se ele estava me pedindo uma indicação, não estava pedindo a minha ajuda pessoal. Não seria eu; seria alguém que eu conhecesse, melhor do que eu! Mas peguei leve, tentando entender se, nessa abordagem, havia um pedido de socorro ou, em seguida ao susto, viria um sermão com três pontos e exórdio. Tem gente que pergunta para poder responder. E você sai no lucro, com a pergunta e com a resposta. Tentei entender o que ele desejava:
— Meu irmão, o que aconteceu? Você ainda é crente, em comunhão com sua igreja?
— Sim, continuo na igreja, com a família etc. Estamos na luta.
— Ué, e então?!
— Mas sou um discípulo meio perdido, em termos de referenciais, querendo retomar a caminhada. Procuro um orientador que se disponha a caminhar comigo, ajudando-me a reconhecer os enganos, mentiras, desvios, atalhos e tantos outros problemas que me dificultam o crescimento.

Nesse momento, confesso, senti um certo alívio de não ser “o escolhido”. Será que pequei? A essas alturas, ele já estava falando rápido, como quem repete um discurso já bem pensado e talvez já bem batido.
— Quando você me apresentar esse irmão, ou irmã, não vou questionar suas credenciais eclesiásticas. Não vou perguntar sobre denominação, linha teológica, escatológica, títulos, grego, hebraico, nada disso. Não serei consumidor espiritual. Nem intelectual. Nem “mentorando”. Talvez, nem mesmo aluno. Serei discípulo, com a graça de Deus.
— Meu irmão, você me parece estar procurando um “amigo espiritual”. Será que em sua igreja…
— Quero estar atento aos sinais que puder identificar de genuinidade de suas relações com o Pai. Por exemplo: sei que Jesus disse: “nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. Então, esse amor será um sinal, para mim. Talvez por isso, para encontrar essa pessoa, eu tenha que procurar bem de perto. Precisarei olhar “para dentro” dela. Certamente, então, precisarei conviver com ela. Seria bom comermos um saco de sal juntos, como diz o ditado.
— De fato, para uma caminhada dessas, você precisa de um amigo especi…
— Nessa busca, acho que posso simplificar minha vida aplicando apenas um critério, o de 1João 4: 7 e 8 — “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor”.
— Bem, com um critério desses, se você achar alguém…
— Pode ser que eu esteja deixando coisas importantes de fora, ao tentar simplificar tanto a minha busca. Mas eu acho justo. Primeiro, porque foi nesse ponto, o do amor, que descobri que entendo tão pouco de Deus; a ponto de resolver recomeçar.
— Ah, é assim? Você se sente em falta, no quesito do amor?
— Segundo, porque João parece entender minha perplexidade.
— O João apóstolo?
— Ele simplifica a vida de seus discípulos e leitores, indo ao cerne da questão, deixando as complicações para outra oportunidade e para outros escritos.
— Parece que você está meio desiludido com os teólogos…
— Olha só o que ele diz, sem floreios, “na lata”: “Quem não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor.”
— Meio pesado, hem? Talvez, no contexto da carta…
— Achei razoavelmente claro, para quem não está com ânimo de discutir, mas sim de achar de novo o caminho.

A conversa estava ficando densa. Pelo menos, para mim. As famílias, por ali, meio que tentando dar um tempo, percebendo que meu amigo precisava falar. Então, pensei em dar uma aliviada:
— Você já pensou o João, hoje em dia, postando essa frase no facebook? Seria trucidado pela turma do contra.

Acho que ele nem ouviu meu gracejo. Estava absorto.
— O primeiro alvo desse critério fui eu mesmo. Resultado, achei-me em falta.
— Pois é, você mencionou isso. Mas não entendo bem como você chegou a essa conclusão, tão severa. Não está pegando pesado demais consigo mesmo?
— Acho que não; estou é cansado de aparências. É por isso que estou à procura de alguém que tenha resolvido, razoavelmente, esse problema. De preferência, gente que “começou de baixo”. Não quero anjos para me ajudar.
— Anjos? Gente que começou de baixo?
— Sim, gente que anteriormente era indiferente, insensível, agressiva, egocêntrica, orgulhosa, medrosa etc. e que hoje seja vista e tida como amorosa.
— É assim que você se vê? Ser tido como amoroso é o seu alvo? Acho que estou entendendo.
— Gente que ama o próximo, sabe? Gente que aprendeu a viver para fora, para os outros. De verdade. Gente que mudou o eixo gravitacional de sua atenção para as pessoas.
— Eixo gravitacional, é?
— Talvez alguém mais para Pedro do que para João.
— Ah, você se identifica mais com o apóstolo Pedro…
— Isso mesmo: a caminhada de Pedro me inspira e me dá esperança, porque ele começou como pedra bruta. De amoroso não tinha nada. Pensava só nele mesmo.
— Bem, a gente não sabe…
— Pelo menos, aparentemente. E com isso eu me identifico totalmente. Haja transformação!
— De fato, o Pedro cresceu muito.
— Já o João me parece ter nascido assim, bonzinho. Reclinando-se no peito do Mestre.
— Também pode ser uma imagem superficial. Ser bonzinho não me parece…
— Se precisou caminhar nessa estrada do amor, não consigo enxergar seus progressos.
— É, mas…
— Não digo que não houve, mas me parece que no apóstolo Pedro as mudanças são mais evidentes.
— Bem, entendo.
— Então, se eu vivesse no tempo desses dois apóstolos, eu chegaria perto de João e, simplesmente, o observaria atentamente.
—Ah, eu também! Discretamente.
— Já para o velho Pedro, eu pediria: “me conta, me ensina”.
— Mas, irmão, o que você vai fazer agora? Não seria o caso de conversar com o seu pastor? Ou com algum irmão mais idoso…
—Não, assim não vale.
— Não vale?!
— Mesmo entre esses, eu quero saber se amam de verdade. O lance do eixo gravitacional. Se têm “tempo, presença e atenção” para seus cônjuges, pais, filhos, irmãos ou ovelhas.
— Bem, acho que ent…
— Quero saber se dão sua vida por elas. Não tanto para morrer, mas para viver. Eixo gravitacional.
— Vejo que você tem o mapa da mina montadinho na cabeça…
— O dia-a-dia é que revelará se estão disponíveis e dispostas a sacrificar as suas coisas em favor de cada uma e da coletividade. Falar é fácil! Está me entendendo?
— Esse —como é? — tempo, presença e atenção são difíceis para qualquer um.
— E ainda tenho a prova dos nove: se elas ouvem sua voz e os seguem.
— Elas quem?
— As ovelhas, oras! Pastor que fala mas as ovelhas não o ouvem… Aí, sim; essa pessoa seria uma boa referência; gente a observar. E imitar!
— Mas será que você encontra alguém…
— Aí eu ia enchê-la de perguntas, do tipo: “como você conseguiu”? Como se deu a mudança de seu temperamento? Como você domou a ira que existia lá dentro? Como substituiu o a violência diante da frustração pela paciência e pelo diálogo? Como mudou o eixo gravitacional?
— Imagino que você esteja querendo respostas para seus próprios problemas, não?
— Mas é isso que estou falando! Eu descobri essas falhas em mim e me sinto meio que desclassificado pelo João! Olha o que eu vou perguntar, olhos nos olhos: o que significa para você, hoje, num tempo de redes sociais, “amemo-nos uns aos outros”? Você responde a todos os emails dos seus irmãos? Curte e comenta os posts de suas ovelhas no Facebook? Aceita todos os convites para convívio? Tem paciência com as histórias dos idosos? Das crianças? Enfim, prioriza a presença, a atenção e o cuidado sobre outras tarefas? Hã?

A estas alturas, com as famílias chamando, e um misto de angústia e misericórdia me tomando, comecei a pensar em um jeito de encerrar a conversa. Mas não foi preciso; percebi que ele também queria isso. Então, do modo como começou, ele terminou. Me deu um abraço e disse:
— Você pode me apresentar alguém que me ajude nesse problema? Não aprendi essas coisas no seminário.
E foi se afastando, em direção à sua família. Já à distância, gritou, meio sorrindo:
— Se pode, você tem um tesouro. Você tem um amigo precioso. Vou entender se você não quiser “dividi-lo” comigo. A gente se fala! Paz do Senhor!

E eu, com a cabeça zumbindo, observei o irmão pegar a escada rolante com sua bela família. Minha gente veio chegando e perguntou:
— O que foi isso?

E eu respondi, meio sem pensar:
— Não sei bem. Mas acho que acabo de ser “instruído na Palavra”.

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P.S. Os diálogos acima são fictícios. Qualquer semelhança com situações e pessoas reais será mera coincidência.

Ponto_finalHá pouco tempo, nossa história familiar foi marcada pelo sofrimento. Com direito a registro fotográfico. Sofremos, juntos, dois dias de dó, consternação e solidariedade. Na tabela de vacinação de Amanda, nossa netinha de cinco meses, estavam agendadas três vacinas. Fazer o quê? Mãe e filha foram ao posto de saúde para minutos difíceis. Quando coloco as duas na cena do sofrimento, estou pensando em dois tipos de dor: a da filha e a da mãe. Cada uma sofreu aquele momento a seu modo.

“Que maldade!” — teria pensado a filha, ao ser levada pela própria mãe ao “posto de tortura” para, sob suas vistas, ser submetida a três agulhadas nas perninhas, com a injeção de líquidos dolorosa. Em seguida, vem o choro. Um choro doído, profundo, sonoro. Na verdade, um grito de dor. Daqueles “esgoelados”, que doem na alma da gente. A criança, sentindo a picada, quer instintivamente tirar a perna, mas é contida pela mãe. E não é uma picada só, e “passou, passou”; são três: uma na esquerda e duas na direita. Sabe o que é eternidade? A terceira já encontra as duas em frangalhos.

A mãe faz o que precisa ser feito. Sem pensar, sem sentir, sem nada. Não é hora para isso. Se ela se permitisse, nessa hora possivelmente pensaria: “Será que isto está certo? Será mesmo necessário este momento? Será que minha filha, ao me olhar com este olhar de terror e súplica, compreende o que estou fazendo? Ou guardará para sempre, em sua memória infantil, a sensação irracional de desamparo? Como interpretará o momento de firmeza, em que a ‘ofereci ao incompreensível sacrifício’? É melhor nem pensar. Não é hora para isso”.

A perna de Amanda ficou dolorida, naquele dia e no dia seguinte. A cada toque involuntário, a dor e o choro sofrido voltavam, e lembravam a todos daqueles momentos terríveis. Contemplávamos com ternura e culpa aqueles olhos inocentes, marejados de lágrimas.

Passou. Ao terceiro dia, Amanda acordou sorridente, como de costume. Ufa! Ao vê-la sorrir, nossos cuidados também se dissiparam e aquele sentimento de culpa coletiva — por formação de quadrilha — também. Com o alívio, aos poucos, a mãe também voltou a sorrir.

Faríamos de novo? Faremos novamente? Sim. A tabela de vacinas está longe de estar preenchida. Mas esperamos que, com a idade, a menina sofra menos, ao enfrentar o momento com mais discernimento. E cresça em entendimento e confiança, de modo a perceber que essas dores são necessárias, pois evitarão dores maiores no futuro. Mesmo que ela ainda não saiba dizer “poliomielite”. São dores boas, afinal.

Foi inevitável que esse momento nos levasse a uma conexão com Deus; com o Pai que precisa levar seu filho para tomar suas vacinas. Acredito que ele sofra, ao nos ver sofrer; ao nos conduzir, ele mesmo, com a firmeza necessária, a momentos difíceis.

Penso também que ele deseje ver o dia em que lhe diremos: “Pai, eu compreendo que foi uma dor necessária. Apenas, não tinha maturidade para perceber, no momento. Perdoe-me se meu grito extrapolou os limites da submissão. Depois de tudo ter passado, dou-lhe graças porque não foi uma tribulação sem sentido. Ao contrário, sei que o Senhor me tinha no colo o tempo todo. E é assim que desejo registrar em minha memória mais profunda este momento de dor”.

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Ponto Final 356