paiHá alguns dias, faleceu a Marília Pêra, aos 72 anos. Os artistas da geração dela estão partindo, um a um. Este ano foram muitas as notas de falecimento de galãs e divas de tv da velha guarda. Sem falar que a mídia agrava as perdas com depoimentos, retrospectivas e, como neste caso, com cobertura jornalística do funeral. Na internet, o nome de Marília está entre os trending topics do Twitter. “A arte chora”, escreveu Serginho Groisman.

Um detalhe que me tem chamado a atenção é uma expressão repetida por alguns famosos, como Tarcísio Meira, ao se referirem a alguns desses colegas que partem “para o plano superior”: “ele era presente, atento e cuidadoso”.

Notei que essa expressão, usada no meio artístico, qualificava uma pessoa que estabelecia laços, coisa talvez mais difícil naquele meio. Ainda mais na vida corrida de hoje. Imagino que um artista deva se movimentar mais que uma borboleta. Mas alguns, ao falecer, recebem o reconhecimento da “presença”, da “atenção” e do “cuidado”. Gente que conseguiu estar ali, quando ali estava; conseguiu ter olhos do coração para quem estava à sua volta; e, pasmem, conseguiu cuidar dos seus colegas. Na profundidade e intimidade possíveis. Isso não é curioso?

Nessa hora, o Tarcísio Meira fez aquela boca torta, olhou para dentro da câmera — eu cheguei a me afastar, pensando que estava olhando dentro dos meus olhos — e disse: fulano “era presente, atento e cuidadoso”. E eu não pude evitar de pensar: “é Deus falando comigo” (eu sei, tem horas em que exagero nas “leituras devocionais” dos fatos corriqueiros da vida). Ouvi-o dizer: “aí está um alvo para a sua maturidade”. E imediatamente respondi: “sim, eu também quero isso pra mim; amém”.

Que problema eu arrumei! — Como? Como é ser presente, atento e cuidadoso? Estar presente já ajuda, mas não resolve totalmente. Os ausentes sempre falam de “qualidade”. Em geral, sobre o tempo que dedicam aos filhos e cônjuges. Mas presença é mais que estar perto. Lembro-me de uma professora que, depois da chamada, perguntava: “quem de vocês está aqui?”

Aí, entra a segunda perna do tripé: atenção. Sim, presença com atenção me parece um bom caminho. E o banquinho vai parar em pé com a terceira perna: o cuidado de quem cuida. Sem terceirizações, “corbãs” ou transferências.

Quem almeja esse tripé, excelente coisa almeja. Imagine a glória para um pai, uma mãe, um avô, um cônjuge ou um pastor, ser lembrado nestes termos: “sempre foi presente, atento e cuidadoso”.

Faço desse tripé meu voto para 2016, com a ajuda de Deus.

ShoppingOutro dia, no shopping, encontrei um irmão que eu não via há muito tempo. Percebendo eu não me lembrava dele, apresentou-se: membro de uma igreja tradicional da cidade e ex-aluno meu. Conexões refeitas, surge logo aquela intimidade de “amigos de infância”. Muito legal.

Abraço pra cá, tapinha pra lá, o que você tem feito nestes últimos anos, e percebi que ele estava com ar grave, apressado. Agitado, talvez. Mal podia esperar para ir direto ao assunto. Fiz silêncio de atenção, para que ele pudesse centrar o foco. Ele sabia que precisava ser rápido, conciso e direto, pois estávamos num encontro de passagem. Família dos dois lados esperando. De repente, ele pareceu encontrar o jeito de começar e disparou algo assim:
— Você conhece alguém que entenda de Deus?
E eu: — Como?
— Pode me apresentar? Estou procurando. Alguém que possa falar dele com conhecimento prático, chegado, de convívio.
— Bem, a gente pode pensar…
— Não vale um teórico ou estudioso sem experiência pessoal. Não procuro, exatamente, um profissional; alguém que tenha lidado apenas com igrejas, agências missionárias e outras entidades que procurem cumprir seus papéis.
— Vejo que você já tem um perfil na cabeça…
— Não precisa ter muito estudo. Na verdade, isso nem importa. Mas preciso de alguém que possa me orientar.

Atônito, eu até me esqueci de me ofender com a abordagem dele. Afinal, se ele estava me pedindo uma indicação, não estava pedindo a minha ajuda pessoal. Não seria eu; seria alguém que eu conhecesse, melhor do que eu! Mas peguei leve, tentando entender se, nessa abordagem, havia um pedido de socorro ou, em seguida ao susto, viria um sermão com três pontos e exórdio. Tem gente que pergunta para poder responder. E você sai no lucro, com a pergunta e com a resposta. Tentei entender o que ele desejava:
— Meu irmão, o que aconteceu? Você ainda é crente, em comunhão com sua igreja?
— Sim, continuo na igreja, com a família etc. Estamos na luta.
— Ué, e então?!
— Mas sou um discípulo meio perdido, em termos de referenciais, querendo retomar a caminhada. Procuro um orientador que se disponha a caminhar comigo, ajudando-me a reconhecer os enganos, mentiras, desvios, atalhos e tantos outros problemas que me dificultam o crescimento.

Nesse momento, confesso, senti um certo alívio de não ser “o escolhido”. Será que pequei? A essas alturas, ele já estava falando rápido, como quem repete um discurso já bem pensado e talvez já bem batido.
— Quando você me apresentar esse irmão, ou irmã, não vou questionar suas credenciais eclesiásticas. Não vou perguntar sobre denominação, linha teológica, escatológica, títulos, grego, hebraico, nada disso. Não serei consumidor espiritual. Nem intelectual. Nem “mentorando”. Talvez, nem mesmo aluno. Serei discípulo, com a graça de Deus.
— Meu irmão, você me parece estar procurando um “amigo espiritual”. Será que em sua igreja…
— Quero estar atento aos sinais que puder identificar de genuinidade de suas relações com o Pai. Por exemplo: sei que Jesus disse: “nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. Então, esse amor será um sinal, para mim. Talvez por isso, para encontrar essa pessoa, eu tenha que procurar bem de perto. Precisarei olhar “para dentro” dela. Certamente, então, precisarei conviver com ela. Seria bom comermos um saco de sal juntos, como diz o ditado.
— De fato, para uma caminhada dessas, você precisa de um amigo especi…
— Nessa busca, acho que posso simplificar minha vida aplicando apenas um critério, o de 1João 4: 7 e 8 — “Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor”.
— Bem, com um critério desses, se você achar alguém…
— Pode ser que eu esteja deixando coisas importantes de fora, ao tentar simplificar tanto a minha busca. Mas eu acho justo. Primeiro, porque foi nesse ponto, o do amor, que descobri que entendo tão pouco de Deus; a ponto de resolver recomeçar.
— Ah, é assim? Você se sente em falta, no quesito do amor?
— Segundo, porque João parece entender minha perplexidade.
— O João apóstolo?
— Ele simplifica a vida de seus discípulos e leitores, indo ao cerne da questão, deixando as complicações para outra oportunidade e para outros escritos.
— Parece que você está meio desiludido com os teólogos…
— Olha só o que ele diz, sem floreios, “na lata”: “Quem não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor.”
— Meio pesado, hem? Talvez, no contexto da carta…
— Achei razoavelmente claro, para quem não está com ânimo de discutir, mas sim de achar de novo o caminho.

A conversa estava ficando densa. Pelo menos, para mim. As famílias, por ali, meio que tentando dar um tempo, percebendo que meu amigo precisava falar. Então, pensei em dar uma aliviada:
— Você já pensou o João, hoje em dia, postando essa frase no facebook? Seria trucidado pela turma do contra.

Acho que ele nem ouviu meu gracejo. Estava absorto.
— O primeiro alvo desse critério fui eu mesmo. Resultado, achei-me em falta.
— Pois é, você mencionou isso. Mas não entendo bem como você chegou a essa conclusão, tão severa. Não está pegando pesado demais consigo mesmo?
— Acho que não; estou é cansado de aparências. É por isso que estou à procura de alguém que tenha resolvido, razoavelmente, esse problema. De preferência, gente que “começou de baixo”. Não quero anjos para me ajudar.
— Anjos? Gente que começou de baixo?
— Sim, gente que anteriormente era indiferente, insensível, agressiva, egocêntrica, orgulhosa, medrosa etc. e que hoje seja vista e tida como amorosa.
— É assim que você se vê? Ser tido como amoroso é o seu alvo? Acho que estou entendendo.
— Gente que ama o próximo, sabe? Gente que aprendeu a viver para fora, para os outros. De verdade. Gente que mudou o eixo gravitacional de sua atenção para as pessoas.
— Eixo gravitacional, é?
— Talvez alguém mais para Pedro do que para João.
— Ah, você se identifica mais com o apóstolo Pedro…
— Isso mesmo: a caminhada de Pedro me inspira e me dá esperança, porque ele começou como pedra bruta. De amoroso não tinha nada. Pensava só nele mesmo.
— Bem, a gente não sabe…
— Pelo menos, aparentemente. E com isso eu me identifico totalmente. Haja transformação!
— De fato, o Pedro cresceu muito.
— Já o João me parece ter nascido assim, bonzinho. Reclinando-se no peito do Mestre.
— Também pode ser uma imagem superficial. Ser bonzinho não me parece…
— Se precisou caminhar nessa estrada do amor, não consigo enxergar seus progressos.
— É, mas…
— Não digo que não houve, mas me parece que no apóstolo Pedro as mudanças são mais evidentes.
— Bem, entendo.
— Então, se eu vivesse no tempo desses dois apóstolos, eu chegaria perto de João e, simplesmente, o observaria atentamente.
—Ah, eu também! Discretamente.
— Já para o velho Pedro, eu pediria: “me conta, me ensina”.
— Mas, irmão, o que você vai fazer agora? Não seria o caso de conversar com o seu pastor? Ou com algum irmão mais idoso…
—Não, assim não vale.
— Não vale?!
— Mesmo entre esses, eu quero saber se amam de verdade. O lance do eixo gravitacional. Se têm “tempo, presença e atenção” para seus cônjuges, pais, filhos, irmãos ou ovelhas.
— Bem, acho que ent…
— Quero saber se dão sua vida por elas. Não tanto para morrer, mas para viver. Eixo gravitacional.
— Vejo que você tem o mapa da mina montadinho na cabeça…
— O dia-a-dia é que revelará se estão disponíveis e dispostas a sacrificar as suas coisas em favor de cada uma e da coletividade. Falar é fácil! Está me entendendo?
— Esse —como é? — tempo, presença e atenção são difíceis para qualquer um.
— E ainda tenho a prova dos nove: se elas ouvem sua voz e os seguem.
— Elas quem?
— As ovelhas, oras! Pastor que fala mas as ovelhas não o ouvem… Aí, sim; essa pessoa seria uma boa referência; gente a observar. E imitar!
— Mas será que você encontra alguém…
— Aí eu ia enchê-la de perguntas, do tipo: “como você conseguiu”? Como se deu a mudança de seu temperamento? Como você domou a ira que existia lá dentro? Como substituiu o a violência diante da frustração pela paciência e pelo diálogo? Como mudou o eixo gravitacional?
— Imagino que você esteja querendo respostas para seus próprios problemas, não?
— Mas é isso que estou falando! Eu descobri essas falhas em mim e me sinto meio que desclassificado pelo João! Olha o que eu vou perguntar, olhos nos olhos: o que significa para você, hoje, num tempo de redes sociais, “amemo-nos uns aos outros”? Você responde a todos os emails dos seus irmãos? Curte e comenta os posts de suas ovelhas no Facebook? Aceita todos os convites para convívio? Tem paciência com as histórias dos idosos? Das crianças? Enfim, prioriza a presença, a atenção e o cuidado sobre outras tarefas? Hã?

A estas alturas, com as famílias chamando, e um misto de angústia e misericórdia me tomando, comecei a pensar em um jeito de encerrar a conversa. Mas não foi preciso; percebi que ele também queria isso. Então, do modo como começou, ele terminou. Me deu um abraço e disse:
— Você pode me apresentar alguém que me ajude nesse problema? Não aprendi essas coisas no seminário.
E foi se afastando, em direção à sua família. Já à distância, gritou, meio sorrindo:
— Se pode, você tem um tesouro. Você tem um amigo precioso. Vou entender se você não quiser “dividi-lo” comigo. A gente se fala! Paz do Senhor!

E eu, com a cabeça zumbindo, observei o irmão pegar a escada rolante com sua bela família. Minha gente veio chegando e perguntou:
— O que foi isso?

E eu respondi, meio sem pensar:
— Não sei bem. Mas acho que acabo de ser “instruído na Palavra”.

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P.S. Os diálogos acima são fictícios. Qualquer semelhança com situações e pessoas reais será mera coincidência.

Ponto_finalHá pouco tempo, nossa história familiar foi marcada pelo sofrimento. Com direito a registro fotográfico. Sofremos, juntos, dois dias de dó, consternação e solidariedade. Na tabela de vacinação de Amanda, nossa netinha de cinco meses, estavam agendadas três vacinas. Fazer o quê? Mãe e filha foram ao posto de saúde para minutos difíceis. Quando coloco as duas na cena do sofrimento, estou pensando em dois tipos de dor: a da filha e a da mãe. Cada uma sofreu aquele momento a seu modo.

“Que maldade!” — teria pensado a filha, ao ser levada pela própria mãe ao “posto de tortura” para, sob suas vistas, ser submetida a três agulhadas nas perninhas, com a injeção de líquidos dolorosa. Em seguida, vem o choro. Um choro doído, profundo, sonoro. Na verdade, um grito de dor. Daqueles “esgoelados”, que doem na alma da gente. A criança, sentindo a picada, quer instintivamente tirar a perna, mas é contida pela mãe. E não é uma picada só, e “passou, passou”; são três: uma na esquerda e duas na direita. Sabe o que é eternidade? A terceira já encontra as duas em frangalhos.

A mãe faz o que precisa ser feito. Sem pensar, sem sentir, sem nada. Não é hora para isso. Se ela se permitisse, nessa hora possivelmente pensaria: “Será que isto está certo? Será mesmo necessário este momento? Será que minha filha, ao me olhar com este olhar de terror e súplica, compreende o que estou fazendo? Ou guardará para sempre, em sua memória infantil, a sensação irracional de desamparo? Como interpretará o momento de firmeza, em que a ‘ofereci ao incompreensível sacrifício’? É melhor nem pensar. Não é hora para isso”.

A perna de Amanda ficou dolorida, naquele dia e no dia seguinte. A cada toque involuntário, a dor e o choro sofrido voltavam, e lembravam a todos daqueles momentos terríveis. Contemplávamos com ternura e culpa aqueles olhos inocentes, marejados de lágrimas.

Passou. Ao terceiro dia, Amanda acordou sorridente, como de costume. Ufa! Ao vê-la sorrir, nossos cuidados também se dissiparam e aquele sentimento de culpa coletiva — por formação de quadrilha — também. Com o alívio, aos poucos, a mãe também voltou a sorrir.

Faríamos de novo? Faremos novamente? Sim. A tabela de vacinas está longe de estar preenchida. Mas esperamos que, com a idade, a menina sofra menos, ao enfrentar o momento com mais discernimento. E cresça em entendimento e confiança, de modo a perceber que essas dores são necessárias, pois evitarão dores maiores no futuro. Mesmo que ela ainda não saiba dizer “poliomielite”. São dores boas, afinal.

Foi inevitável que esse momento nos levasse a uma conexão com Deus; com o Pai que precisa levar seu filho para tomar suas vacinas. Acredito que ele sofra, ao nos ver sofrer; ao nos conduzir, ele mesmo, com a firmeza necessária, a momentos difíceis.

Penso também que ele deseje ver o dia em que lhe diremos: “Pai, eu compreendo que foi uma dor necessária. Apenas, não tinha maturidade para perceber, no momento. Perdoe-me se meu grito extrapolou os limites da submissão. Depois de tudo ter passado, dou-lhe graças porque não foi uma tribulação sem sentido. Ao contrário, sei que o Senhor me tinha no colo o tempo todo. E é assim que desejo registrar em minha memória mais profunda este momento de dor”.

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Ponto Final 356

Ult_355_ponto_finalHá um momento de esquina da vida, ligado à maturidade. Um momento em que questões de poder devem ser discernidas e equacionadas pelos discípulos de Jesus.

Proponho olhar para esse momento como uma estação da vida; e chamá-lo de “estação cordeiro”. Hoje em dia, ele começa a partir dos 60 anos, sob a marca da plenitude pessoal. É melhor explicar de onde me vêm esses pensamentos.

Ao ler, em Mateus 26.51-54, o relato da prisão de Jesus, vejo as últimas horas de sua vida em carne; a estação final de sua missão. Nesse instante de profunda crise, surge uma espada, como proposta humana de solução; ou então mais de doze legiões de anjos, como alternativa divina. Entretanto, nenhuma delas será adotada, pois é necessário que a vontade de Deus se cumpra. E o Leão de Judá se fará Cordeiro.

O poder dará lugar à mansidão: a espada será, para sempre, embainhada, e a vontade do Pai, recebida sem atalhos. Só a sabedoria que esta estação traz é capaz de discernir vitória representada por essa escolha. Paradoxalmente, a expressão “eu venci o mundo” não é perceptível em sua realidade cósmica. Mas está ali, em toda a sua glória: “embainha a tua espada”.

Esse momento da vida costuma ser a estação do poder. É quando nos dizem que vencemos; que estamos no auge do intelecto, do acúmulo financeiro; do poder de influenciar pessoas; temos amigos poderosos (e gente que sabe manusear espadas). Todavia, diante disso tudo, preferimos a mansidão. Virtude a se buscar no leão e não na ovelha, pois é de se admirar que aquele abra mão de suas garras, de sua ferocidade e da majestade de sua juba para fazer-se ovelha. Com efeito, não há virtude em ter nascido ovelha; mas é de se admirar que alguém, tendo chegado à condição de leão, escolha viver a estação cordeiro.

É quando nosso Senhor deseja mais o cumprimento das Escrituras do que resolver seu problema imediato; ele está mais interessado na vontade de seu Pai; e sabe que, para isso, precisa “apresentar-se como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. Eventualmente, há de ser considerado como “ovelha de matadouro”, para que a vontade de Deus se cumpra em sua vida. E será tido, por olhos capazes de ver, como “mais que vencedor”.

A “estação cordeiro” é aquela em que percebemos que a lógica da espada (rugidos, garras, juba majestosa etc.) estabelece um modo de viver marcado pelo corte e pela morte. E o sentimento que a caracteriza é que não desejamos mais solucionar conflitos desse modo; queremos fazer-nos mansos; ninguém se afastará de nós por medo.

Sintetizo e encerro esses pensamentos com a “Fábula do Lobo, do Leão e do Cordeiro”.

Certo dia, numa clareira da floresta, à espreita de um cordeiro que bebia no riacho, encontraram-se o lobo e o leão.

O lobo olhou para o leão e viu que era um felino já maduro e sábio (aparentando 60 anos): seu rugido era poderoso; suas garras, imensas, e sua juba, majestosa. Sem dúvida, ali estava o rei dos animais.

E o lobo, de aparência jovem, invejou o leão. Saudando-o com um beijo na face, perguntou:

— Como faço para conseguir esse rugido? — porque os lobos só sabem uivar.

— E essa majestosa juba? — porque os lobos não têm jubas.

O leão, então, olhou para o lobo e disse:

— Você está invejando o animal errado. Está vendo aquele cordeiro, na beira do rio? Daqui a alguns minutos ele estará morto. Mas, ainda assim, meu sonho é ser como ele.

Porque sabemos que, aos olhos do Criador, seremos tão mais leões quanto mais cordeiros nos fizermos.

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Ponto Final 355

Ponto_final_354_OK“Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.” (Ef 4.15)

Como nossas relações poderiam crescer e se edificar a ponto de se tornarem profundas, maduras, afetuosas, misericordiosas, verdadeiras, terapêuticas e duradouras, como se espera que aconteça numa família ou na Igreja? Talvez a resposta esteja em uma aliança de amor, verbalizada e celebrada entre mim e o Pai, e com seus filhos, meus irmãos. Eventualmente essa celebração seria um conteúdo a ser lembrado na Santa Ceia.

verdade, nesse contexto, seria buscada “em amor”. Ela seria alcançada na convivência, sempre sob o pressuposto de que amamos e somos amados; de que estamos seguros, pois somos amigos e irmãos; de que a retirada de máscaras e véus é possível e necessária, e de que a luz dessa verdade não virá para julgar e condenar, mas para reconciliar e salvar.

amor, por seu turno, não seria omisso, tímido, medroso ou negligente. Não, ele seria sábio e paciente, mas também forte, destemido e verdadeiro. Não “passaria a mão na cabeça” do engano e do erro. Haveria espaço para a exortação, a correção e a admoestação. Para a verdade. Mas aconteceria, também, dentro do mesmo pacto de amor. Ele não deixaria que a “articulação” adoecesse por timidez, por medo da verdade, por receio de perder o irmão. Não, ele abriria mão do conforto e encarnaria para salvar — e também para salvar-se. Sim, salvar-se.

Como pode ser isto? — perguntará você. É possível, nos dias de hoje — em que guardamos distância segura até do cônjuge, para não ferirmos e não sermos feridos –, celebrar uma aliança desse tipo? É possível, em tempos de indiferença, construir e viver uma proximidade tão perigosa? Será que minhas atuais amizades sobreviveriam se soubessem quem realmente sou, ou se eu começasse a lhes propor a verdade, ainda que afetuosamente? Será que, iluminadas as nossas relações, nossa igreja sobreviveria?

Perguntas difíceis. Minha resposta é a de quem crê, juntamente com o Credo dos Apóstolos, na “comunhão dos santos”. De quem crê na nova aliança, no poder da oração, no corpo de Cristo. Porque se não for assim e se, como igreja, abrirmos mão desse ideal, o que nos restará? Trago para reflexão o texto de 1 João 1.5-7: “Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado”.

Entendo que a harmonização do texto de Efésios 4.15-16 com o de 1 João 1.5-7 nos levará a compreender que o cuidado com as juntas, às quais Paulo se refere, passa por um tipo de relacionamento que só é possível em um ambiente muito iluminado. Para andarmos na luz da verdade, precisamos manter comunhão com Deus e com os irmãos.

Eis o desafio: celebrar uma aliança de amor, em que a timidez e o medo são lançados fora, e a luz da verdade é trazida, amorosamente, para as juntas e articulações do corpo de Cristo; desafio que só poderá ser enfrentado no poder de Deus, derramado em nossos corações.

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Versão Original.

BaumanZygmunt Bauman, sociólogo polonês, conta que um jovem amigo lhe disse que havia feito 500 amigos, no facebook, em apenas um dia. E ele pensou: “eu tenho 86 anos e não tenho 500 amigos; logo a palavra não deve querer dizer a mesma coisa para nós dois”.

Para Bauman, são dois tipos diferentes de amizade. A “amizade de facebook” provém de uma rede. Já a tradicional, “off-line”, provém dos laços humanos. Ele explica, então, que a comunidade nos precede. Pense numa família: ela já está lá, quando você chega. Ao contrário, a rede é feita e mantida viva por duas atividades diferentes: conectar e desconectar.

O grande atrativo da “amizade de facebook” é a facilidade de se desconectar. Nas conexões off-line, não virtuais, romper uma amizade é sempre uma experiência traumática. “Você tem que explicar, encontrar desculpas, eventualmente, mentir”, diz Bauman. Já na internet você aperta o delete e pronto: um amigo a menos. Mas isso é temporário, porque amanhã você conseguirá outros 500. “E isso mina os laços humanos”, conclui.

Laços humanos são bênção e maldição

“Laços humanos são bênção e maldição”, retoma ele. Bênção porque é prazeroso e satisfatório ter parceiros em quem confiar e por quem poder fazer algo. Esse é um tipo de experiência menos disponível para a “amizade de facebook”. Mas é maldição porque quando você estabelece um laço desse tipo, você tende a empenhar a sua vida, seu passado e seu futuro. Você leva para a amizade uma bagagem imensa, daquilo que você tem e é.

Pensamento meu: e você não retira essa “bagagem” da amizade sem feridas, sem deixar coisas para trás; coisas que “eram vocês dois”.

Bauman termina com o seguinte comentário: “há dois fatores indispensáveis a uma vida satisfatória e relativamente feliz. Um é segurança e o outro é liberdade. Você não consegue ter uma vida digna na ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão; liberdade sem segurança é caos. O problema é que ninguém ainda encontrou a fórmula de ouro, a mistura perfeita de segurança e liberdade. Cada vez que você quer mais segurança, você entrega um pouco da sua liberdade; cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte da sua segurança. Então, você sempre ganha e perde algo”.

Terminada a entrevista, eu fiquei pensando que Deus poderia ter montado uma rede social, mas preferiu estabelecer laços humanos. Sacrificou, em Cristo, sua liberdade até o ponto de ser lançado numa cruz. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes a segurança de serem feitos família de Deus.

Amor de PaiBranco, negro, gordo, magro, católico, protestante, rico, pobre. Não importa quantos fatores sociais, econômicos, culturais ou religiosos difiram entre as pessoas, nós todos temos algo em comum: viemos ao mundo graças a um pai e uma mãe, e o amor deles por nós faz toda a diferença na nossa vida.

Segundo um novo estudo, ser amado ou rejeitado pelos pais afeta a personalidade e o desenvolvimento de personalidade nas crianças até a fase adulta. Na prática, isso significa que as nossas relações na infância, especialmente com os pais e outras figuras de responsáveis, moldam as características da nossa personalidade.

“Em meio século de pesquisa internacional, nenhum outro tipo de experiência demonstrou um efeito tão forte e consistente sobre a personalidade e o desenvolvimento da personalidade como a experiência da rejeição, especialmente pelos pais na infância”, disse o coautor do estudo, Ronald Rohner, da Universidade de Connecticut (EUA). “Crianças e adultos em todos os lugares tendem a responder exatamente da mesma maneira quando se sentem rejeitados por seus cuidadores e outras figuras de apego”.

E como elas se sentem? Exatamente como se tivessem sido socadas no estômago, só que a todo momento. Isso porque pesquisas nos campos da psicologia e neurociência revelam que as mesmas partes do cérebro que são ativadas quando as pessoas se sentem rejeitadas também são ativadas quando elas sentem dor física. Porém, ao contrário da dor física, a dor psicológica da rejeição pode ser revivida por anos.

O fato dessas lembranças – da dor da rejeição – acompanharem as crianças a vida toda é o que acaba influenciando na personalidade delas. Os pesquisadores revisaram 36 estudos feitos no mundo todo envolvendo mais de 10.000 participantes, e descobriram que as crianças rejeitadas sentem mais ansiedade e insegurança, e são mais propensas a serem hostis e agressivas.

A experiência de ser rejeitado faz com que essas pessoas tenham mais dificuldade em formar relações seguras e de confiança com outros, por exemplo, parceiros íntimos, porque elas têm medo de passar pela mesma situação novamente.

É culpa do pai, ou é culpa da mãe?

Se a criança está indo mal na escola, ou demonstra má educação ou comportamento inaceitável, as pessoas ao redor tendem a achar que “é culpa da mãe”. Ou seja, que a criança não tem uma mãe presente, ou que ela não soube lhe educar.

Porém, o novo estudo sugere que, pelo contrário, a figura do pai na infância pode ser mais importante. Isso porque as crianças geralmente sentem mais a rejeição se ela vier do pai.

Numa sociedade como a atual, embora o nível de igualdade de gênero tenha crescido muito, o papel masculino ainda é supervalorizado e muitas vezes vêm acompanhado de mais prestígio e poder. Por conta disso, pode ser que uma rejeição por parte dessa figura tenha um impacto maior na vida da criança.

Com isso, fica uma lição para os pais: amem seus filhos! Homens geralmente têm maior dificuldade em expressar seus sentimentos, mas o carinho vindo de um pai, ou seja, a aceitação e a valorização vinda da figura paterna, pode significar tudo para um filho, mesmo que nenhum dos dois saiba disso ainda.

E para as mães, fica outro recado: a próxima vez que vocês forem chamadas à escola por causa de algo que o pimpolho aprontou, tenham uma conversa com o maridão. Tudo indica que a culpa é dele! Brincadeiras à parte, problemas de personalidade, pelo visto, podem resolvidos com amor de pai. E quer coisa mais gostosa?

Fonte: HypeScience